Ensaio - Autor:
Sandrio Candido Pereira
Já me questionaram inúmeras vezes porque escrevo, a resposta é que escrevo por uma necessidade. Talvez até seja uma necessidade a escrita, tão banal quanto às outras necessidades que temos. Penso que escrever não seja apenas deixar no papel algumas considerações sobre temas que nos cerca, não é apenas uma reflexão lingüística,mas um ato existencial. Confesso que alguns enxergam aqui uma romantização da escrita, que seja, tenho necessidade de romantizar algumas coisas da vida. Só cuido do meu jardim porque a terra seca me parece demasiado feia. Escrever é um ato de busca. É colocar-se no limiar das questões essenciais que nos rodeia; escrever poemas é dialogar com a mística e com a espiritualidade (não esta coisa moderna de abraçar arvores, não comer carne, não fumar e não beber, não dançar em nome da espiritualidade, falo da espiritualidade enquanto pergunta essencial sobre o ser humano).
Espiritualidade é a forma de dizer o sagrado, ela surge da mística que é a forma como cada um relaciona-se com o sagrado. Mesmo que a arte tenha tomado a morte de Deus como tema no ultimo século, hoje o tema do sagrado e da transcendência (que está além do Deus cristão) pode ser percebido em inúmeros poetas, seja na blogosfera ou nos poetas publicados em livros. Intencionalmente ou não. Na blogosfera uma das poetas que dialogam com uma espécie de mística poética é Nydia Bonetti. A poeta de São Paulo escreve no blog longitudes e deixa escapar entre os versos (quase sempre pequenos poemas, mas de uma intensidade enorme) uma visão em torno do sagrado. Talvez como uma Cecília Meirelles que cantava o sagrado, mas nunca o nomeava, assim Nydia o faz. Este é um dos pilares da mística, aproximar-se do mistério sem encerrá-lo em um nome.
Imagens fortes da mística aparecem na poética da Nydia como a imagem do abismo, que interpreto com um lançar-se nas funduras do ser humano, como nos pede santa Tereza D Ávila em castelos da morada no interior. “faço versos a beira do abismo/do abismo que sou/me atiro/ ainda/ que caminhe no raso/ rio.” Enquanto a poeta escreve a beira do abismo, ela mesma torna-se o abismo, surge a contradição de quem caminho no raso do rio. Penso no encontro adiado enquanto leio este poema, no encontro daquele que busca em suas profundezas algo, mas que se depara com o raso, com o rio onde somos obrigados a navegar todos os dias. Afinal não é apenas o poeta que está na terra, mas o ser humano que se faz poeta também. Separa-los me parece difícil ou impossível.
Que a mística é um exercício do silêncio, já sabemos, mas que há palavras nela que só quem exercita sabe, isto é da propriedade dos místicos, só eles conhecem as palavras ditas em seus silêncios. Em um poema Nydia diz: “no espaço fragmentado da minha lucidez/cabem verdades/poucas”. Os místicos sempre causaram pavor ao sistema religioso por desconstruir as supostas verdades, místico é um ser que desconstrói a verdade em nome da liberdade de cada um para acolher o mistério, assim foi com grandes místicos cristãos como São João da Cruz, Santo Inácio de Loyola, santa Tereza D’Ávila, mestre Eckhart, Teilhard de Chirdim entre outros, (falo dos místicos cristãos porque são aqueles que conheço melhor, mas poderia citar os místicos da filosofia como E. Cioram, Simone Weil), porém não se desconstrói a verdade por nada, desconstrói se para perseverar no mistério, “e um espanto do tamanho do mundo”, para alguns a mística e a filosofia surgem deste espanto em relação a nossa busca, claro que são coisas diferentes que não tenciono explicar aqui, espanto que nos leva a fazer a pergunta, a se extasiar diante da profundezas, do abismo que somos.O poema continua : “ cabem também silêncios/ muitos/ e algumas palavras”.Como eu mencionei no inicio do parágrafo, o ato do silêncio faz parte da essência da vida de um místico, o silêncio porem é que os faz aproximar-se do mistério, sem falsas verdades, sem imagens prontas. Há na teologia da bíblia cristã uma imagem para este ato. No livro do Êxodo quando Deus (mistério) se aproxima, é exigido de Moises que desamarre as sandálias para pisar no lugar santo e falar com Deus, a teologia da entende este desamarrar as sandálias como o ato místico de despir-se das formulas, das imagens, para aprender do mistério, para chegar ao mistério. Na poesia da Nydia é possível perceber este despir-se das imagens já feitas para mergulhar nas imagens que se dizem por si mesmas. Como uma ascese do que pensamos sobre o mistério para aquilo que o mistério pensa sobre si mesmo, aquilo que ele é em sua profundidade.
A poesia de Nydia exige do leitor, certa calma, não nos enganemos com o tamanho do poema, por trás de cada palavra deixada no papel há um fundo do qual emerge a palavra, como a “samaritana do evangelho que vai ao poço buscar água e lá encontra Jesus” Nydia desce as profundezas para encontrar não apenas uma palavra, mas para deparar-se com o silêncio, com esta aparente falta de sentido no qual estamos imersos. Alguns dizem que não há sentido, sim, eu admito que haja esta possibilidade, mas questiono-me, estão todos preparados para ela? Ao se aproximar do mistério a poeta não deseja construir uma visão, um dogma ou uma imagem do mistério, isto já faz a teologia. A poeta deseja apenas fazer a pergunta sobre a vida. Tendo de volta como resposta na maioria das vezes o eco de sua voz transmudada em poemas que se vestem de silêncios e imagens.
A poesia da Nydia é no fundo um mergulho na duvida, e neste mergulho é que surge como barco a palavra, para atravessar este mar que é a vida, porque como “os dias/que parecem intermináveis/são apenas pedaços/ começo/ de outros intermináveis/ dias. Só quem tem a consciência de Nydia pode afirmar: “hoje sou poço/onde mergulham todos/ os sentimentos do mundo”. Como diz santo Agostinho: “inquieto está o meu coração enquanto não repousa em vós”. Talvez não haja na poesia da Nydia uma resposta, mas apenas a duvida, esta inquietação que a faz escrever. Além das considerações lingüísticas sobre a poesia, lembro ao ler Nydia, que em cada ser humano há esta profundeza na qual alguns ousam mergulhar. Afinal Nydia é uma poeta que “tem os pés fincados no riacho”.