29/04/2011

ciente da minha humana condição
precária e efêmera — ouso
desafiar os dogmas
pós-modernos
e creio
no único Deus
criador de céus e terras
e em seu filho
creio também em seu espírito
que paira
sobre as águas do planeta
e sobre nós
creio e professo minha fé
na vida
que não termina por aqui
voraz o dia — membro da matilha
dos predadores de nós
manso quando amanhece
— uiva
a cada por do sol
[... quando arranca pedaços
faz vento
onde mora meu Deus — palavra
que me vem feito brisa
quando meu coração fraqueja
(humano)
e sente dor

27/04/2011

agora sente saudades
do vácuo
em que flutuou por longos anos
era tão terno e claro
o aquário vazio
mas como dói ter saudades
assim, de nada
e os olhos do gato
o tempo todo à espreita
sem ter amigos
o poeta se faz presente
o poema é seu presente
e ele o oferta
aos amigos que não tem

23/04/2011

mais só
que o morto a lua e o louco
de Cooper
se debruça na janela
e segue
o arrastar sinuoso
de uma lagarta de fogo
sobre a parede quente
do sol do dia

21/04/2011

escrevo porque sim
se não
não sei
o que seria de mim
escrevo, por que não?
nem sei
o que seria
se não fosse assim
[... então

20/04/2011

angustia é lâmina
mais
que afiada
e no seu corpo
já não cabe
mais
cicatriz
respiro fundo
trago os olhos vermelhos
do ar de outono

18/04/2011

ZUNÁI- Ano VII - Edição XXII - Março de 2011

Amigos, acaba de sair a nova edição da Revista Zunái, como sempre, impecável, com ensaios, poemas (incluindo alguns meus inéditos), entrevistas, traduções, etc. Na galeria: Gabriela Marcondes. Mais uma belíssima edição. Fica aqui meu convite para leitura. Abraços!    
luar de outono
mariposa mergulha
no espelho d’água

17/04/2011

o banco de madeira apodrecida
mais velho que a casa
já tão velha
viu brotar
a árvore
viu crescer
a árvore
agora já tão velha
que viu
o primeiro balanço
cujas cordas já se romperam
há tanto tempo
mormaço
exatos
30º
desiste
abre janelas
respira
(jasmim
lhe deixa
tonta)
ninguém
na rua
(um cão
sequer)
queria
ar
alguém
a lhe dizer:-
vai passar

16/04/2011

então finalmente
quando ele dói e sangra
(o bruto
coração)
é dado o sinal:
foi encontrada a mina
onde habita a palavra
bruta
jóia rara / lâmina

15/04/2011

cava fundo no peito
tenta encontrar
a palavra escondida
é preciso ir além
da epiderme
dilacerar a carne
romper nervos e veias
ver transpassado
o bruto
coração

14/04/2011

um poema de John Berger


My heart born naked
was swaddled in lullabies.
Later alone it wore
poems for clothes.
Like a shirt
I carried on my back
the poetry I had read.

So I lived for half a century
until wordlessly we met.

From my shirt on the back of the chair
I learn tonight
how many years
of learning by heart
I waited for you.


Meu coração que nasceu nu
foi logo envolto em canções de ninar.
Depois sozinho se vestiu
de poemas como roupa.
Como uma camisa
carreguei nas minhas costas
a poesia que li.

Assim vivi durante meio século
até que sem palavras nos encontramos.

Com minha camisa no encosto da cadeira
esta noite descubro
quantos anos
lendo meu coração
Esperei por você.

11/04/2011

festa

pequena, minha aldeia
nela cabe uma casa
com quintal
(onde mora um cão)
e crescem flores
nas frestas
que se abrem no chão
(meu canteiro)
onde pássaros pousam
e caracóis azuis
rastejam
(uma festa)

08/04/2011

brilha lá fora
a lua fatiada --
hoje dourada
as coisas não tem paz
até o que não vive se contorce
e o que vive se deforma
(ainda não sei
se inércia
é tender para o nada
ou para o fundo)
pífaros soam
enquanto o vento roça
as rotas
cortinas de crochê
de algodão cru
(a vida é sopro)
neste momento exato
do poema

07/04/2011

já é abril?
vou abrir as janelas
e ouvir o vento

06/04/2011

alguém me disse que a vida passou
e eu não estava lá
juro que não vi — da minha janela
a vida passar
— esquiva

05/04/2011

c. q. d.

acordo cedo e abro a janela que dá para o quintal. depois de tanta chuva, solzinho sem vergonha aparece. aproveito que Bono saiu pra passear - desço depressa. de repente me vejo ali, de pijama, chinelos, descabelada - ai que saudades da minha antiga juba - vassoura na mão -limpando a sujeirada do meu cão. acho graça. que diriam de mim meus leitores se me vissem assim? não que eu seja muito diferente disso mas... entre o poeta e a pessoa - quanta diferença. um dia acreditei que nossos versos nos revelassem. mas não - nada nos revela. nem nossas imagens desfocadas em nossos mínimos perfis. nem nossas pequenas ou grandes biografias - nada. somos incógnitas. inclusive - e sobretudo - pra nós mesmos. equações impossíveis. soluções vazias. perdida entre inquietações e rabiscos, vejo Bono chegar. o tempo como de costume voa e o sol outra vez se esconde. deixo a limpeza do quintal para amanhã, que é dia de Marlene. entre panos e baldes, sabão e vassouras, ela sim é feliz. é o que é. sem conjecturas. sem expectativas. sem poesia. recomeça a chover. não temos mesmo o controle de nada. c. q. d.
English French German Spain Italian Dutch Russian Japanese Korean Arabic Chinese Simplified