30/11/2010

por que chove

1-

parece sorrir
depois de longo estio
a boa terra

2-

a chuva mansa
restitui à paisagem
a face verde

3-

terra molhada:-
faz despertar a chuva
a flor cansada

29/11/2010

apenas o vento

tudo parece tão novo
tudo tão claro
e foi apenas
um vento breve
que soprou cortinas
e eu pude ver lá fora

28/11/2010

só mar

tenho o peso dos náufragos
olhos vermelhos
garganta seca
pele queimada
nem ilha nem
continente
[ ...só mar
um abismo à minha espera
e meus braços colados
à tábua em que flutuo


Ana Teixeira me publicou hoje no sombras errantes um blog à deriva, como eu. Ana também é autora do site Um Buraco na Sombra, um refúgio para sobrevoar o esquecimento. Todos convidados para um vôo - ou um mergulho.

E no EITA, um pássaro insiste e canta.

E no Teatro da Vida, o poeta é pura... vertigem.

azul pequeno

cansaço
é tudo que sinto
mentira - não sinto
rompido o limiar
entre a exaustão
e o abandono
redemoinho no mar
sou peixe azul
pequeno
que se deixa levar

27/11/2010

sobre nossas cabeças

ágoras pós-modernas: há monges lá fora
cantando salmos, entoando mantras
não são espelhos - são poucos
destoam
dos muitos iguais
tenho medo
do homem que faz a bomba
duplica seres, conquista o espaço
mas não respeita
o espaço do outro
(seu igual pelo avesso?)
em cavernas ainda
nem descobrimos o fogo
que nos iguala
quando nos torna cinzas
[... e o fogo do espírito
o tempo todo sobre nossas cabeças
animais

26/11/2010

alma

o poeta
tem métrica na pele
na língua, nas mãos
tem mente ritmada
simétrica visão
tem métricos ouvidos
compassado coração
mas sua alma é pura
[... vertigem

25/11/2010

- -

sereno, o lago
pois que não me reflete
[... ou
seria mar

- -

um haijin
abre a janela --
desperta um haicai

24/11/2010

dos dias

em que tudo em mim desacontece --
desamares descantares desires
desaveres desseres
desceres
v
e
r
t
i
g
i
n
o
s
a
q
u
e
d
a

*Meu farol, no Redoma. obrigada, Betina, beijo!

23/11/2010

nenhuns

singelos ou loucos vamos
fazendo poesia
pois que somos todos
uns ou outros
ambos talvez
nenhuns

21/11/2010

a casa que sou

não deixo mais a vida escapar
pelos vãos dos meus dedos
quando ela for areia
ergo castelos
(ainda que breves)
e quando ela for terra
se não chover, salivo
e moldo
tijolo por tijolo
até erguer a casa
que sou

rezar a vida

um homem
caminhou sobre a terra
e era Deus
(aquele que para sempre
servirei)
sem trono, sem cetro
descalço
— Salve, Cristo Rei!

pressentimento

medo
da dor desconhecida
medo
do veredicto da lâmina
medo
da palavra pressentida
que pode ser
sim
que pode ser
não
que pode não ser
mais
que a fuga de um olhar
perdido
a perguntar outra vez
por quê?
[... nenhuma lágrima

20/11/2010

esfinge

linguagem é signo
que já não compreendo por inteiro
códigos que já não decifro
símbolos de uma era
(meu tempo já era)
meus versos são
parábolas
para uma gente tipo assim
... humm
monossilábica
engolidores de letras
corruptores da gramática
eu, dramática
tenho que aprender a ser
enigmática
no deserto hodierno
linguagem é esfinge
(autofágica)
que a si mesma se decifra
e se devora

19/11/2010

imaginária linha

às vezes acho que longitudes
já foi longe demais
[... greenwich
cada vez mais distante

18/11/2010

Noturno - Tankas da Madrugada*

33.

Voz em que se basta
cata decifrar palavras,
mistérios dos sons.

Quanto a mim, subo montanhas
pra ouvir em meios tons.

42.

A desesperança
é fêmea que traz na boca
a palavra algema.

Quer vencer o sortilégio?
Vista o mundo de poema.

131.

A lágrima diz
a palavra de metal
com brilho no traço.

Corta fundo o sentimento
seja ouro, prata ou aço.

135.

Vou esvaziar
conceitos e preconceitos
para transcender

a chama das diferenças.
Concede-me um Saara.

*Poemas do livro 'Tankas da Madrugada' onde poeta Cloves Marques presta sua homenagem ao centenário da chegada da primeira leva de imigrantes japoneses ao Brasil(1908/2008).

"Cloves Marques conhece a katana do samurai, mas é como se empunhasse o punhal de Lampião que escreve seus tankas. A Forma é japonesa; a alma, nordestina."
Raimundo Gadelha

dos acontecimentos

romper
com o que foi escrito
desdizer
criar
pressupõe afrontar
o nada
que antecede a toda
criação
e suportar a dor
de abandonar
a terra
escura e quente
e se atirar ao vento
e à luz
depois seguir
na direção do por vir
sem nunca saber
o que vai encontrar
do outro lado
do muro
(que nem é assim
tão alto
)
então
se atirar em pencas
e em flores
ávidas
e absurdamente
lúcidas
na direção soprada
pelo improvável
acontecer

16/11/2010

felinos

todas as casas têm
seus felinos
na minha mora um gato
(do mato)
leo pardo domesticado
que com meu par
de olhos de lince (míopes)
encontrei

outros felinos aqui.

15/11/2010

colagens

colibris camuflagens rubis
palavras em ens
palavras em is
paisagens aragens anis
colagens que fiz
tentando fazer
um poema
feliz

o poeta Sidnei Olivio me publicou no regna naturae -
um blog muito especial, que convido todos a conhecer.

quatro janelas

exalam perfumes antigos de algum velho jardim
murmuram dissonantes acordes:
é Vera no acordeom
lampião de gás
é sempre a mesma música que toca
enquanto
dona Maria na janela espera
a vida se pôr
colchão de mola suporta meu corpo pequeno
nem se deforma
(sou menina)
e as quatro janelas estão fechadas
há frestas
por onde entram: canção perfume vagalume
pressentida saudade
[ ... e Vera onde andará?
lampião de gás não ilumina mais
nem toca
dona Maria é apenas uma sombra
na janela da casa que ruiu
(nenhuma fresta)

14/11/2010

...

hoje é domingo, véspera de feriado
só mesmo quem não tiver nada pra fazer
e se estiver sozinho
estará por aqui, como eu
tentando dizer algo tipo assim sei lá
nem sei
acho que as palavras também foram viajar
agora sim, me sinto só
[... sol preguiçoso ensaia pra sair
que pena
ser quase hora de sol se pôr

Um poema meu por aqui: EITA! :)

13/11/2010

o homem do farol

1.
amanhã
o dia vai ser bonito

o sol mais uma vez vai colorir
a multifacetada crosta
da terra

mesmo vazia - a casa
portas e janelas abertas
irão saudá-lo

2.
em algum lugar
um velho barco regressa
(velas feridas tanto sal)

olhos aflitos
braços abertos que se fecham
em

abraços

quantos faróis no caminho e o homem
do farol
como suporta

enquanto gira
o velho artefato a indicar por onde
ir

3.
de que lugar escuro a concha
que vai secar

de onde os pássaros que povoam
a ilha

o vento que sopra nuvens agora
e deixa
um pedaço de céu estrelado

(posso ver)

4.
quantos cabelos e varais mulheres
lavadeiras quantas

lençóis quarados sobre pedras quentes
quantos

amores sobre
lençóis

quantos nãos

camas vazias mãos
quantos olhos
homens e mulheres na sina

dos dias iguais

5.
ondas que se quebram areias quentes
o galo
prestes a cantar

um pio
é quase dia

(vai ser bonito)

pesam meus olhos na janela
renasce a vida

me entrego

à quase morte do sono
da lida
sem sonhar

6.
cheiro de café com pão
em algum lugar
dizem

que o homem do farol é feliz

12/11/2010

o não sonhado

queria ter sido - não foi
já foi já era - foi
de certa forma somos
também o que não fomos
pois sempre estamos
se estamos - somos
o que pudemos ter sido
(até além do imaginado)
o não sonhado é
o que chamamos vida

chão descoberto

chão descoberto
onde me faço e me descubro
até que me cubra
e eu me desfaça - em chão

10/11/2010

repercussiva

queria um outro tom na minha poesia
mas ela tem as cores daquilo que sou
ou seja - nada
no fundo branco letras
que não dizem
no ritmo exagerado do vazio que ecoa
onde o último grito é ressonância
repercussão de um som agudo
atávico
bem muito mais antigo
do que eu

09/11/2010

um poema de Hilda Hilst

Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.


Hilda Hilst. 1959.

diário dos meus sonhos (I)

hoje no meu sonho tudo era triste. meu pai dizia dos sapatos pequenos sempre menores que seus pés. tia Neneta dizia dos amigos que não vieram para o velório do Nonno. meu pai dizia: — melhor assim. a tia lamentava: — mas ele ficou triste. Dona Janda, amarela inteira, vinda de uma cidade sem fronteiras, chorava pelas ruas de pedra que já não reconhecia. Dulcinéia soluçava enquanto escolhia maçãs na feira livre dizendo que até a Neide estava indo embora — todos estão indo embora. e agora? lágrimas rolavam dos olhos atônitos de Dulcinéa e percorriam os sulcos profundos da sua face cinzenta.

sempre na cabeceira da mesa, meu pai se lembra dos sapatos ortopédicos que tio Nelo ganhou, menino, do primo rico de pés tortos. único par para ir à escola — na hora do futebol, a coisa complicava. o tio chutava para um lado, a bola ia para outro. meu velho pai sorria. sorriso largo, olhos brilhantes, que logo se apagavam — quantos dos nossos ainda terão que caminhar com os pés apertados...? ao lado dele, Lúcia marcava uma consulta no ortopedista, no telefone preto de manivela, o tempo todo ocupado — está ficando insuportável caminhar assim.

acordo com a estranha sensação dos pés formigando, olhos inchados e o telefone da sala tocando alto.

08/11/2010

com verso fiado*

faço versos porque não tenho
com quem conversar
falo com o verso
e o verso me responde
quando ele fala eu ouço
e o traduzo
no fundo, é tudo
conversa fiada
com verso sem verso
a vida é barra
e ponto
(ou dois pontos):
está pronto o poema
que não fiz

*Título que peguei emprestado do blog de Thiago Cervan, um poeta que faz versos afiadíssimos, num estilo e forma que me agradam muito e que por acaso também mora em Piracaia. E só descobrimos isso hoje. :)

...


adriana esposito

Bono dodói.
Tia Tânia, injeção --
Dia de cão.

07/11/2010

desisto

Bashô Leminski
- e o meu haicai
não sai

do que não quero saber

estio
falta-me a chuva
desoras
falta-me o tempo
charrua
falta-me a terra
semente
não vai brotar
a flor
não vai nascer
o vaso
não vai estar
na mesa
sempre vazia
insistem
meus olhos tolos
procuram
não vão achar
não sabem
nem vão saber:
que a flor é utopia

06/11/2010

cenário (II)

as águas do lago estão vermelhas (barrentas) como se alguma coisa removesse o fundo, sob um sol imenso hoje estranhamente azul, num céu que de repente enverdeceu.

apenas as nuvens (previsivelmente brancas e densas) guardam alguma lucidez e prepararam as chuvas (que hoje inevitavelmente virão) a remover as tintas do meu delírio vesperal.

um pássaro solitário mergulha e submerge. quando vierem as chuvas, o pássaro retorna. brilho nos olhos, asas vermelhas, na boca o sabor do abismo e o coração em chamas.

nunca mais a leveza das asas secas e a pureza das margens - pássaro da vertigem agora. um raio - enfim, a chuva: e o cenário se desfaz.

05/11/2010

Tinteiros, tintas desenhadas




by Constança Lucas

Artista visual, poeta e professora de artes visuais, Constança bloga no Imagem e Palavra Constança Lucas, e tem poemas e desenhos publicados em jornais, revistas, livros e vários sites. Considero o trabalho de Constança simplesmente genial, especialmente seus poemas visuais. Mas este tinteiro para desenhar nuvens... É bonito demais. A série completa, AQUI, no Cronópios - "sonhos traçados à mão".

o corpo só*

o corpo só
----------quer
----------quem
----------queira
----------bem
o corpo
só quer
quem queira
bem...
----------o corpo
----------
----------quer
----------quem?
queira bem
que o corpo
é só
a alma também


* Título e um blog que gosto muito: o corpo só

04/11/2010

...

alimento e cor
canteiro em flor (vermellha) --
pássaro feliz

03/11/2010

mimética (I)

moro
no coração da montanha
(de certa forma sou
o coração da montanha)
árvores
estendem seus tentáculos
rumo ao sol
(de certa forma
são meus braços)
pássaros
são muitos e cantam
(de certa forma
sou o canto dos pássaros)
-----------fecho meus olhos:-
-----------me atiro
abro minhas asas:-
flutuo

02/11/2010

roda d'água

dentro de mim
concomitantemente nasce um poema
enquanto um outro morre
moto perpétuo
roda d’água que move a lâmina
que faz serrar a pedra (bruta)
e faz brotar a flor

dias especiais


O jovem Wallace

"Não é todo dia que o mundo
se organiza em um poema."

Wallace Stevens

01/11/2010

...

a pedra escurecida
do túmulo abandonado
é de todas
a imagem mais pungente
do esquecimento
e as folhas secas
sopradas pelos vento
definem o cenário
da mais absoluta
desolação
[ pálidas e frias
flores de plástico agonizam
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