30/07/2011

a velha caixa

haverá tempo ainda? o poeta pergunta
sempre no mesmo tom
sereno e compassado
que tempo? se o relógio do mundo
há muito está parado
cordas rompidas — respondo
enquanto dou corda
na velha caixa de música sem
bailarina
que roda vazia há tanto tempo
no ritmo da velha terra
enquanto meus olhos
olham estrelas que se movem
estando mortas
às vezes me pergunto se ainda estou
por aqui

27/07/2011

estranha caixa

os ossos foram trancados na caixa pequena
(estanha caixa)
que guarda quase dois séculos
da minha história
(onde um dia mergulharei)
as chaves serão veladas por quatro olhos
que um dia serão trancados
na mesma caixa por outros olhos
que não sei quantos serão
até que os últimos olhos
a si mesmo se tranquem e a caixa se desfaça
e tudo será terra (antes do vento)

desenhando céus

sangram os velhos muros:- bolores
e trincas
(feridas abertas pelo tempo)
nas descalçadas
me vejo
menina
desenhando céus
com risca
de giz
(na minha amarelinha sem infernos)
que a primeira chuva forte
apagaria

25/07/2011

a flor

urbano pós-moderno o poeta devora
cimento e aço / pedra e areia
além de outros pós
finíssimos (aglutinantes)
bebe petróleo e outros líquidos
altamente inflamáveis
então cospe delírios
estradas que não chegam e edifícios
em chamas (sua casa)
enquanto a flor insiste e brota
desafiando insensatez
e cinzas

20/07/2011

marinho

um peixe negro e sem escamas, vindo do abismo do meio
(pois que no abismo profundo os seres transparecem)
de olhos brilhantes
amarelos
num galope certeiro (marinho que é)
cavalo
atravessou seu dia
desde então, seus olhos simples
transitam
entre claros e escuros tons do mesmo incerto azul
e a água doce (cristalino lago) virou mar salgado
que inunda
sua face de areia e pedra, sob este céu vermelho antigo
reflexo
dos seus cinqüenta e quatro sóis que rumam
em direção à Hidra

19/07/2011

lugar

esse lugar não é
onde eu queria estar
mas é meu
de posse
e de passagem
a propriedade
apenas um papel
embolorado
em alguma velha
gaveta
eu tenho o chão
abro janelas e vejo
montanha
e estrada
um pedaço de céu
me basta

16/07/2011

medo das águas

perto de mim flui
generoso
------.o rio
todos mergulham
ou
molham a ponta
dos pés
-------só os meus
sempre secos

outros tempos

poeta engraçadinho
poeta professor
poeta top model
fotopoeta
poeta doutor
que saudade
do poeta poeta
papel e palavra - só

13/07/2011

CÓDIGO COLETIVO - UM BELO PROJETO

CODIGO COLETIVO: projeção de poemas em QR CODE, no Castelinho do Alto da Bronze, Centro Histórico de Porto Alegre. Instalação de Sandra Santos, parceria CIDADE POEMA, Laís Chaffe.
"Concebido, articulado e realizado pela poeta Sandra Santos, o Projeto CÓDIGO COLETIVO transforma nossos poemas em verdadeiras esfinges cybernéticas: enigmáticas, tecnológicas, interativas". Alexandre Brito
Mais informações, AQUI e AQUI e AQUI.

12/07/2011

percebe então
(depois da leitura de um poema)

'ter se tornado exatamente aquela
que queria ter sido'

salva de si mesma, mais uma vez
por versos outros

(que não os seus)

silencia

06/07/2011

o poeta mergulha
no inferno do seu mundo real
e silencia
quando voltar
ao paraíso inventado
(em cápsulas)
o poema retorna
com suas verdades
sempre tão relativas
(precárias)
a durar o tempo do espanto
dos olhos

05/07/2011

faz tanto frio
que a palavra treme
o que aquece a palavra?
outra palavra talvez
silêncio

03/07/2011

dissonante voz miúda
neste tempo agudo de ruído
e ventania
pétala que não se ouve
quando toca
o chão
e quem quer saber de flores
neste tempo obtuso
de pedra

percebe
que solidão já não é fera

é cão

manso

que lambe faces e mãos
todos os dias

(assim que amanhece)

02/07/2011

vermelhos olhos de querer
sol

olhos d’água de chuva

olhos secos de vento
e pó

(que tudo é terra)

rasgo no céu azul
perfeito

por onde descem
raios

: e a palavra
humana se traduz

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