Livraga, no seu artigo «A verdadeira poesia» afirma: «Os antigos concebiam que todo o Universo era harmônico, regido pelos números e proporções de ouro. Isto se reflete na ordenação dos sons, os quais alternados com os silêncios deram origem à música, ao canto e à poesia, todos eles expressão do Homem que tratou desde sempre de fazer surgir da sua Alma as misteriosas sementes que os deuses tinham depositado nela, para uma melhor e mais justa compreensão de si próprio, da Natureza e de Deus. E como o modelo que podemos chamar 'clássico' tem por característica o fato de unir o Bom, o Belo e o Justo - segundo o divino Platão -, os ritmos e as rimas foram utilizadas com a finalidade de ajudar à memória em recordação de ensinamentos arcaicos».
Não é difícil escutar o canto de Clío (Marte) nos versos de José Espronceda:
"São minhas melhores canções:
tempestades
o ruído e o tremor
destes cabos sacudidos
do Mar Negro os bramidos
e o rugir dos meus canhões.
Dos trovões o som violento
e do vento o troar.
Eu adormeço tranqüilo
embalado pelo mar"
Ou os doce sons de Erato, a poesia amorosa (Venus) nos versos de Bécquer:
“Que é poesia? -dizes - enquanto cravas
em minha pupila tua pupila azul.
Que é poesia? E tu me perguntas?
Poesia és tu.”
Talia, a Lua (também a Mãe Natureza), com sua fria e terna luz, sussura nos poemas de Garcia Lorca.
Na obra de Giordano Bruno , Os Furores Heróicos perguntam-lhe: «Como, então, serão conhecidos os verdadeiros poetas?», ao qual responde «pelo seu canto; basta que com o seu canto sejam úteis e deleitem». Continua explicando que as regras de poesia (por exemplo, as de Aristóteles) servem para aqueles que «por não terem Musa própria quiseram fazer o amor com a de outro».
A palavra «poesia» vem do grego poiesis, que significa «criação». «Verso» é uma palavra latina que vem de vertere, e é «o que se move e gira» ou «o que imprime ritmo e movimento». É que a verdadeira Poesia é uma criação que imita a Natureza e extrai dela o essencial. A imaginação do poeta converte-se em espelho da Natureza.
Não mente o poeta quando diz à sua amada: «Poesia és tu», mas que a sua alma percebe verdades e relações que aos nossos olhos e entendimento estão vedadas.
Porque então a Poesia não faz girar a Roda do Mundo? Porque é que não desperta e transforma as consciências?
José Carlos Fernández
O autor conclui que a poesia está desterrada e que num tempo em que se presta culto ao feio e ao vulgar e não ao belo, ao bom e ao justo, a poesia dorme no coração dos poetas, esperando um tempo novo e vivo que alente as suas criações.
Mas não seria esta a função da poesia? Transformar este tempo num tempo melhor?
Não, a poesia não está morta, tampouco adormecida. Vestida de roupagens novas que cada época lhe impõe, está bem viva. Sobrevivente, como nós.

A obra 