7 de mar de 2010

blecaute*


lírio_greg wittel

tenho medo
(parafina)
que o que sinto vaze
(gasolina)
pelo vão dos meus versos
(enxurrada)
estilhaços de nada
(granada)
risco iminente
(olhos inocentes)
artefatos vazios
(em chamas)
costumam ser fatais

* ou "um poema sem luz"

5 de mar de 2010

metamorfraseando

átomos
átimos atos tomos
alfa beta
gamo
a suspirar
por águas
pirata do mar
das palavras
vulcão em lavas
versos
lavras que brilham
larvas
que criam asas
e voam

2 de mar de 2010

pássaro (ainda)


sun_bird_edited1_2+elizabeth+bunsen

queria fazer
um poema de pássaro (ainda)
daqueles que fazem crescer asas em nós
mas a pele dourada do céu
em breve travestido de sombras
(manto negro hoje
sem seu bordado de estrelas e seu colar de lua)
me angustia
volto para o ninho
(onde os pássaros mudos adormecem)
deixo para amanhã meu canto
(caso amanheça)

28 de fev de 2010

ventania

o que mudou em mim?
onde a antiga calma?

e as certezas de pedra
que viraram areias

como resgato?

sono pesado sonhos leves
porque fugiram?

rebuliço no peito
ventania

(antiga brisa, volte)

árvore sem raiz
não sei

por quanto tempo ainda
suporto

a força dos ventos

27 de fev de 2010

desértica - II


Claudia Santos Silva - Blue Molleskin

tem chovido tanto
mas não chove em mim

árida
já nem versos brotam

processo irreversível
desertificação

dunas que se movem
sem direção

25 de fev de 2010

desértica

imenso este vazio
- me arrasto

mas quanto mais vazio
- mais leve

não posso compreender
- deliro

deveria voar
- mergulho

deveria calar
- não posso

faço versos e assim
- suporto

do deserto do não
- do nada

brotam flores azuis

22 de fev de 2010

vias



começamos a envelhecer
quando passamos a ver a vida
com os olhos dos nossos meninos
que até então, viam a vida com os nossos

I-
vias
a cidade é teia
estradas são veias
(vicinais)
sólidos concretos
pedras desiguais
trens subterrâneos
periféricos
suburbanos centrais
rodas sobre o asfalto
a vida em ciclo
vias
há quem caminhe
com seus próprios
pés

II-
o pássaro segue
(que aí ainda há)
na direção indicada
pelos sinais
telúricas correntes
vento luz calor
ancestrais instintos
paralelas linhas
via
duto sobre o rio
(Sena )
segue
a sina dos rios
fluir
na direção do mar

III-
enviesadas
tramas
retas
que se cruzam
perpendiculares
(labirintos)
luzes antigas
lampiões
secular memória
imóvel toda
via
observa
a vida passar
hoje
via teus olhos

20 de fev de 2010

do destino das conchas

a concha
que não quis ser tocada

seguiu
o destino das conchas

(que não são tocadas)

secou
sem conhecer a pérola




A ostra e o vento - Chico Buarque

19 de fev de 2010

ofício


Foto - Armandina Silva

a força foi sua escola - e se tornou
o ofício
hoje - carrega o mundo nas costas


* Henrique Pimenta - O Bardo - me dedicou um poema hoje - belo - como todos da sua lavra. Mas encontrei neste, alguns "códigos nydianos", o que me deixou imensamente feliz. Convido vocês para a "chacrinha brabuleta". Beijo, Henrique!

17 de fev de 2010

ainda era carnaval

ontem me convidaram
pro bloco dos felizes

não pude ir

não consegui achar
a minha velha fantasia

13 de fev de 2010

...

festa outra vez

é carnaval
sim


mas alegria

outra vez
não

10 de fev de 2010

preparados canteiros


pétalas_sérgio_bruneto

do bem do mal - brotarão flores - dos olhos (aquáticos)
e das mãos (de terra) dos meninos

preparados canteiros (à espera)

tempo de chuva agora (depois o sol) - inevitavelmente
as flores virão

8 de fev de 2010

dos sentires do tempo - II

no âmago
das dores do homem

há sinais do incêndio
que consome as horas

as dores
são filhas do fogo

o fogo
é irmão do instante

no imenso banquete
no altar do tempo

todos juntos ardem
e se devoram

6 de fev de 2010

expio


A_Tribute_to_Matterhorn_by_OnurY

pássaros no fio, aos pares

espiam

eu no meu canto

nem canto, nem pio

meu equilíbrio por um fio

5 de fev de 2010

ciclo

bem-te-vi canta longe
pressente o fim das chuvas
o sol por vir

4 de fev de 2010

...


H. Amstrong Robert - GettiImage

3 de fev de 2010

chuvas antigas

o dia de repente desbota. o vento sopra poeiras antigas - gravetos, painas, folhas e flores de dente de leão. na casa em frente, lampiões seculares se agitam. enlouquecem os pássaros, cães se escondem, árvores alteradas dançam num balé convulsivo. mulher puxa depressa os meninos pra dentro, arranca a roupa do varal, fecha correndo portas e janelas, acende velas, prepara a palma benta pra queimar: a chuva vai chegar.

1 de fev de 2010

três haicais de Beto Palaio

ilustração - natsumi nishizumi
Só crianças
Gastando tempo
Papeando

Just kids
Dropping time
Chitchatting

Borracha do lápis
Inevitavelmente mascada
Nas lições difíceis

Pencil’s eraser
Inevitably chewed
In hard lessons

Linda Nydinha
Mordendo o lápis
Bolando Haicáis

Beto Palaio - Littera Tour

Outsiderwriters - A Haiku Daily

31 de jan de 2010

abrigo

quero manter meu coração
sempre verde
sangrando em seiva

que nele possam
se abrigar muitos pássaros
metafísicos

(e não)

29 de jan de 2010

átimo de céu


Little_Bird_of_Blue_by_Sesfitts

de metileno
pássaro azul pequeno
átimo de céu

28 de jan de 2010

dois poemas

Dois poemas meus foram publicados hoje em dois blogs que gosto muito:

Literapura (Cosmunicando) e Lendo Poemas (Jefferson Bessa)

Para quem não conhece, vale a pena uma visita - dois espaços muito especiais.

Obrigada, Mercedes! Obrigada, Bessa!


* Também faço parte agora da troupe do Gato da Odete, outro espaço encantador. Miauuuu

Obrigada, Fátima!

27 de jan de 2010

improvável


imagem - addaf55dd

outra vez estendo meus braços
e tento
tento tento tento tocar

- não posso

cada vez mais tudo se distancia

- e a vida

que sempre me pareceu
intangível
agora - me parece improvável

25 de jan de 2010

porque há sol

sombras
----sobre as casas

sombras
----sobre nós

sombras
----sobretudo

porque: sobre tudo
----há sol

23 de jan de 2010

tanta vida


woman with bird cage - national geographic

Deus!
Quanta vida acontece longe dos meus olhos
E muito além deles...

Dialogando: Tanta Vida

22 de jan de 2010

casa 11 telefone 09

quando eu nasci

a casa ainda era branca
número 11

o telefone preto de manivela
número 09

e o céu, azul infinito

19 de jan de 2010

consolação


Philadelphia Fiddler-Amy E. McCormick

consolação

chega-me forte esta palavra hoje
o que nos consola?

filosofia, fé, poesia?
amor nos consola - ou nos consome?

dualidade quântica
princípio da incerteza o que me rege

então
samba-canção violino desafino

- já não há mais consolação

18 de jan de 2010

rudimentos

conto as horas no ábaco
como pão ázimo

sou como baixo-relevo
a minha bússola não me orienta

cabalas não me interpretam
um olho ciclope me olha

o meu debrum soltou a trama
um drible no destino

o fauno toca sua flauta
lua de marfim, noites de ébano

garimpo em velhas minas
rudimentos de novas gemas

17 de jan de 2010

...


Amy E. McCormick - Abundance

16 de jan de 2010

sagrado sentir

há dores que quando chegam
nos tornam mais - ou menos - humanos
- quem somos nós hoje?

quanto de nós
embruteceu - ou ascendeu rumo aos céus
- dos humanos sagrados sentires?

quantos (de nós?)
mergulharam no inferno - onde ardem
as indiferenças?

15 de jan de 2010

um poema de Jorge Cooper*

A solidão em que a morte
deixa o morto
É maior que a solidão da lua
Minha solidão soma
a solidão do morto
e a solidão da lua
- Sou mais só
que um louco.

*outro poema de Jorge Cooper

13 de jan de 2010

desarvorada


wilders_sumie_web -artwork

árvore antiga
não quer saber do tempo
nem dos setembros

árvore louca
rompendo as asperezas
explode em flores

9 de jan de 2010

consola-me

falo
do que não sinto
(minto)
invento memórias

conto histórias que não vivi

consola-me Pessoa
— todo poeta é mesmo
um fingidor

e eu finjo

dor e alegria
(finjo vida) e poesia

5 de jan de 2010

viração


Kais Ismail - Janelas p/ Nydia

brisa
que sopre leve

sobre

insuportável
peso

mormaço
antes das chuvas

silêncio escuro
antes

do primeiro sol

*O vento soprou este poema para o Balaio

3 de jan de 2010

portais

quero abrir portas (muitas) e adentrar
sejam casebres, castelos, ou templos

serão portais

que me levem - ao encontro do outro
onde habita o sagrado (onde me espelho)

1 de jan de 2010

acerto de contas


Alin Ciortea

vida
o que foi
que você fez comigo?
vida
o que foi
que eu fiz com você?
vida
o que foi que fizemos
juntas
— o que foi que não fizemos
e por quê?
vida
haverá tempo ainda?
vida
onde é que eu estava
quando você passou?

ainda assim
- distante a celebro
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