30 de abr. de 2012

1.

espera. há algo a ser dito. os olhos buscam

fragmentos denegados de nada
no esmeril da pele

2.

estreita. rede de fiandeiras. mãos
que procuram

recifes. tridentes. o mar que trina
é quase

um pássaro

3.

estanque. o fluxo dos papiros. há begônias
lá fora. recrudesce o olhar

o céu real

é azul

4.

reconhece. na tessitura dos pianos. há vozes
vulcânicas

à espera do vento

5.

recua. se te parece longo o ofício. se o fardo
te curva

pauta. a tua vida pela tua crença

e segue. não há atalhos

6.

resiste.




27 de abr. de 2012

papoulas imaturas
vos trago pelos olhos até adormecer
e sonho
campos vermelhos de poemas
caminho
no Tártaro
entre Sono e Morte
Nix que surge
coroada de flores
envolta
no grande manto negro e estrelado
herdeira do Caos-flor
que quero


Galeria Yin Xin (3)


A rickshaw and a lade
na viagem se percebe o quanto
o canto em que se vive é nada
e tudo que se quer é retornar
enquanto
o nada persistir em ser
confortável e quente
. . . . . . . . . . . . . e nos abrigue

Galeria Yin Xin (2)


opium 2

26 de abr. de 2012

Poesia Chinesa 1.

Nostalgia - 鄉愁
Poema de Yu Guangzhong 余光中, poeta da era moderna. Nascido em 1928.
Tradução: 混血子
Quando pequeno,
A nostalgia era um pequenino selo postal.
Eu estava do lado de cá,
Mamãe estava do lado de lá.
*
Depois que cresci,
A nostalgia passou a ser uma passagem de navio.
Eu estava do lado de cá,
A noiva estava do lado de lá.
*
Ah! E depois,
A nostalgia tornou-se uma sepultura baixinha.
Eu estava do lado de fora,
Mamãe estava do lado de dentro.
*
Mas agora,
A nostalgia é um raso estreito no oceano.
Eu estou do lado de cá,
O continente está do lado de lá.

O poeta faz referência ao Estreito de Taiwan, que separa a ilha de Taiwan da China continental. Questões políticas e históricas criaram uma cizânia entre as duas regiões, que ainda não se reconhecem, embora compartilhem de uma mesma herança cultural.

Galeria Yin Xin


opium 1
cantar. desencantar — de cantar
tudo acontece entre
sons e silêncios
sonoros]
que no silêncio há . ruídos
ruínas. líquidos que sedimentam
pós. suavemente

25 de abr. de 2012

-

a vida acontece. longe. sempre
longe. um avião no céu acima
da minha cabeça
minha fome
preciso de um café
minha sede
que nunca passa. será isso
acontecer
assim. tão banal?
o sono que não chega
a vida que nunca
basta. talvez
esse esperar seja. desesperar
seja. tudo que sim e não
nada. acontece. que a vida é
assim


24 de abr. de 2012

um rasgo na órbita dos aquá(rios) cristalinos

cometa sangue a jorrar espelhos

invertidas imagens sombras

enrubescidas faces terras

estratos(feras)

ardem metálicos

objetos em chamas

na face céu de um homem só — ao se saber

finito


urge. reaver os signos
que compulsivo o tempo apaga

adiar. significa. sucumbir

por quanto tempo o verbo resiste
sem ser grafado?

sagrado sinal. palavra


21 de abr. de 2012


o tempo insiste
em arrastar móveis pesados
há sempre um piano
que não passa na porta
notas suspensas. cordas frágeis

que sempre ruem. antes
que o piano toque a rua
em áspero ruído

18 de abr. de 2012

dois homens flutuam num balão sobre. Paris
há uma bandeira. sempre
o equilibrista vê o mundo de cabeça pra baixo
seguro por um pé. de vento. que não
amedronta. a âncora flutua. barco no céu
bistrô. homens de terno preto se debatem
outros parecem flutuar. no vento
sempre. a banda de sopro. caminha sobre
pernas. de pau. contorcionistas de desdobram
e dois palhaços se tocam. bandolins. longe
dans la maison du vent
violoncelo. piano. violino. longe
gladiadores vindos de outros tempos. sax
vozes vindas de um outro canto. sempre. longe

17 de abr. de 2012

nos olhos do gato pude ver refletidas
sete gerações
das mulheres mães
da minha estirpe
todas elas à beira de qualquer fogo
ardem
em brasas
os olhos do gato
em seu último fôlego. mais que
cumprida sina
não haveria mesmo ninguém. a refletir
depois. de mim

esse chapéu estranho. que esconde
meus cabelos. quase cobre meus olhos

e quando sopra o vento... voa

indelével memória. invisível presença
das mulheres todas que me geraram

16 de abr. de 2012

amálgamas o que somos. do que já fomos
do que julgamos ser. do que

seremos. ou não

13 de abr. de 2012

o bom e o belo
caminham ainda. de pés
descalços
(onde botas do mal
pisoteiam flores)
o gato preto
pode ser
doce
e os tigres
podem ser mansos
as borboletas
resistem
ao antigo desejo
do casulo
perpétuo
a loucura
pode ser pura
feito lírios
na beira do rio
e simples
como travesseiros
de folhas
de mangas
colhidas. às margens
desse mesmo
rio

12 de abr. de 2012

bola amarela
pendurada no céu
final
de outro dia
sinal
de outra noite
que chega breve

11 de abr. de 2012

O mesmo pássaro. O mesmo
Noturno canto
Voz vinda da mesma
Antiga noite
Que tudo é pleno e uno
Há um só pássaro noturno
Um canto apenas. Uma
Noite
Sou eu. A única vivente
Todas as almas encarnadas
Todos os ossos. E o pó
Dos que já foram
Sou eu. Protótipo
De um ser. Que ouve o canto
Chamado vida. Ou tempo
De estar–se vivo

10 de abr. de 2012

Melancolia. É o nome da besta. Fera
Que devorou meus dias. Quase
Todos. Inteiros. Loba
Em pele da mais branca e pura das
Ovelhas
Ainda fiz da sua lã um áspero manto
Com que me cubro

Ravinas. Tantas chuvas que
Verde nenhum
Colúvio. Solo infecundo
Rasgo de terra. E o rio
Assoreado quase
Estagnado morre
Drasticamente muda. O rumo

Sina. Lembrar das gentes que
De chover tanto. Escorre
Da boa terra. À. Terra nehuma
Ossos molhados. Dentes
Todos perdidos. Secos
Todos os olhos. Rasos
Rasgo na estopa. Da vida pouca

9 de abr. de 2012

saber-se rio
fluir contínuo
e solitário

onde?
correm dois
rios

juntos?

quando
se encontram
fúria

e se devoram

no mar
se desmancham
e não

se reconhecem

8 de abr. de 2012

quer sorrir. não pode
os músculos. faciais já não. respondem
chorar também não pode
o rosto. virou máscara
olhos de vidro e veias. vermelhas
a boca ainda se move. há muito. já não
canta. sussurra. saliva
quando relembra música. e lágrima
e se chovesse. se chovesse
não. é. tempo
sente. as mãos vazias. tateiam. paredes
que guardam. certo calor do sol. do dia
estranho. esse lugar dos sonhos
ave noturna pia. a pele
um misto. de plástico e de sangue
o novo corpo. com que retorna à vida
por instantes

7 de abr. de 2012

sabe, em tudo há certo risco certo enfado. fato
fatídico acaso

o pássaro
pode pousar no fio desencapado sem se ferir

rinocerontes
podem se ver de frente com seus algozes

os últimos

estamos todos quase. extintos. tudo questão
de horas. ou segundos

a solidão pode chegar no trem
vindo de Amsterdam

o amor. talvez nem tenha embarcado

um dia. meio. século. tudo é tão pouco e tanto
razão nenhuma. certo pressentimento

incerto verso

tão pouco a dizer
e se não fosse a música
há sempre música
é sempre noite
faz frio
sempre embaçadas
escorrem as vidraças


6 de abr. de 2012

há um Deus encarnado
prestes a ser crucificado
o templo ruído

o vento

na sua solidão
clama por sí. o canto
é o silêncio

e a pedra


5 de abr. de 2012

correm notícias. murmúrios
um homem sangra suas angústias
sem consolo ou remorso
um anjo observa
petrificados olhos de cristal
e sopra


4 de abr. de 2012

ah... insistir na vida
algo assim
como sorrir
sobre o leite derramado
e se fartar
do sabor do doce
que teria sido


3 de abr. de 2012

estranho esse lugar. onde
construí minha casa
imaginária linha
palafita sobre. pilares
instáveis
no alagadiço solo. raso
dos meus delírios


2 de abr. de 2012

deixa que o verso destile
agruras vertigens prazeres
deixa que o verso flua

no ritmo que deseje
e adormeça

1 de abr. de 2012

o outono pode ser uma canção

silenciosa e terna. ou
prenúncio. da inevitável outra

estação

pode ser

doce. de um fruto qualquer. ou
antevéspera. do grande frio

tenho tachos de cobre no fogão
cartografar silêncios em antigos papéis
traçar a linha negra
que procura o rumo
e o norte
metrificar cada pedaço.que é
preciso ser
exato

zerar estacas
topografar vazios e pontuar
asperezas
sinalizar caminhos

teodolitos são relíquias.e a velha
caderneta de campo
de capa
vermelha
tudo guardado no porão.coração
quem se lembra
da metragem quadrada
do linear perímetro.quem?
um barco navega pelas ruas de pedra
dessa cidade náufraga

31 de mar. de 2012

por que perco meu tempo
palavra
a te buscar em vãos
onde não habitas. se
só te encontro nos porões
de mim

30 de mar. de 2012

metamorfose às avessas
se fechar em casulo - até
secar
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