30/06/2010

aquário



peixes flutuam
no céu azul lá fora

enquanto eu me afogo

no aquário hermético
do meu quarto

29/06/2010

intradução

ábacos
já não contam o tempo

lágrimas não o detém

dígitos
tendem ao infinito

círculos não o contém

símbolos
não o traduzem

- os olhos fundos sim

(e a pedra)

28/06/2010

reverso

a terra saiu do eixo o mar invadiu cidades montanhas se aplainaram vulcões explodiram o abismo se revelou e o homem - vísceras expostas - assiste ao reverso da vida.

inverno

com meus olhos de abismo
contemplo

velho jardim de árvores velhas

- as flores
onde estão as flores

vermelhas?

o que vejo são folhas secas
ásperos troncos

raízes expostas

27/06/2010

agreste

vivo - labuto
sobre o solo agônico
dos dias iguais

invento cores
cultivo
ásperas flores

imperfeitas e desiguais

24/06/2010

assimetria

branco o meu papel
vive à espera do traço
que o defina
mas não o preencha

assimétrico espaço

guardador do fogo

fogueira
de gravetos no céu

sopra
o guardador do fogo

sabe
das noites do deserto

sabe
também do sol e do mel

faíscas são estrelas
lamparinas

(porque ainda é São João)

Leonardo da Vinci (I)



St_John_in_the_Wilderness_Design

22/06/2010

há quem?

não confundam
eu, comigo
- eu
vive além
do meu umbigo
fronteira
- eu
vivo aquém

(interessar possa)

21/06/2010

desabrigo

o não lugar:

onde habita a não vida
e o não sonhar

- morada de tantos.

20/06/2010

haicais de teruko oda


Japanese Style painting - Shouen's Yamato-e


Como versos livres
- ao toque dos tico-ticos -
as flores que caem.


Vasos amontoados -
A florada de crisântemos
nos fundos do templo.


Um quê de inquietude
no balé das borboletas —
Tarde de outono.


Insetos que cantam
parecem adivinhar
minha solidão.


No meu chá das cinco
que tão rápido esfriou
prenúncio de inverno.


teruko oda - germinaliteratura

inscrições e hellenismos

Hoje estou feliz. Fui recebida na casa de duas super poetas e grandes mulheres: Adelaide Amorim e Nina Rizzi. Convido vocês para uma visita ao Inscrições e ao Ellenismos, dois espaços generosos, onde os poetas e poemas-amigos são sempre muito bem recebidos com chás, flores e cheiros - e claro, poesia - da melhor qualidade.

"Os poetas falam a mesma lingua, com a graça de se aproximarem pelas diferenças".

Dade Amorim

"Cato conchinhas na praia e faço máscaras pra me reinventar. Do tipo que se debruça, por horas, sobre uma obra de arte, posso me ler nas entrelinhas."

Nina Rizzi

18/06/2010

ancoração

pernas finas e pretas
olhos fundos

o menino caminha
rumo ao seu submundo

(solo tão ríspido
para pés tão pequenos)

há que endurecer coração
âncora que o sustenta

e o mantém

(no oceano mar
lugar das indiferenças)

17/06/2010

do sentimento das coisas (II)

consigo finalmente me comportar dentro dos limites de rio estreito que sou. não mais transpor a linha frágil dos contornos de mim e transbordar. seguir a sina dos rios pequenos: não saber dos abismos nem do sal. o som da fonte próxima seja acalento - pássaros quando amanhecer e o florescer dos lírios - na noite inevitável.

15/06/2010

tempo quase


wind from faraway - nakagima kioshi


vento de longe

gravetos e segredos

antigo sopro

menina quase moça

tempo quase de voar
&

14/06/2010

(XXII)

um sol imenso
lá fora
insiste

em me dizer
que ainda
é dia

hoje
não faço poesia

vivo o dia de sol

(XXI)

desértica
fratura incidental
combate vivo entre terra e mar
sexta-feira se encontram
no infinito não oceano lugar
montanha
onde as ilhas esperam
antes que as águas
as inundem
causa e razão de ser

12/06/2010

(XX)

perdida faço versos
palavras me orientam
no caminho me sinto
chego
ao ponto final

sem rumo

trilha que me leva
margem de rio
estrada de terra
serra
mata fechada ciclo

via

o som da cachoeira
moto perpétuo
tenho sede
sou ave me atiro
sigo os sinais

o vento o sol o vento

telúricas correntes
migro
mas sempre volto
ao ponto de partida
eu perdida

estrada estrada estrada

10/06/2010

(XIX)

cinzento este outono
e seco

saúdo o sol

que se esconde atrás
de cada nuvem

e sigo

na trilha que se abre
a cada passo

do dia

- corte que não se fecha
senda

vereda, atalho, cicatriz

07/06/2010

(XVIII)

pardos
somos todos ao pôr-do-sol

quando tudo se iguala
e a vida se nivela

(átimo)

.
.
.

até que as luzes se acendam
e nos revelem

(gatos)

05/06/2010

(XVII)

assim o céu assim
manhã - dourado prateado rubra pepita diamante sol

tarde - rastro de pedra
preciosa pedra turquesa índigo blue anil azul extremo

noite - manto velado denso veludo em tons de abismo
absoluto

profundezas atlânticas
lua pérola gigante estrelas meninos cavalos marinhos

oceano mar espaço infinito onde meus olhos navegam
antes do chá

04/06/2010

(XVI)

a água na chaleira ferve
é madrugada já - a erva é doce
a camomila nem tanto
tisana de perfume suave
perfeita para mentes distônicas
(talvez me adoce a alma)
robótica a mão apaga o fogo
os olhos pesam
(como o nada é pesado)
autômatos os pés se arrastam
zumbi o corpo se atira na cama
mergulho suicida
no vazio onde as dores evaporam
até amanhecer

01/06/2010

um poema de Lalo Arias*

de passagem

Deito sempre entre duas e três horas da madrugada.
É sempre o melhor momento. É quando a vida aparece.
É quando ela volta sozinha ao lugar onde nasceu.
Sonho com uma cidade indistinta até me tornar rua.
Tenho tanto de você em mim que acredito ser você.
Um acorde flutua, aperto o parapeito até converter-me
em música e execução. Vejo o asfalto num relance.

Assim mesmo, num relance.

*Este é um poema do livro “Cidade Desaparecida", que Lalo Arias lançou neste final de semana durante o Festival Literário da Mantiqueira em São Francisco Xavier. Tive o privilégio de ler em primeira mão e confesso – pura emoção. Acompanhei os poemas conforme publicados no blog do poeta, mas a leitura de um livro no papel é uma outra história.

Costumo dizer que a poesia de Lalo não se lê simplesmente - se assiste - tão claros os cenários, os tons, os sons dos poemas. Impossível ficar indiferente. A cada leitura - uma fisgada, um aperto no coração. “Poesia que não toca fundo, não vale”. E a do Lalo toca.

Deixo aqui um fragmento do prefácio escrito por Nilo Oliveira:

“O Lalo Arias está longe de ser um escritor de primeira viagem. Muito pelo contrário. Cada um dos seus poemas demonstra, nas entrelinhas, um vasto conhecimento não só dos cenários, mas também dos habitantes deste planetinha azulado e de suas órbitas tontas – este “porco-espinho a rolar sobre si mesmo”, como muito bem o definiu Gregório de Mattos Guerra – escritor que inaugurou, no Brasil, uma linhagem poética avessa ao “beletrismo”, aos panos quentes de retalho acadêmico – linhagem da qual, ouso inferir, o Lalo faz parte”.

Mais notícias e informações sobre o livro e o poeta, vocês encontram no blog LALO ARIAS.

(XV)

ando pelo mato com meus pés vermelhos em busca de sementes. se não as encontro, avôo - e caço a semente no ar.

morasse na cidade teria os pés cinzentos comeria pedras e voaria. sou bicho sortudo: moro no mato e avôo.
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