14 de nov de 2009

dos sentires do tempo - III


Venus at Antique Mall in Powell, Ohio Matt McCaw

há um tempo na vida em que o melhor lugar
é o colo.
depressa vem o tempo da rua. intenso, breve
ele passa.
chega o tempo da casa. doce que parece ser
eterno.
— não é
chega enfim (cruel) o tempo em que nada
nos comporta.
— poesia
único refúgio (meu) neste tempo absurdo
sem lugar.

13 de nov de 2009

percussiva

tudo é preto tudo é branco
tudo é não sim

onde se esconderam as verdades
que moravam em mim?

tudo pode ser nada
nada pode não ser tudo assim

nada de poder tudo ou não
pode tudo nada tudo se danar

preta branca verdade
tudo se esconde

nada branco pode preto sim
tudo não haver danado ser onde?

sonora mentira

2.

as flores secas
os pássaros se foram

sequer há vento
a soprar as cortinas

12 de nov de 2009

1.



dança na janela
vermelha e branca – asa
pássaro é flor

11 de nov de 2009

ando assim

"ventos fortíssimos por dentro
e a calma da água no pote"

by Lalo Arias

10 de nov de 2009

cristaleira


Paris 1964 - Lady / Window - Jon Goell

cristaleira, meu coração
prateleiras
---------------------muitas taças
vazias, translúcidas, solitárias
desparceiradas
------potes de mel, chás, aveia
gergelim,pistache
bombons, biscoitos finos
-------------------------amaretos
vinhos, absintos, licores
águas ardentes
------------------------------
litros
-------------desbotadas as cores
no solo instável em que habito
tremores constantes
-------------------a todo instante
um deles transborda
e a cristaleira tange
------------a canção dos cristais
à espera
do grande terremoto
-----que engole transparências

sonhos e cacos

9 de nov de 2009

dois poemas de Víctor Rodríguez Núñez*



ANTIPOEMA

A ponto de escrever
“o estado natural do homem é a tristeza”
tu te apresentastes
------------- --------- quase resplandecente

Pensava continuar
---------------- ------ “e tudo o que eu faça
será para alcançar a alegria”
e te vejo nua — como não te havia visto antes —
sardenta magríssima chorando

E talvez concluir
“o belo é a manha da morte”
para beijar teus ossos
para beijar na pele
----------------- ----- o ponto mais feliz

Tudo
---------mulher
---------------- ------ para ficar sozinho
no fim de um poema que se engana.


CRÔNICA

Talvez comer pão
esférico e dourado
depois de uma sopa lívida
com vísceras de frango.
Escovar os dentes bem devagar
garoar no espelho
com espuma de rosas e claro perfume de menta
arrumar o cabelo
a camisa e as unhas.
Descer os degrau
--------que às vezes ninguém limpa.
Subir em um ônibus que vem do inferno
cumprimentos
----avenidas
------empurrões
--------semáforos
cruzando velozmente
e chegar tarde no cinema
essa jaula com sonho e mundo retido.
E lendo o jornal
ver coisas com estas:
--------duas naves vão a Vênus
--------“a estrela d’Alva”
--------e morreu Boumediene
--------presidente da Argélia.

Depois
---provar os versos
alegres
---atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
------vagabundo.
E finalmente o filme
“retângulo amoroso
------tema social”
com Fellini e De Sica na tela.
Caminhar rua abaixo
------entre álamos adormecidos
policiais acordados na frente das embaixadas
padarias abertas
----gatos que se suicidam
três bancos solitários com cheiro fresco de sêmen
latões de lixo
sonâmbulos que bebem aguardente e silêncio
----até a madrugada.
Subir os degraus
que de vez em quando alguém limpa
-- -- encurvada
------redonda --
e trancar-se no quarto azul
----desarrumado
onde escrevo e transcorro.
Então o amor
------e estas palavras.

*Nascido em La Habana, Cuba - 1955. Poeta, jornalista, crítico e professor de literatura hispânica em Kenyon College. Alguns de seus livros: Con raro olor a mundo (Premio David, 1981), Noticiario del solo (Premio Plural, 1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), El último a la feria (Premio EDUCA, 1995) y Oración inconclusa (Premio Renacimiento, 2000).

7 de nov de 2009

in memoriam


jon goell - 1964

meus vivos meus mortos
já não os distingo

e eles me olham
com a habitual indiferença

mais um porta-retrato
em preto e branco

na prateleira da memória

e o pó
nas molduras

sequer
o vento sopra

faz sol e ainda é cedo



abro meus olhos e as janelas do dia. abrirei portas.

café com pão sagrados. respiro fundo, pé na estrada. já de saída, três vira-latas na festa da rua. é muito azul e verde, a liberdade plena - há que celebrar. sinto pena do meu cão atrás das grades. sigo em frente.

um sapo - estatelado no asfalto, seco - vira pedra. um pássaro de peito amarelo e mudo - ainda é um pássaro. um bem-te-vi cinzento quase arrebenta garganta e arame farpado.

um guard-rail metálico, que violenta a mata, corre - ao lado da cicatriz de concreto. mais um passo. em pencas, a natureza - mãe - se vinga - flores vermelhas que se atiram suavizando cinzas e metais.

olho a montanha. quase encoberto por árvores imensas, velho chalé resiste. fumaça... chego ao imenso portal que dá no nada. chegadas e partidas são só pedaços. o mesmo trem, se houvesse. dou meia volta. feliz hoje retomo minha caminhada.

amanha já não sei. ninguém sabe amanhã. e a tarde quem sabe? lembro-me do sonhos da noite. apesar da lembrança que engoliu a saudade que engoliu a tristeza que quase me engoliu, a manhã está clara.

faz sol e ainda é cedo. eu, outra vez no caminho.

5 de nov de 2009

anǐma

soprei

versos
sem alma

que andam
por aí

feito zumbis

até

que o corpo
se desfaça

ou a vida
retorne

3 de nov de 2009

minguante

a lua era cheia
andei delirante
caí na real minguante

2 de nov de 2009

um poema de Aramis Quintero*


a Cesar Vallejo

Enquanto Fala

Um homem morto lá em seu pé repousa,
e com sua mão livre nos cumprimenta
enquanto a outra arranha tristemente a terra.

Como nos amou então seu cabelo.
Como nos ama agora. Quanto sente
cumprimentar-nos assim, sem o lenço.

Como nos diz agora que já volta,
que não demora, só
o que gasta para ver como está seu pessoal,
tomar café, se for o caso, e estar de volta.

Como nos diz agora que já volta, e sabe
que para nós dava no mesmo, e não sabe
como agora queríamos
que secasse sua mão, a que arranha,
e com as duas nos abraçasse, e depois
reunidos, comemos alguma coisa e olhamos
como se já não fosse embora e amanhã
voasse para Lima ou Paris. Quase o vemos
lá outra vez, amando-nos.

E, enquanto fala, cai
um distante pó de biscoitos.

* Nascido em Cuba, 1948, reside no Chile. Poeta, narrador e ensaísta, licenciado em Língua e literatura hispânica, pela Universidade de Havana.

ritual

mais cedo
que de costume

acordo

e entre ciprestes
cumpro

o ritual da saudade

o pássaro
leva nas asas

o abraço e a prece

30 de out de 2009

espelho d’água


Helder Afonso - Olhares

dérmicas escamas
sopradas pelo vento

barbatanas

revérbero dos peixes
e outros seres do abismo

mundo invisível
onde a luz é apenas
uma miragem

quem?
habita meus olhos
onde?
a máscara do sol

quem?

sabe dos sonhos submersos
das camadas da pele
do sal dos olhos míopes

cristalinas águas a se perder
contidas

pelas ásperas bordas do vazio

28 de out de 2009

memória silenciosa


Tomasz Gudzowaty - Jovem Jóquei da Mongólia

nos olhos do cavalo
- um brilho
reflexo vítreo
de sílicas epidermes
- verdes
e o cavalo galopa
- sem saber que brilha
sem saber que o pássaro
olhos de nuvem
- espia
nos seus
olhos de pássaro
- um brilho

nos olhos do menino
- faíscas
a voar dos cascos
sob a luz vermelha
- do sol
dos nossos olhos
- um flash
e o instante retido
- memória silenciosa
na prata do papel
- o verde
em preto e branco
- um brilho

27 de out de 2009

ser enquanto ser



gato no telhado
- tantra
cão no quintal
- quasar

sapo no mangue
- mantra
boi no pasto
- prana, paz

eu
- tanto faz

26 de out de 2009

um poema de Abel G. Díaz*

SENTIDO

Caminho passando a língua pelo tempo
ficando sem lábios
sem mãos para pôr sobre a toalha da casa
e sem casa onde meter minha única viagem

Não levo guarda-chuva nem esparadrapo
unicamente esta noite viúva de parágrafos
estas gavetas sem vida privada
esta incursão solene e futura

Avanço até a porta
são cinco horas
despeço uma mulher

tomo a vela e rezo:
“Pai meu — digo
Pai meu, obrigado
os galos me enchem as mãos de suor
e a salvação é uma dor de cabeça cheia de pássaros,
ao centro a aspirina de teus olhos”

e digo bom dia
e que em paz descanse o que eu disse

* nascido em Morón, Cuba - 1952

24 de out de 2009

hortelã


chaleira antiga sobre o fogão
a água ferve

na louça branca a erva fresca
- espera

em breve vai arder e liberar
sabores e aromas

o que então era incolor e frio
- vai colorir de verde

este raminho de hortelã, ser
queria tanto


* este chá foi parar no balaio

22 de out de 2009

aniz estrelado

aniz estrelado
tisana
adoçada com mel

perfumada estrela
semente
fruto da terra

da minha boca
o céu
adoça e ilumina

21 de out de 2009

nydianas

Convido vocês a conhecer as NYDIANAS.

19 de out de 2009

dois poemas de Romério Rômulo



abertura, 1*

1. é louco ser solene.
é lúcido ser louco!

2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.

3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.

4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!

5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!

6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.

*do livro “Per Augusto & Machina”, que acaba de ser lançado.


para renata**

eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã, fel em mim,
entope minhas veias.

quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.

**um dos poemas de Romério que mais gosto, dedicado à poeta Renata Nassif

"Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. Com a coragem dos que querem aquela lucidez, não trapaceia com a realidade". Trecho do prefácio de Augusto & Machina, por Maria da Conceição Paranhos.

17 de out de 2009

...

queria fazer
um poema feliz

queria
- um poema feliz

um poema feliz
um poema

- não fiz

16 de out de 2009

um poema de Mario Benedetti



Papel Mojado

Con ríos
con sangre
con lluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado

Mario Benedetti

15 de out de 2009

atávico

em nossos olhos - brilhos - dos primeiros sóis - nascentes
delírios - da primeira lua – maré cheia

quando vier o último dos sóis – poente e a lua decrescente
no céu de faz de conta que em contas se desfaz

fundo azul - tatuagem ancestral - cristalinas águas - sal
atávico - além do véu do tempo - o brilho

13 de out de 2009

do sentimento das coisas


Alex Axon

I - O POÇO

Lá fora a noite
é um poço antigo quase
- estéril.

Os limos secos agarram-se às paredes
que de tão cansadas e esquecidas
- desmancham.

Nas poucas águas que restaram
refletidas luas e estrelas – azuis
- lembranças.

As cordas - por um fio - ainda tangem
a canção secular do atrito das roldanas
- lamentos.

Tremem ao toque das mãos rudes - vento
e à visão dos lábios e dos olhos
- sedentos.

Lá fora a noite
é um poço louco que delira
- e transborda.

12 de out de 2009

um poema de Alex Fleites


Danusia Necula - Foto Jurnal

A Dois Espaços

Nada é meu, nem mesmo a parábola do vento.
Como outros reúnem estrelas, caracóis,
juntei palavras que outros inventaram
para estar depois do sono e da vigília.
Assim entrei pela palavra porta
buscando de minha mãe o intrincado coração
e ali fiquei agachado,
deixando-me ir na maré de seu sangue.

Janela e amor me conduziram
à abismal tristeza desta mulher de respiração cansada
que espera de meus versos sabe-se lá que milagres.

Com a palavra canção menti com ternura aos amigos,
contei histórias de moças
que me chamavam na chuva,
quando na realidade era a combustão do vento
entre galhos.

Em papel almaço, a dois espaços,
durante anos armazenei
verazes notícias incríveis
e sonhos irrealizáveis que acontecem todos os dias.

Por isso é bom ir arrumando manuscritos,
deixar claro que porta serve, no máximo,
para tocar o coração da casa,
e que amor e janela existem para que a gente veja,
entre outras coisas,
como se afasta esta mulher com minha bagagem,
tal como se eu mesmo me afastasse.

Juntar palavras é um delito nobre.
Se fosse minha a parábola do vento
poderia hoje mesmo começar um grande poema.

Alex Fleites, 1954

11 de out de 2009

do fim, da linha


linha
tece bordado fino
sutura
ferida aberta
prumo
nas mãos do pedreiro
trilho
onde corre o trem
pipa
nas mãos do menino
traço
na folha de papel
destino
na palma da mão
vertigem
no cirque du soleil
trilha
por onde anda o verso
rumo
no mapa do céu
e tudo
sempre chega
nada
ao fim da linha

9 de out de 2009

presente

no momento que passa, um presente
de valor inestimável

pacote embrulhado em papel fino
cordão dourado

laço de fita que se desfaz
ao ser tocado

8 de out de 2009

um poema de Reina Maria Rodríguez*


A Ponto
a ponto de escrever
"o estado natural do homem é a tristeza"
tu apareceste

Victor Rodriguez Nuñez - poeta cubano

A ponto de parir meu terceiro filho
olho meu mamilo escuro
e a pele tensa do ventre.
a ponto de cumprir 28 anos
alguns homens -- suas histórias
com medo da esperança
como tantas vezes
faço lista de preços
compro mapas -- seus acordes o tempo
lugares onde amar
busco uma casinha os pães no forno
e o amor.
a ponto de perder-me no quadro de alguma exposição
que nunca sonhei
e ficar imóvel
somente olhando para você
me abandono nos parques com o guarda-chuva
tão verde.
as formigas sobem outra vez ao coração
e me apaixono
por teus olhos caramelo quebrado.

Perco os dias
na estrada de San Francisco encruzilhada
buscando uma liteira
onde encontrar-te.
a ponto de perder a loucura
espero um telefone público
onde soam tuas palavras
entrecortadas sem graça monossilábicas
que caçoam da distância
enquanto eu faço os minutos.
a ponto de assaltar as pequenas ratoeiras
onde o amor dormiu
e crescer definitivamente
com meus monstros joviais.

Eu te amando
é junho
e vovó trouxe melaço em folhas de laranja.
como nos tempos pequenos
me deixou a boca doce.
já não sou o quebra-cabeça de teu livro de histórias
pode tocar-me
tenho a carne morna
e o demônio azul de uma mulher.
esta noite chove não há notícia
e voltaram outra vez os cupins
a queimar suas asinhas para sempre.

*Reina Maria Rodríguez - Poeta Cubana

6 de out de 2009

sentidos


The Bird Watcher's Muse (collage art print)
Stiletto Heights

o pássaro
dos sete cantos
voa
com suas sete asas
- e sob a luz do sol
cintila
em suas sete cores
reflexas
- eu
com meus parcos
sextos
e outros primitivos
sentidos
- jamais
pude alcançar
o sétimo som
- sequer
voar além do básico
sexto céu
- no horizonte
raso
dos meus pares
- vermelho
ainda não surgiu
o sétimo sol
- silencioso e branco
o pássaro
em minhas mãos
espera

5 de out de 2009

estigma

do amor inventado
arranca a pele
e sopra

- dói

mas se refaz

em amor de verdade
refeito em pele
nova

- viva

ou

- cicatriza

a solidão em paz

4 de out de 2009

são francisco


Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
E o Deus menino
Tão pobrezinho
Leva comida
Pros passarinhos


Vinícius de Moraes/Paulo Soledade

3 de out de 2009

antologia bloética: poemas e poetas

Antologia Bloética é uma página que se propôs a compilar poetas que divulgam exclusivamente seus poemas em blog. Autores que possuem obras publicadas em livro, mas que também publicam na blogosfera, poderão ter seus poemas selecionados. Todos convidados a conhecer o blog dos "bloetas", aqui.

2 de out de 2009

néctar


Lost In Words - Stiletto Heights

poesia
flor de primavera

nós
ávidos beija-flores

1 de out de 2009

diversos e afins

Acaba de sair uma nova leva do Diversos e Afins, um espaço super especial, onde Leila Andrade e Fabrício Brandão, em palavras, imagens e outros tantos signos, fazem um belo trabalho. Tem um poema meu lá, hoje. Apareçam. Serão todos muito bem vindos.
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