30/12/2011

a poesia
fez de mim uma ilha
onde pássaros pousam
queimam os pés
e partem

29/12/2011

termina o ano como começou
nada nas mãos - a não ser
o verso

26/12/2011

ah, como deseja mergulhar no vazio
que seja céu ou mar
desde que seja azul
e fundo

22/12/2011

linha e cerol
e lá se vai o que restou
do sol

21/12/2011

as velhas árvores estão tombando
como num presságio
em sânscrito medita
tatua dragões em mandarim
canta mantras em híndi
mensageiros do vento em bengali
na sua língua sangram
piercings di_versos

20/12/2011

há um cansaço em tudo - antigo e reticente
como uma roda d’água
(enferrujadas engrenagens)
prestes a se romper
a água - é fio
e o som da serra - monótono e insistente
agora é canto quase
lamúria
quase gemido quase
dor
e segue a roda
que move a lâmina
que serra a pedra - que há tanto tempo é pó

18/12/2011

os dias
que parecem intermináveis
são apenas pedaços
começo
de outros intermináveis
dias

17/12/2011

há um lugar
onde mora um nome
(embora o nome
nunca tenha estado
nesse lugar)
e quando eu passo
o nome me chama
e eu sigo
sem saber se respondo
ou canto

16/12/2011

dos êxtases sublimes
aos horrores supremos
compartilho

hoje sou poço
onde mergulham todos
os sentimentos do mundo

15/12/2011

A Gata Por um Fio

A GATA POR UM FIO - de Sandra Santos

Imagem retirada do Blog: Poupée Amélie - de Sandra Amélie.
que sabe o peixe a não ser
do vidro
da água
do gato
que pressente
e a ave, que sabe
a não de ser
da asa
do canto
do sol
que precisa
eu, que sei quase
nada
navego e voo
em seus azuis aquários
e céus
que persigo

12/12/2011

era manhã bem cedo e se julgava pássaro

quando caiu a tarde
se viu pedra

(e sua cota era apenas um dia)

vida de pedra
deveria ter vivido

não viveu
sonhando asas

pássaros — teriam pousado e feito ninho
raios partiram — árvore velha e lassa
que renasçam morangos
quando chover
e o jardim de concreto e asco
seja campo
— e vasto

10/12/2011

na madrugada
lacrimejam os olhos
da vidraça
sol atrevido
lambe gotas de orvalho –
surge a manhã
o muro branco
tinto de sol se pôr
resplandece
manhã absurda
escancara os dentes
de sol

06/12/2011

Nas verdades que canta, a força do poema
Que pedra seja
pedra
E vento seja
Vento
Que seja eterno enquanto
Cascalho e ventania

Que se sopre e que se pise — caminho
Alento
Brisa
Dia
De olhos secos e chão
Nenhum

Diga de nós (busca e retrato)
Do que sai pelos olhos — palavra
Feito carne
Solidez de vento
Invisível pedra
Que seja

A mais precária das verdades
Em que ainda acredito

04/12/2011

a montanha está lá

quase branca

chuva fina é cortina

quase etérea –

a encobrir

mata lúcida

terra

sólido chão

pasto e casa de bichos

carne e sangue

(matérias impuras)

água não lava

esconde

escorre

esquece

que tudo é miragem

e se desfaz

num sopro

de vento

(ou tempo)

03/12/2011

Já não te busco, Dionísio.
Cultivo
videiras.
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