31/03/2009

Único Céu

Do que direi
se a boca fala
apenas
do que repleto está
o coração.

Há tanto tempo
muda
a minha língua
se colou
ao céu da boca.

Único céu em mim.

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29/03/2009

ALGUMA POESIA



Queria ser o ar
que o habita por um momento
apenas. Queria ser aquela: imperceptível
e necessária.

Margaret Atwood, from Variation on the Word Sleep

28/03/2009

Náutico

Branco algodão céu azul
Montanha cor fumaça
Pasto esmeralda sol
Árvore verde paisagem
Espelho d'água - brilho

Campo suor prazer
Alambrados mourões
Grade madeira tosca
Calçada grama pé no chão
Sarjeta meio-fio - pleno

Eu - pedra obliqua - na rua
Pés de borracha - artifícios
Vestido de metal - cicatriz
Vida em fotogramas - pedaços
Olhos na pintura - destôo

Os barcos... Onde estão
Os barcos.

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26/03/2009

PALAVRAS AO VENTO

Tantas palavras joguei ao vento que quando ele sopra - areias ferem meus olhos - ruídos me atordoam. Busco palavras de brisa agora - ou tempestades - mais nada.

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25/03/2009

GRAVURAS - NAUM GABO


Opus 6 - variações - on paper, print

ARRASTA-PÉ

Quem chega tarde
Só fica com o resto
Da feira, da festa
Do arrasta-pé

Quem chega cedo
Fica na espera
Das frutas, dos doces
E do sanfoneiro

E quem não chega
É que nesta dança
Leva a melhor parte
Sua solidão

Fica em casa e dorme
Dorme muito e sonha
E sonhando julga
Poder ser feliz

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23/03/2009

GRAVURAS - NAUM GABO


Opus 2 - on paper, print

O SENTIMENTO DA ESTRADA

Gosto de estar aqui, pois da janela posso ver a estrada [reta cinzenta] a cortar a montanha [verde sinuosa] e a cidade vazia. Apesar do corte [à paisagem e aos olhos] me vem [ao vê-la distante] um infinito sentimento de liberdade.

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22/03/2009

GRAVURAS - NAUM GABO


opus 1 - on paper, print

21/03/2009

O MANIFESTO REALISTA - NAUM GABO I

Naum Gabo, escultor russo pioneiro do Construtivismo, que junto com seu irmão Antoine Pevsner publicou em 1920 este Manifesto, é conhecido por suas esculturas cinéticas e construções geométricas, em metal, plástico e náilon. O Construtivismo inicialmente influenciado pelo Cubismo e pelo Futurismo se relacionava aos novos materiais e tecnologia, tendo influenciado artistas na Europa, especialmente na Alemanha, na escola Bauhaus de Arquitetura e Arte Aplicada, que valorizava a arte de projetar – edifícios, móveis, produtos, etc. – valorizando a simplificação e a unidade entre forma e função.

O “Manifesto Realista” era dirigido a artistas, escultores, pintores, músicos, enfim a todos que tinham na arte sua fonte de exaltação e razão de suas palavras e ações. Gabo sentiu que vivia uma época de profundas transformações na cultura e na civilização e se perguntava o que a arte traria para aquela nova era que se iniciava. Ele sabia que os Cubistas e os Futuristas tentaram tirar as Artes Visuais do passado, mas não conseguiram realizar os ideais de reconstrução e reedificação que a Revolução desejava. Os Cubistas apenas simplificaram a técnicas representativas, enquanto que os Futuristas fizeram alarde, belos discursos, mas usavam rótulos já gastos, como “patriotismo”, “militarismo”, etc. e não se constrói um sistema de arte só com a fase revolucionária. Além destas duas Escolas, nada mais havia de importante naquele momento da história.

A vida, porém passa e se percebe que viver bem é mais importante que a beleza estética e outras verdades abstratas, miragens, ficções das artes que não sobreviveriam diante da realidade. O autor acredita que o tempo e o espaço são as únicas verdades sobre as quais a vida é construída e que a arte também deveria ser assim construída. A realização da percepção do mundo deve ser o único objetivo das artes plásticas e da pintura. As obras de arte deveriam ser construídas como o engenheiro constrói pontes e o matemático suas fórmulas: com olhar preciso e espírito correto.

Naum Gabo define então os princípios básicos da nova técnica construtiva: renuncia a cor como elemento essencial da pintura, renuncia o valor descritivo das linhas, renuncia o volume e afirma a profundidade, renuncia a massa e afirma o espaço e principalmente renuncia a arte estática, imóvel e afirma um novo elemento, os ritmos cinéticos. Para ele a arte deve estar onde quer que a vida esteja atuando e fluindo: no trabalho, no banco, no laser, nas férias, em casa ou fora dela, em todo lugar, para que a chama da vida na se apague na humanidade. Não questiona nem analisa o passado nem o futuro, que são vistos como um sonho romântico. É preciso viver o Hoje. O dia presente deve ser o objetivo e o objeto da arte.

20/03/2009

ACERVO: WILLIAM BOUGUEREAU


Le-dejeuner-du-matin

Tempinho bom... em que a vida tinha gosto de leite com pão.

ÁGUA NA BOCA

Na minha boca
- o gosto
Do que não vivi:
Gosto amaro doce
Destilado seco
Fermentado acre
Sal limão pimenta
Anis erva mate
Jasmim camomila
Hortelã e menta
Tahine com mel
Pistache torrado
Pão com gergelim
Maçã com canela
Flores de alecrim
Café chocolate
Pastel de Belém
- Que gosto a vida tem?

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18/03/2009

ROTEIRO

desatar antigos nós
desamarrar feixes de lenha
contra o vento outra vez
caminhar

[o fauno toca um violão]

desata o pranto
solta as amarras
feixes de luz

é tarde
anoitece...

[ventania]

noite vazia, nada nas ruas
ou em nós
noturnos seres
se encontram
[vazios]
e não se olham

amanhece...

seres amanhecidos
olham-se os olhos
[vazios]
e não se encontram

um nó apertado
um feixe pesado
um furacão

[o fauno desafina o violão]

é tarde
outra vez anoitece...

[ventania]

anoitecidos seres
o que somos

amanheceremos?

— [Fim do primeiro ato].

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GALERIA DE ARTE - LENA GAL


17/03/2009

SECA

atravesso desertos
em silêncio:
deixo para chorar
sempre mais tarde
- quando não há ninguém
que possa ouvir

saio de casa de manhã
rumo às areias quentes:
com a intenção de ir
e não voltar
- mas sempre volto
e cada vez mais seca

não do deserto
- mas do silêncio

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16/03/2009

ABISSAL

Entre a cruz e a espada
decido pelo nada.
Dou meia volta
e me atiro no abismo.

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PRETO E BRANCO


Preto e Branco - Ilustração

moram dentro de mim
dois seres
ambos - dizem - poetas

- um
fala de flores
pássaros
e amores
essencialmente lírico
este meu ser poético
vive em busca da brisa
- e de doçuras
acredita ter asas
ensaia voares
cantos e planares

- o outro
fala de pedras
facas
e cortes
profundamente amargo
imerso no antilirismo
vive em busca de nada
- e sempre encontra
descrente se arrasta
destila veneno
e a si mesmo devasta

em luta permanente
estes dois seres
um dia - se - me? - devoram.

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14/03/2009

ZUNÁI - ANO IV - EDIÇÃO XVII - MARÇO 2009

Amigos, acaba de sair a nova edição da Revista Zunái, uma ótima publicação sobre literatura, repleta de temas interessantes: ensaios, poemas (incluindo alguns meus inéditos), entrevistas, traduções, etc. Na galeria: Guto Lacaz. A revista é editada pelos poetas Claudio Daniel e Rodrigo de Souza Leão e o projeto gráfico quem faz é Ana Peluso. Destaque para a capa com imagem de Tarsila do Amaral, linda. Fica aqui o convite.

13/03/2009

PROJECTUS



I -

Poema:
risco em estilete
- lâmina de aço
sobre pele de zinco

- Já não há sangue

Apenas lascas
faíscas - cicatrizes
- e o inevitável
arrepio

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12/03/2009

CANTO

"A voz amada vem de traz do monte
Etérea ponte cruzou oceano mar
A minha voz talvez nunca te encontre
Estamos sós, sem tempo e sem lugar”

Caetano Veloso


CANTO

canto
porque cantar é bom
porque o canto é livre
porque no canto há sons
e um mar de palavras
que dizem o que penso
mas não ouso dizer
por isso
canto
ondas do mar azul
rebentam em minha boca
nos meus versos talvez
alguém me encontre
palavras são espumas
que se desfazem
por isso
canto

Obs: O poeta Rafael Coelho, comentou/complementou meu canto, com este brilhante:

Nydia em ondas, espumas e cantas

e nos céus as ESTRELAS, pois ainda há noites:

Que vejam rubis, topázios e mais,
só rostos de sol, só que cantam longe,
de solidão.

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11/03/2009

EU EM GRAFITE


Grafite sobre sulfite
by Maria Cristina Bonetti


Eu, em grafite, com 15 anos. Desenho feito por minha irmã, a Kika. Confesso que nem me lembrava mais deste desenho. Encontrei-o ainda hoje, revirando um baú, entre álbuns de recordação, bilhetinhos, laços de fita, medalhas de honra ao mérito, convites de formatura, recortes de jornal com crônicas do Álvaro Alves de Faria, papéis de sonho de valsa e outras coisinhas miúdas que costumamos guardar quando temos 15 anos, para esquecer depois, quase completamente, guardadas em porões que raramente visitamos. É um desenho em grafite sobre uma folha branca de sulfite. Olha o efeito do tempo, sobre a folha branca... Intacto, permanece o grafite, os traços e a menina... dos olhos.

10/03/2009

IGUAIS

será que todos sentem igual a mim?
tão diferente da maioria dos mortais
- mortais
é isto:
o "ser mortal" nos iguala

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OLHOS DE PAZ


Dalai_Lama_tweaked

Os mesmos olhos
que em Nirvana
contemplam o infinito,
incrédulos
assistem à violência,
compassivos
vislumbram a Paz.


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09/03/2009

AINDA NA ESCOLA



Disseco o poeta
e a poesia.

Arranco as vísceras
das palavras.

Debulho letras.

Depois as embalsamo,
como fiz com o passarinho
na aula de ciências,
num tempo já distante
e depois chorei.

Há coisas que definitivamente
eu preferia não ter aprendido.


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AINDA SOBRE 8 DE MARÇO

Recebi da Equipe da Cerâmica Portobello:



Produzido por: Ricardo Botelho Marketing

08/03/2009

EM BUSCA DO SOL


Asas no Crepúsculo - Francisco Simões

estou entre milhares
mas estou só
e não há dor maior
que o vôo solitário
— ainda assim
ousamos mergulhar

estamos todos sós
mesmo que em bando
no entanto voamos
completamente sós
— ainda assim
ousamos flutuar

enfrentar tempestades
e ventanias
cruzar mares, oceanos
e continentes

voar... voar... voar...

sempre em busca
do sol vermelho
que no final do caminho
nossas asas queimará.


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07/03/2009

NO VÃO DAS PALAVRAS

No vão das palavras
cabem pontos:
Que questionam
ou exclamam!
Conclusivos.
Ou reticentes...

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05/03/2009

À ESPERA DO VENTO


O menino e a pipa - Bronze - Sandra Guinle

Há uma pipa
No meio da rua
Há um menino
Sentado no chão
Olhando a pipa
Há um cachorro
Em cima do muro
Olhando o menino
Que olha a pipa
No meio da rua
Há na janela
Alguém que olha
O cão no muro
Olhando o menino
Que olha a pipa
No meio da rua
- Todos
À espera do vento
Que faz voar as pipas


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DE MIM

dos meus olhos
nascentes chuvas
da minha boca
sopros tempestades

dos meus poros
suores lutas
da minha mão
sinais acenos

do que fui
do que sou
do que serei

de mim

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03/03/2009

PORTFOLIO


Janelas - Francisco Simões

Que a poesia é construção é fato: de um canteiro de obras caótico - nossas inquietações -levantam-se castelos, edifícios, obras de arte - cuja matéria prima é a palavra - tijolo por tijolo, bloco por bloco, viga estrutural autoportante - alvenarias. Eu - tenho erguido casebres: em tijolos de barro - artesanais, irregulares, feitos na olaria tosca da minh’alma de terra. O acabamento apenas: uma demão de caiação - branca - como a paz que almejo - e capelinhas rudes de beira de estrada, onde o povo simples deposita seus votos e suas preces - azuis - como o céu que almejam.

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02/03/2009

OLHOS DE MIRA

bicho de lata
rugindo
passa por mim
agora
bicho de pelo
- não
são dois cães

a rua tem vida
passam
dois bichos de pele
indiferentes
- todos
seguindo em frente

bicho de pele
branca
dentro
do bicho de lata
cinza
- olhos de mira
e de farol

sigo o trajeto
dos animais perdidos
de seus antigos habitats
- patas e pés
tocam
camadas de concreto

só o bicho de lata
vai feliz
pés de borracha
sobre o chão estéril
- nós
em busca da terra
que já não há

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