31/12/2010

cordão umbilical

outra vez tragado pelo vazio
o nada
o fundo do mar
o fundo
o leito do rio
o leito
o abismo
o espaço infinito
onde
finalmente flutua
para sempre
perdido
da nave em que veio
clarão
a se desintegrar
na órbita
incandescente
de um planeta pequeno
para sempre
azul

germina literatura

Caros, acaba de sair do forno a nova edição da revista Germina, onde tive o prazer de ter alguns dos meus poemas publicados. A edição está super bonita e a Germina, vocês sabem, é um espaço que já se tornou referência em literatura, com um trabalho sempre primoroso de uma equipe de feras. Todos convidados. Abraços e Feliz 2011!

29/12/2010

ausência

a tua ausência
teceu em mim
um longo e áspero bordado
de silêncios
e pedras

gerais

minas
não há mais
e agora? o que haverá
onde minas havia
e já não há

28/12/2010

pressentimento

há sol
o pássaro
no entanto pressente
que no final do dia vem
mais chuva

memória

hoje
cada rosto
em branco e preto e pó
na fotografia - parece
sorrir

27/12/2010

três poemas Adelaide Crapsey



O rio
percorre o vale
e diz-me o barco, o mar,
enquanto o sol se entrega à morte
no olhar

Presságio

Agora mesmo
de fora do estranho
silente crepúsculo... estranho como ele, silente como ele,
uma mariposa branca esvoaçou. Porque fiquei
tão fria?

Tríada

são três
coisas silenciosas:
a neve que cai... a hora
antes da alva... a boca de alguém
que acabou de morrer

Adelaide Crapsey e aqui

destino

pobre rio
não vai saber
do mar

é rio pequeno
vai secar

26/12/2010

pleonasmos

alguns poemas traduzidos
outros deglutidos
na sua própria língua
notícias de jornal
instantes vividos
fragmentos
colagens
sentidos
matéria-prima
com que o poeta tece
a sua teia
(mosaico)
na velha vã esperança
de um dia
a si mesmo se traduzir

. . .

reencontrei
às margens do velho rio
os lírios brancos
foi meu melhor presente
neste natal
[... perfume

25/12/2010

. . .

hoje tive certeza
que a boniteza
está na singeleza

e a rima
a rima é uma riqueza

24/12/2010

dos sentires do tempo VI

aquela dor antiga
já nem dói tanto
e toda urgência
agora é calmaria
o tempo nos molda
e hoje
faz tempo bom
faz tempo
faz
de mim teu espelho

. . .

tão rara, tão doce
tão frágil, tão breve --
a flor da infância

23/12/2010

preciso

o silêncio se impõe agora
inevitável, cortante, pleno
como todos os silêncios
que não são
a negação da palavra
apenas respiro
profundo
preciso
instante mais escuro
antes
do primeiro sol

22/12/2010

. . .

um tom vermelho
na pele clara da manhã –
outra vez verão

meu poema de natal

meninos são reis
também já fui rainha
menina
bonito acreditar
que nas noites escuras
nasce um menino
que além de rei
é luz
eu creio
nesse menino jesus

21/12/2010

sem palavras

Se ontem as palavras eram poucas, agora me faltam por completo. Aliás, toda vez que leio Julio Rodrigues Correia fico quase sem voz, diante da força e da beleza de seus versos. Estes, publicados no Acroatico, me deixaram sem palavras... Abraço forte, Julio e que 2011 nos traga teu livro e quem sabe, o meu. :)

algumas palavras

que cabe ainda
neste meu mundo tão pequeno
senão
um pedaço de céu
visto da minha janela
um quarto de lua cheia
e estrelas
cada vez mais distantes
(um cão
preguiçoso no quintal)
no quarto ao lado
suspira
a velha senhora
(como suspiram os velhos
em seus sonos breves)
palavras pequenas
palavras
cabem ainda
no meu pequeno mundo
algumas palavras - algumas
palavras

20/12/2010

. . .

ainda nos meus olhos
traços de ternura

muito bem escondida
sob meus óculos de sol

19/12/2010

. . .

a solidão é pássaro
que se perdeu do bando
não vive:- pena

18/12/2010

. . .

velha janela:-
cachos de várias cores
no mesmo impulso

na vertigem do abismo
nós, organdis e flores

Ave!

[aos amigos e leitores de Longitudes, um bom Natal e um feliz 2011!]

Ave, novo dia!
Ave João, Ave Maria!

Voemos, oremos, aventuremos -
sonhemos

Seremos pois, o que quisermos
Ousemos ser (serenos)

Evas, uvas, uvaias!
Urros, uivos, vaias!

Quantos avos?
Vermelha calda -

Romãs. Ramos de trigo:
Dai-nos pão e alegria (abrigo)

Evoquemos:
Asas, remos, mares - adentremos!

Mergulhemos:
Vida. Terra. Céu - ainda somos!

Celebremos!
Enquanto pudermos

E quando e como e se:
Amém!

coleção Lena Gal



Pensando com o coração

16/12/2010

. . .

1.

lágrima é chuva
nos olhos da menina
que sonhava sol

2.

sabe do tempo agora
que a vida é temporal

das imperfeições

vi outra vez o menino
o menino
sem pernas
só tronco e um braço
o esquerdo
vi o menino e sua amada
menina
bonita que só - perfeita
[... tive pena
de mim
o não_amar é a maior
das imperfeições

14/12/2010

kalaharis

dançam as salamandras dentro
dos nossos olhos
quando miram fogueiras
enquanto leopardos
devoram nossas carnes
lentamente
e sobre nossas cabeças
nuvens de anjos sopram
brisas e orvalhos
e chovem lágrimas
num esforço supremo

assim não fosse
há muito, a terra inteira ardia:-
que o inferno é aqui
onde também paraíso

13/12/2010

no estalo da palavra

O poeta Jorge Elias Neto me publicou hoje no seu blog - Jorge Elias Neto - o estalo da palavra. Obrigada, Jorge. Uma honra estar na casa de poeta tão brilhante.

Aproveito para convidá-los a leitura de alguns de seus poemas no portal Cronópios.

11/12/2010

comuns lugares (I)

o mundo desaba
sobre sua cabeça
e ele ali
ouvindo blues
no radinho de pilha
único bem
que lhe restou inteiro
da hecatombe medonha
que devastou seu dia
[ e além de tudo
chia

dois haicai de Cloves Marques

Invoquei Bashô,
mais de três séculos depois:
eu e a lua cheia.

*

Celebramos hoje,
domingo de primavera,
Bashô encantado.

*Feito em comemoração aos 316 anos de encantamento de Bashô.

10/12/2010

patético (humano)

tenho pena do goleiro
patética figura (tão humana)
sempre à espera
do que não pode ser
eternamente
contido

09/12/2010

pastora

e finalmente me torno
guardadora de lua
na janela da insônia:-

pastora de estrelas
no curral do céu

08/12/2010

poema: -

cantos ou gritos
de almas milenares
manifesto do verbo:- o do princípio
que multiplica e se renova
em vozes tantas
quantas
suporta o universo
(ouvidos de silêncio
olhos de estrela)
a ler-nos, versos que somos
tomos (sagrados)
do grande livro:- o da palavra viva

tácita

do meu poema tolo
tosco
todo torto
tenho pena
[... tédio
é tudo tão
torpe
- não me traduzam

06/12/2010

campos e céus

há estrelas no céu
e vagalumes
no campo
em frente
à casa onde moro
não posso vê-los
(a luz
da cidade me cega)
quando vier
o grande temporal
e as luzes
se apagarem
noite plena
enfim
onde tudo brilha

05/12/2010

mais que um presente



Ganhei!!! Um Livro da Tribo, no sorteio que a poetíssima Valéria Tarelho promoveu no seu blog Textura. Um super presente, de uma super poeta.

Para quem não conhece, o Livro da Tribo é lançado anualmente. Mistura de agenda e livro, com um conteúdo variadíssimo, ilustrações incríveis, cada página exibe um texto, que pode ser um poema, citações, informações interessantes sobre ecologia, literatura, arte, etc. , numa grande mistura de estilos, cores, tendências e idéias.

Ganhei o meu primeiro em 1993 e me apaixonei. Tenho vários e não me desfaço deles por nada. As capas são lindíssimas. Mais informações sobre o livro, na Editora da Tribo. Mais da poeta, aqui.
Obrigada, Valéria! Beijoos.

orientando-me


vento e pássaro
me ensinam

lições de liberdade

fecho meus olhos
e então

[... flutuo

03/12/2010

os cinco cães (ou espelho)

a um amigo solitário, que amava os cães
e era amado por eles

na morte se denuncia como foi a vida
tão poucos o acompanharam
até a última morada
alguns alunos da neurologia ficarão sem aulas
por alguns dias
a universidade, sem o seu diretor
o hospital modelo
sem um de seus sócios fundadores
os pacientes terão que decidir
por um outro rosto que lhes dê alento
algum espanto – nenhuma dor
os cinco cães
devem estar chorando
em algum canto
da casa vazia

do que transborda

1.
chove

montanha se esconde
atrás do cinza

2.
águas escorrem no fio
em frente

a meus olhos

3.
pássaros ousados
desafiam o medo

e a chuva

4.
a estrada continua
levando

e trazendo

5.
as pedras das ruas
perderam a conta

das chuvas e dos sóis

6.
telhados emboloram
e os muros

talvez meus olhos

7.
meu cão se esconde
no vão pequeno

entre o chão
e a prateleira

(esconderijo antigo
dos fogos de artifícios

dos raios e trovões)

8.
no asfalto próximo
um homem pedala

desafiando as poças
e os pingos

9.
vida tão antiga

mas tudo sempre tão
novo

10.
não é a mesma
a fumaça

do velho chalé?

11.
pingos escorrem nos fios
até onde suportam

depois desabam

12.
retrato da vida
nas minhas fotóbicas

retinas

13.
bendigo a chuva que não
me fere

os olhos

14.
bendigo o sol que aquece
e cora

a minha pele branca

15.
bendigo a vida
que hoje é enxurrada

16.
sumiram as montanhas
completamente

17.
fecho a janela
mas não fecho meus olhos

18.
a música das águas
me leva

onde a estrada não levaria

19.
ouço cantar
o rio da minha infância

20.
ele me diz que outra vez
é tempo

de transbordar

01/12/2010

do esquecimento

vaga lembrança
do tempo
em que a noite era mais
que o esquecimento
(ensaio
para o definitivo e último
sono)
sinfonia improvisada
ato
que não se sabia quando
final
ensaio para a vida
tão breve
quanto o cair do pano
vermelho
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