22 de abr de 2010

na estrada

depois de ler Walkyria

busco um caminho novo
de ser estar de poemar
será que encontro?

20 de abr de 2010

agônica

do que não somos
dizem
brotam flores
única e trágica
espécie
a florescer
hoje
no meu jardim

16 de abr de 2010

massacre

a luta pelo pão
massacrou a poesia

é tudo tão raso
tudo tão pouco
tudo tão

des_humano

verso nenhum resiste
a uni_verso tão

limitado

12 de abr de 2010

dos poetas, loucuras e vaidades


bukowski_crazy_inspiring_life

de perto ninguém é normal
às vezes segue em linha reta
a vida, que é meu bem, meu mal
caetano veloso
I-

no fino fio
que a lucidez
separa da loucura
o poeta se equilibra

ventos fortes soprando

II -

canto eu
cantamos nós
cantam vocês

sonoro verso
que nos faz poetas

III -

era um poema e tanto
era o melhor de todos

foi para o ralo

antes mesmo
de chegar ao rio

evaporou

que pena
não saberá dos abismos

nem do sal

IV -

solidão já não dói
vira poesia

ser poeta é ir além
do que se pode suportar

V -

chamam-me poeta

sou apenas uma tola
(uma louca de pedra)

que se desmancha em versos

VI -

todos

os poetas padecem
do mesmo mal (pecado?)

da vaidade dos poetas
livrai-nos Senhor

9 de abr de 2010

...

tarde sem sol
passarinho no ninho

por não ter asas
flor de esperar - espera

8 de abr de 2010

incrédula

era preciso acreditar
que outonos viriam
e arrancariam folhas e ventos soprariam
mas não - insisti na utopia
do eterno verão
das flores que não morrem - do céu
sempre azul

tenho as mãos e as unhas
sujas de terra agora
fui procurar sob as folhas secas
meus olhos antigos
não encontrei
quis mergulhar no campo
em busca de estrelas que já não havia

a pedra me salvou a pedra
me impediu de seguir – a pedra
filha do fogo
onde queimam poetas e loucos
filha das horas
que sedimentam folhas e poeiras
estratos de tempo
sopro

a carne
se curvou à pedra
o sangue
fecundou a terra
era inverno já - e eu nem sabia
que outras flores viriam
vieram - ainda assim
não acreditei

5 de abr de 2010

o infinito jaz z

paralelas linhas que se tocam
no infinito
perpendiculares que se cruzam ali
na esquina
(neon)
escolhi transitar
por aquelas que nunca se encontram
o infinito jaz z no caminho
(no mesmo tom)

3 de abr de 2010

dívidas


Foto: Frank Horvat

amor
com amor se paga


tem alguém me devendo

tenho também
algumas contas penduradas

em algum velho balcão
por ai

31 de mar de 2010

visagem

olhando a cidade
do alto
pude ver seus contornos
montanhas
em tons de azul e verde
amenizam arestas
(e a rispidez)
das disparidades
humanas e sociais
daqui
é tudo terra e gente

27 de mar de 2010

narciso às avessas


narciso_aurora_mim

águas paradas são águas tristes
pois contariam a essência das águas

fluir e encontrar o mar

águas paradas já não cantam
pois águas tristes não sabem cantar

águas paradas não refletem nada
pois não desejam ser tocadas pelo sol

(são águas mortas e vivem bem assim)

eu , Narciso às avessas
vejo estas águas refletidas em mim

22 de mar de 2010

pássaro (desde)

imensa, a árvore
me fez voltar à infância
flores
o que meus olhos viam
(eu desejava os frutos)
as mãos se aventuravam
na vertical vertigem
dos galhos altos
(eu desejava o vento)

18 de mar de 2010

em pétalas

bem agora
que eu tinha tanto a dizer
me falta a voz
(tenho pétalas
entaladas na garganta)
macias
seriam as palavras
vermelhas
(seda, perfume)

abre a janela
e olha
teus canteiros
(ou o velho vaso de flores
sobre a mesa da sala)
e tenta
me traduzir

16 de mar de 2010

um poema de Abel G. Facundo


Van_Gogh_Vase_with_Three_Sunflowers

O GIRASSOL SEM PÉTALAS


Un hombre que cultiva su jardín,
como quería Voltaire.

J. L.Borges

Vou semear jardins em meu quarto,
sei que ambos tememos a morte.

Ele aprendeu a encher minhas camisas com sua sombra,
a cobrir minhas porções com seus lamentos
de bailarino estreito.

Às vezes quando não existe o mundo,
nós dois vamos desnudos a matar a manhã.
Os versos que brotam dele aliviam nosso medo,
e em farrapos eu rompo uma face
quado nas horas bárbaras a luz já não é a luz.

Vou semear jardins em meu quarto,
neste cravo que sangra por sua pele,
hei de pendurar o óleo onde um pintor qualquer
quis traçar girassóis para Vincent.

14 de mar de 2010

areia

sobra soçobra
excede extrapola (vaza)

arestas, pontas
asperezas tantas (sentires)
lapidar é preciso
polir lustrar finalizar

poesia é o pó
do que foi brunido (soprado)
do que foi sentido
esmerilhado pelo vento forte
da palavra

13 de mar de 2010

sinais


Ômega Centauri - cdcc.usp.br

são como estrelas
sonhos

morrem

mas permanece
o rastro

(de luz)

outras noites
muito além das nossas
iluminam

* Tenho um poema, flutuando em Vidráguas.

10 de mar de 2010

há sim

há mares que nunca secam
ha braços intermináveis

há talhos na minha mão

há maços neste papel
há risco num verso. há sim

9 de mar de 2010

das imperfeições

sempre viveu
tentando ser perfeito

sempre exigiu perfeição

se encontra agora
(enfim)

na mais perfeita solidão

7 de mar de 2010

blecaute*


lírio_greg wittel

tenho medo
(parafina)
que o que sinto vaze
(gasolina)
pelo vão dos meus versos
(enxurrada)
estilhaços de nada
(granada)
risco iminente
(olhos inocentes)
artefatos vazios
(em chamas)
costumam ser fatais

* ou "um poema sem luz"

5 de mar de 2010

metamorfraseando

átomos
átimos atos tomos
alfa beta
gamo
a suspirar
por águas
pirata do mar
das palavras
vulcão em lavas
versos
lavras que brilham
larvas
que criam asas
e voam

2 de mar de 2010

pássaro (ainda)


sun_bird_edited1_2+elizabeth+bunsen

queria fazer
um poema de pássaro (ainda)
daqueles que fazem crescer asas em nós
mas a pele dourada do céu
em breve travestido de sombras
(manto negro hoje
sem seu bordado de estrelas e seu colar de lua)
me angustia
volto para o ninho
(onde os pássaros mudos adormecem)
deixo para amanhã meu canto
(caso amanheça)

28 de fev de 2010

ventania

o que mudou em mim?
onde a antiga calma?

e as certezas de pedra
que viraram areias

como resgato?

sono pesado sonhos leves
porque fugiram?

rebuliço no peito
ventania

(antiga brisa, volte)

árvore sem raiz
não sei

por quanto tempo ainda
suporto

a força dos ventos

27 de fev de 2010

desértica - II


Claudia Santos Silva - Blue Molleskin

tem chovido tanto
mas não chove em mim

árida
já nem versos brotam

processo irreversível
desertificação

dunas que se movem
sem direção

25 de fev de 2010

desértica

imenso este vazio
- me arrasto

mas quanto mais vazio
- mais leve

não posso compreender
- deliro

deveria voar
- mergulho

deveria calar
- não posso

faço versos e assim
- suporto

do deserto do não
- do nada

brotam flores azuis

22 de fev de 2010

vias



começamos a envelhecer
quando passamos a ver a vida
com os olhos dos nossos meninos
que até então, viam a vida com os nossos

I-
vias
a cidade é teia
estradas são veias
(vicinais)
sólidos concretos
pedras desiguais
trens subterrâneos
periféricos
suburbanos centrais
rodas sobre o asfalto
a vida em ciclo
vias
há quem caminhe
com seus próprios
pés

II-
o pássaro segue
(que aí ainda há)
na direção indicada
pelos sinais
telúricas correntes
vento luz calor
ancestrais instintos
paralelas linhas
via
duto sobre o rio
(Sena )
segue
a sina dos rios
fluir
na direção do mar

III-
enviesadas
tramas
retas
que se cruzam
perpendiculares
(labirintos)
luzes antigas
lampiões
secular memória
imóvel toda
via
observa
a vida passar
hoje
via teus olhos

20 de fev de 2010

do destino das conchas

a concha
que não quis ser tocada

seguiu
o destino das conchas

(que não são tocadas)

secou
sem conhecer a pérola




A ostra e o vento - Chico Buarque

19 de fev de 2010

ofício


Foto - Armandina Silva

a força foi sua escola - e se tornou
o ofício
hoje - carrega o mundo nas costas


* Henrique Pimenta - O Bardo - me dedicou um poema hoje - belo - como todos da sua lavra. Mas encontrei neste, alguns "códigos nydianos", o que me deixou imensamente feliz. Convido vocês para a "chacrinha brabuleta". Beijo, Henrique!

17 de fev de 2010

ainda era carnaval

ontem me convidaram
pro bloco dos felizes

não pude ir

não consegui achar
a minha velha fantasia

13 de fev de 2010

...

festa outra vez

é carnaval
sim


mas alegria

outra vez
não

10 de fev de 2010

preparados canteiros


pétalas_sérgio_bruneto

do bem do mal - brotarão flores - dos olhos (aquáticos)
e das mãos (de terra) dos meninos

preparados canteiros (à espera)

tempo de chuva agora (depois o sol) - inevitavelmente
as flores virão

8 de fev de 2010

dos sentires do tempo - II

no âmago
das dores do homem

há sinais do incêndio
que consome as horas

as dores
são filhas do fogo

o fogo
é irmão do instante

no imenso banquete
no altar do tempo

todos juntos ardem
e se devoram

6 de fev de 2010

expio


A_Tribute_to_Matterhorn_by_OnurY

pássaros no fio, aos pares

espiam

eu no meu canto

nem canto, nem pio

meu equilíbrio por um fio

5 de fev de 2010

ciclo

bem-te-vi canta longe
pressente o fim das chuvas
o sol por vir

4 de fev de 2010

...


H. Amstrong Robert - GettiImage

3 de fev de 2010

chuvas antigas

o dia de repente desbota. o vento sopra poeiras antigas - gravetos, painas, folhas e flores de dente de leão. na casa em frente, lampiões seculares se agitam. enlouquecem os pássaros, cães se escondem, árvores alteradas dançam num balé convulsivo. mulher puxa depressa os meninos pra dentro, arranca a roupa do varal, fecha correndo portas e janelas, acende velas, prepara a palma benta pra queimar: a chuva vai chegar.

1 de fev de 2010

três haicais de Beto Palaio

ilustração - natsumi nishizumi
Só crianças
Gastando tempo
Papeando

Just kids
Dropping time
Chitchatting

Borracha do lápis
Inevitavelmente mascada
Nas lições difíceis

Pencil’s eraser
Inevitably chewed
In hard lessons

Linda Nydinha
Mordendo o lápis
Bolando Haicáis

Beto Palaio - Littera Tour

Outsiderwriters - A Haiku Daily

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