
30 de set de 2009
29 de set de 2009
dos gritos, dos silêncios
silêncios
antigos
querem
ser
ouvidos
pobres
não
sabem
que já
não há
palavras
pois já
não há
ouvidos
um poema de abdur rahman
Muitos, como você e eu, ela criou e destruiu.
*Abdur Rahman, poeta afegão
27 de set de 2009
foz
que meus olhos de rio vão querer desaguar
nestes olhos de amar
26 de set de 2009
25 de set de 2009
"landays" de sayd bahodine majrouh
uma noite de amor que não se repetirá.
Como um guizo, com todas as minhas jóias
tini em seus braços até ao fundo da noite.
Meu amor, para lá das montanhas, contempla a lua
e verás que te espero, de pé, sobre o telhado.
Dá-me a tua mão, amor, vamos para os campos
para nos amarmos ou cairmos juntos apunhalados.
Pousa a tua boca na minha
mas deixa a minha língua livre para te falar de amor.
Amanhã os famintos do meu amor serão satisfeitos
porque quero atravessar a aldeia com o rosto descoberto e os cabelos ao vento.
24 de set de 2009
o grilo, a gota
em que
a minha poesia
tem a força de um grilo
e a fúria de uma gota
grilo
que já não pode cantar
g
o
t
a
prestes a despencar
a minha poesia agoniza
23 de set de 2009
um poema de sherko bekas
Tenho pousado o ouvido sobre o coração
da terra.
Tenho falado de amor, do seu amor
pela chuva,
à terra.
*Sherko Bekas, poeta da resistência curda.
22 de set de 2009
o jardim de um estranho
flores do jardim de um estranho.
Poeta afegão
*Minha Guerra Particular - Masuda Sultan
havia um sol
20 de set de 2009
um poema de julio rodrigues correia
No ciclo de minha infância
havia um riacho de águas
claras e piscosas
que serpenteava
pelo ventre da cidade
e chegava impávido ao rio.
Dele o peixe sadio
nos almôços de sábado
nele o banho suave
nas manhãs dominicais.
Um dia chegaram os homens
com seus apetrechos
de fúria e ganância,
( agentes da destruição)
toldaram as águas
sufocaram cardumes
apodreceram suas margens.
E o riacho de minha infância
hoje está assoreado e morto
mas ainda corre
límpido e soberano
nos labirintos de minha memória.
Julio Rodrigues Correia, jornalista, sociólogo e poeta, Publicou quatro livros: "No Silêncio das Horas", "A Hora Noturna", poesias, " Crônicas Sem Tempo",crônicas e "A Ceia dos Imorais", teatro. Prepara o lançamento de "Degraus do Silêncio". Atualmente reside na cidade de Fortaleza,Ce.
Em minha opinião, Julio é um dos nossos mais brilhantes poetas contemporâneos. Mantém o blog acroatico, onde publica sua magnífica poesia.
19 de set de 2009
culpa
e ele era branco
- doeu em mim
pedi perdão à natureza
ela me respondeu, num vento
ameno
- me isentando de culpa
continua doendo mesmo assim
crepúsculo
não terão de mim mais
que meus parcos [par c’os]
versos [universos]
que escapam
pela fenda [senda] dos olhos
pelo corte [sorte?] no peito
feito à lança
[perfume]
diante das dores
pusilânimes e intensas
da cidade que grita [late]
e agoniza
crepúsculo escarlate
do fim da raça [caça]
do que um dia julgamos
fosse [fosso] humano
* depois de ler: Dark Age Ahead de Jane Jacobs
17 de set de 2009
retinas de sonhar
Obs: meu aniversário é só na próxima semana, mas ganhei dois presentes adiantados:
flor do sol
um girassol
- um só
e ele gira
gira
em busca do sol
- é único
mas não é só
o sol lhe basta
- é sina
de girassol
- me ensina
girassol
a não ser só
baste-me o sol
- e a vida
enquanto
houver o sol
- e a vida
15 de set de 2009
do sol do rio
14 de set de 2009
outro poema de marina tsvétaïeva
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.
1924
Tradução de Haroldo de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985
Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe
1924
Tradução de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985
13 de set de 2009
fach
12 de set de 2009
amorados
um poema vermelho
vindo
não do meu velho
coração
vermelho sangue
mas
dos meus dedos
manchados
da minha língua
rubra
dos meus olhos
molhados
que
de tanto
colher comer olhar
amoras
amorados estão
11 de set de 2009
do que cantamos
a penas
suas próprias dores
canta as dores do mundo
e segue
acreditando na impossível cura
10 de set de 2009
dos fazeres poéticos
Oscar Wilde
9 de set de 2009
solo
8 de set de 2009
e por falar em setembros
cinzas
a vida é mesmo rara
ave que canta breve
e logo voa
dente de leão
soprado pelo vento
bolha de sabão
fagulha de fogueira
cinzas nos olhos
depois do incêndio
bolhas que ardem
em nossas mãos vazias
de primaveras
poema publicado no Full of Crow
7 de set de 2009
setembros tantos
prestes
a devorar mais um setembro
antes
deixem-me agradecer
por tudo
por todos, por tantos
agora sim, soltem os cães
6 de set de 2009
4 de set de 2009
cavalos de terra
há anos que me olham com seus olhos mansos e opacos
rédeas esticadas, empoeiradas , não os afetam
as folhas miúdas no alto relevo, não morrem
lembro das mão fortes do meu avô modelando o barro
sinto o cheiro da argila, dos panos molhados, da oficina
lembro dos arames, dos velhos cinzéis, das espátulas
vejo claramente o esboço desenhado no papel canson
relincham de saudades os cavalos de terra da minha infância
me agarro às suas crinas, deixo que me levem ao sabor do vento
3 de set de 2009
rebentos
em minhas janelas
- das minhas flores
andei distante
- secaram
os galhos secos
esqueci de regá-los
- indiferente
andei assim
- quase sequei
de pétalas e folhas
me desfiz
- em galhos secos
perdi o brilho e o viço
desfeita
- quase morri
vieram as chuvas
que sempre vêm
- e eu renasci
quando vier o sol
dos meus gerânios
- virão rebentos
2 de set de 2009
escolhas
1 de set de 2009
an anna blume, de kurt schwitters
é este o tempo de reler anna blume
este é o dia de reler anna blume
e a hora de reler anna blume:
é agora
Ó tu, amada dos meus vinte e sete sentidos, eu
lhe amo! — Tu teu te a ti, eu a ti, tu a mim.
— Nós?
Isto (aliás) não vem ao caso.
Quem és tu, dona inumerável? Tu és
— és? — Dizem que serias — deixa
que digam, eles nem sabem como a torre da igreja se sustém.
O chapéu sobre os pés, caminhas
sobre as mãos, com as mãos tu caminhas.
Olá, teus vestidos vermelhos, serrados em pregas brancas.
Eu amo Anna Flor vermelho, vermelho eu lhe amo! — Tu
teu te a ti, eu a ti, tu a mim. — Nós?
Isto (aliás) é coisa para a brasa fria.
Flor vermelha, vermelha Anna Flor, o que andam dizendo?
Responda e ganhe: 1. Anna Flor tem um macaco no sótão.
2. Anna Flor é vermelha.
3. Qual é a cor do macaco?
Azul é a cor do teu cabelo amarelo.
Vermelho é o chiado do teu macaco verde.
Tu, moça simples de vestido de chita, tu, doce
bicho verde, eu lhe amo! — Tu teu te a ti, eu
a ti, tu a mim, — Nós?
Isto (aliás) é coisa para o braseiro.
Anna Flor! Anna, a-n-n-a, gotejo o teu nome.
Teu nome pinga como tenra gordura bovina.
Sabes, Anna? Já o sabes?
Posso ler-te também de trás para frente, e tu,
a mais formosa de todas, serás sempre, de trás para frente e de
frente para trás: »a-n-n-a«.
Gordura bovina goteja acaricia minhas costas.
Anna Flor, tu, bicho gotejante, eu lhe amo!
Tradução: Fabiana Macchi
31 de ago de 2009
30 de ago de 2009
álbum: alexander rodchenko

Rodchenko e Stepanova 1922
29 de ago de 2009
28 de ago de 2009
só isso
esqueci de regá-las
- só isso
secaram
restaram as sementes
vou regar muito
este meu coração agora
até que brotem
e outra vez floresçam
- mais nada







A obra 