30/07/2010

outro poema de Else Lasker-Schüler*



Despedida

Mas tu nunca vinhas com a noite –
E eu sentada com casaco de estrelas.

… Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.

Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta.

Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.

Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.

Mas tu nunca vinhas com a noite
… E eu de pé com sapatos dourados.

*a alma e o caos

28/07/2010

das águas

sabe
não sei
achei que sabia
sei não
acho
que saber
é quase nada
é pouco
é poço
sem fundo
prefiro
as águas claras

(ou obscurecidas)
do sentir

23/07/2010

partilha

na noite seca
brilho de estrela única
no céu de tantas
(possíveis e prováveis)
umedecem meus olhos
- partilhada dor

22/07/2010

um poema de Else Lasker-Schüler



Cansaço

Todos os brancos sonos
Da minha calma
Caíram na fímbia escura do firmamento.

Ora a dúvida cobre minha alma
E meus sonhos são produtos do tormento.

Ah, queria dormir de anseios livre
Saber de um rio fundo, como o que em mim vive.

E fluir com suas águas...

21/07/2010

canto

o verbo se desprende
do véu

da boca

bando
de pássaros brancos

em vôos rasantes

pequeno céu muitas asas
palavras são

penas

(sopro)

19/07/2010

céu de sonhar

a tarde seca
um céu de cerejeiras
primeira estrela

até as pedras sonham
com as asas que não têm

18/07/2010

avessos e espelhos

dentro de mim mora outra - meu avesso

quando olho no espelho
é ele (meu avesso) que vejo

nos meus sonhos
é ela (a outra) que atua como num filme

na memória mais antiga é ela que sorri

é meu reflexo
que caminha pelas ruas – olhos em chamas

tanto sol

enquanto (quem?) cativa se debate
no buraco do espelho onde (obtusa mente)

vive no escuro

16/07/2010

resignação

palavra indesejada
jamais proferida
banida
do vocabulário
depois esquecida
agora enfim
expressa
pronunciada
de forma lenta
soletrada
e o gosto dela
amarga
o céu da boca
amarra a língua
faz salivar
e o cheiro
é de bolor de gaveta
de mofo de porão
de casa abandonada
de túmulo vazio
aberto
à espera do corpo
resignado

14/07/2010

lugar

quero um lugar
só meu
este lugar é aqui
este lugar nenhum
lugar algum
é onde
é onde não estou
neste lugar eu sou

(ninguém)

esquinas

faço versos porque já morri
tanto e tantas vezes
mas não encontro o caminho de casa
onde era mesmo que eu morava?
no acaso me lanço
no espaço em branco longe dos apegos
flutuo
há uma curva no rio – havia mesmo um rio?
tinha botas de sol – ainda tenho pés?
há um lugar onde as almas se encontram
os corpos são frascos
de vidro - não eram potes
de barro?
há janelas que nunca se abriram
cortinas transparências
o vento - havia mesmo o vento?
podia ouvir seu sopro
ao menos uma carta eu poderia ter escrito
na próxima esquina quem sabe
no próximo verso

12/07/2010

um poema de Velimir Khlébnikov

Basta-me um mínimo:
lasca de pão,
gota de leite
e, céu acima,
nuvens alvíssimas.

mais de Velimir Khlébnikov

11/07/2010

meio dia inteiro

1-

meio dia inteiro
princípio da tarde
e o sol desmaia

não sei de tristeza
ou de paixão

2-

fim da tarde
desfalece de vez o sol
ante meus olhos plenos

o dourado no céu revela:
era tristeza não

09/07/2010

mínimazul e outros tons

1-

um céu inteiro
refletido nas asas
- mínimazul

(brabuletinha)


2-

é tanto mato
que meus olhos escuros
enverdeceram

meu coração é ninho
asas que te quero

(céu)


3-

privilégio acordar
entre tons
de azul e verde
face vermelha do sol
que sonhei

07/07/2010

última flor

terra exaurida
cansada

entregue...

oferta
sua última flor

05/07/2010

ilha


(sou) ilha
que se afasta do que foi
l--e--n--t--a--m--e--n--t--e

sonhando
com seu (meu) pedaço
c--o--n--t--i--n--e--n--t--e


04/07/2010

moldura

é noite. teclado negro letras brancas maria à minha frente me olha. menina palestina pele negra vestido vermelho numa das mãos a pomba da paz. romãs damascos mel e flores do deserto distante o som da bomba que desfaz. letras são rústicas molduras - p a i x p e a c e p a z p a c o p a c e p a i x s h a l o m s a l l a a m s h a n t y s e l a m v r e d e p a k e h e t e p r a h u a s h t e i r i n i m i r h e i w a s u l h p h y o n g h y w a e m i r e m b e p a c i s u l a p o k o j p a s c h m i e r s u k u t h u l a a s h t i p a z 和 平 평 화 ε ι ρ ή ν η ש ל ו ם м и р س ل ا م ص ل ح 平 和 ค ว า ม ส ง บ - brancas as pombas parede e papel a tela à minha frente brancas areias e bandeiras a fita no cabelo a nuvem no céu. a paz miragem nos seus olhos a paz colada em suas mãos a paz moldura que esfarela diante dos seus - olhos incrédulos. a ave se debate a ave prestes a fugir a ave. árido e frio o deserto se impõe. é noite.

tempos difíceis

que tempo é esse, em que a solidão é quase benção
e outro o inimigo a ser temido...?!

01/07/2010

olhos de doer

um cão estranho me olha e segue
com seus olhos de cão

estranho

olhos de ser feliz os olhos do cão

não vai saber nunca
dos humanos olhos fundos de doer

tanto
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