09/11/09

dois poemas de Víctor Rodríguez Núñez*



ANTIPOEMA

A ponto de escrever
“o estado natural do homem é a tristeza”
tu te apresentastes
------------- --------- quase resplandecente

Pensava continuar
---------------- ------ “e tudo o que eu faça
será para alcançar a alegria”
e te vejo nua — como não te havia visto antes —
sardenta magríssima chorando

E talvez concluir
“o belo é a manha da morte”
para beijar teus ossos
para beijar na pele
----------------- ----- o ponto mais feliz

Tudo
---------mulher
---------------- ------ para ficar sozinho
no fim de um poema que se engana.


CRÔNICA

Talvez comer pão
esférico e dourado
depois de uma sopa lívida
com vísceras de frango.
Escovar os dentes bem devagar
garoar no espelho
com espuma de rosas e claro perfume de menta
arrumar o cabelo
a camisa e as unhas.
Descer os degrau
--------que às vezes ninguém limpa.
Subir em um ônibus que vem do inferno
cumprimentos
----avenidas
------empurrões
--------semáforos
cruzando velozmente
e chegar tarde no cinema
essa jaula com sonho e mundo retido.
E lendo o jornal
ver coisas com estas:
--------duas naves vão a Vênus
--------“a estrela d’Alva”
--------e morreu Boumediene
--------presidente da Argélia.

Depois
---provar os versos
alegres
---atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
------vagabundo.
E finalmente o filme
“retângulo amoroso
------tema social”
com Fellini e De Sica na tela.
Caminhar rua abaixo
------entre álamos adormecidos
policiais acordados na frente das embaixadas
padarias abertas
----gatos que se suicidam
três bancos solitários com cheiro fresco de sêmen
latões de lixo
sonâmbulos que bebem aguardente e silêncio
----até a madrugada.
Subir os degraus
que de vez em quando alguém limpa
-- -- encurvada
------redonda --
e trancar-se no quarto azul
----desarrumado
onde escrevo e transcorro.
Então o amor
------e estas palavras.

*Nascido em La Habana, Cuba - 1955. Poeta, jornalista, crítico e professor de literatura hispânica em Kenyon College. Alguns de seus livros: Con raro olor a mundo (Premio David, 1981), Noticiario del solo (Premio Plural, 1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), El último a la feria (Premio EDUCA, 1995) y Oración inconclusa (Premio Renacimiento, 2000).

11 comentários:

sumartins disse...

“e tudo o que eu faça
será para alcançar a alegria”

Fiquei horas pensando e tentando entender cada pontinho recitado!!
Abraços

f@ disse...

Nydia,

Maravilhosa escolha sempre...
Sublime...

Obrigado pela sugestão e por estes poemas com luz...

Boa semana beijinho !nfinito

dade amorim disse...

Nydia, que poemas e que poeta! Imagens e expressões, um achado e tanto.
Um grande beijo pra você e uma semana cheia de poesia.

Henrique Pimenta disse...

Gostei!

Gerana Damulakis disse...

Excelente poeta.

O Profeta disse...

Não sei quem vence!
Não sei quem leva a melhor
Só sei que um sorriso teu
Fez desabrochar das pedra uma flor

Com ela teci um tapete
Engalanei a sombra dos teus passos
Escrevi um derradeiro pedido numa pétala
Rogando a infinita ternura dos teus abraços



Doce beijo

Moacy Cirne disse...

Bons poemas,
boa seleção.

Um beijo.

Lídia Borges disse...

Obrigada pela partilha. Não conhecia o poeta, mas estes poemas convidam a uma pesquisa.

Obrigada!

L.B.

Luma Rosa disse...

"O estado natural do homem é a tristeza" - engraçado que hoje, coloquei no post um pensamento que diz que, o estado natural do homem deveria ser, o de quando estamos apaixonados:

“Aquilo que provamos quando estamos apaixonados talvez seja o nosso estado normal. O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre"

Pois entre escolher o estar apaixonado e o ser triste, surge a dúvida quando estamos muito apaixonados, pois do nada pode surgir uma tristeza. Talvez porque não estamos acostumados com o 'estado de graça' ou seria o medo de perdermos o nosso estado natural de tristeza?

Beijus,

Kanauã Kaluanã disse...

"Depois
provar os versos
alegres
atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
vagabundo."

Este é o segredo. O antídoto anti-tristeza.

[Adorei este excerto porque já provei e me viciei neste jeito do poeta em atenuar a cara sisuda das seriedades embrutecidas das rotinas. o Prevert é mesmo assim.]

E tu, o que nos dás a conhecer!!!
Mais um poeta da ilha a cercar-nos de palavras por todos os olhos.

Víctor Rodríguez Núñez - e lá vou eu navegar um pouco mais.

Beijos.

José Carlos Brandão disse...

Eu já quis escrever um poema com o nome Crônica. Antipoema também. O Rodríguez deu conta do recado. Preciso conhecê-lo mais. Também fazer poemas com termos prosaicos. Não é fácil. Não é que eu seja contra. É que não sei escrever senão no tom de poesia. Difícil é escrever poesia como se não fosse poesia.
Beijo, Nydia.