
olho hoje o mundo com olhos de meu pai contemplativos resignados calmos
olhos de ir embora
embora atentos atônitos curiosos às vezes úmidos e claros outras vezes cinzentos embaçados tantas vezes vermelhos ressecados quase sempre brilhantes translúcidos
olhos de ir embora
contemplando a vida homens e mulheres árvores e pedras pássaros e flores meninos e cães nuvem chuva vento a terra
com olhos de ir embora
fecho meus olhos e continuo vendo como meu pai o tempo que passou o tempo que virá o tempo
com olhos de ir embora
penetro num castelo de portas imensas abro uma a uma já não sinto medo encontrei a essência vejo com os olhos da alma eternos
olhos de ir embora
o templo e as ruínas madeira apodrecida ferrugem e sucata moldura envelhecida cabelos brancos retratos antigos objetos no lixo a roupa velha casa vazia trapos nada tudo
com olhos de ir embora

A obra 