a mulher desce por uma escada estreita e fria
em caracol
imensa
parece não ter fim
há limo nas paredes laterais
por onde as mãostentáculos nervos e unhas
tentam se agarrar
infrutífero esforço
os pés descalços sobre o concreto áspero
latejam
vertiginosa queda
agora se arrasta e se contorce
mormaço – calor insuportável - será
o centro da terra? o magma milenar - o hades
o fim do sacrifício?
tudo serena e outra mulher
antiga e negra
turbante de algodão
branco
imenso caldeirão – Nhá Dita
mexendo a sopa de feijão me olha - e sorri
e não há chão. formigas. o chão formiga
o fogo. as labaredas são
formigas
sou eu essa mulher
e acordo. suando em bicas
o telefone toca – é minha mãe
fala de coisas banais, da chuva que não cessa
do tempo quente
do bolo de fubá cremoso
receita nova
ah... você não sabe quem morreu:
Nhá Dita. acabei de saber. descansou a pobre
vinte anos numa cama de asilo
imóvel. falava com os olhos
lavou tanta roupa
fritou tanta batata. fez tanta sopa de feijão...