13 de ago de 2009
enxaquecosa
... pra amenizar
fazer um verso
... tento
não posso
em dor assim
... poesia
não cabe
o escuro cabe
... e o silêncio.
12 de ago de 2009
rumores
ávidas, atrevidas.
Sempre em bandos, exageradamente livres,
dentro delas urgem rumores verticais.
Então mergulham, no ímpeto da vertigem
que não podem conter.
Escandalosas, arrastam folhas, levantam poeira,
chuvas de penas.
Que guardam nos olhos
depois de tanto sois nascer... se pôr
e suas asas depois de tantos ventos,
chuvas... tanto céu?
Ásperas gargantas depois dos gritos,
que sabem dos silêncios e das sedes?
São como nós, as maritacas verdes,
tudo que vive é,
mergulho cego no infinito azul.
11 de ago de 2009
um poema de paulo mendes campos

imagem: http://www.cultura.mg.gov.br/
Pesquisa
A gaivota determinada mergulha na água
verde. Há um tempo para o peixe
e um tempo para o pássaro
e dentro e fora do homem
um tempo eterno de solidão.
Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
vi espaços claros, bosques, igapós,
o sumidouro de um tempo subterrâneo
(patético, mesmo às almas menos presentes)
vi, como se vê de um avião,
cidades conjugadas pelo sopro do homem,
a estrada amarela, o rio barrento e torturado,
tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.
Senti o hálito do tempo doando melancolia
aos que envelhecem no escuro das boates,
vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo.
com uma tensão de nervos feridos
e corações espedaçados.
Se acordamos, e ainda não é madrugada,
sentimos o invisível fender do silêncio,
um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
O tempo goteja
como o sangue.
os cães discursam nos quintais, e o vento,
grande cão infeliz,
investe contra a sombra.
O tempo é audível: também se pode ouvir a eternidade.
Paulo Mendes Campos
E foi por conta deste poema, que eu me aventurei a fazer poesia.
9 de ago de 2009
bicho danado
uma goiaba - bichada
bicho danado
chamado - solidão
se bicho
de goiaba - é goiaba
bicho
de coração - é coração
creio então
estar sendo - devorada
pelo meu próprio
bicho - danado coração
8 de ago de 2009
olhos de ir embora

olho hoje o mundo com olhos de meu pai contemplativos resignados calmos
olhos de ir embora
embora atentos atônitos curiosos às vezes úmidos e claros outras vezes cinzentos embaçados tantas vezes vermelhos ressecados quase sempre brilhantes translúcidos
olhos de ir embora
contemplando a vida homens e mulheres árvores e pedras pássaros e flores meninos e cães nuvem chuva vento a terra
com olhos de ir embora
fecho meus olhos e continuo vendo como meu pai o tempo que passou o tempo que virá o tempo
com olhos de ir embora
penetro num castelo de portas imensas abro uma a uma já não sinto medo encontrei a essência vejo com os olhos da alma eternos
olhos de ir embora
o templo e as ruínas madeira apodrecida ferrugem e sucata moldura envelhecida cabelos brancos retratos antigos objetos no lixo a roupa velha casa vazia trapos nada tudo
com olhos de ir embora
7 de ago de 2009
impermanência
no chão de pedras
penas
areia e sangue
massa disforme
ainda de manhã
pássaro branco
que voava
noite.
chuva de vento
faz enxurrada
amanhã
quando eu passar
por aqui
do que foi pássaro
nem sombra
6 de ago de 2009
5 de ago de 2009
um poema de Vasko Popa

A verdade cantava no escuro
No cimo da tília sobre o coração
O sol há-de amadurecer dizia
No cimo da tília sobre o coração
Se os olhos o iluminarem
Troçamos da canção
Agarramos prendemos a verdade
Cortamos-lhe a cabeça debaixo da tília
Os olhos estavam noutro sítio
Ocupados com outra obscuridade
E nada viram
Vasko Popa - Sérvia
trad. Eugênio de Andrade, in “Rosa do Mundo”
4 de ago de 2009
etérea dança
dentro de um círculo
... danço
enquanto a vida passa
... lá fora
tento romper o elo
... não posso
não há saída
tento tocar o céu
... a relva
tento colher estrelas
... luas
fragmentos de vida
... de fora
transpassam
os meus olhos
... perdidos
no espaço limitado
sufoco
... suponho
apenas
... suponho
o que seja viver
... lá fora
vejo raios de luz
cheiro de flor
gosto de outonos
... ouço
histórias no vento
... ouço
canções na chuva
... espero
apenas espero
o tempo se foi
... lá fora
já não quero saber
... de nada
quero apenas não ser
... mais nada
meus pés
já não tocam a terra
meus olhos
miram o céu
o círculo
transmutado em esfera
... flutua
eu dentro dele
apenas
... flutuo
posso voar agora
levada pelo vento
... danço
enquanto a bolha
etérea se desfaz
apenas
... danço
ainda sobre a "lagártica"
3 de ago de 2009
olhos de pedra
arranco
das pedras, os olhos
meus olhos, arranco
e os atiro ao mar
pesados,
logo serão tragados
pelo abismo
dos olhos cansados
eu, sigo
com meus olhos
de pedra
2 de ago de 2009
transparências
a minha fantasia
e olha
que nem é carnaval
caminho nua
agora
despida dos meus sonhos
pelas ruas desertas
da cidade de vidro
em que habito
1 de ago de 2009
lagártica - IV
Para Ângelo Roberto
(04.04.97)
Fred Souza Castro
Esta noite voltei a sonhar com meus lagartos
e as mesmas pedras onde costumam dormitar
em minha Catedral Submersa.
Aqueles mesmos sons de sino e carrilhões
desfilaram pela nave deserta
como procissões extintas
sopradas das cinzas da memória.
Acho que o sol era só deles,
lagartos quase jade,
figuras esculpidas no limo verde-escuro das rochas.
Seus olhos, no entanto, abriam-se para nosso espanto
e para o espanto deles próprios
(lagartos).
lagártica - III
lagártica - II
lagártica - I
pt.dreamstime.comlagarto
O lagarto está chorando
Federico Garcia Lorca
O lagarto está chorando
A lagarta está chorando
O lagarto e a lagarta
Com aventaizinhos brancos
Hão perdido sem querer
Seu anel de casamento
Ai! Seu anelzinho de chumbo,
Ai, seu anelzinho chumbado
Um céu grande e sem gente
Monta em seu globo aos pássaros
O sol, capitão redondo
Leva um colete de raso
Olhai que velhos são!
Que velhos são os lagartos!
Ai como choram e choram,
Ai! Ai! Como estão chorando!
31 de jul de 2009
outros bichos
um poema de milarepa
no templo do meu peito,
no topo do triângulo do meu coração,
o cavalo que é a minha mente, voa como o vento.
30 de jul de 2009
o tapete, coração

Antoin_Sevruguin_carpet
Onde está o tapete que estas mulheres teceram? Onde estão as mulheres que teceram este tapete? Onde está o homem que registrou este momento? Onde está o original desta fotografia? Onde está aquele que pela primeira vez a publicou? Onde está, quem criou esta teia em que nos enredamos – o mundo costurado em nossas peles, bocas, mãos, olhos, coração, onde? Onde estão meus olhos? Onde está meu coração? Onde estão seus olhos? Onde está seu coração? O campo, o arado, a semente. O sol, a chuva, a roça. A roca, o fio, o fio. Os pés, as mãos, os olhos. O calo, o corte, o corte. A tábua, o tronco, o pão. A fome, o sonho, o sonho. Teares, urdiduras, tramas. Texturas, cores, tons. Películas, câmeras, flashes. Teclados, monitores, telas. Outros fios, outras teias, outras tramas. Outras vidas, outros olhos, outras mãos. Sonhos, bocas, pés. O tapete, coração, onde?
29 de jul de 2009
28 de jul de 2009
do medo, do gato
vivas palavras
palavras leves que flutuam
noutras palavras belas
– Céu Azul
uma palavra furiosa sopra
– Vento
uma palavra líquida desaba
– Chuva
e o que era claro fica feio
– Cinza
- Terra
palavra seca agradece
– Benção
e uma palavra adormecida
então desperta
- Semente
uma palavra quente e amarela
grita – Sol
e uma palavra eterna
ecoa forte – Vida
vivas palavras
26 de jul de 2009
farsa

sorrisos trágicos
máscaras tantas
sobre
rosto impassível
camadas
do pó branco
de arroz
boca vermelha
de batom
e os sons
que vêm de dentro
focados
holofotes em nós
quem
traçou o roteiro
e decidiu a farsa
quem
manipula os fios
que nos co_movem
quem
sabe do rubro pó
das cortinas
quem nos assiste
e aplaude e quando
soarão os tambores
anunciando o fim
do espetáculo?
25 de jul de 2009
bichos da estrada
onde vai dar
a estrada
- ainda assim
eu vou
há um cachorro morto
no meio da estrada
- cachorros
não deveriam
cruzar a estrada
há um bugio bem vivo
balançando no galho
- bugios
não deveriam
viver perto da estrada
há um pássaro preto
no mourão da estrada
- pássaros
não deveriam
agourar a estrada
há um gato malhado
na porta da casa
que não deveria
- estar
perto da estrada
há borboletas brancas
por todos os cantos
que não deveriam
- voar
perto da estrada
quando anoitecer
- todos estes bichos
encontrarão
o caminho pra casa
- eu não
24 de jul de 2009
do que não sei
é tudo tanto
é tudo tão
- nada
é nada o que sei
- é tudo que sei
tão pouco o que sei
do tanto que sei
é tudo tão
- nada
23 de jul de 2009
22 de jul de 2009
do leite das horas
talham, azedam
separa-se a nata
do que um dia foi
pele
sobre carne tenra
do que foi doce puro
ácido
do que foi branco inteiro
amarelado verde
soro
que se joga nas águas
do lago lamacento
que das horas nem sabe
um poema de Garcia Lorca
21 de jul de 2009
A poesia, transformadora do mundo - V
Livraga, no seu artigo «A verdadeira poesia» afirma: «Os antigos concebiam que todo o Universo era harmônico, regido pelos números e proporções de ouro. Isto se reflete na ordenação dos sons, os quais alternados com os silêncios deram origem à música, ao canto e à poesia, todos eles expressão do Homem que tratou desde sempre de fazer surgir da sua Alma as misteriosas sementes que os deuses tinham depositado nela, para uma melhor e mais justa compreensão de si próprio, da Natureza e de Deus. E como o modelo que podemos chamar 'clássico' tem por característica o fato de unir o Bom, o Belo e o Justo - segundo o divino Platão -, os ritmos e as rimas foram utilizadas com a finalidade de ajudar à memória em recordação de ensinamentos arcaicos».
Não é difícil escutar o canto de Clío (Marte) nos versos de José Espronceda:
"São minhas melhores canções:
tempestades
o ruído e o tremor
destes cabos sacudidos
do Mar Negro os bramidos
e o rugir dos meus canhões.
Dos trovões o som violento
e do vento o troar.
Eu adormeço tranqüilo
embalado pelo mar"
Ou os doce sons de Erato, a poesia amorosa (Venus) nos versos de Bécquer:
“Que é poesia? -dizes - enquanto cravas
em minha pupila tua pupila azul.
Que é poesia? E tu me perguntas?
Poesia és tu.”
Talia, a Lua (também a Mãe Natureza), com sua fria e terna luz, sussura nos poemas de Garcia Lorca.
Na obra de Giordano Bruno , Os Furores Heróicos perguntam-lhe: «Como, então, serão conhecidos os verdadeiros poetas?», ao qual responde «pelo seu canto; basta que com o seu canto sejam úteis e deleitem». Continua explicando que as regras de poesia (por exemplo, as de Aristóteles) servem para aqueles que «por não terem Musa própria quiseram fazer o amor com a de outro».
A palavra «poesia» vem do grego poiesis, que significa «criação». «Verso» é uma palavra latina que vem de vertere, e é «o que se move e gira» ou «o que imprime ritmo e movimento». É que a verdadeira Poesia é uma criação que imita a Natureza e extrai dela o essencial. A imaginação do poeta converte-se em espelho da Natureza.
Não mente o poeta quando diz à sua amada: «Poesia és tu», mas que a sua alma percebe verdades e relações que aos nossos olhos e entendimento estão vedadas.
Porque então a Poesia não faz girar a Roda do Mundo? Porque é que não desperta e transforma as consciências?
José Carlos Fernández
O autor conclui que a poesia está desterrada e que num tempo em que se presta culto ao feio e ao vulgar e não ao belo, ao bom e ao justo, a poesia dorme no coração dos poetas, esperando um tempo novo e vivo que alente as suas criações.
Mas não seria esta a função da poesia? Transformar este tempo num tempo melhor?
Não, a poesia não está morta, tampouco adormecida. Vestida de roupagens novas que cada época lhe impõe, está bem viva. Sobrevivente, como nós.
panapaná
bando de borboletas
leves e brancas
na dança breve
das loucas voadoras
é tempo de amar










A obra 