8 de jun. de 2012

Esta cidade não é minha. Não me pertence
a dureza angular das esquinas
nem a parábola das pedras que piso
e as luzes
enquadradas no concreto perfeito
não.
Nem o chorume que escorre
de olhos e gretas
negras sarjetas
nem.
Antigo e lento carregar de casas sobre
as costas
pesado fardo
animal.
Este arrastar-se sobre trilhas de caramujos
em busca
da cidade improvável:- faro ancestral.
O rumo — e a que se destinam — apenas
pressentem.

7 de jun. de 2012

há no fundo de todo verso uma dor latente
ou detonada
exposta
ou. travestida de tintas outras
muito bem ancorada
num ângulo
que se requer exato
protendida linguagem que se traciona
no limite do som — e do sentido
volumetrias
imensos vãos : livres : sem escoras
solos instáveis — risco iminente de ruptura
ou. solidez de pedra

4 de jun. de 2012

regresso então, numa ilusão distraída
buscando em mim destroços
de uma estrela morta
restos que busco — rostos
que desconheço
tentam reconstruir
como eu
a cada dia, vida — um
poema
nas horas de deserto
e cansaço — tristezas são
adagas
grande o mistério que aproxima almas
predadores de luz, olhos no céu
seguimos — rebentos
a rasgar folhas com gravetos
incendiados do brilho frio
metal — incandescente — das utopias

3 de jun. de 2012

incontacta, mando sinais de fumaça
só pra dizer que estou viva

nenhuma outra intenção

Eldorado, esquecida cidade
mapas perdidos, matas fechadas

meu grito na fumaça

1 de jun. de 2012

Galeria Bottelho - (1) Eugenio de Andrade


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugenio de Andrade

31 de mai. de 2012

o mundo pode ser negro

vejo da minha janela
lâmpadas de pesadelos. viagens que não
terminam
miragens de não voltar
um homem cego toca a pequena rosa
seu corpo solitário
é um pássaro branco
condenado a viver sem asas. seu canto
é claro como nunca. ouvi

dias de ser feliz como um cão
acontecem

30 de mai. de 2012

hoje uma voz vinda de dentro
não sei se de mim
ou do rio
me disse — vai
ser
e se calou fluída
feito uma flauta doce — e eu
fui

29 de mai. de 2012

Os pássaros do silêncio

Vou construir um ninho dentro do meu quarto.
Quando vierem os pássaros do silêncio
pedirei que cantem e que se alojem
entre os gravetos.

Somos frutos da mesma dor.

Tememos o esquecimento. Na minha blusa falta
um botão. Tecido em que tear a trama que nos
faz sangrar? Sobre a cadeira jazem feridas
cordas de um violino.

Tripas.

Convulsas entranhas. Vou abrir as janelas.
Por quê? Não ouço mais os pássaros do silêncio
asas de cambraia. Feito as cortinas.
As paredes estão mortas.

Caiadas.

Um Paganini solitário descansa, distante
pendurado num prego enferrujado. Alto relevo.
Há uma conspiração lá fora. Fecho as janelas
e ouço. O piar de corujas.

mundo pela metade
mun
do não
mudo de estação
ou tônus
par
tidas
muda essa estação
de não
ser
só. silêncio
cantar pra quem
se há ninguém
ah... ou vir.
se
nada é. pleno. vazio

28 de mai. de 2012

em cada esquina, na selva desse tempo
insano

— garras afiadas
no concreto e no asco —

um bicho espreita

olhos vermelhos — das fumaças
impuras

ácido nas veias — das chuvas e das setas
envenenadas

sangue que pulsa e busca
sangue

salve-se quem puder ou
se tranque

estanque – esse desejo insano de viver
nesse tempo

27 de mai. de 2012

queria dizer. das coisas que não sei
queria aprender
o que ninguém sabe ensinar
queria seguir
caminhos que não há
mas digo apenas do pouco que sei
do que aprendi comigo
e sigo caminhos que inventei. sigo
queria nem. queria não. queria

26 de mai. de 2012

a solidão do meu cão no quintal me comove
porque toda solidão me comove
porque tudo me comove. porque tudo
por quê?

24 de mai. de 2012

há uma vida além do que meus olhos míopes
podem ver

aqui é tudo pouco e breve. há um castelo
sete portas imensas

que adentrarei

na última das salas mora um rei
sonhou comigo antes mesmo que eu existisse

e desde sempre me espera

23 de mai. de 2012

o homem parecia vindo de uma guerra. ou de um pesadelo
dos mais cruéis
barba por fazer. cabelos imundos. roupas rasgadas
olhos vazios. como costumam ser os olhos vindos do deserto
a mulher o acolhe como a um filho. primeiro um abraço
panelas. de água quente no fogão. a banheira era imensa
entrega-lhe a navalha. e o sabão
as roupas limpas. e a sopa. que ferve
estranho. ainda há pouco lá fora era um deserto. agora neva
faz frio. dentro, tudo é terno e quente
poderiam ter vivido assim eternidades. mas o deserto chama
estranho. é deserto outra vez lá fora. faz frio dentro
o homem quer partir. a mulher se desespera
já não suporta o frio de ser sózinha. neva lá dentro agora
os lábios tremem
sem olhar para trás, o homem vai. a mulher imóvel
olhos vazios. como costumam ser olhos
das mulheres que choram
há sempre uma navalha ao alcance das mãos. alhos. cebolas
a sopa hoje é de batatas. há lenha a ser rachada
faíscas que voam. ao sopro do tempo/fole a atiçar as brasas
e de manhã. as cinzas

19 de mai. de 2012

deixar de ser
desexistir
para mim
é muito fácil
tenho treinado
para isso
há séculos

18 de mai. de 2012

rasgar a pele dos silêncios em tintas outras
que não palavras
cores e espantos tramados
em mãos de antigas urdideiras
fiar a flor colhida ainda há pouco
no campo do sentir
áspero fio que faz sangrar a carne e tinge
a roupa de carmim. e canta

MEMAI - Edição 11

17 de mai. de 2012

raio de sol qualquer
faz despertar a flor. travestida
de pedra

do pássaro, roubar a partitura
que faz brotar manhãs

16 de mai. de 2012

Revista Blecaute

Alguns dos meus poemas aqui.
vozes
me chamam
cantos
segredados do centro
da terra
veios me cercam
rios
raízes me abraçam
tramas
colo de mãe
rizomas / acalantos

14 de mai. de 2012

Galeria Abrão Batista (2)

.
mãe da lua
hoje queria
apenas. viajar em espírito
coração. me deixa

poema 1

poema 1

12 de mai. de 2012

11 de mai. de 2012

e ficou só

trancado em si. morreu o sol
a vida à ré
não chegou lá
[...dó
notas
que se perderam no caminho

10 de mai. de 2012

9 de mai. de 2012

Éramos jovens e havia tanto a ser vivido
dunas e dunas de areia branca
e o sol
deserto que parecia ser
eterno
nós, tuaregues em nossas caravanas
índigos véus azuis
rajadas de areia e chá
de menta
lâmina larga de dois gumes – e a música
mas veio o vento forte que desfaz
miragens
deserto virou pedra. e só
olhos expostos atônitos procuram. rastros

5 de mai. de 2012

nessa tarde, a hora

tinge de cores céus e águas
flores na outra margem já. em tons
de abandono e sépia

hora não-sonhada
sol-se-pôr tão lento. venerável-sombra
agonia-noite

e a grande lua tarda

Revista de Poesia Contemporânea


queres amar?

então. ama! que amar é decisão. verbo que se traduz. querer
em qualquer tempo. modo e lugar
regente. que exige ser. direto

o complemento. o outro

conjugação mais-que-perfeita conjunção
no céu. de nós

há uma lua imensa lá fora

3 de mai. de 2012

antes de ser

antes que o rio brotasse. antes da fonte. antes. bem
a alma das águas já corria
na solidão subterrânea

guiada pelo desejo insano
de ver. o sol

tons inefáveis

quando à tarde
olhos que há muito haviam. se perdido
e se fechado em conchas. de não mais querer

puderam. ler um poema sem palavras
vindo das pedras

1 de mai. de 2012

o velho navega
no barco da memória -
rumo ao esquecimento



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