12/04/2014

cai o silêncio sobre a língua - ávida liga de chumbo quente
matéria prima de Gutenberg
de se forjar letras palavras idéias
transformadas em balas-armas quentes de se calar bocas
mas o silêncio grita e sai pelos olhos
de cada poro, gotas, de se molhar a terra
[dormem sementes]
tempo haverá em que tudo será pleno - e o pão será farto
homens de pedra sobre a chuva ácida
esperam

31/03/2014

Resenha do SUMI-Ê por Léo Prudêncio, publicada hoje no literaturabr.com

O sumiê é uma técnica de pintura japonesa do sec. XIV. Essa técnica possui influência ideológica do budismo, em que a essência deve ser buscada através pelo interior do ser. Na introdução do livro de Nydia Bonetti, lemos:

No Sumi-ê, a expressão livre surge através da cor da tinta negra dos movimentos do pincel, sob a inspiração do momento e não admite retoques. Há sempre uma profunda ligação desta arte com a natureza.

A ligação poética do livro com os elementos da natureza, além de singela, é bastante presente. O traçado simples e rápido de Nydia Bonetti, em seu livro de estreia, faz jus ao título Sumi-ê, editado pela Editora Patuá (2013).

No livro, a transitoriedade da vida humana é constatada em vários poemas, em especial no poema abaixo, pois se nota que embora a vida seja curta, haverá sempre a persistência da contínua existência, como também de manter a esperança sempre:

tronco
retorcido em securas
restam
folhas miúdas
num cacho
único
flores rosas
pendem
e denunciam: - a vida
resiste

A poeta utiliza-se da natureza como metáfora em sua poética. Ela encadeia semelhanças de atos humanos com a natureza, percorrendo temas como a solidão, o envelhecimento, a compaixão e a esperança. Nydia extrai da contemplação da natureza os elementos temáticos de sua poética.

quero estar só – me deixem
como aquela temporã

no galho

mais alto

As imagens pinceladas por Nydia trazem reflexões, que lembram as pinturas sumiês. O título do livro foi bem escolhido, pois as temáticas dessa arte japonesa de pintura percorrem por toda a obra. Os poemas do livro não são longos, são suaves e breves. Mas a brevidade de seus poemas causa variados devaneios sobre o mundo que o cerca. Por isso a necessidade de seus poemas curtos dominarem a página em branco, daí a necessidade do silêncio e da contemplação para o aprofundamento da leitura. Os poemas não seguem pontuação e nem são nomeados. O ritmo da leitura quem o faz é o próprio leitor, que participa da obra ao dar-lhe ritmo poético. A atual poesia não deve seguir rigidamente os tratados poéticos para a versificação, o traçado do lápis de Nydia é o guia-motor da sequência versificada. O poema inicial nos dá a pista para entender mais um pouco o livro:

Onde a montanha encontra a água
Nasce a flor

A água, fonte da vida, é a fonte inspiradora da poeta. A flor, filha sensível da terra, nada mais é do que o poema em si. Trocando em miúdos: a vida é a inspiração para o poema. A essência da vida, ou a busca dessa essência é outro elemento importante para a construção poética de Nydia Bonetti. O cuidado ao trabalhar certos temas, como as reflexões sobre o tempo, são pertinentes em seus poemas. A autora faz essas reflexões com o mesmo cuidado e precisão de um pintor de telas:

Árvore velha – a tua solidão sem asas
Me comove

A mesma comoção com o passar do tempo ocorre no poema da página seguinte:

No velho troco
O que parece ser flor – é fungo triste

Lágrima antiga

O tempo não é apenas algo corrosivo, desgastante e destruidor. Ele é tematizado com elemento de aprendizado. É importante sempre voltarmos ao conceito da pintura sumiê, pois essa arte japonesa é ponto crucial para entender a obra. Nessa arte japonesa, a concisão, o simbólico e a expressão do instante, são fundamentais, como também em vários poemas do livro de Nydia, em especial os poemas apresentados acima que tematizam a efeito do tempo. O poema abaixo transcrito é outro exemplo de um recorte simbólico e conciso:

o vento
so
pra da minha mão
a folha de papel
o vento

veio me dizer
que ninguém está


Costumo dizer que os bons poetas são aqueles que conseguem construir perfeitas imagens na mente do leitor. Até porque as imagens descritas em poemas são essenciais para traduzir o indizível. E são essas construções imagéticas que Nydia “desenha” em seu livro, que transborda o Sumi-ê com belas pinturas poéticas. A escrita é simples, porém a simplicidade das imagens e das palavras colocam os poemas em uma elevação universal. A poeta nos lembra através de seus recortes poéticos, que poesia se faz com elementos simples e palpáveis. O palpável é descrito nas flores, nos galhos das árvores, nos pássaros e nos jardins. Este livro foi escrito por uma alma sensível e deve ser lido com esse mesmo olhar e perspectiva. O livro Sumi-ê é ainda mais, um convite para que se contemple a vida com outros olhos, com o olhar simples e singelo que ela nos exige:

A calma do lago, a calma da flor na brisa
A calma de olhar a vida

Sem pressa


* Léo Prudêncio * LiteraturaBR

20/03/2014

poderia ter sido salvo pela beleza. ou pela alegria
é tudo que salva

não foi possível — não lhe mostraram o caminho

e os olhos estavam cegos
do pó

do barro que era

10/03/2014

sonhei um rio barrento que corria às avessas
e invadia a casa

subitamente

tentava com minhas garras
salvar coisas e gente

não conseguia

um leite condensado, eu dizia, uma garrafa d'água
aquele livro azul

minha mãe

(são tantas as fomes)

07/03/2014

Resenha do SUMI-Ê por Vivian de Moraes

As vagas na poesia oriental de Nydia Bonetti

05/03/2014

"Sumi-ê", livro de inspiração japonesa de Nydia Bonetti, é um desses livros de poesia que encantam. Com recortes delicados, abordando ora uma flor, ora um regato, com muita simplicidade e beleza, o livro é como o mar: quando se apaga lentamente a flor, surge devagar uma nova imagem da natureza, como uma árvore velha, que logo também se apagará para dar lugar, novamente, à flor primeva. É o movimento das vagas no mar, embora, no livro, a água seja doce.
É uma obra completa, bem pensada, cativante, que, ao seu fim, dá a sensação, ao leitor, de ter recebido uma mensagem inteira: a mensagem de que, em cada detalhe do mundo natural, há uma infinidade de significações humanas que se lhes pode atribuir: força, graça, alegria, paz; enfim, infinitas verdades.
Nydia Bonetti se inscreve na literatura nacional como uma grande autora, e sua graça e beleza, a cada verso, tem a força de um mundo feminino, delicado, mas forte e sempiterno. Vale a pena fluir cada verso, cada palavra de "Sumi-ê".

Vivian de Moraes

05/03/2014

poesia.net



Uma mini antologia de poemas publicados aqui no longitudes, publicada agora no site poesia.net, de Carlos Machado. Ilustrações: Claudio Tozzi.

02/03/2014

Não sou de nenhuma tribo - embora acredite sermos todos índios. Não sigo nenhuma tese - a não ser a minha - imaginária linha. Meu lugar não é aqui – nem meu tempo é agora. Sigo em rota de espanto. Navego em Longitudes. Procuro a Latitude e não encontro. Em altitude instável: Ora flutuo, ora mergulho no abismo. Meu GPS enlouqueceu. O pássaro que passa me indicou o caminho. É preciso seguir. E eu vou.

20/02/2014

não haverá lugar. nunca houve

herdeiros

do não lugar

tomemos posse. é hora

agora ou nunca

nunca

bom tempo. pra não lugares

comuns

14/02/2014

todo caminho é santo
pois que pisado
por humanos pés
:santa
a trilha dos bichos
e seus entornos
onde vive a flor
mas os poetas insistem
no não:lugar
caminho:profano
onde vivem as pedras

09/02/2014

aquele que ama e busca o habita
por isso mergulha

fundo

dentro

de si

fora é tão longe - vertiginosamente
se afasta

a casa envelhece iluminada

30/01/2014

27/01/2014

um poema do Sumi-Ê

agora vazios – os campos de algodão
depois do vento

26/01/2014



















há uma fogueira no centro
de tudo
tacho de cobre ferve
caules/raízes/rizomas
que folhas verdes não
suportariam
[e o pêndulo de Focault
descreve uma rosa
em sua testa]


15/01/2014

extremos — é preciso tocá-los

depois do deserto
é onde mora

o vento

— ouve!

fronteiras — invisíveis arames
farpados

sentinelas em prontidão

[e a guerra finda há séculos]

há um cavalo solto, alado
em cada ponte

que não se atravessa

e flores agonizam

antiga sede
de alguns olhos de água

e terra

trazida nos sapatos

de outros cantos extremos — vê!
que tudo é terra

e canta


03/01/2014

sou uma casa antiga
bastam-me meus próprios fantasmas

30/12/2013

A complexidade do simples*

*Ensaio de Eliane Ferreira C. Lima

Nydia Bonetti (Piracaia SP/1958) é engenheira civil e poeta e se dedica, atualmente, ao projeto do seu primeiro livro. Tem textos publicados na “Revista ZUNÁI” (link), “Germina Literatura” (link), “Cronópios” (link) e outras mídias eletrônicas, segundo suas próprias palavras. Bloga no Longitudes, espaço através do qual entrou como seguidora de meu blogue Poema Vivo. Fui até lá para conhecer minha visitante e tive uma das mais gratas surpresas: encontrei uma poeta que eu, imperdoavelmente, ainda não conhecia. Tenho tido, frequentemente, essas surpresas agradáveis nessa Internet. Nesse mundo pós-moderno e louco, felizmente, porém, uma especialista em literatura, como sou, tem a oportunidade de se reciclar quase em tempo real.
Comprovei, mais uma vez, que ser poeta não é profissão, não é atividade, não é passatempo: é destino. O poeta nasce, assim, assinalado. E, mesmo que escolha qualquer profissão outra, não se livra desse sinal, que o seguirá até o fim. O poema abaixo já começa comprovando o que digo.

Solares

outra vez
me ronda a poesia

agora é assim

quase uma sombra
colada em mim

não

ela é o sol
eu,
a sombra

O material que Nydia Bonetti utiliza, em um primeiro momento, em seu olhar indagativo sobre o mundo, são as coisas comuns e simples que a envolvem externamente. Mas como, internamente, nada é simples e comum, a manufatura que se apresenta aos olhos do leitor é outra, abençoada pela subjetividade e emoção, que se simula equilíbrio e contenção – observar o último verso do poema "Risco". Identifico até um certo tom blasé, o que é conseguido pelo manusear de uma linguagem bastante cotidiana. Engano do leitor se não for bastante observador: no poema que se segue, jogando com a homofonia de “expiar/espiar” – ouso dizer que a maioria das pessoas toma um termo pelo outro, sem diferenciação –, no derradeiro verso, vários significados e atributos podem ser agregados ao termo “cordeiro”:
1.Seres sem ação e defesa, passivos, o que seria conseguido por “espiam” (observar, olhar, esperar, aguardar) – verificar que abutres e lobos percebem algo e se mantém longe -, que, embora não escrito, é trazido para o texto por sua homonímia com o termo presente.
2.Seres que são sempre utilizados para remir a culpa de outrem diante do assustador uivo da vida, o que se depreende do “expiam”, realmente explícito no texto.
3.Mas aquele mesmo “espiam” do item 1 poderia, trazer, paradoxalmente, a ideia de “procurar descobrir, com o fim de fazer danos” (Dicionário Aurélio, versão digital), o que marcaria “cordeiros” com uma malícia insuspeitada e inverteria a dinâmica do que se supõe à primeira vista, ou os tornaria cúmplices latentes daquele perigo ameaçador da vida. Dada a sutileza da grafia do verbo “expiam” – o termo tem uma entrada muito menos frequente na língua popular –, provavelmente os itens 1 e 3 têm uma garantia maior de entendimento, ainda que não fosse essa a intenção verdadeira da escritora ou que ela não suspeitasse do alcance do que disse. A Teoria da Recepção tem batido nessa tecla e, neste mesmo blogue, já fiz alusão a esse aspecto.


Expiação

Nydia Bonetti

I.

serpentes de barro
rios
de silêncio
rouca
a voz das águas
silencia

II.

ouve-se da vida
um uivo
lobos se esquivam
abutres sobrevoam
enquanto
cordeiros expiam


Mas vamos aos textos – preciso confessar que foi uma enorme dificuldade a escolha:


e se eu dissesse apenas
do que sei
e sinto

calava

Nydia Bonetti


a tarde dourada no campo de centeio
não diz das chuvas que virão
diz do sol
embora quase noite
diz do pão
embora as mãos vazias
diz de nós
na janela de outro dia
que já passou

Nydia Bonetti


a alma do mundo grita
no mormaço dos dias rasos
na escuridão
das noites infinitas
no abandono
das dores terminais
no corpo
do homem que habita
desolada
depois de gerações ainda
aprisionada
que da eternidade
a que almeja sabe
tão pouco quase
nada

Nydia Bonetti


árvore do cerrado- cresceu comigo
rude e exótica
mas era minha
eu fui embora - ela não quis
ela não tinha pés
eu não tinha raiz

Nydia Bonetti


árvores do quintal da infância
revi vi
sumo nos olhos:
saudade é nódoa que não sai

Nydia Bonetti

14/12/2013

SUMI-Ê

Meu livro de poemas.

Já disponível para pré-venda no catálogo da Editora Patuá.

A ilustração de capa e o projeto gráfico são de Leonardo Mathias e a edição de Eduardo Lacerda.

Mais sobre a autora e o livro em: Editora Patuá.

28/11/2013

os mimos rosa, gigantes
acordam meus olhos
as mudas que vi plantar
quase tocam o céu
os cães da rua dormem
o sono dos cães
do abandono
o fungo
que parecia ser - flor
secou
completamente
o tronco
segue à espera de outro
milagre
lágrima/seiva
transmutada em ternura
improvável

26/11/2013

alguns poemas em outros cantos


LLIBRE DEL TIGRE


e


POEMA DIÁRIO



Grata, Joan Navarro e Daniel Russell Ribas

02/11/2013

que dizer dessa tarde
em que os mortos retornam
à velha casa
sem dizer nada
a ninguém
(anjos de pedra dizem
amém)
e o cipreste secular parece
tocar o céu
noite outra vez
e um círculo de fogo
que faz arder os olhos
de onde não se pode fugir

01/11/2013

Um poema de Henrique Wagner

Orides Fontela

para Nydia Bonetti


Tinhas o coração de pedra e pétalas,
por trás do muro onde moravas só,
levando a cada canto uma indiscreta
timidez, convertida em sombra ao sol.

Teu silêncio, pesado, era a secreta
vida de tua máquina monstruosa
vibrando cada letra antiga e velha
até fazer do espírito teu pó.

Os óculos maduros, a armação
escura, o corpo de osso em carne branca,
a lágrima, tão seca e dura – pedra.

Tinhas o coração nalgum lugar
da casa, atrás do muro, onde pulsavam
bichos como lagartos. Como abelhas.

29/10/2013

Um poema de Daniela Delias

CALIGRAFIA

para Nydia Bonetti

é preciso tão pouco

a água da chuva
a sutileza do rio
a quietude da pedra

ser o silêncio
antes do jorro

um sumi-ê de peixes
ou pássaros


poema publicado em Sombra, silêncio ou espuma

26/08/2013

Relevo + mallarmargens - Um dos meus poemas aqui

Edição especial de um ano do coletivo literário mallarmargens - revista de poesia & arte contemporânea.

http://issuu.com/jornalrelevo/docs/relevo___mallarmargens/1?e=2234477/4597479

17/08/2013

elefantes azuis

o tempo não pára mesmo. ele não tem mais jeito. desandou a correr, ultimamente. desembestou. estouro de boiada. manada
__ de elefantes azuis

lava que escoa. corredeira. maremoto. cachoeira. avalanche. batedeira
__desertos

nós, surfistas sobre ondas instáveis. cabelo parafina, pele dourada
__sob o sol que agoniza

nós, turistas num safári no Quênia. sobrevoando baixo, sobre a boca vermelha
__de algum vulcão

escalando Everests, enfrentando Saaras, tempestades de areia
__insolação

ao longe a vida: miragem. oásis
__onde?

12/08/2013

o dia escorrega das mãos feito um peixe
que mergulha na terra trincada
sem se saber
sobrevivente único desse rio
que acabou de secar
que todo dia seca sob o sol do tempo
que a vida é este deserto em expansão
que a noite se aproxima e é fria
e com que olhos nos espreitam os chacais



08/08/2013

a solidão do sonho quando acorda
se rompe quando
se rompe a corda
que nos mantém aqui
enquanto voamos
asas de não penar canto que não
se houvesse lábios

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