8 de ago de 2009

olhos de ir embora



olho hoje o mundo com olhos de meu pai contemplativos resignados calmos

olhos de ir embora

embora atentos atônitos curiosos às vezes úmidos e claros outras vezes cinzentos embaçados tantas vezes vermelhos ressecados quase sempre brilhantes translúcidos

olhos de ir embora

contemplando a vida homens e mulheres árvores e pedras pássaros e flores meninos e cães nuvem chuva vento a terra

com olhos de ir embora

fecho meus olhos e continuo vendo como meu pai o tempo que passou o tempo que virá o tempo

com olhos de ir embora

penetro num castelo de portas imensas abro uma a uma já não sinto medo encontrei a essência vejo com os olhos da alma eternos

olhos de ir embora

o templo e as ruínas madeira apodrecida ferrugem e sucata moldura envelhecida cabelos brancos retratos antigos objetos no lixo a roupa velha casa vazia trapos nada tudo

com olhos de ir embora
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