31 de jul de 2009
outros bichos
um poema de milarepa
no templo do meu peito,
no topo do triângulo do meu coração,
o cavalo que é a minha mente, voa como o vento.
30 de jul de 2009
o tapete, coração

Antoin_Sevruguin_carpet
Onde está o tapete que estas mulheres teceram? Onde estão as mulheres que teceram este tapete? Onde está o homem que registrou este momento? Onde está o original desta fotografia? Onde está aquele que pela primeira vez a publicou? Onde está, quem criou esta teia em que nos enredamos – o mundo costurado em nossas peles, bocas, mãos, olhos, coração, onde? Onde estão meus olhos? Onde está meu coração? Onde estão seus olhos? Onde está seu coração? O campo, o arado, a semente. O sol, a chuva, a roça. A roca, o fio, o fio. Os pés, as mãos, os olhos. O calo, o corte, o corte. A tábua, o tronco, o pão. A fome, o sonho, o sonho. Teares, urdiduras, tramas. Texturas, cores, tons. Películas, câmeras, flashes. Teclados, monitores, telas. Outros fios, outras teias, outras tramas. Outras vidas, outros olhos, outras mãos. Sonhos, bocas, pés. O tapete, coração, onde?
29 de jul de 2009
28 de jul de 2009
do medo, do gato
vivas palavras
palavras leves que flutuam
noutras palavras belas
– Céu Azul
uma palavra furiosa sopra
– Vento
uma palavra líquida desaba
– Chuva
e o que era claro fica feio
– Cinza
- Terra
palavra seca agradece
– Benção
e uma palavra adormecida
então desperta
- Semente
uma palavra quente e amarela
grita – Sol
e uma palavra eterna
ecoa forte – Vida
vivas palavras
26 de jul de 2009
farsa

sorrisos trágicos
máscaras tantas
sobre
rosto impassível
camadas
do pó branco
de arroz
boca vermelha
de batom
e os sons
que vêm de dentro
focados
holofotes em nós
quem
traçou o roteiro
e decidiu a farsa
quem
manipula os fios
que nos co_movem
quem
sabe do rubro pó
das cortinas
quem nos assiste
e aplaude e quando
soarão os tambores
anunciando o fim
do espetáculo?
25 de jul de 2009
bichos da estrada
onde vai dar
a estrada
- ainda assim
eu vou
há um cachorro morto
no meio da estrada
- cachorros
não deveriam
cruzar a estrada
há um bugio bem vivo
balançando no galho
- bugios
não deveriam
viver perto da estrada
há um pássaro preto
no mourão da estrada
- pássaros
não deveriam
agourar a estrada
há um gato malhado
na porta da casa
que não deveria
- estar
perto da estrada
há borboletas brancas
por todos os cantos
que não deveriam
- voar
perto da estrada
quando anoitecer
- todos estes bichos
encontrarão
o caminho pra casa
- eu não
24 de jul de 2009
do que não sei
é tudo tanto
é tudo tão
- nada
é nada o que sei
- é tudo que sei
tão pouco o que sei
do tanto que sei
é tudo tão
- nada
23 de jul de 2009
22 de jul de 2009
do leite das horas
talham, azedam
separa-se a nata
do que um dia foi
pele
sobre carne tenra
do que foi doce puro
ácido
do que foi branco inteiro
amarelado verde
soro
que se joga nas águas
do lago lamacento
que das horas nem sabe
um poema de Garcia Lorca
21 de jul de 2009
A poesia, transformadora do mundo - V
Livraga, no seu artigo «A verdadeira poesia» afirma: «Os antigos concebiam que todo o Universo era harmônico, regido pelos números e proporções de ouro. Isto se reflete na ordenação dos sons, os quais alternados com os silêncios deram origem à música, ao canto e à poesia, todos eles expressão do Homem que tratou desde sempre de fazer surgir da sua Alma as misteriosas sementes que os deuses tinham depositado nela, para uma melhor e mais justa compreensão de si próprio, da Natureza e de Deus. E como o modelo que podemos chamar 'clássico' tem por característica o fato de unir o Bom, o Belo e o Justo - segundo o divino Platão -, os ritmos e as rimas foram utilizadas com a finalidade de ajudar à memória em recordação de ensinamentos arcaicos».
Não é difícil escutar o canto de Clío (Marte) nos versos de José Espronceda:
"São minhas melhores canções:
tempestades
o ruído e o tremor
destes cabos sacudidos
do Mar Negro os bramidos
e o rugir dos meus canhões.
Dos trovões o som violento
e do vento o troar.
Eu adormeço tranqüilo
embalado pelo mar"
Ou os doce sons de Erato, a poesia amorosa (Venus) nos versos de Bécquer:
“Que é poesia? -dizes - enquanto cravas
em minha pupila tua pupila azul.
Que é poesia? E tu me perguntas?
Poesia és tu.”
Talia, a Lua (também a Mãe Natureza), com sua fria e terna luz, sussura nos poemas de Garcia Lorca.
Na obra de Giordano Bruno , Os Furores Heróicos perguntam-lhe: «Como, então, serão conhecidos os verdadeiros poetas?», ao qual responde «pelo seu canto; basta que com o seu canto sejam úteis e deleitem». Continua explicando que as regras de poesia (por exemplo, as de Aristóteles) servem para aqueles que «por não terem Musa própria quiseram fazer o amor com a de outro».
A palavra «poesia» vem do grego poiesis, que significa «criação». «Verso» é uma palavra latina que vem de vertere, e é «o que se move e gira» ou «o que imprime ritmo e movimento». É que a verdadeira Poesia é uma criação que imita a Natureza e extrai dela o essencial. A imaginação do poeta converte-se em espelho da Natureza.
Não mente o poeta quando diz à sua amada: «Poesia és tu», mas que a sua alma percebe verdades e relações que aos nossos olhos e entendimento estão vedadas.
Porque então a Poesia não faz girar a Roda do Mundo? Porque é que não desperta e transforma as consciências?
José Carlos Fernández
O autor conclui que a poesia está desterrada e que num tempo em que se presta culto ao feio e ao vulgar e não ao belo, ao bom e ao justo, a poesia dorme no coração dos poetas, esperando um tempo novo e vivo que alente as suas criações.
Mas não seria esta a função da poesia? Transformar este tempo num tempo melhor?
Não, a poesia não está morta, tampouco adormecida. Vestida de roupagens novas que cada época lhe impõe, está bem viva. Sobrevivente, como nós.
panapaná
bando de borboletas
leves e brancas
na dança breve
das loucas voadoras
é tempo de amar
20 de jul de 2009
A poesia, transformadora do mundo - III
Quando o homem sente Deus estalar dentro do peito, não fala, canta. Quando as emoções são tão intensas como inexprimíveis, somente a canção e a poesia (música e palavra) podem ser fiéis à exaltação.
Os ensinamentos do místico tibetano Milarepa são cantos, que sobressaltam as montanhas sempre cobertas de neve do Himalaia.
Shakespeare, quando quer se referir, nas suas obras, a mistérios demasiado profundos, faz com as seus personagens os formulem com poemas cantados.
Os exemplos são muito, mas a tese é a mesma: em todas as culturas em que se valorizam como tal, a poesia, o canto (na Antiguidade poesia e canto são praticamente sinônimos) é a que configura as consciências, a que desperta os homens para a sabedoria. Recordemos os belíssimos e tão eficazes ensinamentos de Confúcio: « Desperta-te com a poesia, te educa com a música e funda o teu caráter no Li». (Li é a Lei de Harmonia que une o Céu e a Terra. No plano moral é a Regra de Ouro de conduta, aquela pela qual o homem atua de acordo com a Natureza).
Mas se, efetivamente, a poesia tem um imenso poder educativo, como poderemos usá-la? A primeira coisa, indubitavelmente, é voltar às fontes da poesia. Não é por partir a prosa que encontramos o verso; não é pelo fato de «rimarmos» os parágrafos que damos nascimento ao canto e à magia das estrofes.
Platão explica que os verdadeiros poetas - e devido à disposição particular da sua alma - entram em ressonância com os Arquétipos da Natureza. Ele compara-os a um ímã que se impregna de força especial e a transmite, «magnetizando» todos aqueles que se aproximam a ele. Aquele que recita a poesia volta a dar-lhe vida, mas antes deve participar e sentir dentro de si essas mágicas ondulações que o seu criador cristalizou em versos.Todos os verdadeiros poetas são amados das Musas. Estas não são uma «imagem poética» antes, pelo contrário, são mais reais do que podemos imaginar. Conferem ao poeta o fluxo especial que vivifica as suas criações mentais através do ritmo. O ritmo ou encantamento vem, pois, da essência da Musa. O ritmo é a alma da poesia. Os filósofos antigos explicavam que as Musas estavam intimamente relacionadas com os distintos céus ou com as distintas órbitas planetárias, e com o reflexo destas na Alma do poeta.
José Carlos Fernández
continua
vertigem
num vôo suicida
mergulha no abismo
não sabe do medo
não sabe da queda
nem sabe das pedras
- sequer, que tem asas
sabe só da vertigem
e se atira
19 de jul de 2009
A poesia, transformadora do mundo - I
J.A. Livraga - Ankor, el Discípulo, 1980
Poesia:
Transformadora do Mundo
José Carlos Fernández
«Para Platão a Poesia está relacionada com o Belo e o Resplendor do Verdadeiro. Deste modo, haveria um fundo de verdade e de magia em toda a autêntica poesia».
Jorge Angel Livraga
«A verdadeira Poesia»
Revista NA, Junho 18983
Uma afirmação assim - a poesia como transformadora do mundo - fará sorrir, sem dúvida, a muitos. Os gregos do Século de Ouro de Péricles não pensariam assim, quando as vidas e os conhecimentos foram formados seguindo o ritmo dos versos da Ilíada ou da Odisséia.
O próprio Platão afirmaria, pela boca de Sócrates, que o verdadeiro poeta é porta-voz de um deus. Que a sua alma é um instrumento musical que o deus toca quando quer dar a sua mensagem aos homens. Que os sábios não podem rebater o canto de um poeta, pois se encontra mais além dos seus conhecimentos. Platão recorda que o poeta canta, mas que não ensina, que ele mesmo não pode explicar o mágico e sublime conteúdo dos seus versos alados.
Na primitiva língua védica (depois no sânscrito), bem como no hebreu e, nos atrevemos a afirmar, em todas as línguas das culturas iniciáticas, os textos possuem sempre um tom musical. Os seus livros não se lêem, cantam-se. São majestosas coleções de poemas sagrados.
O Antigo Testamento é um livro de poemas, como também é o Poema Babilônico da Criação; ou os hinos que constituem o livro religioso dos escandinavos, o Kalevala. Todos os códices astecas, bem como possivelmente os maias, eram «cantados». As imagens serviam como lembretes para as litanias, poesias longuíssimas que conservavam todo o saber de sua cultura.
O Império Romano sustentou a sua «consciência nacional» nos versos de Eneida, porém mais do que as declarações amorosas de infinitos amantes foi a doçura dos cantos de Ovídio ou de Catulo.
O ardor guerreiro de povos como o espartano crescia e encontrava um leito religioso nos seus famosos peans, os cantos marciais a Apolo.
Cícero explica nos seus tratados que quando o fogo do céu se apodera do verbo do orador aparece no seu discurso uma estrutura rítmica e musical; deixa de «falar» para começar a «cantar», mas é este encantamento que desperta as paixões no auditório, que o faz vibrar com as suas palavras
É natural pensar que num mundo tão prosaico como o que vivemos se encontre desterrada a verdadeira poesia. Um mundo sem poetas é um mundo sem beleza, pois são os poetas que tornam inteligível para os homens a formosura da Natureza.
José Carlos Fernández
continua
18 de jul de 2009
17 de jul de 2009
outras cinzas
hoje
descobri
que meus velhos
poemas
não dizem
mais
do que sou
pois
quem
os
escreveu
já
não
existe
vou queimar
tudo
depois jogar
do alto
da montanha
junto
com as cinzas
do que fui
16 de jul de 2009
p l e n o
é pouco
- quem diria
agora
– quero um poema
por hora
absoluto
- quero um
por minuto
o poema é o mundo
– seja um
por segundo
não é o bastante
- quero o poema
instante
o instante é pequeno
- quero o poema
p l e n o.
humana
caminhei lento
cheguei ao topo
- olhei de longe a vida
me descobri distante
das aflições mundanas
das insanas paixões
- quase toquei o céu
anjos cantando
de seus brancos voares
eu pude ouvir e ver
- a luz
o som das águas
que correm nas planícies
no entanto, me chama
- e a voz do vale me seduz
desço depressa
outra vez sou gente
do mundo, humana
- tal como o Criador me fez
15 de jul de 2009
how beautiful could a being be
Caetano toca How beautiful could a being be com Moreno, Davi Moraes e os percussionistas Eduardo Josino e Josino Eduardo, além da Banda Cê. Adoro!!!
14 de jul de 2009
nós bichos

capte capte capte
é o som do casco
do cavalo pensamento
- ao som de um rapte-me
camaleão se esconde
os bichos todos
do meu redil
pensam ser feras
- são mansos
mancos da memória
marcados
no ferro quente
de suas trajetórias
- bichos de pele e pelo
alguns de plumas
bichos que voam
galopam, se transformam
todos em busca
- de pastos, pedras, pranas
nós, bichos em busca de vida
um poema de neruda
Agora contaremos doze
Agora contaremos doze
e ficaremos todos mudos.
Por uma vez sobre a terra
não falemos em nenhum idioma,
por um segundo nos detenhamos,
não movamos tanto os braços.
Seria um minuto flagrante,
sem pressa, sem automóveis,
todos estaríamos juntos
em uma quietude instantânea.
Os pescadores do mar frio
não fariam mal às baleias
e o trabalhador do sal
olharia suas mãos rotas.
Os que preparam guerras verdes,
guerras de gás, guerras de fogo,
vitórias sem sobreviventes,
vestiriam um traje puro
e andariam com seus irmãos
pela sombra, sem nada fazer.
Não confundam o que quero
com a inanição definitiva:
a vida é só o que se faz,
não quero nada com a morte.
Se não podemos ser unânimes
movendo tanto nossas vidas,
talvez não fazer nada uma vez,
talvez um grande silêncio possa
interromper esta tristeza,
este não nos entendermos jamais
este ameaçar–nos com a morte,
talvez a terra nos ensine
que quando tudo parece morto
logo tudo está vivo.
Agora contarei até doze
E tu te calas e eu me vou.
Pablo Neruda
13 de jul de 2009
12 de jul de 2009
do sentimento das casas - II
nascem, vivem, envelhecem
e antes de morrer, contam histórias.
11 de jul de 2009
individualidade

Individualidade
Embora vindo de um vale pobre da montanha
Nascido como um seixo
Para jamais ser uma grande rocha
Ou
Fluindo como um córrego
Para jamais ser amplo como o mar
Você terá momentos de voares infinitos.
Kim Kwang-söp (1905~1977)






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A obra 