era preciso sofrer como sofrem ainda as mães de maio
metálicos degraus revestidos de concreto e poeira
de todos os séculos
sobre a mesma dor
haveria talvez, algum sentido na rosa sobre a mesa
da sala
perturbadora visão
as mãos da minha avó cruzada sobre o peito gastas
de sangrar
por dentro
os olhos opacos como os olhos dos peixes na pia
onde os peixes dormiam
e o estalar das escamas
sob a lâmina fina faca quase preta um dia prata
desprezadas
barbatanas
mundo que se arrasta enquanto gaivotas mergulham
no mesmo velho sonho
da imagem no espelho
criado mudo sapatos de salto de pelica e veludo
onde um dia os pés
de uma mulher feliz
teias de aranha e traças colchão de palha e pulgas
encardidos e ásperos
lençóis
onde a menina descobriu janelas que davam
para dentro e viu no céu caminho
mas não voou
seu corpo era a gaiola de ferro que aprisionava
a mente
carcereiro adormecido
agora quase morto da química das águas em que
mergulha
pra se manter
cheiro de pano queimado pilhas de roupas brancas
no varal
sopradas brasas
raposas no telhado e o grande nave mergulha cega
na montanha em frente
numa noite sem luz depois das chuvas