o pássaro
com seus olhos de céu
----.---.---.---..me olha
buscando em mim
as asas
-.-.---que já não tenho
30/11/2009
28/11/2009
o vento
27/11/2009
palabares
dançam
em nossas mãos
palavras
desafiando
o frágil equilíbrio
do sentido
no limiar
entre silêncio
e som
entre música
e ruído
em nossas mãos
palavras
desafiando
o frágil equilíbrio
do sentido
no limiar
entre silêncio
e som
entre música
e ruído
25/11/2009
dois haicais de lírica
papel de seda
palavras mágicas
música de passarinho
2.
palavras mágicas
música de passarinho
2.
em dia de verão
canta o canarinho
na varanda do sonho
canta o canarinho
na varanda do sonho
*Hilton Valeriano publicou hoje alguns textos meus no Poesia Diversa, um blog de divulgação da poesia brasileira em sua diversidade, que com certeza vale a pena conhecer. Obrigada Hilton!
24/11/2009
22/11/2009
das dores do poeta
--- ((para o poeta Julio Rodrigues Correia)
o poeta está triste
pesam-lhe sobre os ombros
as dores do seu povo
e a insensatez do seu tempo
na sua humanidade, o poeta
— que não crê
transcende e toca o céu
o poeta está triste
pesam-lhe sobre os ombros
as dores do seu povo
e a insensatez do seu tempo
na sua humanidade, o poeta
— que não crê
transcende e toca o céu
19/11/2009
eu e a cidade
---- (para o poeta da cidade que desaparece)
sempre
-------andei pela cidade
me sentindo invisível
agora
------que ela desaparece
encontrei meu lugar
finalmente-posso tocá-la
sempre
-------andei pela cidade
me sentindo invisível
agora
------que ela desaparece
encontrei meu lugar
finalmente-posso tocá-la
18/11/2009
clarão
pequeno - meu horizonte - tão limitado
- (uma fresta)
mas nele cabe - (imenso) - o mesmo sol
- que aquece
e tinge - (de vermelho) - a terra inteira
- (uma fresta)
mas nele cabe - (imenso) - o mesmo sol
- que aquece
e tinge - (de vermelho) - a terra inteira
17/11/2009
16/11/2009
14/11/2009
dos sentires do tempo - III

Venus at Antique Mall in Powell, Ohio Matt McCaw
há um tempo na vida em que o melhor lugar
é o colo.
depressa vem o tempo da rua. intenso, breve
ele passa.
chega o tempo da casa. doce que parece ser
eterno.
— não é
chega enfim (cruel) o tempo em que nada
nos comporta.
— poesia
único refúgio (meu) neste tempo absurdo
sem lugar.
13/11/2009
percussiva
tudo é preto tudo é branco
tudo é não sim
onde se esconderam as verdades
que moravam em mim?
tudo pode ser nada
nada pode não ser tudo assim
nada de poder tudo ou não
pode tudo nada tudo se danar
preta branca verdade
tudo se esconde
nada branco pode preto sim
tudo não haver danado ser onde?
sonora mentira
tudo é não sim
onde se esconderam as verdades
que moravam em mim?
tudo pode ser nada
nada pode não ser tudo assim
nada de poder tudo ou não
pode tudo nada tudo se danar
preta branca verdade
tudo se esconde
nada branco pode preto sim
tudo não haver danado ser onde?
sonora mentira
12/11/2009
11/11/2009
10/11/2009
cristaleira

Paris 1964 - Lady / Window - Jon Goell
cristaleira, meu coração
prateleiras
---------------------muitas taças
vazias, translúcidas, solitárias
desparceiradas
------potes de mel, chás, aveia
gergelim,pistache
bombons, biscoitos finos
-------------------------amaretos
vinhos, absintos, licores
águas ardentes
------------------------------
litros
-------------desbotadas as cores
no solo instável em que habito
tremores constantes
-------------------a todo instante
um deles transborda
e a cristaleira tange
------------a canção dos cristais
à espera
do grande terremoto
-----que engole transparências
sonhos e cacos
prateleiras
---------------------muitas taças
vazias, translúcidas, solitárias
desparceiradas
------potes de mel, chás, aveia
gergelim,pistache
bombons, biscoitos finos
-------------------------amaretos
vinhos, absintos, licores
águas ardentes
------------------------------
litros
-------------desbotadas as cores
no solo instável em que habito
tremores constantes
-------------------a todo instante
um deles transborda
e a cristaleira tange
------------a canção dos cristais
à espera
do grande terremoto
-----que engole transparências
sonhos e cacos
09/11/2009
dois poemas de Víctor Rodríguez Núñez*

ANTIPOEMA
A ponto de escrever
“o estado natural do homem é a tristeza”
tu te apresentastes
------------- --------- quase resplandecente
Pensava continuar
---------------- ------ “e tudo o que eu faça
será para alcançar a alegria”
e te vejo nua — como não te havia visto antes —
sardenta magríssima chorando
E talvez concluir
“o belo é a manha da morte”
para beijar teus ossos
para beijar na pele
----------------- ----- o ponto mais feliz
Tudo
---------mulher
---------------- ------ para ficar sozinho
no fim de um poema que se engana.
CRÔNICA
Talvez comer pão
esférico e dourado
depois de uma sopa lívida
com vísceras de frango.
Escovar os dentes bem devagar
garoar no espelho
com espuma de rosas e claro perfume de menta
arrumar o cabelo
a camisa e as unhas.
Descer os degrau
--------que às vezes ninguém limpa.
Subir em um ônibus que vem do inferno
cumprimentos
----avenidas
------empurrões
--------semáforos
cruzando velozmente
e chegar tarde no cinema
essa jaula com sonho e mundo retido.
E lendo o jornal
ver coisas com estas:
--------duas naves vão a Vênus
--------“a estrela d’Alva”
--------e morreu Boumediene
--------presidente da Argélia.
Depois
---provar os versos
alegres
---atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
------vagabundo.
E finalmente o filme
“retângulo amoroso
------tema social”
com Fellini e De Sica na tela.
Caminhar rua abaixo
------entre álamos adormecidos
policiais acordados na frente das embaixadas
padarias abertas
----gatos que se suicidam
três bancos solitários com cheiro fresco de sêmen
latões de lixo
sonâmbulos que bebem aguardente e silêncio
----até a madrugada.
Subir os degraus
que de vez em quando alguém limpa
-- -- encurvada
------redonda --
e trancar-se no quarto azul
----desarrumado
onde escrevo e transcorro.
Então o amor
------e estas palavras.
*Nascido em La Habana, Cuba - 1955. Poeta, jornalista, crítico e professor de literatura hispânica em Kenyon College. Alguns de seus livros: Con raro olor a mundo (Premio David, 1981), Noticiario del solo (Premio Plural, 1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), El último a la feria (Premio EDUCA, 1995) y Oración inconclusa (Premio Renacimiento, 2000).
Talvez comer pão
esférico e dourado
depois de uma sopa lívida
com vísceras de frango.
Escovar os dentes bem devagar
garoar no espelho
com espuma de rosas e claro perfume de menta
arrumar o cabelo
a camisa e as unhas.
Descer os degrau
--------que às vezes ninguém limpa.
Subir em um ônibus que vem do inferno
cumprimentos
----avenidas
------empurrões
--------semáforos
cruzando velozmente
e chegar tarde no cinema
essa jaula com sonho e mundo retido.
E lendo o jornal
ver coisas com estas:
--------duas naves vão a Vênus
--------“a estrela d’Alva”
--------e morreu Boumediene
--------presidente da Argélia.
Depois
---provar os versos
alegres
---atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
------vagabundo.
E finalmente o filme
“retângulo amoroso
------tema social”
com Fellini e De Sica na tela.
Caminhar rua abaixo
------entre álamos adormecidos
policiais acordados na frente das embaixadas
padarias abertas
----gatos que se suicidam
três bancos solitários com cheiro fresco de sêmen
latões de lixo
sonâmbulos que bebem aguardente e silêncio
----até a madrugada.
Subir os degraus
que de vez em quando alguém limpa
-- -- encurvada
------redonda --
e trancar-se no quarto azul
----desarrumado
onde escrevo e transcorro.
Então o amor
------e estas palavras.
*Nascido em La Habana, Cuba - 1955. Poeta, jornalista, crítico e professor de literatura hispânica em Kenyon College. Alguns de seus livros: Con raro olor a mundo (Premio David, 1981), Noticiario del solo (Premio Plural, 1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), El último a la feria (Premio EDUCA, 1995) y Oración inconclusa (Premio Renacimiento, 2000).
sinais:
poesia cubana
07/11/2009
in memoriam
faz sol e ainda é cedo

abro meus olhos e as janelas do dia. abrirei portas.
café com pão sagrados. respiro fundo, pé na estrada. já de saída, três vira-latas na festa da rua. é muito azul e verde, a liberdade plena - há que celebrar. sinto pena do meu cão atrás das grades. sigo em frente.
um sapo - estatelado no asfalto, seco - vira pedra. um pássaro de peito amarelo e mudo - ainda é um pássaro. um bem-te-vi cinzento quase arrebenta garganta e arame farpado.
um guard-rail metálico, que violenta a mata, corre - ao lado da cicatriz de concreto. mais um passo. em pencas, a natureza - mãe - se vinga - flores vermelhas que se atiram suavizando cinzas e metais.
olho a montanha. quase encoberto por árvores imensas, velho chalé resiste. fumaça... chego ao imenso portal que dá no nada. chegadas e partidas são só pedaços. o mesmo trem, se houvesse. dou meia volta. feliz hoje retomo minha caminhada.
amanha já não sei. ninguém sabe amanhã. e a tarde quem sabe? lembro-me do sonhos da noite. apesar da lembrança que engoliu a saudade que engoliu a tristeza que quase me engoliu, a manhã está clara.
faz sol e ainda é cedo. eu, outra vez no caminho.
café com pão sagrados. respiro fundo, pé na estrada. já de saída, três vira-latas na festa da rua. é muito azul e verde, a liberdade plena - há que celebrar. sinto pena do meu cão atrás das grades. sigo em frente.
um sapo - estatelado no asfalto, seco - vira pedra. um pássaro de peito amarelo e mudo - ainda é um pássaro. um bem-te-vi cinzento quase arrebenta garganta e arame farpado.
um guard-rail metálico, que violenta a mata, corre - ao lado da cicatriz de concreto. mais um passo. em pencas, a natureza - mãe - se vinga - flores vermelhas que se atiram suavizando cinzas e metais.
olho a montanha. quase encoberto por árvores imensas, velho chalé resiste. fumaça... chego ao imenso portal que dá no nada. chegadas e partidas são só pedaços. o mesmo trem, se houvesse. dou meia volta. feliz hoje retomo minha caminhada.
amanha já não sei. ninguém sabe amanhã. e a tarde quem sabe? lembro-me do sonhos da noite. apesar da lembrança que engoliu a saudade que engoliu a tristeza que quase me engoliu, a manhã está clara.
faz sol e ainda é cedo. eu, outra vez no caminho.
05/11/2009
02/11/2009
um poema de Aramis Quintero*

a Cesar Vallejo
Enquanto Fala
Um homem morto lá em seu pé repousa,
e com sua mão livre nos cumprimenta
enquanto a outra arranha tristemente a terra.
Como nos amou então seu cabelo.
Como nos ama agora. Quanto sente
cumprimentar-nos assim, sem o lenço.
Como nos diz agora que já volta,
que não demora, só
o que gasta para ver como está seu pessoal,
tomar café, se for o caso, e estar de volta.
Como nos diz agora que já volta, e sabe
que para nós dava no mesmo, e não sabe
como agora queríamos
que secasse sua mão, a que arranha,
e com as duas nos abraçasse, e depois
reunidos, comemos alguma coisa e olhamos
como se já não fosse embora e amanhã
voasse para Lima ou Paris. Quase o vemos
lá outra vez, amando-nos.
E, enquanto fala, cai
um distante pó de biscoitos.
* Nascido em Cuba, 1948, reside no Chile. Poeta, narrador e ensaísta, licenciado em Língua e literatura hispânica, pela Universidade de Havana.
ritual
mais cedo
que de costume
acordo
e entre ciprestes
cumpro
o ritual da saudade
o pássaro
leva nas asas
o abraço e a prece
que de costume
acordo
e entre ciprestes
cumpro
o ritual da saudade
o pássaro
leva nas asas
o abraço e a prece
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