30 de out de 2009

espelho d’água


Helder Afonso - Olhares

dérmicas escamas
sopradas pelo vento

barbatanas

revérbero dos peixes
e outros seres do abismo

mundo invisível
onde a luz é apenas
uma miragem

quem?
habita meus olhos
onde?
a máscara do sol

quem?

sabe dos sonhos submersos
das camadas da pele
do sal dos olhos míopes

cristalinas águas a se perder
contidas

pelas ásperas bordas do vazio

28 de out de 2009

memória silenciosa


Tomasz Gudzowaty - Jovem Jóquei da Mongólia

nos olhos do cavalo
- um brilho
reflexo vítreo
de sílicas epidermes
- verdes
e o cavalo galopa
- sem saber que brilha
sem saber que o pássaro
olhos de nuvem
- espia
nos seus
olhos de pássaro
- um brilho

nos olhos do menino
- faíscas
a voar dos cascos
sob a luz vermelha
- do sol
dos nossos olhos
- um flash
e o instante retido
- memória silenciosa
na prata do papel
- o verde
em preto e branco
- um brilho

27 de out de 2009

ser enquanto ser



gato no telhado
- tantra
cão no quintal
- quasar

sapo no mangue
- mantra
boi no pasto
- prana, paz

eu
- tanto faz

26 de out de 2009

um poema de Abel G. Díaz*

SENTIDO

Caminho passando a língua pelo tempo
ficando sem lábios
sem mãos para pôr sobre a toalha da casa
e sem casa onde meter minha única viagem

Não levo guarda-chuva nem esparadrapo
unicamente esta noite viúva de parágrafos
estas gavetas sem vida privada
esta incursão solene e futura

Avanço até a porta
são cinco horas
despeço uma mulher

tomo a vela e rezo:
“Pai meu — digo
Pai meu, obrigado
os galos me enchem as mãos de suor
e a salvação é uma dor de cabeça cheia de pássaros,
ao centro a aspirina de teus olhos”

e digo bom dia
e que em paz descanse o que eu disse

* nascido em Morón, Cuba - 1952

24 de out de 2009

hortelã


chaleira antiga sobre o fogão
a água ferve

na louça branca a erva fresca
- espera

em breve vai arder e liberar
sabores e aromas

o que então era incolor e frio
- vai colorir de verde

este raminho de hortelã, ser
queria tanto


* este chá foi parar no balaio

22 de out de 2009

aniz estrelado

aniz estrelado
tisana
adoçada com mel

perfumada estrela
semente
fruto da terra

da minha boca
o céu
adoça e ilumina

21 de out de 2009

nydianas

Convido vocês a conhecer as NYDIANAS.

19 de out de 2009

dois poemas de Romério Rômulo



abertura, 1*

1. é louco ser solene.
é lúcido ser louco!

2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.

3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.

4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!

5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!

6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.

*do livro “Per Augusto & Machina”, que acaba de ser lançado.


para renata**

eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã, fel em mim,
entope minhas veias.

quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.

**um dos poemas de Romério que mais gosto, dedicado à poeta Renata Nassif

"Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. Com a coragem dos que querem aquela lucidez, não trapaceia com a realidade". Trecho do prefácio de Augusto & Machina, por Maria da Conceição Paranhos.

17 de out de 2009

...

queria fazer
um poema feliz

queria
- um poema feliz

um poema feliz
um poema

- não fiz

16 de out de 2009

um poema de Mario Benedetti



Papel Mojado

Con ríos
con sangre
con lluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado

Mario Benedetti

15 de out de 2009

atávico

em nossos olhos - brilhos - dos primeiros sóis - nascentes
delírios - da primeira lua – maré cheia

quando vier o último dos sóis – poente e a lua decrescente
no céu de faz de conta que em contas se desfaz

fundo azul - tatuagem ancestral - cristalinas águas - sal
atávico - além do véu do tempo - o brilho

13 de out de 2009

do sentimento das coisas


Alex Axon

I - O POÇO

Lá fora a noite
é um poço antigo quase
- estéril.

Os limos secos agarram-se às paredes
que de tão cansadas e esquecidas
- desmancham.

Nas poucas águas que restaram
refletidas luas e estrelas – azuis
- lembranças.

As cordas - por um fio - ainda tangem
a canção secular do atrito das roldanas
- lamentos.

Tremem ao toque das mãos rudes - vento
e à visão dos lábios e dos olhos
- sedentos.

Lá fora a noite
é um poço louco que delira
- e transborda.

12 de out de 2009

um poema de Alex Fleites


Danusia Necula - Foto Jurnal

A Dois Espaços

Nada é meu, nem mesmo a parábola do vento.
Como outros reúnem estrelas, caracóis,
juntei palavras que outros inventaram
para estar depois do sono e da vigília.
Assim entrei pela palavra porta
buscando de minha mãe o intrincado coração
e ali fiquei agachado,
deixando-me ir na maré de seu sangue.

Janela e amor me conduziram
à abismal tristeza desta mulher de respiração cansada
que espera de meus versos sabe-se lá que milagres.

Com a palavra canção menti com ternura aos amigos,
contei histórias de moças
que me chamavam na chuva,
quando na realidade era a combustão do vento
entre galhos.

Em papel almaço, a dois espaços,
durante anos armazenei
verazes notícias incríveis
e sonhos irrealizáveis que acontecem todos os dias.

Por isso é bom ir arrumando manuscritos,
deixar claro que porta serve, no máximo,
para tocar o coração da casa,
e que amor e janela existem para que a gente veja,
entre outras coisas,
como se afasta esta mulher com minha bagagem,
tal como se eu mesmo me afastasse.

Juntar palavras é um delito nobre.
Se fosse minha a parábola do vento
poderia hoje mesmo começar um grande poema.

Alex Fleites, 1954

11 de out de 2009

do fim, da linha


linha
tece bordado fino
sutura
ferida aberta
prumo
nas mãos do pedreiro
trilho
onde corre o trem
pipa
nas mãos do menino
traço
na folha de papel
destino
na palma da mão
vertigem
no cirque du soleil
trilha
por onde anda o verso
rumo
no mapa do céu
e tudo
sempre chega
nada
ao fim da linha

9 de out de 2009

presente

no momento que passa, um presente
de valor inestimável

pacote embrulhado em papel fino
cordão dourado

laço de fita que se desfaz
ao ser tocado

8 de out de 2009

um poema de Reina Maria Rodríguez*


A Ponto
a ponto de escrever
"o estado natural do homem é a tristeza"
tu apareceste

Victor Rodriguez Nuñez - poeta cubano

A ponto de parir meu terceiro filho
olho meu mamilo escuro
e a pele tensa do ventre.
a ponto de cumprir 28 anos
alguns homens -- suas histórias
com medo da esperança
como tantas vezes
faço lista de preços
compro mapas -- seus acordes o tempo
lugares onde amar
busco uma casinha os pães no forno
e o amor.
a ponto de perder-me no quadro de alguma exposição
que nunca sonhei
e ficar imóvel
somente olhando para você
me abandono nos parques com o guarda-chuva
tão verde.
as formigas sobem outra vez ao coração
e me apaixono
por teus olhos caramelo quebrado.

Perco os dias
na estrada de San Francisco encruzilhada
buscando uma liteira
onde encontrar-te.
a ponto de perder a loucura
espero um telefone público
onde soam tuas palavras
entrecortadas sem graça monossilábicas
que caçoam da distância
enquanto eu faço os minutos.
a ponto de assaltar as pequenas ratoeiras
onde o amor dormiu
e crescer definitivamente
com meus monstros joviais.

Eu te amando
é junho
e vovó trouxe melaço em folhas de laranja.
como nos tempos pequenos
me deixou a boca doce.
já não sou o quebra-cabeça de teu livro de histórias
pode tocar-me
tenho a carne morna
e o demônio azul de uma mulher.
esta noite chove não há notícia
e voltaram outra vez os cupins
a queimar suas asinhas para sempre.

*Reina Maria Rodríguez - Poeta Cubana

6 de out de 2009

sentidos


The Bird Watcher's Muse (collage art print)
Stiletto Heights

o pássaro
dos sete cantos
voa
com suas sete asas
- e sob a luz do sol
cintila
em suas sete cores
reflexas
- eu
com meus parcos
sextos
e outros primitivos
sentidos
- jamais
pude alcançar
o sétimo som
- sequer
voar além do básico
sexto céu
- no horizonte
raso
dos meus pares
- vermelho
ainda não surgiu
o sétimo sol
- silencioso e branco
o pássaro
em minhas mãos
espera

5 de out de 2009

estigma

do amor inventado
arranca a pele
e sopra

- dói

mas se refaz

em amor de verdade
refeito em pele
nova

- viva

ou

- cicatriza

a solidão em paz

4 de out de 2009

são francisco


Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
E o Deus menino
Tão pobrezinho
Leva comida
Pros passarinhos


Vinícius de Moraes/Paulo Soledade

3 de out de 2009

antologia bloética: poemas e poetas

Antologia Bloética é uma página que se propôs a compilar poetas que divulgam exclusivamente seus poemas em blog. Autores que possuem obras publicadas em livro, mas que também publicam na blogosfera, poderão ter seus poemas selecionados. Todos convidados a conhecer o blog dos "bloetas", aqui.

2 de out de 2009

néctar


Lost In Words - Stiletto Heights

poesia
flor de primavera

nós
ávidos beija-flores

1 de out de 2009

diversos e afins

Acaba de sair uma nova leva do Diversos e Afins, um espaço super especial, onde Leila Andrade e Fabrício Brandão, em palavras, imagens e outros tantos signos, fazem um belo trabalho. Tem um poema meu lá, hoje. Apareçam. Serão todos muito bem vindos.

30 de set de 2009

galeria stiletto heights



8 - Stiletto Heights

29 de set de 2009

dos gritos, dos silêncios

gritam
silêncios
antigos
querem
ser
ouvidos
pobres
não
sabem
que já
não há
palavras
pois já
não há
ouvidos

um poema de abdur rahman

A sorte é como um oleiro — molda e quebra
Muitos, como você e eu, ela criou e destruiu.

*Abdur Rahman, poeta afegão

27 de set de 2009

foz

por favor não me venha, com teus olhos de mar
que meus olhos de rio vão querer desaguar
nestes olhos de amar

26 de set de 2009

grous


crase
me contraio em vogais

com(n)_ fusão de dois
a(i)s

asas são duas – opostas
eqüidistantes

ases são poucos
e loucos

frases são gruas
e voam

fases são bandos
de grous

migração em V.
flutuam

ritual da paixão
dançam

tsurus humanos

25 de set de 2009

"landays" de sayd bahodine majrouh

Ontem à noite estive com o meu amado
uma noite de amor que não se repetirá.

Como um guizo, com todas as minhas jóias
tini em seus braços até ao fundo da noite.

Meu amor, para lá das montanhas, contempla a lua
e verás que te espero, de pé, sobre o telhado.

Dá-me a tua mão, amor, vamos para os campos
para nos amarmos ou cairmos juntos apunhalados.

Pousa a tua boca na minha
mas deixa a minha língua livre para te falar de amor.

Amanhã os famintos do meu amor serão satisfeitos
porque quero atravessar a aldeia com o rosto descoberto e os cabelos ao vento.

Os poemas (landays) foram recolhidos por Sayd Bahodine Majrouh, poeta afegão e traduzidos por Ana Hatherly. O livro se chama O Suicídio e o Canto (A Voz Secreta das Mulheres Afegãs), publicado pela Cavalo de Ferro. Ousados, curtíssimos e brutais, permitem traçar o perfil da mulher afegã, que apesar dos riscos, canta o desespero, a paixão, o despeito, num canto puro e belo.

24 de set de 2009

o grilo, a gota

há dias - muitos
em que
a minha poesia
tem a força de um grilo

e a fúria de uma gota

grilo
que já não pode cantar
g
o
t
a
prestes a despencar

a minha poesia agoniza

23 de set de 2009

um poema de sherko bekas




Tenho pousado o ouvido sobre o coração
da terra.

Tenho falado de amor, do seu amor
pela chuva,

à terra.


*Sherko Bekas, poeta da resistência curda.

22 de set de 2009

o jardim de um estranho

Meu coração é como uma criança: ele chora e exige
flores do jardim de um estranho.

Poeta afegão
*Minha Guerra Particular - Masuda Sultan

havia um sol


Mississippi Queen - Stiletto Heights

no mar do tempo
somos barcos

olhos no horizonte
que não se vê

coração ancorado
no cais que se desfez

entre brumas espessas
a viagem

na memória ancestral
havia um sol

por ele navegamos

20 de set de 2009

um poema de julio rodrigues correia

POEMA QUASE ADEUS PARA UM RIACHO

No ciclo de minha infância
havia um riacho de águas
claras e piscosas
que serpenteava
pelo ventre da cidade
e chegava impávido ao rio.
Dele o peixe sadio
nos almôços de sábado
nele o banho suave
nas manhãs dominicais.
Um dia chegaram os homens
com seus apetrechos
de fúria e ganância,
( agentes da destruição)
toldaram as águas
sufocaram cardumes
apodreceram suas margens.

E o riacho de minha infância
hoje está assoreado e morto
mas ainda corre
límpido e soberano
nos labirintos de minha memória.

Julio Rodrigues Correia, jornalista, sociólogo e poeta, Publicou quatro livros: "No Silêncio das Horas", "A Hora Noturna", poesias, " Crônicas Sem Tempo",crônicas e "A Ceia dos Imorais", teatro. Prepara o lançamento de "Degraus do Silêncio". Atualmente reside na cidade de Fortaleza,Ce.

Em minha opinião, Julio é um dos nossos mais brilhantes poetas contemporâneos. Mantém o blog acroatico, onde publica sua magnífica poesia.

Hoje foi o dia das surpresas. Julio me dedicou este poema, Cirandeira e Gisele - Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, publicaram dois textos meus em seus blogs. Convido vocês a conhecerem estes três espaços, todos muito especiais.

19 de set de 2009

culpa

atropelei um pássaro na rua hoje
e ele era branco
- doeu em mim

pedi perdão à natureza

ela me respondeu, num vento
ameno
- me isentando de culpa

continua doendo mesmo assim

crepúsculo

olhando as cidades, percebendo as trevas*

não terão de mim mais
que meus parcos [par c’os]
versos [universos]

que escapam

pela fenda [senda] dos olhos
pelo corte [sorte?] no peito
feito à lança

[perfume]

diante das dores
pusilânimes e intensas
da cidade que grita [late]

e agoniza

crepúsculo escarlate
do fim da raça [caça]
do que um dia julgamos

fosse [fosso] humano

* depois de ler: Dark Age Ahead de Jane Jacobs

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