outra vez
me ronda a poesia
agora é assim
quase uma sombra
colada em mim
não
ela é o sol
eu
a sombra
poema publicado na ZUNAI
31/08/2009
30/08/2009
álbum: alexander rodchenko

Rodchenko e Stepanova 1922
Alexander Rodchenko é considerado um dos máximos expoentes da vanguarda soviética dos anos 30. Nasceu em São Petersburgo, em 1891. Sua familia mudou-se para Kazán, no Oeste de Rússia, onde Alexander estudou Historia da Arte. Posteriormente foi para Moscovo, onde continuou o seu estudo de arte. É, nesta altura, em 1915, influenciado por Malevich, que começou a pintar, com uma tendência abstracta. Alexander Rodchenko é um dos artistas russos mais versáteis dos anos 20 e 30. Como outros muitos artistas dessa época de fervor artístico, experimentou com diferentes técnicas de expressão artística, estudando a pintura, a fotomontagem e a fotografia em profundidade, com o fim de obter imagens sempre inovadoras. Rodchenko representa uma figura de grande importância no panorama das vanguardas artísticas e suas imagens têm contribuído para a difusão do Construtivismo Soviético. Faleceu em 1956.
29/08/2009
urgências
palpitam em mim
urgências:
do cego
que agora pode ver
do mudo
que aprendeu a falar
do tolo
que descobriu poder voar
urgências:
do cego
que agora pode ver
do mudo
que aprendeu a falar
do tolo
que descobriu poder voar
28/08/2009
só isso
havia flores
esqueci de regá-las
- só isso
secaram
restaram as sementes
vou regar muito
este meu coração agora
até que brotem
e outra vez floresçam
- mais nada
esqueci de regá-las
- só isso
secaram
restaram as sementes
vou regar muito
este meu coração agora
até que brotem
e outra vez floresçam
- mais nada
27/08/2009
silêncios de fogo
queimam dentro de nós, silêncios de fogo - por não haver quem nos ouça
brasas vivas nos dilaceram o peito. olhos em chamas. ardem
cinzas cinzas cinzas vento vento vento paz - poema
até o próximo incêndio.
brasas vivas nos dilaceram o peito. olhos em chamas. ardem
cinzas cinzas cinzas vento vento vento paz - poema
até o próximo incêndio.
dos que resistem

Invisible people - L Castro Flickr
vivo
- da minha fé
único
- legado que me resta
pedra
- onde meus pés se engastam
árvore
- no alto da montanha
onde uivam os ventos
- e os demônios
sinais:
fé,
sobreviventes
26/08/2009
um poema de marina tsvétaïeva

Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.
Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vasa a poesia.
(1934)
Tradução de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985
Esparsos em livrarias, acinzentados pela poeira e o tempo,
não vistos, não procurados, não abertos e não vendidos,
meus poemas serão saboreados como os vinhos mais raros -
quando eles envelhecerem.
De um poema escrito por Tsvétaïeva em 1913, que se tornaria uma profecia.
sinais:
poesia-russa
25/08/2009
24/08/2009
lição de sol
terra engole sol, mar dissolve, nuvem desmancha. sol não teme ser devorado. renasce: da boca que engole, da língua que dissolve da condensada gota que desmancha. mancha vermelha que alimenta, pálidas faces que o devoram.
23/08/2009
a mulher e a serpente
10º
monstro noturno
das 7 cabeças – serpente
me persegue
em arrastados "esses"
sibilam
as bifurcadas línguas:
s s s sedes s s s s
s s s solidões s s s s
s s s saudades s s s s
s s s silêncios s s s s
s s s sombras s s s s
s s s sensações s s s s
s s s segredos s s s s
presságios – tenho medo
rezo
uma ave-maria
frio – já não sinto
no abraço da mãe
adormeço
e a serpente - esmagada
sob pés tão pequenos
monstro noturno
das 7 cabeças – serpente
me persegue
em arrastados "esses"
sibilam
as bifurcadas línguas:
s s s sedes s s s s
s s s solidões s s s s
s s s saudades s s s s
s s s silêncios s s s s
s s s sombras s s s s
s s s sensações s s s s
s s s segredos s s s s
presságios – tenho medo
rezo
uma ave-maria
frio – já não sinto
no abraço da mãe
adormeço
e a serpente - esmagada
sob pés tão pequenos
22/08/2009
21/08/2009
dos humanos olhares - I
I - o príncipe
gautama viu o verme
antes do pássaro, antes da ave de rapina.
depois viu a flecha
antes do velho, antes da dor, antes da morte.
depois viu o monge
antes do rio, antes do barco, antes das águas.
depois ouviu a música
antes de ver as cordas se romperem.
à sombra de uma árvore se sentou
e ouviu, num grito, o testemunho da terra.
de um céu sem nuvens, chuva fina caiu
e o dia finalmente nasceu, iluminado.
então, gautama viu a vida.
gautama viu o verme
antes do pássaro, antes da ave de rapina.
depois viu a flecha
antes do velho, antes da dor, antes da morte.
depois viu o monge
antes do rio, antes do barco, antes das águas.
depois ouviu a música
antes de ver as cordas se romperem.
à sombra de uma árvore se sentou
e ouviu, num grito, o testemunho da terra.
de um céu sem nuvens, chuva fina caiu
e o dia finalmente nasceu, iluminado.
então, gautama viu a vida.
20/08/2009
por isso as chuvas
chuvas
----------levam
------------------sonhos
---------------------- ----ladeira
----------------------------- -- ----abaixo
e chove
---------------------chove, chove, chove
a enxurrada leva o pouco que nos resta até chegar ao rio.
águas do rio não param e volumosas correm
------------------------------------------------------------correm, correm, correm
quando chegarem ao mar então todos os sonhos terão virado água.
que evaporam até chegar ao céu e virar branca nuvem que passa
-----------------------------------------------------------------passa, passa, passa
as nuvens ficam cinzas carregadas
e uma chuva de sonhos cai outra vez sobre nós.
----------levam
------------------sonhos
---------------------- ----ladeira
----------------------------- -- ----abaixo
e chove
---------------------chove, chove, chove
a enxurrada leva o pouco que nos resta até chegar ao rio.
águas do rio não param e volumosas correm
------------------------------------------------------------correm, correm, correm
quando chegarem ao mar então todos os sonhos terão virado água.
que evaporam até chegar ao céu e virar branca nuvem que passa
-----------------------------------------------------------------passa, passa, passa
as nuvens ficam cinzas carregadas
e uma chuva de sonhos cai outra vez sobre nós.
19/08/2009
dois poemas de flávio miragaia perri

Catavento
ah se eu fosse o catavento!
te catava
te punha de frente
e te olhava
depois numa caixa lacrada
te fechava
para não fugires
ah se eu fosse o catavento...
Nydia e Filipe
ontem
Filipe e Nydia
Nydia e Filipe
gostaram do catavento
é possível um desejo imenso
como quer Camões
arder no peito dentro?
que me diga o vento
quando sonhar
sem que me leve o sonho
a rodopiar
o que me alegra
é que desejo não dura
e eu posso voltar
a ser caradura
nesse suspirar
de versos a indagar
filosófico não é lindo convenci-me
ninguém gosta de filosofar
melhor é sentir
e não mentir
no que é
minha solitária maneira de amar
O poeta por ele mesmo, no seu perfil no Overmundo:
ah se eu fosse o catavento!
te catava
te punha de frente
e te olhava
depois numa caixa lacrada
te fechava
para não fugires
ah se eu fosse o catavento...
Nydia e Filipe
ontem
Filipe e Nydia
Nydia e Filipe
gostaram do catavento
é possível um desejo imenso
como quer Camões
arder no peito dentro?
que me diga o vento
quando sonhar
sem que me leve o sonho
a rodopiar
o que me alegra
é que desejo não dura
e eu posso voltar
a ser caradura
nesse suspirar
de versos a indagar
filosófico não é lindo convenci-me
ninguém gosta de filosofar
melhor é sentir
e não mentir
no que é
minha solitária maneira de amar
O poeta por ele mesmo, no seu perfil no Overmundo:
"Um homem do mundo, diplomata, Embaixador na ante-véspera da aposentadoria. Escritor [poeta e contista] bissexto, tento transformar-me em permanente na transitoriedade de tudo".
Flávio mantém o blog poemasinconjuntos onde publica sua brilhante e sempre intensa e inquietante poesia.
Flávio mantém o blog poemasinconjuntos onde publica sua brilhante e sempre intensa e inquietante poesia.
não tão claros enigmas
uma flor nasceu na rua. furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. é feia. mas é uma flor. ****
catando comida entre os detritos, o bicho, meu Deus,era um homem. ***
atos secretos do senado: a falta de vergonha é líquida. e vaza. **
o poeta mais amargo que jiló, faz versos doces. *
decifra-nos.
****drummond ***bandeira **terra brasilis *?
catando comida entre os detritos, o bicho, meu Deus,era um homem. ***
atos secretos do senado: a falta de vergonha é líquida. e vaza. **
o poeta mais amargo que jiló, faz versos doces. *
decifra-nos.
****drummond ***bandeira **terra brasilis *?
18/08/2009
chuva e não

Encontrei a poesia do alagoano Sidney Wanderley no blog de Janaína Amado: http://enredosetramas.blogspot.com/ e fiquei impressionada. Sidney gentilmente me enviou um exemplar do seu mais novo livro, ainda não lançado oficialmente: Chuva e não, da Editora Catavento, que eu simplesmente devorei. Vigorosa, delicada, rara, a poesia de Sidney foi uma bela e grata surpresa para mim. Deixo aqui o poema que dá título ao livro:
Chuva e não (II)
Há dias em que chove poesia.
Dias em que pinga.
Dias em que não.
Cautela para os primeiros.
Atenção para os segundos.
Dos últimos, o áspero
aprendizado do silêncio,
a dura ração da recusa.
Alheios a chuva e poesia,
os dias prosseguirão.
Só mais um:
Nota de desaparecimento
Sobreviveu
a um incêndio, duas enchentes,
três mudanças de endereço,
a algumas goteiras renitentes,
à fome das traças e à ira paterna,
mas não ao empréstimo
para o melhor amigo
- aquela brochura rubra e sebosa
do Manifesto Comunista.
17/08/2009
01 - vazio
alma vazia
insiste em fazer versos -
salva-me um haicai:
"vazio agudo
ando meio
cheio de tudo"
paulo leminski
insiste em fazer versos -
salva-me um haicai:
"vazio agudo
ando meio
cheio de tudo"
paulo leminski
15/08/2009
juncus confusus
tempo
fera que ruge
sob as colunas do templo
anos, séculos, milênios
instantes
nos contemplam
e sob nossos olhos:
milagres,
miragens, miras
exércitos
de canções e lamentos
vestes e vultos
vinho e sangue
cascos que tinem
brados
granizos, assobios
desertos
lavas de vulcões
magma e vento
chagas que ardem
vermelhas
ferida carne
morrer é tão velho
quanto a vida
juncos sedentos:
inda vergamos
em busca
do consolo das águas
insaciável sede
que nos mantém
vivos
fera que ruge
sob as colunas do templo
anos, séculos, milênios
instantes
nos contemplam
e sob nossos olhos:
milagres,
miragens, miras
exércitos
de canções e lamentos
vestes e vultos
vinho e sangue
cascos que tinem
brados
granizos, assobios
desertos
lavas de vulcões
magma e vento
chagas que ardem
vermelhas
ferida carne
morrer é tão velho
quanto a vida
juncos sedentos:
inda vergamos
em busca
do consolo das águas
insaciável sede
que nos mantém
vivos
14/08/2009
13/08/2009
GALERIA ANAHATA KATKIN - V

O privilégio de toda uma vida é ser aquilo que nascemos para ser.
Siga sua felicidade, lá onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem ir.
Encontre a paixão da sua vida e siga-a, siga o caminho que não é caminho.
Quando tiver essa sensação, fique aí e não deixe ninguém arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde antes não havia portas e você sequer imaginava que pudesse haver.
Joseph Campbell
enxaquecosa
a dor
... pra amenizar
fazer um verso
... tento
não posso
em dor assim
... poesia
não cabe
o escuro cabe
... e o silêncio.
... pra amenizar
fazer um verso
... tento
não posso
em dor assim
... poesia
não cabe
o escuro cabe
... e o silêncio.
12/08/2009
rumores
Alçam vôo, as maritacas roucas,
ávidas, atrevidas.
Sempre em bandos, exageradamente livres,
dentro delas urgem rumores verticais.
Então mergulham, no ímpeto da vertigem
que não podem conter.
Escandalosas, arrastam folhas, levantam poeira,
chuvas de penas.
Que guardam nos olhos
depois de tanto sois nascer... se pôr
e suas asas depois de tantos ventos,
chuvas... tanto céu?
Ásperas gargantas depois dos gritos,
que sabem dos silêncios e das sedes?
São como nós, as maritacas verdes,
tudo que vive é,
mergulho cego no infinito azul.
ávidas, atrevidas.
Sempre em bandos, exageradamente livres,
dentro delas urgem rumores verticais.
Então mergulham, no ímpeto da vertigem
que não podem conter.
Escandalosas, arrastam folhas, levantam poeira,
chuvas de penas.
Que guardam nos olhos
depois de tanto sois nascer... se pôr
e suas asas depois de tantos ventos,
chuvas... tanto céu?
Ásperas gargantas depois dos gritos,
que sabem dos silêncios e das sedes?
São como nós, as maritacas verdes,
tudo que vive é,
mergulho cego no infinito azul.
11/08/2009
um poema de paulo mendes campos

imagem: http://www.cultura.mg.gov.br/
Pesquisa
A gaivota determinada mergulha na água
verde. Há um tempo para o peixe
e um tempo para o pássaro
e dentro e fora do homem
um tempo eterno de solidão.
Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
vi espaços claros, bosques, igapós,
o sumidouro de um tempo subterrâneo
(patético, mesmo às almas menos presentes)
vi, como se vê de um avião,
cidades conjugadas pelo sopro do homem,
a estrada amarela, o rio barrento e torturado,
tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.
Senti o hálito do tempo doando melancolia
aos que envelhecem no escuro das boates,
vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo.
com uma tensão de nervos feridos
e corações espedaçados.
Se acordamos, e ainda não é madrugada,
sentimos o invisível fender do silêncio,
um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
O tempo goteja
como o sangue.
os cães discursam nos quintais, e o vento,
grande cão infeliz,
investe contra a sombra.
O tempo é audível: também se pode ouvir a eternidade.
Paulo Mendes Campos
E foi por conta deste poema, que eu me aventurei a fazer poesia.
09/08/2009
bicho danado
meu coração
uma goiaba - bichada
bicho danado
chamado - solidão
se bicho
de goiaba - é goiaba
bicho
de coração - é coração
creio então
estar sendo - devorada
pelo meu próprio
bicho - danado coração
uma goiaba - bichada
bicho danado
chamado - solidão
se bicho
de goiaba - é goiaba
bicho
de coração - é coração
creio então
estar sendo - devorada
pelo meu próprio
bicho - danado coração
08/08/2009
olhos de ir embora

olho hoje o mundo com olhos de meu pai contemplativos resignados calmos
olhos de ir embora
embora atentos atônitos curiosos às vezes úmidos e claros outras vezes cinzentos embaçados tantas vezes vermelhos ressecados quase sempre brilhantes translúcidos
olhos de ir embora
contemplando a vida homens e mulheres árvores e pedras pássaros e flores meninos e cães nuvem chuva vento a terra
com olhos de ir embora
fecho meus olhos e continuo vendo como meu pai o tempo que passou o tempo que virá o tempo
com olhos de ir embora
penetro num castelo de portas imensas abro uma a uma já não sinto medo encontrei a essência vejo com os olhos da alma eternos
olhos de ir embora
o templo e as ruínas madeira apodrecida ferrugem e sucata moldura envelhecida cabelos brancos retratos antigos objetos no lixo a roupa velha casa vazia trapos nada tudo
com olhos de ir embora
07/08/2009
impermanência
tarde.
no chão de pedras
penas
areia e sangue
massa disforme
ainda de manhã
pássaro branco
que voava
noite.
chuva de vento
faz enxurrada
amanhã
quando eu passar
por aqui
do que foi pássaro
nem sombra
no chão de pedras
penas
areia e sangue
massa disforme
ainda de manhã
pássaro branco
que voava
noite.
chuva de vento
faz enxurrada
amanhã
quando eu passar
por aqui
do que foi pássaro
nem sombra
06/08/2009
05/08/2009
um poema de Vasko Popa

CANÇÃO DA VERDADE JOVEM
A verdade cantava no escuro
No cimo da tília sobre o coração
O sol há-de amadurecer dizia
No cimo da tília sobre o coração
Se os olhos o iluminarem
Troçamos da canção
Agarramos prendemos a verdade
Cortamos-lhe a cabeça debaixo da tília
Os olhos estavam noutro sítio
Ocupados com outra obscuridade
E nada viram
Vasko Popa - Sérvia
trad. Eugênio de Andrade, in “Rosa do Mundo”
A verdade cantava no escuro
No cimo da tília sobre o coração
O sol há-de amadurecer dizia
No cimo da tília sobre o coração
Se os olhos o iluminarem
Troçamos da canção
Agarramos prendemos a verdade
Cortamos-lhe a cabeça debaixo da tília
Os olhos estavam noutro sítio
Ocupados com outra obscuridade
E nada viram
Vasko Popa - Sérvia
trad. Eugênio de Andrade, in “Rosa do Mundo”
04/08/2009
etérea dança
... danço
dentro de um círculo
... danço
enquanto a vida passa
... lá fora
tento romper o elo
... não posso
não há saída
tento tocar o céu
... a relva
tento colher estrelas
... luas
fragmentos de vida
... de fora
transpassam
os meus olhos
... perdidos
no espaço limitado
sufoco
... suponho
apenas
... suponho
o que seja viver
... lá fora
vejo raios de luz
cheiro de flor
gosto de outonos
... ouço
histórias no vento
... ouço
canções na chuva
... espero
apenas espero
o tempo se foi
... lá fora
já não quero saber
... de nada
quero apenas não ser
... mais nada
meus pés
já não tocam a terra
meus olhos
miram o céu
o círculo
transmutado em esfera
... flutua
eu dentro dele
apenas
... flutuo
posso voar agora
levada pelo vento
... danço
enquanto a bolha
etérea se desfaz
apenas
... danço
dentro de um círculo
... danço
enquanto a vida passa
... lá fora
tento romper o elo
... não posso
não há saída
tento tocar o céu
... a relva
tento colher estrelas
... luas
fragmentos de vida
... de fora
transpassam
os meus olhos
... perdidos
no espaço limitado
sufoco
... suponho
apenas
... suponho
o que seja viver
... lá fora
vejo raios de luz
cheiro de flor
gosto de outonos
... ouço
histórias no vento
... ouço
canções na chuva
... espero
apenas espero
o tempo se foi
... lá fora
já não quero saber
... de nada
quero apenas não ser
... mais nada
meus pés
já não tocam a terra
meus olhos
miram o céu
o círculo
transmutado em esfera
... flutua
eu dentro dele
apenas
... flutuo
posso voar agora
levada pelo vento
... danço
enquanto a bolha
etérea se desfaz
apenas
... danço
ainda sobre a "lagártica"
Algumas pessoas me questionaram sobre a série "lagártica". Foi escrita há tempos, proposta por um antigo professor de língua portuguesa do colégio, que reuniu um grupo para fazer alguns exercícios poéticos. Era sorteado um bicho para cada participante e o tema era “amor”. Também era preciso encontrar outros poemas que falassem dos mesmos bichos. Para mim, caiu o lagarto. Ai, ai... Havia bichos "mais feios". Alguns poemas até ficaram interessantes, mas a maioria, não. Não acredito muito em "poesia encomendada”. Como bem disse o poeta: “não force o verso, filho...”. É isso.
03/08/2009
olhos de pedra
de esperar
arranco
das pedras, os olhos
meus olhos, arranco
e os atiro ao mar
pesados,
logo serão tragados
pelo abismo
dos olhos cansados
eu, sigo
com meus olhos
de pedra
arranco
das pedras, os olhos
meus olhos, arranco
e os atiro ao mar
pesados,
logo serão tragados
pelo abismo
dos olhos cansados
eu, sigo
com meus olhos
de pedra
02/08/2009
transparências
rasguei
a minha fantasia
e olha
que nem é carnaval
caminho nua
agora
despida dos meus sonhos
pelas ruas desertas
da cidade de vidro
em que habito
a minha fantasia
e olha
que nem é carnaval
caminho nua
agora
despida dos meus sonhos
pelas ruas desertas
da cidade de vidro
em que habito
01/08/2009
lagártica - IV
Rascunhos - 1
Para Ângelo Roberto
(04.04.97)
Fred Souza Castro
Esta noite voltei a sonhar com meus lagartos
e as mesmas pedras onde costumam dormitar
em minha Catedral Submersa.
Aqueles mesmos sons de sino e carrilhões
desfilaram pela nave deserta
como procissões extintas
sopradas das cinzas da memória.
Acho que o sol era só deles,
lagartos quase jade,
figuras esculpidas no limo verde-escuro das rochas.
Seus olhos, no entanto, abriam-se para nosso espanto
e para o espanto deles próprios
(lagartos).
Para Ângelo Roberto
(04.04.97)
Fred Souza Castro
Esta noite voltei a sonhar com meus lagartos
e as mesmas pedras onde costumam dormitar
em minha Catedral Submersa.
Aqueles mesmos sons de sino e carrilhões
desfilaram pela nave deserta
como procissões extintas
sopradas das cinzas da memória.
Acho que o sol era só deles,
lagartos quase jade,
figuras esculpidas no limo verde-escuro das rochas.
Seus olhos, no entanto, abriam-se para nosso espanto
e para o espanto deles próprios
(lagartos).
lagártica - III
lagártica - II
lagártica - I
pt.dreamstime.comlagarto
O lagarto está chorando
Federico Garcia Lorca
O lagarto está chorando
A lagarta está chorando
O lagarto e a lagarta
Com aventaizinhos brancos
Hão perdido sem querer
Seu anel de casamento
Ai! Seu anelzinho de chumbo,
Ai, seu anelzinho chumbado
Um céu grande e sem gente
Monta em seu globo aos pássaros
O sol, capitão redondo
Leva um colete de raso
Olhai que velhos são!
Que velhos são os lagartos!
Ai como choram e choram,
Ai! Ai! Como estão chorando!
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