31/03/2010

visagem

olhando a cidade
do alto
pude ver seus contornos
montanhas
em tons de azul e verde
amenizam arestas
(e a rispidez)
das disparidades
humanas e sociais
daqui
é tudo terra e gente

27/03/2010

narciso às avessas


narciso_aurora_mim

águas paradas são águas tristes
pois contariam a essência das águas

fluir e encontrar o mar

águas paradas já não cantam
pois águas tristes não sabem cantar

águas paradas não refletem nada
pois não desejam ser tocadas pelo sol

(são águas mortas e vivem bem assim)

eu , Narciso às avessas
vejo estas águas refletidas em mim

22/03/2010

pássaro (desde)

imensa, a árvore
me fez voltar à infância
flores
o que meus olhos viam
(eu desejava os frutos)
as mãos se aventuravam
na vertical vertigem
dos galhos altos
(eu desejava o vento)

18/03/2010

em pétalas

bem agora
que eu tinha tanto a dizer
me falta a voz
(tenho pétalas
entaladas na garganta)
macias
seriam as palavras
vermelhas
(seda, perfume)

abre a janela
e olha
teus canteiros
(ou o velho vaso de flores
sobre a mesa da sala)
e tenta
me traduzir

16/03/2010

um poema de Abel G. Facundo


Van_Gogh_Vase_with_Three_Sunflowers

O GIRASSOL SEM PÉTALAS


Un hombre que cultiva su jardín,
como quería Voltaire.

J. L.Borges

Vou semear jardins em meu quarto,
sei que ambos tememos a morte.

Ele aprendeu a encher minhas camisas com sua sombra,
a cobrir minhas porções com seus lamentos
de bailarino estreito.

Às vezes quando não existe o mundo,
nós dois vamos desnudos a matar a manhã.
Os versos que brotam dele aliviam nosso medo,
e em farrapos eu rompo uma face
quado nas horas bárbaras a luz já não é a luz.

Vou semear jardins em meu quarto,
neste cravo que sangra por sua pele,
hei de pendurar o óleo onde um pintor qualquer
quis traçar girassóis para Vincent.

14/03/2010

areia

sobra soçobra
excede extrapola (vaza)
de dentro pra fora
de fora pra dentro

arestas pontas
asperezas tantas (sentires)
lapidar é preciso
polir lustrar finalizar

poesia é o pó
do que foi brunido (soprado)
do que foi sentido
esmerilhado pelo vento forte
da palavra

13/03/2010

sinais


Ômega Centauri - cdcc.usp.br

são como estrelas
sonhos

morrem

mas permanece
o rastro

(de luz)

outras noites
muito além das nossas
iluminam

* Tenho um poema, flutuando em Vidráguas.

10/03/2010

há sim

há mares que nunca secam
ha braços intermináveis

há talhos na minha mão

há maços neste papel
há risco num verso. há sim

09/03/2010

das imperfeições

sempre viveu
tentando ser perfeito

sempre exigiu perfeição

se encontra agora
(enfim)

na mais perfeita solidão

07/03/2010

blecaute*


lírio_greg wittel

tenho medo
(parafina)
que o que sinto vaze
(gasolina)
pelo vão dos meus versos
(enxurrada)
estilhaços de nada
(granada)
risco iminente
(olhos inocentes)
artefatos vazios
(em chamas)
costumam ser fatais

* ou "um poema sem luz"

05/03/2010

metamorfraseando

átomos
átimos atos tomos
alfa beta
gamo
a suspirar
por águas
pirata do mar
das palavras
vulcão em lavas
versos
lavras que brilham
larvas
que criam asas
e voam

02/03/2010

pássaro (ainda)


sun_bird_edited1_2+elizabeth+bunsen

queria fazer
um poema de pássaro (ainda)
daqueles que fazem crescer asas em nós
mas a pele dourada do céu
em breve travestido de sombras
(manto negro hoje
sem seu bordado de estrelas e seu colar de lua)
me angustia
volto para o ninho
(onde os pássaros mudos adormecem)
deixo para amanhã meu canto
(caso amanheça)
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