28 de dez de 2009

defectiva

não
não me falta o verbo

falta-me a vontade
de conjugá-lo

26 de dez de 2009

humanidades


mais uma vez

minha alma oscila: - entre céu e inferno
doçuras e amargores

- descrenças e esperanças, delícias e dores

mais uma vez

agradeço a meu Deus por sua humanidade
- e pela minha

22 de dez de 2009

feliz! feliz! feliz!!!

feliz! feliz! feliz!!!
que seja o seu Natal!

Cora Coralina

19 de dez de 2009

tsurus de papel



íbis caminha sobre as águas
aves raras, não as vemos

aves cinzentas proliferam

deixam mais cinza o asfalto
e o céu, já encoberto de fumaça

em algum lugar
um rouxinol se esconde

um colibri insiste e faz seu ninho
em um arranha-céu

andorinhas outra vez fazem verão

tsurus de papel sinalizam:
ainda há esperança

*Depois de ler Gisele e Henrique, me lembrei deste poema.

17 de dez de 2009

milagre


Polly Wreford

nasceu
de goiaba um pé

entre o tijolo do muro
e o concreto
do chão do meu quintal

cresceu

nele meu cão se abriga
do calor do verão

único verde
a humanizar do cinza
a aridez — milagre

de passarinho

15 de dez de 2009

estio

pousa tão leve
borboleta amarela
o sol nas asas

águas do céu dão trégua
quem tiver asas, voe...

Tem um poema meu hoje, no POESIA DIVERSA. Obrigada, Hilton!

14 de dez de 2009

mal ou bem - dito


hoje eu não tinha mesmo nada a dizer

busco palavras - onde as encontro? todas tão gastas, puídas, todas
tão - sinônimas

manifesto verbal ou escrito. fonemas sem nexo, vocábulos. busco
articulado som. onde?

o silêncio se impõe. o silêncio é estado de quem se cala. a ausência
é estado de não presença

o estado é modo de estar ou ser. unidade dividida. falada língua. mãe
nação. onde?

soberania - extensão considerável. lagos, rios, solos – o chão. baias
geografias

geo - metrias, centrias, fasias – engulo terra. vomito palavras. tantas
jogo sujo. onde?

salvos pelo verbo, campo minado – território sitiado: minha pátria
língua. derrotado silêncio

quando não se tem o que calar, melhor falar. fica assim então o dito
pelo não. ou quase - mal ou bem. dito

12 de dez de 2009

velhas árvores

observando a velha árvore pude ver tão claro (manifesto)
que ela tem corpo e alma (como tudo que vive)

tronco (matéria) que se eleva rumo ao infinito (sol)
galhos (braços) que se estendem sobre a avenida (vida)

e a alma
sob

(raiz)

10 de dez de 2009

improvável sol


wishful-thinking


o pássaro que mora em mim insiste e canta
pressentindo sóis

nascentes

tolo, não se deu conta ainda, de que a noite
abissal em que vive

nunca amanhece

8 de dez de 2009

um texto de Sylvia Plath



E quando finalmente você encontra alguém a quem sente poder derramar sua alma, você pára, em choque, sem palavras - estão tão enferrujadas, tão feias, tão sem sentido e frágeis, por terem sido guardadas no escuro, pequenas, sufocadas dentro de você por tanto tempo.
Sylvia Plath

6 de dez de 2009

contexta-me

Contextar = alguma coisa entre a contestação
e a necessidade de compreender o contexto.
Nina Castro

poetiza-me palavra
sentimenta-me
volátil
transfigura-me

sonoriza-me palavra
metrifica-me
rítmica
encadeia-me

expressa-me palavra
verbaliza-me
criativa
extrapola-me

contexta-me palavra
versa-me
fática
transcende-me

5 de dez de 2009

overmundianas I


boy-with-elephant - Vintage Photographs

elefantes azuis

o tempo não pára mesmo. ele não tem mais jeito. desandou a correr, ultimamente. desembestou. estouro de boiada. manada
__ de elefantes azuis

lava que escoa. corredeira. maremoto. cachoeira. avalanche. batedeira
__desertos

nós, surfistas sobre ondas instáveis. cabelo parafina, pele dourada
__sob o sol que agoniza

nós, turistas num safári no Quênia. sobrevoando baixo, sobre a boca vermelha
__de algum vulcão

escalando Everests, enfrentando Saaras, tempestades de areia
__insolação

ao longe a vida: miragem. oásis
__onde?

2 de dez de 2009

assim


Shoes - Matthew Darkins

menina, levanta!
ordenou-me a poesia

(me segurando pela mão)

levantei-me
e me pus a caminhar

30 de nov de 2009

o pássaro

o pássaro
com seus olhos de céu
----.---.---.---..me olha
buscando em mim
as asas
-.-.---que já não tenho

28 de nov de 2009

o vento


Enjoy the Wind - Floriana Barbu

o vento

so
pra da minha mão
a folha de papel

o vento


veio me dizer
que ninguém está

27 de nov de 2009

palabares

dançam

em nossas mãos
palavras

desafiando

o frágil equilíbrio
do sentido

no limiar

entre silêncio
e som

entre música
e ruído

25 de nov de 2009

dois haicais de lírica


1.
papel de seda
palavras mágicas
música de passarinho

2.
em dia de verão
canta o canarinho
na varanda do sonho

*Hilton Valeriano publicou hoje alguns textos meus no Poesia Diversa, um blog de divulgação da poesia brasileira em sua diversidade, que com certeza vale a pena conhecer. Obrigada Hilton!

22 de nov de 2009

das dores do poeta

--- ((para o poeta Julio Rodrigues Correia)

o poeta está triste

pesam-lhe sobre os ombros
as dores do seu povo

e a insensatez do seu tempo

na sua humanidade, o poeta
— que não crê

transcende e toca o céu

olhando a cidade

'Man with Guitar, Paris' by John Cuthbertson

19 de nov de 2009

eu e a cidade

---- (para o poeta da cidade que desaparece)

sempre
-------andei pela cidade
me sentindo invisível

agora
------que ela desaparece
encontrei meu lugar

finalmente-posso tocá-la

uma fresta



Andrei Baciu

18 de nov de 2009

clarão

pequeno - meu horizonte - tão limitado
- (uma fresta)
mas nele cabe - (imenso) - o mesmo sol
- que aquece
e tinge - (de vermelho) - a terra inteira

17 de nov de 2009

o mesmo céu



H. Armstrong Roberts - gettyimages

16 de nov de 2009

...

chuva e escuridão
o mesmo céu da infância
... sem lamparinas

14 de nov de 2009

dos sentires do tempo - III


Venus at Antique Mall in Powell, Ohio Matt McCaw

há um tempo na vida em que o melhor lugar
é o colo.
depressa vem o tempo da rua. intenso, breve
ele passa.
chega o tempo da casa. doce que parece ser
eterno.
— não é
chega enfim (cruel) o tempo em que nada
nos comporta.
— poesia
único refúgio (meu) neste tempo absurdo
sem lugar.

13 de nov de 2009

percussiva

tudo é preto tudo é branco
tudo é não sim

onde se esconderam as verdades
que moravam em mim?

tudo pode ser nada
nada pode não ser tudo assim

nada de poder tudo ou não
pode tudo nada tudo se danar

preta branca verdade
tudo se esconde

nada branco pode preto sim
tudo não haver danado ser onde?

sonora mentira

2.

as flores secas
os pássaros se foram

sequer há vento
a soprar as cortinas

12 de nov de 2009

1.



dança na janela
vermelha e branca – asa
pássaro é flor

11 de nov de 2009

ando assim

"ventos fortíssimos por dentro
e a calma da água no pote"

by Lalo Arias

10 de nov de 2009

cristaleira


Paris 1964 - Lady / Window - Jon Goell

cristaleira, meu coração
prateleiras
---------------------muitas taças
vazias, translúcidas, solitárias
desparceiradas
------potes de mel, chás, aveia
gergelim,pistache
bombons, biscoitos finos
-------------------------amaretos
vinhos, absintos, licores
águas ardentes
------------------------------
litros
-------------desbotadas as cores
no solo instável em que habito
tremores constantes
-------------------a todo instante
um deles transborda
e a cristaleira tange
------------a canção dos cristais
à espera
do grande terremoto
-----que engole transparências

sonhos e cacos

9 de nov de 2009

dois poemas de Víctor Rodríguez Núñez*



ANTIPOEMA

A ponto de escrever
“o estado natural do homem é a tristeza”
tu te apresentastes
------------- --------- quase resplandecente

Pensava continuar
---------------- ------ “e tudo o que eu faça
será para alcançar a alegria”
e te vejo nua — como não te havia visto antes —
sardenta magríssima chorando

E talvez concluir
“o belo é a manha da morte”
para beijar teus ossos
para beijar na pele
----------------- ----- o ponto mais feliz

Tudo
---------mulher
---------------- ------ para ficar sozinho
no fim de um poema que se engana.


CRÔNICA

Talvez comer pão
esférico e dourado
depois de uma sopa lívida
com vísceras de frango.
Escovar os dentes bem devagar
garoar no espelho
com espuma de rosas e claro perfume de menta
arrumar o cabelo
a camisa e as unhas.
Descer os degrau
--------que às vezes ninguém limpa.
Subir em um ônibus que vem do inferno
cumprimentos
----avenidas
------empurrões
--------semáforos
cruzando velozmente
e chegar tarde no cinema
essa jaula com sonho e mundo retido.
E lendo o jornal
ver coisas com estas:
--------duas naves vão a Vênus
--------“a estrela d’Alva”
--------e morreu Boumediene
--------presidente da Argélia.

Depois
---provar os versos
alegres
---atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
------vagabundo.
E finalmente o filme
“retângulo amoroso
------tema social”
com Fellini e De Sica na tela.
Caminhar rua abaixo
------entre álamos adormecidos
policiais acordados na frente das embaixadas
padarias abertas
----gatos que se suicidam
três bancos solitários com cheiro fresco de sêmen
latões de lixo
sonâmbulos que bebem aguardente e silêncio
----até a madrugada.
Subir os degraus
que de vez em quando alguém limpa
-- -- encurvada
------redonda --
e trancar-se no quarto azul
----desarrumado
onde escrevo e transcorro.
Então o amor
------e estas palavras.

*Nascido em La Habana, Cuba - 1955. Poeta, jornalista, crítico e professor de literatura hispânica em Kenyon College. Alguns de seus livros: Con raro olor a mundo (Premio David, 1981), Noticiario del solo (Premio Plural, 1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), El último a la feria (Premio EDUCA, 1995) y Oración inconclusa (Premio Renacimiento, 2000).

7 de nov de 2009

in memoriam


jon goell - 1964

meus vivos meus mortos
já não os distingo

e eles me olham
com a habitual indiferença

mais um porta-retrato
em preto e branco

na prateleira da memória

e o pó
nas molduras

sequer
o vento sopra

faz sol e ainda é cedo



abro meus olhos e as janelas do dia. abrirei portas.

café com pão sagrados. respiro fundo, pé na estrada. já de saída, três vira-latas na festa da rua. é muito azul e verde, a liberdade plena - há que celebrar. sinto pena do meu cão atrás das grades. sigo em frente.

um sapo - estatelado no asfalto, seco - vira pedra. um pássaro de peito amarelo e mudo - ainda é um pássaro. um bem-te-vi cinzento quase arrebenta garganta e arame farpado.

um guard-rail metálico, que violenta a mata, corre - ao lado da cicatriz de concreto. mais um passo. em pencas, a natureza - mãe - se vinga - flores vermelhas que se atiram suavizando cinzas e metais.

olho a montanha. quase encoberto por árvores imensas, velho chalé resiste. fumaça... chego ao imenso portal que dá no nada. chegadas e partidas são só pedaços. o mesmo trem, se houvesse. dou meia volta. feliz hoje retomo minha caminhada.

amanha já não sei. ninguém sabe amanhã. e a tarde quem sabe? lembro-me do sonhos da noite. apesar da lembrança que engoliu a saudade que engoliu a tristeza que quase me engoliu, a manhã está clara.

faz sol e ainda é cedo. eu, outra vez no caminho.

5 de nov de 2009

anǐma

soprei

versos
sem alma

que andam
por aí

feito zumbis

até

que o corpo
se desfaça

ou a vida
retorne

3 de nov de 2009

minguante

a lua era cheia
andei delirante
caí na real minguante

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