31/05/2009

CELEBRAÇÃO

vi anjinhos em bando
coroando Maria:
chuva de papel
diáfano manto
finalmente a coroa

palmas...

agora
além de Mãe:
Rainha

feliz...

por saber que na terra
se celebra - ainda
a pureza, a doçura
e a simplicidade:
- durmo em paz

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30/05/2009

MINHA VIDA

Meus sonhos
quando morreram
eu - pensei que morreria
Mas não:

- Comecei a viver

Vida miúda
pontuada de ausências
mas minha:
Minha vida.


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29/05/2009

BICHO QUE BRILHA

Fluorescente verde
na escuridão
Não é neon
- É mato
É bicho
Bicho que brilha

Feito você e eu

Bicho que vive
e morre
Enquanto vive
- Brilha
Enquanto morre
Verde

Feito você e eu

Então renasce
e brilha
Fluorescente
- Verde
Brilha
na escuridão

Feito você e eu

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28/05/2009

RASA

rasa
hoje não cabe em mim palavra
quem dera um verso

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CONTRADIÇÕES


www. poets.org

"Contradigo-me? Pois bem, então contradigo-me. Sou extenso, contenho multiplicidades."

Walt Whitman

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27/05/2009

DAS INDAGAÇÕES HUMANAS

você sabe o que está fazendo? você sabe o que eu estou fazendo? você sabe o que estamos fazendo? sabemos sempre o que fazemos? é sempre a emoção o que nos move? somos sempre lúcidos em nossas ações? deixamos nossos instintos na caverna? a evolução da espécie impôs ao homem o fardo da razão? encontraremos respostas nas pinturas rupestres? será mesmo a consciência o que nos diferencia dos animais? complicamos as coisas ou serão elas mesmo complicadas? onde se alojam as nossas almas? em que recôndito escondido dentro de nós? habitará a alma em nossos corações? será mentira que os corpos se entendem? será verdade que as almas não se entendem? a emoção está para alma ou para a mente? quantas moradas existem dentro de nós? alma, espírito, razão e sentimento, instinto, intuição e emoção: serão estas as sete moradas cantadas por sábios e místicos das mais diversas religiões? em que crepúsculo minguante rompeu-se o elo que nos unia à essência e nos tornou humanos? em que manhã distante o homem olhou para o céu e intuiu que dentro dele havia a centelha divina? em que noite medonha, soterrada nos escombros do tempo o homem descobriu que andava só e sobre a terra virgem derramou sua primeira lágrima? até quando andaremos errantes pela árida face da terra “para sempre perdidos do amor”?

das indagações humanas - quem? - nos responderá ...


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25/05/2009

BRUMA

ninguém sabe de nós
- ninguém

pensei que a poesia
nos revelasse

mas não
- a poesia é bruma

cortina etérea
que nos obscurece

nossas verdades
- pedras

incrustadas
do lado de dentro


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AGORAS


www. poets.org

"O para sempre é composto de agoras".

Emily Dickinson

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24/05/2009

TRILOGIA DOS RATOS

I -

mais rápido
do que um raio
um rato

roendo as estruturas
do poder
já em ruínas.

II-

o rato roeu o resto
da roupa
de quem rei já não é.

III-

que navio é este
em que os ratos não fogem
enquanto ele afunda?



OBS.: A Trilogia dos Ratos foi escrita há vários anos, num outro contexto, mas me lembrei dela com o episódio dos ratos no Ministério da Educação.

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OLHOS DE NÃO SER

Caminho pela ruas da cidade
mas não estou aqui.
Meus pés estão.
Eu não.
Meus olhos não estão.
Estão olhando a terra quando
a terra ainda era azul.
Olhando os lírios brancos que
pendiam ternos para as águas
que ainda eram claras
e já não são.
E havia peixes muitos
mundos tantos que já não há.
As amoras vermelhas
que caiam sobre o rio
tingiam de vermelho as águas
que eram doces doces de algodão.
Porque haviam painas que voavam
sopradas pelo vento que era puro
puro sopro de vida.
Que já não é.
Meus pés seguem em frente
pois há muito que caminhar.
Os meus olhos encontram
um pequeno barco de papel.
Que atirei na enxurrada
quando as chuvas inda eram
águas do céu.
O céu que era azul
e as nuvens que eram brancas.
Depois havia um sol.
Uma réstia de sol que me desperta
e me faz retornar.
Caminho pelas ruas da cidade
e agora estou aqui.
Os meus olhos vermelhos
de saudade ou de fuligem
já não importa mais.
Que importa ter os olhos claros
quando a vida já não é.

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22/05/2009

22.05.2009

manhã:

- Amanhece
Manhãs mais frias
É maio

- Há sol
Passarinhos e borboletas
Celebram o dia

- Se houvesse chuva
Plantas e terra
Agradeceriam

- Se houvesse neve
Crianças
E a paz do branco

- Toda manhã
É festa
E presente.

- Viva
O dia
Que amanhece

- Viva.


tarde:

Nada
O que sou
Nada.

Imenso
E retumbante
Nada.

Às margens plácidas
De um rio que agoniza.


noite:

Quisera
Aprender com Rita
Lições
De humildade e paciência
Regar
O velho ramo de videira
Morta
Até que ele brote
E rebente
Em flores e dádivas

Quisera
Ter as abelhas brancas
Fazendo mel
Em minha boca
Então
Meu canto para sempre
Terno
Palavras para sempre
Vivas
Em doçuras e néctar

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21/05/2009

A TRAÇA

a traça que rói
meu cérebro
é a mesma
que me faz
roer as unhas
a mesma
que corrói
minhas certezas
até o toco

traça cibernética
metafísica
mastodonte
ancestral
traça gigante
legítima herdeira
do clã
dos predadores
de nós.


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20/05/2009

NOVAS PALAVRAS

a dança dos sentidos
desarticula o verbo
captura o instante

enreda a trama

desfeita em silêncio
hoje sou pedra
- não quero ir

palavras são estradas
só me movo daqui
rolando

seixo rolado

inda acabo num rio
é preciso seguir
- e eu vou

o curso d’água
agora é o caminho
outras palavras

seguem

assim, desfeita em areias
- um dia
encontro o mar

em que novas palavras
navegarei?

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19/05/2009

A FESTA ICONOCLASTA

Quero a festa iconoclasta
Quero o povo na praça
Quero ver a banda passar

Os ídolos são tantos
Festa – ou orgia
Nenhuma - os destruiria

A praça não é do povo
- Agora é dos meninos
Que cheiram cola

A banda.
Ah... A banda
Há bandas?

A banda podre
Tirou do povo a praça
E a festa é do abandono.


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18/05/2009

NAVE QUE CHEGA

Amor é nave

que sempre chega

a seu destino:

Inferno ou Paraíso.

Ninguém fica à deriva.

Quem não embarca

fica só - a ver navios


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17/05/2009

INSONE

Tenho a urgência
Dos que sabem
Que vão partir
Eu sempre soube
Desde menina
Que esta seria a sina
Eu sempre soube
Das noites escuras
E dos dias breves
Eu sempre soube
Que era preciso
Transformar o tempo
Em areias
Eu sempre soube
Que era preciso
Decifrar os códigos
Interpretar os signos
Decorar as senhas
Eu sempre soube
Que as teias de aranha
Eram presságios
Das tramas e dos nós
Eu sempre soube...
Que os gatos no porão
Agonizavam
Em suas sextas vidas
Da casa em ruínas
Dos olhos que pesam
Das despedidas
Eu sempre soube...
O relógio da sala
A coruja que pia
O galo que canta
Um raio de sol...
Amanheceu.

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CISCO

semente
parece um cisco
pedra — graveto
— seca
parece não ter vida
basta que caia
em terra boa
e o que dorme desperta
o que lasca parece
rompe a casca e brota

frágil — a princípio
encorpa
torna-se tenro caule
desperta em folhas
— verdes
desponta em flor
e em fruto — amadurece
vermelha — vermelho
em ciclos se transforma
se exaure em dádivas

tronco rude áspero
velha árvore lenha
fogueira em chamas
— fagulhas na noite
incandescente — brasa
— negro carvão
cinza... cinza... cinza...
vento... vento...
cisco
— nos meus olhos vermelhos

15/05/2009

Oración para que no me olvides




Oración para que no me olvides

Yo me pondré a vivir en cada rosa
y en cada lirio que tus ojos miren
y en todo trino cantaré tu nombre
para que no me olvides.

Si contemplas llorando las estrellas
y se te llena el alma de imposibles,
es que mi soledad viene a besarte
para que no me olvides.

Yo pintaré de rosa el horizonte
y pintaré de azul los alelíes
y doraré de luna tus cabellos
para que no me olvides.

Si dormida caminas dulcemente
por un mundo de diáfanos jardines,
piensa en mi corazón que por ti sueña,
para que no me olvides.

Y su una tarde, en un altar lejano,
de otra mano cogida, te bendicen,
cuando te pongan el anillo de oro,
mi alma será una lágrima invisible
en los ojos de Cristo moribundo
¡para que no me olvides!.

Poema: Oración para que no me olvides
Edición: Nueva Antología Poética, Oscar Castro,
Editorial del Pacífico S.A., Santiago de Chile 1972


Música: Ariel Arancibia
Voz: Peter

RETICENTE

Quem mora em mim
Quando canto

Porque vai embora
Quando choro

Porque demora tanto
Pra voltar...

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13/05/2009

O QUE É PARA A LÍNGUA?

A língua treme:
Quer dizer coisas
Das quais desconhece
A linguagem.

Busca novos símbolos:
- Signos
São para os olhos.
O que é para a língua?

Tatuagens:
São para a pele
- Percussão é som
O que é para a língua?

Sopro:
não tem sabor
Então - não é
Para a língua.

Gustativas papilas:
Mastiga Deglute
A língua-mãe
Degusta – Ora...

O que é para a língua
- Senão o verbo
A palavra Escrita
Palato- Fala?

- Não.
Então não é.
A língua é para nada:
Mate-se a língua.

A língua é morta:
Antigo Grego - Latim
Sânscrito - copta
Urálica extinta - enfim

Dizem - que na Lapônia
Há uma língua – viva!
Preservada na neve
Que não tem fim.

De prazer e frio
Outra vez
Treme a língua
- Dialética rara

E diz do que não sabe
- Sente
É ter na mente
L í n g u a.


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12/05/2009

PARECE SER


no velho tronco
o que parece ser – flor
é fungo triste

lágrima antiga
da árvore que chora
por se saber – só


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O VIVO INSTANTE


single iris Shelly Roche

onde a montanha
encontra a água,
nasce a flor.

nos traços,
a mais completa
imperfeição.

no espaço em branco
- o que não foi expresso
a perfeição.

o vivo instante
retratado num flash.


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10/05/2009

A FLOR E O (C)ASCO


branca e frágil
perfume doce
uma flor nasceu
no pasto
literalmente
desafiou a náusea
e o (c)asco
veio o primeiro
cavalo da cidade
e a pisou


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08/05/2009

A MÃE A MENINA O ANJO


Sandra Guinle - Roda a Menina - Bronze

a mãe

roda a menina

e a menina voa

ela não tem

medo de voar

porque
bem sabe

ser um anjo

que a sustenta

suspensa no ar

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07/05/2009

NO ABSURDO

noite outra vez
dentro de mim
imensa
vazia
silenciosa
não há estrelas
lua
ou vaga-lumes
bicho que voa
- nada.

nenhum suspiro
ou passo
nenhum gemido
ou grilo
nenhum pigarro
ou tosse
nenhum latido
ou vento
bicho agourento
- ninguém.

goteira
pingos de torneira
águas do rio
corredeira
chuvas
no telhado
estalos na madeira
- não há.
a vida suspensa
no absurdo.

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05/05/2009

UM POEMA DE W.S. MERWIN



Separação

A sua ausência transpassou-me
Como fio através de uma agulha.
Tudo que faço é costurado com sua cor.


Separation

Your absence has gone through me
Like thread through a needle.
Everything I do is stitched with its color.

by W. S. Merwin

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04/05/2009

DO SENTIMENTO DAS CASAS - I

estive no subúrbio
e observei as casas:

elas me chamam

são casas tristes
descoloridas:
casas que choram

pude ver claro:
elas têm alma
e clamam

e na sarjeta - um fio:
de águas injustas
que não cessam


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ACERVO: SANDRA GUINLE


Balões Mágicos - Bronze

01/05/2009

MATÉRIA DIFÍCIL

ando tão...
em_ mim_ mesmada
queria tanto estar
em_ti_mesmada
e nós mesmos
em nós_mesmados

sempre tão difíceis
estas questões
pronominais
um simples caso reto
torna-se oblíquo

geométricas linhas
que se cruzam:
dores agudas
mentes obtusas

já nem sei mais
em que matéria
enquadrar os afetos


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