31/05/2011

mas para onde foi a menina que fui?
tenho dela apenas um retrato
desbotado
um sorriso não decifrado
e os olhos longe
que ainda não se sabiam
míopes

28/05/2011

rio breve de não chegar:- olhos que marejam
de não amor

(amargo rio)

que ainda cisma:- mar

27/05/2011

meu amigo se cala diante da morte
diante da dor:- se cala

o não esperado parece ter
mordaças

: nenhuma delas aprisiona o verso

25/05/2011

horizonte rubro:-
outro pássaro ousou
tocar o sol

21/05/2011

miúda e vermelha
pende
pro lado que o vento
flor
a poesia é latifúndio
nas mãos dos poderosos

eu

cultivo versos no quintal
de uma casa que nem é minha
poesia é:- celebração
(nem sempre à vida)
celebra-se
o que se tem nas mãos
cântaros
carregam águas
irei buscá-los
abismados reis
em torres de areias
à beira de algum mar
atlântico — cismam
[... perdida
a tábua das marés
certezas:-
verdades que abraçam
(tenho tão poucas)
sigo em busca
do abraço definitivo
a caixa miúda a vida pequena
o verso raro
hoje tudo é pouco e o rio é raso
já não canta
se arrasta em ruídos
...num fio
que se esquiva das pedras
do fundo
quase seco
saudações ao sol
mais um dia renasce
na minha aldeia
céu tão bonito
mas como estão frias
as pedras da rua
final de outono:
embaçaram os olhos
da noite
na madrugada
lacrimejam os olhos
da vidraça
inverno quase
: nos olhos da memória
queimam fogueiras
o sempre o nunca a ave
de rapina

as penas

f in i tude et ernidade
depois da dor:-
vazio
e depois do vazio
o medo
da dor
interminável
ciclo
que fez de mim
o que não
sou
a morte ronda
o pássaro - a flor
meus olhos

a vida é ciranda

19/05/2011

outono: outros tons
ou tônus
sobre a pele do dia
e a minha
: epidérmica
estação

18/05/2011

ovelha branca
destoa
neste templo de negras
serpentes e chacais
não discriminem
o seu olhar
albino
a sua alma
clara
seu coração
vermelho
sangra:- dores iguais

15/05/2011

a cada poema que leio
arranco um pedaço

não do poema
mas do poeta

nas madrugadas
saio às ruas sangrando

colagens
que não cicatrizam

13/05/2011

luar de outono
e o velho telhado --
brilha
mas do que vale a vida
se não for dividida:-
nada

inteiro
brilho * estrela
pele
cor
do que um dia
pérola
flor

09/05/2011

os olhos da noite estão vermelhos
os cabelos embaraçados
a pele fria

a noite é uma velha senhora
que caminha descalça
sobre folhas secas

na ilusão do silêncio
onde cabe o silêncio
cabe a palavra multiplicada

que silêncio é vazio (infinita cratera)
que somente a palavra

aterra

08/05/2011

repara
que solidão é mais
estado de alma
que de pele
é mais
estado de sentir
que de estar
e o ser?
em que estado fica
nesse caminho estreito
e não delimitado
da alma à flor
da pele

um poema de GIANNIS RITSOS (I)













GRECIDADE

I

Estas árvores não sossegam com menos céu,
estas pedras não sossegam sob passos estrangeiros,
estas faces não sossegam a não ser sob o sol,
estes corações não sossegam a não ser com a justiça.

Εsta paisagem é dura como o silêncio,
cerra no seu seio suas rochas incandescentes,
cerra na luz suas oliveiras órfãs e suas vinhas,
cerra os dentes. Não existe água. Somente luz.
O caminho perde-se na luz e a sombra do curral é ferro.

Marmorizaram as árvores, os rios e as vozes calcinados pelo sol.
A raiz tropeça no mármore. Os lentiscos empoeirados.
A mula e a rocha. Ofegam. Não existe água.
Todos têm sede. Há muito tempo. Todos mascam um bocado de céu sobre sua amargura.

Seus olhos estão vermelhos da vigília,
um vinco fundo acunhado entre suas sobrancelhas
como um cipreste entre duas montanhas no pôr-do-sol.

Suas mãos estão coladas no rifle,
o rifle é uma extensão das suas mãos,
Suas mãos são uma extensão das suas almas -
têm sobre seus lábios a ira
e no fundo dos seus olhos a mágoa
como uma estrela em uma fossa de sal.

Quando apertam as mãos o sol surge para o mundo,
quando sorriem uma pequena andorinha foge-lhes das barbas selvagens,
quando dormem doze astros caem dos seus bolsos vazios,
quando se matam a vida segue adiante com bandeiras e tambores.

Há tantos anos todos têm fome, todos têm sede, todos se matam
sitiados por terra e mar;
O calor devorou seus campos e a salinidade regou suas casas,
o vento derrubou suas portas e as poucas primaveras da praça,
pelos buracos dos seus sobretudos entra e sai a morte,
suas línguas são acres como o fruto do cipreste;
seus cães morreram abraçados nas suas sombras;
a chuva bate nos seus ossos.

Em cima das guaritas petrificados fumam o estrume e a noite
mantendo um olho no mar enfurecido onde afundou
o mastro quebrado da lua.

O pão acabou, as balas acabaram,
agora carregam seus canhões somente com seus corações.

Há tantos anos sitiados por terra e mar,
todos têm fome, todos se matam e ninguém morreu -
Em cima das guaritas brilham seus olhos,
uma grande bandeira, um grande incêndio rubro
e cada alvorada milhares de pombas fogem das suas mãos
para as quatro portas do horizonte.

07/05/2011

saudade
da língua dos coptas - primitivos tempos
corre em mim
um Nilo Azul de palavras e ritos
(trago no peito a marca)

06/05/2011

lembrar tem doido
feito farpas sob as unhas
(ao por do sol lateja)
o esquecimento
faz parar de doer
... mas nos meus sonhos
todas as flores ferem
espinhos

05/05/2011

festa no pasto hoje
meu cão correndo atrás das seriemas
que invadiram a manhã com seus cantos agudos
anunciando que de tarde vem chuva
e borboletas muitas compunham a paisagem
das miudezas que meus olhos procuram
e sempre encontram
o céu azul
a árvore vermelha
o asfalto cinzento
hoje tudo que sinto e penso
são coisas e cores
como se a alma
se alojasse nos olhos

03/05/2011

tecer palavras
em tempos de silêncio
ofício [... arte
canto
a vida miúda que me cerca
tudo mais
são olhares outros tantos
que não os meus

02/05/2011

perto daqui
silencioso e raso passa um rio
não posso ouvi-lo
— pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem
— ávidas de lua
e mar

01/05/2011

inquietos metais
voz de cristal

underground
eloqüente

soul...
letra:
tatuagem catártica
mídia:
pensamento em círculos
melodia:
contestação em tons
ler é ouvir
escrever é compor --
palavra é música

ouçam
caminho pelas ruas de Nova Orleães
um sentimento "blues" me chama
respondo: noite escura
metal
“Old Man River"
sonham vapores - navegam
melancolia e blues
há um piano
um violino um bandolim
ai de mim
nesse meu silêncio
sem cordas
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