29/06/2009

conceitual

- dispersos

os meus versos
tipologia estranha
comuns lugares
componentes singulares

- paradoxos

híbridos como a arte
arame e papelão
laminados, telas, estuques
variedades cromáticas

- transparências

no espaço fragmentado
da minha poesia, flutuam
objetos evidentes
da minha

- descontrução.

sketchbook - I


sketchbook - rami efal

vecchia cucina

fogão de lenha
tacho de cobre e a “nonna”
saudade doce...

27/06/2009

cálidas rosas

acendo uma rosa
e aspiro
o perfume do sol

no meu jardim azul
há sóis em pencas

e no meu céu de terra
rosas em chamas

sumi-ê - II


26/06/2009

incontacta

e por não ser
de nenhuma tribo

- em qualquer tribo

serei sempre
estrangeira

última da estirpe
remanescente

- quase... extinta

vulnerável
tribo de um só

sumi-ê


25/06/2009

noite, quase

pulsa a cidade
um sol quase poente
cega meus olhos

é noite, quase
meus olhos nas estrelas
talvez te encontrem

exercício - I

pássaro no fio
não se importa com a chuva:
canta e espera

subterrâneos

Chamam-te marginal
Marginalizado, te chamo

- Mas não me ouves

Tua mente flutua
No véu dos becos
Na nóia das esquinas

- Da vida

Para sempre perdido
Teu olhar brilhante
Em busca de outros céus

- Que não haverá.

24/06/2009

o amor tem seus enganos


Sarah Helen Whitman

"Só eu, só eu amei o amor de meus enganos."

Edgar Allan Poe

caminito

Diferente do tango
As nossas emoções
Dissimuladas
Dancei
Dançamos
Porém
Dançamos sós
As emoções contidas
Dissimulamos
A estrada florida
Não trilhamos
Triste caminito
O que escolhemos
Apenas uma sombra
Do que não fomos.

Caminito Cesarica 11

22/06/2009

farpada


1000 imagens.com - dinis cortes

A vida é fio
Que ela mesma corta.

Quem tiver asas, voe...

20/06/2009

celebração


peço silêncio:
há uma flor
se abrindo no jardim

19/06/2009

faz frio

faz frio - tanto
que a palavra treme

nem verso ou prosa
nada - que a aqueça

palavras frias - morram
sufocadas no peito

meu canto - espera

18/06/2009

dos riscos

riscos no poema?
muitos
não percorrê-los:
tolice, covardia
- há quer ter mais
que sulcos
no papel em branco
traços, vestígios
- minha cara

delimito fronteiras
cruzo, inverto
transformo:
risco em certezas
que não possuo
- invento
risco de giz
risco de vento
risco de bambu
- nas águas claras

fugaz, efêmero
risco que corro
risco que corre
fio de navalha
corte que sangra
- tinta e pena
palavra negra
alquímica:
e o verso em risco
- permanente

risco teu nome
do meu caderno
o meu olhar oblíquo
delineio em cajal
- um raio
risca o céu
eu risco fósforos
no escuro e assopro:
da vida
- puxo o fio

17/06/2009

o que é poesia?


Imagem: Um mimo que ganhei de
Angélica Almstadter

a poesia para mim
é uma tisana quente
de folhas verdes doces
saborosas
sorvida em dias frios
de inverno
em porcelana rara
na varanda florida
de uma casa no campo.

constatação

caminhando com Bono
pelas ruas de pedra
ao pôr-do-sol
tive a noção exata
do quanto andamos sós

testamento de outono

Entre morrer e não morrer
me decidi pela guitarra
.
.
.
e se em alguma parte descanso
é na própria noz do fogo,
no que palpita e crepita
e logo segue sem destino.


Pablo Neruda - Estravagario

bem-te-vi



bem-te-vi
que canta alto
e ninguém vê

bendiz a vida
que do alto
ele vê

eu

bendigo a vida
e o bem
que não vi

num canto alto
a vida
nos bendiz

15/06/2009

vãos

Caio nos vãos
Que há
Em toda parte
Parte de mim
Quer voar
E o tempo voa
Tempo de frio

Aquece o chá
Mel e limão
Que alenta
A noite densa
Traz o passado
E um pássaro
Noturno pia

Relógios roem
O que restou
Do dia
E um dia claro
Que já se foi
Mergulho
No vão nenhum

14/06/2009

do que preciso

um sorriso
uma sombra
uma brisa suave
é tudo o que preciso
para enfrentar desertos
quando eles me invadem
me assolam e me consomem

13/06/2009

E Viva Santo Antonio!!!


Ouro Preto - MG



A Igrejinha de São Damião
Marcus Viana

De cada riso e dor
De cada espinho e flor
Construo a casa do meu senhor
Com o que o mundo abandonou
De cada pedra do chão
Construo o templo do coração
A cada dia que vem
A cada dia que vai
Ergo em mim a casa de meu Pai.

Hoje aqui na minha terra é dia de festança, em homenagem a Santo Antonio da Cachoeira, nosso padroeiro. Como não encontrei uma música para ele, posto esta do CD de Marcus Viana - lindíssimo - em homenagem a São Francisco. Afinal, Antonio era também um franciscano, contemporâneo e respeitadíssimo por Francisco.

"Deus é Pai de todas as coisas. Suas criaturas são irmãos e irmãs." - Santo Antonio de Pádua

12/06/2009

Voando com o Vento



É preciso aprender
A lição das folhas
Que voam livres
Com o vento
Muito antes
De se soltarem
Dos velhos galhos
Dos troncos cativos

11/06/2009

Dourados Presentes

A flor do trigo
O mel do rochedo

Doçura e sustento
Alimento e beleza

Dádivas douradas
Da mãe natureza

10/06/2009

Ímpeto

Flores amarelas
- Frágeis mimosas
Sobre o muro alto

Desafiando o medo
- E a vertigem
Se atiram

Para o abismo do sol

08/06/2009

MEMÓRIAS

Elementar
Cheiro de alfavaca
No ar
Alfazemas talvez
Lêmures índicos
Cismam
Genéticas lembranças
Notívagos chamam
Mãe
Boca saliva
Frutos, folhas, brotos
Néctar
Pêlo macio
Cio
E os grandes olhos
Brancos fantasmas
Unhas arranham
Madagascar
Se afasta
Ilha
Nunca mais
África
Não me deixe ir

CÍRCULO

Arrepio
A noite invade a tarde
Antes da hora
O tempo sempre chega
Antes da hora
Cedo ou tarde
A noite sempre invade
A tarde
A noite nos invade
E depois nos devolve
Quando o primeiro sol
A invade

DOS CAMINHOS QUE CHEGAM

Hoje
A vida é estrada
Cinzenta, esburacada
Sinuoso concreto.

Mas que me leva
Ao paraíso...

Que importa a estrada
Importa é a chegada
E eu chego já.

Logo
O caminho é de terra.
Vejo letreiros:
Vende-se mel e pólen.

Sinal
De flores e doçuras...

Ao longe
O velho poço
Cordas que rangem
Águas que cantam.

E na varanda
Um beija-flor me espera
Com uma flor e um beijo.

Mensageiros do vento
Anunciam:
O céu é aqui.

Cheguei...

06/06/2009

MALABARISTA

de delírio em delírio
se equilibra o poeta

malabarista bêbado
na eterna dúvida

entre o vício
e o espetáculo.

04/06/2009

PITY US





Pity us

By the sea

On the sands

So briefly


Samuel Menashe

Gosto imensamente deste poema de Menashe, porém, nunca consegui uma tradução definitiva para ele. O segundo e o terceiro versos são evidentes. O primeiro e o último dão margem a muitas possibilidades.

Já traduzi o primeiro verso assim: pobres de nós, coitados de nós, piedade de nós, compadeçam-se de nós, compaixão de nós, etc. ...

O último: tão breve, assim tão breve, num instante, num átimo, tão brevemente, num flash, etc. ...

Entre o mar e as areias... Quem se habilita?


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02/06/2009

LIBERTO INSTANTE

compreendi finalmente, que de verdade
possuímos apenas o momento presente

o passado - já não o tenho
o futuro - não me pertence

as minhas mãos plenas de “agoras”
celebram os instantes e os libertam

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GRÃO

do trigo não plantado
fez-se o pão das misérias
do pão não repartido
fez-se o gueto
do gueto ignorado
fez-se o ódio
do ódio incontido
a violência

da violência bruta
fez-se o medo
do medo escancarado
fizeram-se as prisões

cativos somos todos
calabouços medonhos
vaidades e ganâncias
antiga indiferença

rajadas de bala
campo minado
tijolo por tijolo
arame farpado

muros trágicos
lamentações...

apenas porque um grão
de trigo se perdeu


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01/06/2009

PRÊMIO VIOLETA



Recebi este Selo do Cristiano Melo - De Braços Abertos e fiquei muito feliz. Cristiano tem um outro blog: Mar Aberto - lindíssimo. Como costumo sofrer muito para escolher meus indicados, então dedico este selo a todos os poetas amigos, com seus poemas e suas presenças coloridas e mágicas - sim - pois de certa forma todo poeta é mago, quando transforma a palavra bruta em puro sentimento. Obrigada Cris!!! Beijos.

DULCE SIEMPRE

Por qué esas materias tan duras?
por qué para escribir las cosas
y los hombres de cada día
se visten los versos con oro,
con antigua piedra espantosa?

Quiero versos de tela o pluma
que apenas pesen, versos tibios
com la intimidad de las camas
donde la gente amó y soño.
Quiero poemas mancillados
por las manos y el cada día.

Versos de hojaldre que derritan
leche y azúcar en la boca,
el aire y el agua se beben,
el amor se muerde y se besa,
Quero sonetos comestibles
Poemas de miel y de harina.

La vanidad anda pidiéndonos
que nos elevemos al cielo
o que hagamos profundos túneles
inútiles bajo la tierra.

Y así olvidamos menesteres
deliciosamente amorosos,
se nos olvidan los pasteles,
nos damos de comer al mundo.

Alguien se ensució las manos
amasando tanta dulzura.

Hermano poetas de aquí,
de allá, de la tierra y del cielo,
con qué se hicieron los panales?

Dejémonos de tanta piedra!

Que tu poesía desborde
la equinoccial pastelería
que quieren devorar nuestras bocas,
todas las bocas de los niños
y todos los pobres adultos.
No sigan solos sin mirar
sin apetecer ni entender
tantos corazones de azúcar.

No tengan miedo a la dulzura.

Sin nosotros o con nosotros
lo dulce seguirá viviendo
y es infinitamente vivo,
eternamente redivivo,
porque en plena boca del hombre
para cantar o para comer
está situada la dulzura.

Pablo Neruda

porque estas matérias tão duras? quero versos de teia ou pluma, versos folhados, que derretam, quero sonetos comestíveis, poemas de farinha e mel, de que são feitos os favos? não tenham medo da doçura, o doce seguirá vivendo, infinitamente vivo, eternamente renascido, doce... sempre.


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