20/03/2012

longe de mim, a vida - estupenda
vigorosa
em cores fortes
sempre

dentro

entre os escombros do cansaço
e do silêncio
uma fogueira
queima

restos de poema

19/03/2012

se a tua fome for feito a minha

de palavras e (in)quietudes

faz como eu

então

bebe os silêncios

em goles profundos

e o verso:- rumina lentamente

por que me buscas onde faz sol
é certo me achas
no mundo das mil luas e cem
cavalos
galopam
no campo ao lado
da minha torre em chamas
que a grande noite nos abrace
e nos abrigue
até que amanheça

árvores velhas me perseguem

cascas e olhos que me fitam

braços que se estendem

em verdes

tentáculos

e cospem — sementes e flores

me afrontando

em sombras e gravetos

— meu espelho

18/03/2012

em mim, tudo é precário
instável

passageiro

beira de abismo
penhasco

desfiladeiro

e o vento forte
que não cessa

queda
— e pedra

por onde passa um rio
que dizem

vai secar

ama-me, é tempo ainda* diz a mulher
de olhos de fogo e ternura
encarnada
olhos de bruma e secura de pedra, digo:
me esqueçam
tempo não (h)ouve

*Hilda Hilst

por que o telhado é
vermelho?
por que a lua
míngua?
por que
eu no quintal
agora
a ver
telhados
e luas
minguantes?
por que a vida
já não
me chama?
(mas meu cão
me chamou)
por que meu cão
sente fome?
por que
de alguma forma
a vida sempre
se revela?
por que
a loucura
é mesmo
um estado de graça?
por que
perco meu tempo
assim entre
nadas
e plenitudes?
por que
fui escolher
esse caminho tão
estreito?
por quê?

16/03/2012

a chuva
fez com o muro antigo
o que a vida fez
comigo:
arrancou camadas
de bolor e tinta
e expôs as entranhas
(de barro e pedra)

há um azul no fundo
de tudo

oceânico metilênico
anil profundo

[ . . . das transparências
e escuridões

nos salva

[...mergulho
afundo

em casa — finalmente

15/03/2012

agora um pássaro voa sobre
a cidade
é noite
e as penas não devem ser
azuis

vasto o campo de morangos
e rosas
por onde
caminhei num tempo
longe

faminto - busca o pássaro
os caracóis do dia

simbiótica autofagia

bichos que se devoram
noites-dias
a vida sabe ser crua
mas se mantém – e os bichos
saciados a (se) suportam

14/03/2012

me ronda um poema - não
escrito
inscrito
na mais antiga
das minhas utopias
ele tem rosto e nome que
desconheço – e não
me busca
por que
me persegue se não
me deseja - talvez não
exista
e eu delire
talvez seja apenas
delírio
de outro poeta a me buscar

13/03/2012

que o sangue escoe
quente viscoso fosco no humano fosso

(indecifráveis delírios)

que fragmente a bomba e fira
olhos e bocas

e que se rasguem bandeiras — inúteis
tecidos fronteiras

tudo parece arder — então por que
poetas só ousam tocar

nos visgos dos corpos do fogo das suas
próprias peles

(devassa inocência)

e dormem — imersos em seus silêncios
a chuva. bate . no vidro. do quarto : anunciada presença
feita de vento e ruído
vindos de um templo suspenso – reluz
nos raios. de um sol. que insiste
em flutuar. do outro. lado — adjacente? oposto. latente
bola vermelha e línguas
de fogo
halo e um arco
íris

10/03/2012

Ferhad_ve_Shirin

cultivo tulipas em pleno abril — sei que não vingam
mas quem — vai me impedir de sonhar

com a improvável lágrima-flor
de Ferhad?

procurei no deserto a pérola — e quase pude vê-la
nos dromedários olhos úmidos das miragens

das tempestades de areia — vi surgir — o pássaro
que me contou os segredos da terra

da invertida negra flor — onde a pedra — é utopia
e a dor — fecunda
o nome... já não me lembro do nome
da memória
os olhos
de que cor eram mesmo
os olhos
da memória?

tinha boca vermelha e cantava
não ouço mais a canção da memória
eram fortes e ternas
as mãos imensas da memória

me lembro agora – vagamente
tinha um corpo a memória
um rosto

tinha alma

restam os ossos / então / guardados
numa caixa de vidro
pequena

nas noites quentes
estalam

um dia / tudo / será / pó
e serei eu a soprar / pois não há vento
na casa da memória

09/03/2012

além da janela, um mundo - que não conheço
sei que existe pois
vejo a estrada – rasgo de concreto
áspero infecundo
que sob o sol transpira – como num deserto
há certa beleza em tudo
no acostamento um outro
mundo
homens suados em seus aros metálicos
pedais que movem rodas
e tudo gira
bugios atônitos vindos da mata revolvida
tentam
cruzar a linha morte/vida que desconhecem
e o campo / de rosas / vermelhas / parece / delírio
cavalos de silêncio galopam planícies
depois - tudo é montanha e é tudo que sei
além da curva rude há céu – vi
um pássaro desnorteado vindo de lá
olhos de água – rasos - asas em chamas sem
cantar
aperto folhas secas nas mãos e elas estalam
há em tudo um estado de florescer
até que o outono desfaça
línguas fumaça olhos de amêndoas doces
em tudo que nãocanto um certo
desengano flui
e as seriemas insistem em seus berros
de barro sobre
telhados
tudo podia ser não foi porque não sei
quem sabe?
a lua faz a noite padecer de claridades nuas
quintais cinzentos onde moram cães
sou feliz - colho goiabas gigantes
no muro regado à musgo e trilha
de caracóis
bichos de fogo incandescentes caminham
sobre
meus olhos
o mundo podia se chamar hospício lunar
cemitério de naves espaciais onde não
embarquei
objetos metálicos eternamente em chamas
nesse planeta supostamente azul
aquário de vidro
onde o destino de tudo parece ser – vermelho
arder

07/03/2012

sorriso de mil dentes que enverdeceriam
sem deixar de sorrir
a face delicada dos fortes
os pés pequenos
prontos a caminhar eternidades
em frente à velha casa
: a única que foi sua :
segue sonhando casas brancas de esquina
varandas e ventos
e o esquecimento - sol a quarar memórias
agora inda mais brancas
que as sonhadas paredes — e os cabelos

06/03/2012

segue cantando o rio
vozes
que carregam
folhas
[...e a velha mangueira
sonha
navegar
no sopro do vento
voa
[...a loucura
das árvores velhas
quero aprender

05/03/2012

ah... se soubessem
de que lugar sombrio
brotam os versos
[...ainda fosse terra
— é casa
vazia
ouço vozes muitas — não as distingo
serão mantras? gregorianos cantos?
ladainhas carpideiras? fantasmas?
repetem palavras repetem
e tudo que preciso
é do som
de um pedregulho
atirado no lago
e que os círculos concêntricos
nos redimam — e a palavra se liberte
algo incerto assim
como um raio – ou pássaro
que corta nossos olhos
num voo rasante
o verso
quando surge
súbito, vertiginoso, alado
inesperado
árvores em chamas
túneis de vento
assim — o verso in certo
quando

04/03/2012

música longe
rio vento folha violão
pássaro rio
e tudo ecoa
dentro do peito caixa
coração
uma lasca de madeira sob as unhas
eis a dor
do poema que não se liberta
alienígenaestranhapalavra-espi​nho
entre carne e pele
que faz doer a alma
e sangra

02/03/2012

teu rosto no retrato. os olhos fundos
perdidos
como quem busca vida
distantes
como quem sabe o tempo
verdes em sépia na fotografia
grafada face sagrada grafia
lábios cerrados como quem pressente
o grande silêncio

27/02/2012

na casa vazia
tantos espelhos
ninguém
às vezes se pergunta
se um dia houve mesmo aquele campo
onde pisou descalça
sobre folhas douradas
e pétalas
tenta rememorar
mas tudo que vê
é uma estrada de pedra longa e tortuosa
em pleno deserto
(e é sempre meio-dia)

24/02/2012

cansada da viagem
nem percebi os campos
verdes de chuva

21/02/2012

a cidade cresceu
além dos limites da minha infância
subiu montanhas
engoliu pastos e bois
secou
pequenos lagos
calou
corujas e sapos
apagou vagalumes
derrubou árvores
arrancou
roseiras e pomares
bulêmica
a cidade vomita
saudade
do chão de terra que já não se vê

20/02/2012

na trilha das doçuras há sempre um rastro
perfumes / cristais

abelhas ou formigas

tudo que beija

flores

tudo que mel ou sol — até — que chova
às vezes pedra

17/02/2012

da velhice, me impressionam as faces
sempre crescentes
olhos
boca
nariz
orelhas
e mãos (imensas)
como num último apelo dos sentidos

15/02/2012

a árvore imensa
no alto da montanha
parece um delírio

o céu amarelo
do pôr-do-sol da seca
parece pintura

a minha solidão
e o tamanho da lua
parece loucura

14/02/2012

você me tiraria pra dançar
pergunto
mas não há música
você diria
nenhuma voz
na memória dos pés
uma canção
antiga
na memória dos sentidos
nós

13/02/2012

a chuva
fez com o muro antigo
o que a vida fez
comigo

expôs as entranhas

(de barro e pedra)

09/02/2012

e então conclui
em meio ao calor sufocante
que todo oásis é miragem

até que se encontre
(há quem)
English French German Spain Italian Dutch Russian Japanese Korean Arabic Chinese Simplified