
Danusia Necula - Foto Jurnal
A Dois Espaços
Nada é meu, nem mesmo a parábola do vento.
Como outros reúnem estrelas, caracóis,
juntei palavras que outros inventaram
para estar depois do sono e da vigília.
Assim entrei pela palavra porta
buscando de minha mãe o intrincado coração
e ali fiquei agachado,
deixando-me ir na maré de seu sangue.
Janela e amor me conduziram
à abismal tristeza desta mulher de respiração cansada
que espera de meus versos sabe-se lá que milagres.
Com a palavra canção menti com ternura aos amigos,
contei histórias de moças
que me chamavam na chuva,
quando na realidade era a combustão do vento
entre galhos.
Em papel almaço, a dois espaços,
durante anos armazenei
verazes notícias incríveis
e sonhos irrealizáveis que acontecem todos os dias.
Por isso é bom ir arrumando manuscritos,
deixar claro que porta serve, no máximo,
para tocar o coração da casa,
e que amor e janela existem para que a gente veja,
entre outras coisas,
como se afasta esta mulher com minha bagagem,
tal como se eu mesmo me afastasse.
Juntar palavras é um delito nobre.
Se fosse minha a parábola do vento
poderia hoje mesmo começar um grande poema.
Alex Fleites, 1954

A obra 