o homem parecia vindo de uma guerra. ou de um pesadelo
dos mais cruéis
barba por fazer. cabelos imundos. roupas rasgadas
olhos vazios. como costumam ser os olhos vindos do deserto
a mulher o acolhe como a um filho. primeiro um abraço
panelas. de água quente no fogão. a banheira era imensa
entrega-lhe a navalha. e o sabão
as roupas limpas. e a sopa. que ferve
estranho. ainda há pouco lá fora era um deserto. agora neva
faz frio. dentro, tudo é terno e quente
poderiam ter vivido assim eternidades. mas o deserto chama
estranho. é deserto outra vez lá fora. faz frio dentro
o homem quer partir. a mulher se desespera
já não suporta o frio de ser sózinha. neva lá dentro agora
os lábios tremem
sem olhar para trás, o homem vai. a mulher imóvel
olhos vazios. como costumam ser olhos
das mulheres que choram
há sempre uma navalha ao alcance das mãos. alhos. cebolas
a sopa hoje é de batatas. há lenha a ser rachada
faíscas que voam. ao sopro do tempo/fole a atiçar as brasas
e de manhã. as cinzas