cresce o silencio a cada espanto tantos – espantos e silêncios
que já não cabem
na superfície áspera vermelha dos olhos que lamentam
terem visto o que viram
sem óculos escuros - escudos – contra o sol do dia
outro dia – em que a infâmia
engoliu e a inocência
e o mal sangrou - mais uma vez - a pele parda do povo
que já não sabe a cor – e a face
que possui
deformados espelhos
zumbis atônitos
povo sem pátria – e mãe
língua nenhuma que os resgate
procissão de fantasmas
noite
26/01/2012
24/01/2012
vó Maria e seu rosário de contas
negras
me lembro dela
(olhos de água e cinzas)
lavando roupa
fazendo
sabão
nonna, sempre à beira de algum
fogão
sempre à beira de tudo
de nada
me lembro dela
(olhos de fogo e neblina)
palhas bentas e velas
choram
lenhas verdes quando queimam
voam
roupas brancas nos varais
a benção
negras
me lembro dela
(olhos de água e cinzas)
lavando roupa
fazendo
sabão
nonna, sempre à beira de algum
fogão
sempre à beira de tudo
de nada
me lembro dela
(olhos de fogo e neblina)
palhas bentas e velas
choram
lenhas verdes quando queimam
voam
roupas brancas nos varais
a benção
23/01/2012
20/01/2012
19/01/2012
18/01/2012
17/01/2012
de ter de onde se ir
A poeta e amiga Marceli Andresa Becker, publica hoje no DE TER DE ONDE SE IR, alguns dos meus poemas. Uma honra, Mar! Beijo!
16/01/2012
palestina flor
dos escombros da luta
há de brotar - pequena - a flor
e invadirá
os campos
onde correu o sangue
e a lágrima
há de crescer vermelha - a flor
e clarear no sol da liberdade
há de brotar - pequena - a flor
e invadirá
os campos
onde correu o sangue
e a lágrima
há de crescer vermelha - a flor
e clarear no sol da liberdade
15/01/2012
14/01/2012
a fita no cabelo
teclado negro . letras brancas . Maria à minha frente . me olha . menina palestina . pele negra . vestido vermelho . numa das mãos a pomba . da paz . distante o som da bomba . que desfaz . romãs e flores do deserto . damascos . e dois . cavalos . olham . na mesma direção . letras são molduras . p a i x p e a c e p a z p a c o p a c e p a i x s h a l o m s a l l a a m s h a n t y s e l a m v r e d e p a k e h e t e p r a h u a s h t e i r i n i m i r h e i w a s u l h p h y o n g h y w a e m i r e m b e p a c i s u l a p o k o j p a s c h m i e r s u k u t h u l a a s h t i p a z 和 平 평 화 ε ι ρ ή ν η ש ל ו ם м и р س ل ا م ص ل ح 平 和 ค ว า ม ส ง บ . brancos . os cavalos . a pomba . a nuvem . parede e papel . a tela à minha frente . areias e bandeiras . a fita no cabelo da menina . a paz . miragem nos seus olhos . colada em suas mãos . a paz.
videiras
o javali selvagem invadiu a videira
os animais do descampado
nela pastam
terra de ninguém
pisada
por passantes e bichos
queimados os mourões
roubados
os arames farpados
perdidos os rebentos
seco o rio e o mar - distante
os animais do descampado
nela pastam
terra de ninguém
pisada
por passantes e bichos
queimados os mourões
roubados
os arames farpados
perdidos os rebentos
seco o rio e o mar - distante
11/01/2012
09/01/2012
e tudo se repete
e tudo se repete. um avião corta o céu. passa perto da lua. o vento sopra nuvens. cinzentas. que dão um ar fantasmagórico à noite vazia. abro portas. fecho portas. abro gavetas. fecho gavetas. vou ao quintal. e tudo se repete. como num filme. palavras. também as palavras se repetem. os rostos se repetem. o limbo das pedras. os cães na noite. finalmente o silêncio. sempre novo. o silêncio. tem muitas faces. só o silêncio é sempre novo. hoje ele veste máscara. sem expressão. apático. hoje o silêncio não me diz. nada. paralisa. o mormaço é antigo. o copo d’água. dormir é tão velho. um ruído na rua. o relógio da sala. o tempo. uma coruja agora. deve ser velha. como seu canto. palavras que procuram. sentido. rumo. explicação. palavras que terminam. de repente. se sabem inúteis. não insistem. calam.
06/01/2012
Mística e poesia: Um diálogo em Nydia Bonetti
Ensaio - Autor: Sandrio Candido Pereira
Já me questionaram inúmeras vezes porque escrevo, a resposta é que escrevo por uma necessidade. Talvez até seja uma necessidade a escrita, tão banal quanto às outras necessidades que temos. Penso que escrever não seja apenas deixar no papel algumas considerações sobre temas que nos cerca, não é apenas uma reflexão lingüística,mas um ato existencial. Confesso que alguns enxergam aqui uma romantização da escrita, que seja, tenho necessidade de romantizar algumas coisas da vida. Só cuido do meu jardim porque a terra seca me parece demasiado feia. Escrever é um ato de busca. É colocar-se no limiar das questões essenciais que nos rodeia; escrever poemas é dialogar com a mística e com a espiritualidade (não esta coisa moderna de abraçar arvores, não comer carne, não fumar e não beber, não dançar em nome da espiritualidade, falo da espiritualidade enquanto pergunta essencial sobre o ser humano).
Espiritualidade é a forma de dizer o sagrado, ela surge da mística que é a forma como cada um relaciona-se com o sagrado. Mesmo que a arte tenha tomado a morte de Deus como tema no ultimo século, hoje o tema do sagrado e da transcendência (que está além do Deus cristão) pode ser percebido em inúmeros poetas, seja na blogosfera ou nos poetas publicados em livros. Intencionalmente ou não. Na blogosfera uma das poetas que dialogam com uma espécie de mística poética é Nydia Bonetti. A poeta de São Paulo escreve no blog longitudes e deixa escapar entre os versos (quase sempre pequenos poemas, mas de uma intensidade enorme) uma visão em torno do sagrado. Talvez como uma Cecília Meirelles que cantava o sagrado, mas nunca o nomeava, assim Nydia o faz. Este é um dos pilares da mística, aproximar-se do mistério sem encerrá-lo em um nome.
Imagens fortes da mística aparecem na poética da Nydia como a imagem do abismo, que interpreto com um lançar-se nas funduras do ser humano, como nos pede santa Tereza D Ávila em castelos da morada no interior. “faço versos a beira do abismo/do abismo que sou/me atiro/ ainda/ que caminhe no raso/ rio.” Enquanto a poeta escreve a beira do abismo, ela mesma torna-se o abismo, surge a contradição de quem caminho no raso do rio. Penso no encontro adiado enquanto leio este poema, no encontro daquele que busca em suas profundezas algo, mas que se depara com o raso, com o rio onde somos obrigados a navegar todos os dias. Afinal não é apenas o poeta que está na terra, mas o ser humano que se faz poeta também. Separa-los me parece difícil ou impossível.
Que a mística é um exercício do silêncio, já sabemos, mas que há palavras nela que só quem exercita sabe, isto é da propriedade dos místicos, só eles conhecem as palavras ditas em seus silêncios. Em um poema Nydia diz: “no espaço fragmentado da minha lucidez/cabem verdades/poucas”. Os místicos sempre causaram pavor ao sistema religioso por desconstruir as supostas verdades, místico é um ser que desconstrói a verdade em nome da liberdade de cada um para acolher o mistério, assim foi com grandes místicos cristãos como São João da Cruz, Santo Inácio de Loyola, santa Tereza D’Ávila, mestre Eckhart, Teilhard de Chirdim entre outros, (falo dos místicos cristãos porque são aqueles que conheço melhor, mas poderia citar os místicos da filosofia como E. Cioram, Simone Weil), porém não se desconstrói a verdade por nada, desconstrói se para perseverar no mistério, “e um espanto do tamanho do mundo”, para alguns a mística e a filosofia surgem deste espanto em relação a nossa busca, claro que são coisas diferentes que não tenciono explicar aqui, espanto que nos leva a fazer a pergunta, a se extasiar diante da profundezas, do abismo que somos.O poema continua : “ cabem também silêncios/ muitos/ e algumas palavras”.Como eu mencionei no inicio do parágrafo, o ato do silêncio faz parte da essência da vida de um místico, o silêncio porem é que os faz aproximar-se do mistério, sem falsas verdades, sem imagens prontas. Há na teologia da bíblia cristã uma imagem para este ato. No livro do Êxodo quando Deus (mistério) se aproxima, é exigido de Moises que desamarre as sandálias para pisar no lugar santo e falar com Deus, a teologia da entende este desamarrar as sandálias como o ato místico de despir-se das formulas, das imagens, para aprender do mistério, para chegar ao mistério. Na poesia da Nydia é possível perceber este despir-se das imagens já feitas para mergulhar nas imagens que se dizem por si mesmas. Como uma ascese do que pensamos sobre o mistério para aquilo que o mistério pensa sobre si mesmo, aquilo que ele é em sua profundidade.
A poesia de Nydia exige do leitor, certa calma, não nos enganemos com o tamanho do poema, por trás de cada palavra deixada no papel há um fundo do qual emerge a palavra, como a “samaritana do evangelho que vai ao poço buscar água e lá encontra Jesus” Nydia desce as profundezas para encontrar não apenas uma palavra, mas para deparar-se com o silêncio, com esta aparente falta de sentido no qual estamos imersos. Alguns dizem que não há sentido, sim, eu admito que haja esta possibilidade, mas questiono-me, estão todos preparados para ela? Ao se aproximar do mistério a poeta não deseja construir uma visão, um dogma ou uma imagem do mistério, isto já faz a teologia. A poeta deseja apenas fazer a pergunta sobre a vida. Tendo de volta como resposta na maioria das vezes o eco de sua voz transmudada em poemas que se vestem de silêncios e imagens.
A poesia da Nydia é no fundo um mergulho na duvida, e neste mergulho é que surge como barco a palavra, para atravessar este mar que é a vida, porque como “os dias/que parecem intermináveis/são apenas pedaços/ começo/ de outros intermináveis/ dias. Só quem tem a consciência de Nydia pode afirmar: “hoje sou poço/onde mergulham todos/ os sentimentos do mundo”. Como diz santo Agostinho: “inquieto está o meu coração enquanto não repousa em vós”. Talvez não haja na poesia da Nydia uma resposta, mas apenas a duvida, esta inquietação que a faz escrever. Além das considerações lingüísticas sobre a poesia, lembro ao ler Nydia, que em cada ser humano há esta profundeza na qual alguns ousam mergulhar. Afinal Nydia é uma poeta que “tem os pés fincados no riacho”.
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