31 de dez. de 2010

cordão umbilical

outra vez tragado pelo vazio
o nada
o fundo do mar
o fundo
o leito do rio
o leito
o abismo
o espaço infinito
onde
finalmente flutua
para sempre
perdido
da nave em que veio
clarão
a se desintegrar
na órbita
incandescente
de um planeta pequeno
para sempre
azul

germina literatura

Caros, acaba de sair do forno a nova edição da revista Germina, onde tive o prazer de ter alguns dos meus poemas publicados. A edição está super bonita e a Germina, vocês sabem, é um espaço que já se tornou referência em literatura, com um trabalho sempre primoroso de uma equipe de feras. Todos convidados. Abraços e Feliz 2011!

29 de dez. de 2010

ausência

a tua ausência
teceu em mim
um longo e áspero bordado
de silêncios
e pedras

gerais

minas
não há mais
e agora? o que haverá
onde minas havia
e já não há

28 de dez. de 2010

pressentimento

há sol
o pássaro
no entanto pressente
que no final do dia vem
mais chuva

memória

hoje
cada rosto
em branco e preto e pó
na fotografia - parece
sorrir

27 de dez. de 2010

três poemas Adelaide Crapsey



O rio
percorre o vale
e diz-me o barco, o mar,
enquanto o sol se entrega à morte
no olhar

Presságio

Agora mesmo
de fora do estranho
silente crepúsculo... estranho como ele, silente como ele,
uma mariposa branca esvoaçou. Porque fiquei
tão fria?

Tríada

são três
coisas silenciosas:
a neve que cai... a hora
antes da alva... a boca de alguém
que acabou de morrer

Adelaide Crapsey e aqui

destino

pobre rio
não vai saber
do mar

é rio pequeno
vai secar

26 de dez. de 2010

pleonasmos

alguns poemas traduzidos
outros deglutidos
na sua própria língua
notícias de jornal
instantes vividos
fragmentos
colagens
sentidos
matéria-prima
com que o poeta tece
a sua teia
(mosaico)
na velha vã esperança
de um dia
a si mesmo se traduzir

. . .

reencontrei
às margens do velho rio
os lírios brancos
foi meu melhor presente
neste natal
[... perfume

25 de dez. de 2010

. . .

hoje tive certeza
que a boniteza
está na singeleza

e a rima
a rima é uma riqueza

24 de dez. de 2010

dos sentires do tempo VI

aquela dor antiga
já nem dói tanto
e toda urgência
agora é calmaria
o tempo nos molda
e hoje
faz tempo bom
faz tempo
faz
de mim teu espelho

. . .

tão rara, tão doce
tão frágil, tão breve --
a flor da infância

22 de dez. de 2010

. . .

um tom vermelho
na pele clara da manhã –
outra vez verão

meu poema de natal

meninos são reis
também já fui rainha
menina
bonito acreditar
que nas noites escuras
nasce um menino
que além de rei
é luz
eu creio
nesse menino jesus

21 de dez. de 2010

sem palavras

Se ontem as palavras eram poucas, agora me faltam por completo. Aliás, toda vez que leio Julio Rodrigues Correia fico quase sem voz, diante da força e da beleza de seus versos. Estes, publicados no Acroatico, me deixaram sem palavras... Abraço forte, Julio e que 2011 nos traga teu livro e quem sabe, o meu. :)

algumas palavras

que cabe ainda
neste meu mundo tão pequeno
senão
um pedaço de céu
visto da minha janela
um quarto de lua cheia
e estrelas
cada vez mais distantes
(um cão
preguiçoso no quintal)
no quarto ao lado
suspira
a velha senhora
(como suspiram os velhos
em seus sonos breves)
palavras pequenas
palavras
cabem ainda
no meu pequeno mundo
algumas palavras - algumas
palavras

20 de dez. de 2010

. . .

ainda nos meus olhos
traços de ternura

muito bem escondida
sob meus óculos de sol

19 de dez. de 2010

. . .

a solidão é pássaro
que se perdeu do bando
não vive:- pena

18 de dez. de 2010

. . .

velha janela:-
cachos de várias cores
no mesmo impulso

na vertigem do abismo
nós, organdis e flores

Ave!

[aos amigos e leitores de Longitudes, um bom Natal e um feliz 2011!]

Ave, novo dia!
Ave João, Ave Maria!

Voemos, oremos, aventuremos -
sonhemos

Seremos pois, o que quisermos
Ousemos ser (serenos)

Evas, uvas, uvaias!
Urros, uivos, vaias!

Quantos avos?
Vermelha calda -

Romãs. Ramos de trigo:
Dai-nos pão e alegria (abrigo)

Evoquemos:
Asas, remos, mares - adentremos!

Mergulhemos:
Vida. Terra. Céu - ainda somos!

Celebremos!
Enquanto pudermos

E quando e como e se:
Amém!

coleção Lena Gal



Pensando com o coração

16 de dez. de 2010

. . .

1.

lágrima é chuva
nos olhos da menina
que sonhava sol

2.

sabe do tempo agora
que a vida é temporal

das imperfeições

vi outra vez o menino
o menino
sem pernas
só tronco e um braço
o esquerdo
vi o menino e sua amada
menina
bonita que só - perfeita
[... tive pena
de mim
o não_amar é a maior
das imperfeições

14 de dez. de 2010

kalaharis

dançam as salamandras dentro
dos nossos olhos
quando miram fogueiras
enquanto leopardos
devoram nossas carnes
lentamente
e sobre nossas cabeças
nuvens de anjos sopram
brisas e orvalhos
e chovem lágrimas
num esforço supremo

assim não fosse
há muito, a terra inteira ardia:-
que o inferno é aqui
onde também paraíso

13 de dez. de 2010

no estalo da palavra

O poeta Jorge Elias Neto me publicou hoje no seu blog - Jorge Elias Neto - o estalo da palavra. Obrigada, Jorge. Uma honra estar na casa de poeta tão brilhante.

Aproveito para convidá-los a leitura de alguns de seus poemas no portal Cronópios.

11 de dez. de 2010

comuns lugares (I)

o mundo desaba
sobre sua cabeça
e ele ali
ouvindo blues
no radinho de pilha
único bem
que lhe restou inteiro
da hecatombe medonha
que devastou seu dia
[ e além de tudo
chia

dois haicai de Cloves Marques

Invoquei Bashô,
mais de três séculos depois:
eu e a lua cheia.

*

Celebramos hoje,
domingo de primavera,
Bashô encantado.

*Feito em comemoração aos 316 anos de encantamento de Bashô.

10 de dez. de 2010

patético (humano)

tenho pena do goleiro
patética figura (tão humana)
sempre à espera
do que não pode ser
eternamente
contido

9 de dez. de 2010

pastora

e finalmente me torno
guardadora de lua
na janela da insônia:-

pastora de estrelas
no curral do céu

8 de dez. de 2010

poema: -

cantos ou gritos
de almas milenares
manifesto do verbo:- o do princípio
que multiplica e se renova
em vozes tantas
quantas
suporta o universo
(ouvidos de silêncio
olhos de estrela)
a ler-nos, versos que somos
tomos (sagrados)
do grande livro:- o da palavra viva

tácita

do meu poema tolo
tosco
todo torto
tenho pena
[... tédio
é tudo tão
torpe
- não me traduzam

6 de dez. de 2010

campos e céus

há estrelas no céu
e vagalumes
no campo
em frente
à casa onde moro
não posso vê-los
(a luz
da cidade me cega)
quando vier
o grande temporal
e as luzes
se apagarem
noite plena
enfim
onde tudo brilha

5 de dez. de 2010

mais que um presente



Ganhei!!! Um Livro da Tribo, no sorteio que a poetíssima Valéria Tarelho promoveu no seu blog Textura. Um super presente, de uma super poeta.

Para quem não conhece, o Livro da Tribo é lançado anualmente. Mistura de agenda e livro, com um conteúdo variadíssimo, ilustrações incríveis, cada página exibe um texto, que pode ser um poema, citações, informações interessantes sobre ecologia, literatura, arte, etc. , numa grande mistura de estilos, cores, tendências e idéias.

Ganhei o meu primeiro em 1993 e me apaixonei. Tenho vários e não me desfaço deles por nada. As capas são lindíssimas. Mais informações sobre o livro, na Editora da Tribo. Mais da poeta, aqui.
Obrigada, Valéria! Beijoos.

orientando-me


vento e pássaro
me ensinam

lições de liberdade

fecho meus olhos
e então

[... flutuo

3 de dez. de 2010

os cinco cães (ou espelho)

a um amigo solitário, que amava os cães
e era amado por eles

na morte se denuncia como foi a vida
tão poucos o acompanharam
até a última morada
alguns alunos da neurologia ficarão sem aulas
por alguns dias
a universidade, sem o seu diretor
o hospital modelo
sem um de seus sócios fundadores
os pacientes terão que decidir
por um outro rosto que lhes dê alento
algum espanto – nenhuma dor
os cinco cães
devem estar chorando
em algum canto
da casa vazia

do que transborda

1.
chove

montanha se esconde
atrás do cinza

2.
águas escorrem no fio
em frente

a meus olhos

3.
pássaros ousados
desafiam o medo

e a chuva

4.
a estrada continua
levando

e trazendo

5.
as pedras das ruas
perderam a conta

das chuvas e dos sóis

6.
telhados emboloram
e os muros

talvez meus olhos

7.
meu cão se esconde
no vão pequeno

entre o chão
e a prateleira

(esconderijo antigo
dos fogos de artifícios

dos raios e trovões)

8.
no asfalto próximo
um homem pedala

desafiando as poças
e os pingos

9.
vida tão antiga

mas tudo sempre tão
novo

10.
não é a mesma
a fumaça

do velho chalé?

11.
pingos escorrem nos fios
até onde suportam

depois desabam

12.
retrato da vida
nas minhas fotóbicas

retinas

13.
bendigo a chuva que não
me fere

os olhos

14.
bendigo o sol que aquece
e cora

a minha pele branca

15.
bendigo a vida
que hoje é enxurrada

16.
sumiram as montanhas
completamente

17.
fecho a janela
mas não fecho meus olhos

18.
a música das águas
me leva

onde a estrada não levaria

19.
ouço cantar
o rio da minha infância

20.
ele me diz que outra vez
é tempo

de transbordar

1 de dez. de 2010

do esquecimento

vaga lembrança
do tempo
em que a noite era mais
que o esquecimento
(ensaio
para o definitivo e último
sono)
sinfonia improvisada
ato
que não se sabia quando
final
ensaio para a vida
tão breve
quanto o cair do pano
vermelho

30 de nov. de 2010

por que chove

1-

parece sorrir
depois de longo estio
a boa terra

2-

a chuva mansa
restitui à paisagem
a face verde

3-

terra molhada:-
faz despertar a chuva
a flor cansada

29 de nov. de 2010

apenas o vento

tudo parece tão novo
tudo tão claro
e foi apenas
um vento breve
que soprou cortinas
e eu pude ver lá fora

28 de nov. de 2010

só mar

tenho o peso dos náufragos
olhos vermelhos
garganta seca
pele queimada
nem ilha nem
continente
[ ...só mar
um abismo à minha espera
e meus braços colados
à tábua em que flutuo


Ana Teixeira me publicou hoje no sombras errantes um blog à deriva, como eu. Ana também é autora do site Um Buraco na Sombra, um refúgio para sobrevoar o esquecimento. Todos convidados para um vôo - ou um mergulho.

E no EITA, um pássaro insiste e canta.

E no Teatro da Vida, o poeta é pura... vertigem.

azul pequeno

cansaço
é tudo que sinto
mentira - não sinto
rompido o limiar
entre a exaustão
e o abandono
redemoinho no mar
sou peixe azul
pequeno
que se deixa levar

27 de nov. de 2010

sobre nossas cabeças

ágoras pós-modernas: há monges lá fora
cantando salmos, entoando mantras
não são espelhos - são poucos
destoam
dos muitos iguais
tenho medo
do homem que faz a bomba
duplica seres, conquista o espaço
mas não respeita
o espaço do outro
(seu igual pelo avesso?)
em cavernas ainda
nem descobrimos o fogo
que nos iguala
quando nos torna cinzas
[... e o fogo do espírito
o tempo todo sobre nossas cabeças
animais

26 de nov. de 2010

alma

o poeta
tem métrica na pele
na língua, nas mãos
tem mente ritmada
simétrica visão
tem métricos ouvidos
compassado coração
mas sua alma é pura
[... vertigem

25 de nov. de 2010

- -

sereno, o lago
pois que não me reflete
[... ou
seria mar

- -

um haijin
abre a janela --
desperta um haicai

24 de nov. de 2010

dos dias

em que tudo em mim desacontece --
desamares descantares desires
desaveres desseres
desceres
v
e
r
t
i
g
i
n
o
s
a
q
u
e
d
a

*Meu farol, no Redoma. obrigada, Betina, beijo!

23 de nov. de 2010

nenhuns

singelos ou loucos vamos
fazendo poesia
pois que somos todos
uns ou outros
ambos talvez
nenhuns

21 de nov. de 2010

a casa que sou

não deixo mais a vida escapar
pelos vãos dos meus dedos
quando ela for areia
ergo castelos
(ainda que breves)
e quando ela for terra
se não chover, salivo
e moldo
tijolo por tijolo
até erguer a casa
que sou

rezar a vida

um homem
caminhou sobre a terra
e era Deus
(aquele que para sempre
servirei)
sem trono, sem cetro
descalço
— Salve, Cristo Rei!

pressentimento

medo
da dor desconhecida
medo
do veredicto da lâmina
medo
da palavra pressentida
que pode ser
sim
que pode ser
não
que pode não ser
mais
que a fuga de um olhar
perdido
a perguntar outra vez
por quê?
[... nenhuma lágrima

20 de nov. de 2010

esfinge

linguagem é signo
que já não compreendo por inteiro
códigos que já não decifro
símbolos de uma era
(meu tempo já era)
meus versos são
parábolas
para uma gente tipo assim
... humm
monossilábica
engolidores de letras
corruptores da gramática
eu, dramática
tenho que aprender a ser
enigmática
no deserto hodierno
linguagem é esfinge
(autofágica)
que a si mesma se decifra
e se devora

19 de nov. de 2010

imaginária linha

às vezes acho que longitudes
já foi longe demais
[... greenwich
cada vez mais distante

18 de nov. de 2010

Noturno - Tankas da Madrugada*

33.

Voz em que se basta
cata decifrar palavras,
mistérios dos sons.

Quanto a mim, subo montanhas
pra ouvir em meios tons.

42.

A desesperança
é fêmea que traz na boca
a palavra algema.

Quer vencer o sortilégio?
Vista o mundo de poema.

131.

A lágrima diz
a palavra de metal
com brilho no traço.

Corta fundo o sentimento
seja ouro, prata ou aço.

135.

Vou esvaziar
conceitos e preconceitos
para transcender

a chama das diferenças.
Concede-me um Saara.

*Poemas do livro 'Tankas da Madrugada' onde poeta Cloves Marques presta sua homenagem ao centenário da chegada da primeira leva de imigrantes japoneses ao Brasil(1908/2008).

"Cloves Marques conhece a katana do samurai, mas é como se empunhasse o punhal de Lampião que escreve seus tankas. A Forma é japonesa; a alma, nordestina."
Raimundo Gadelha

dos acontecimentos

romper
com o que foi escrito
desdizer
criar
pressupõe afrontar
o nada
que antecede a toda
criação
e suportar a dor
de abandonar
a terra
escura e quente
e se atirar ao vento
e à luz
depois seguir
na direção do por vir
sem nunca saber
o que vai encontrar
do outro lado
do muro
(que nem é assim
tão alto
)
então
se atirar em pencas
e em flores
ávidas
e absurdamente
lúcidas
na direção soprada
pelo improvável
acontecer

16 de nov. de 2010

felinos

todas as casas têm
seus felinos
na minha mora um gato
(do mato)
leo pardo domesticado
que com meu par
de olhos de lince (míopes)
encontrei

outros felinos aqui.

15 de nov. de 2010

colagens

colibris camuflagens rubis
palavras em ens
palavras em is
paisagens aragens anis
colagens que fiz
tentando fazer
um poema
feliz

o poeta Sidnei Olivio me publicou no regna naturae -
um blog muito especial, que convido todos a conhecer.

quatro janelas

exalam perfumes antigos de algum velho jardim
murmuram dissonantes acordes:
é Vera no acordeom
lampião de gás
é sempre a mesma música que toca
enquanto
dona Maria na janela espera
a vida se pôr
colchão de mola suporta meu corpo pequeno
nem se deforma
(sou menina)
e as quatro janelas estão fechadas
há frestas
por onde entram: canção perfume vagalume
pressentida saudade
[ ... e Vera onde andará?
lampião de gás não ilumina mais
nem toca
dona Maria é apenas uma sombra
na janela da casa que ruiu
(nenhuma fresta)

14 de nov. de 2010

...

hoje é domingo, véspera de feriado
só mesmo quem não tiver nada pra fazer
e se estiver sozinho
estará por aqui, como eu
tentando dizer algo tipo assim sei lá
nem sei
acho que as palavras também foram viajar
agora sim, me sinto só
[... sol preguiçoso ensaia pra sair
que pena
ser quase hora de sol se pôr

Um poema meu por aqui: EITA! :)

13 de nov. de 2010

o homem do farol

1.
amanhã
o dia vai ser bonito

o sol mais uma vez vai colorir
a multifacetada crosta
da terra

mesmo vazia - a casa
portas e janelas abertas
irão saudá-lo

2.
em algum lugar
um velho barco regressa
(velas feridas tanto sal)

olhos aflitos
braços abertos que se fecham
em

abraços

quantos faróis no caminho e o homem
do farol
como suporta

enquanto gira
o velho artefato a indicar por onde
ir

3.
de que lugar escuro a concha
que vai secar

de onde os pássaros que povoam
a ilha

o vento que sopra nuvens agora
e deixa
um pedaço de céu estrelado

(posso ver)

4.
quantos cabelos e varais mulheres
lavadeiras quantas

lençóis quarados sobre pedras quentes
quantos

amores sobre
lençóis

quantos nãos

camas vazias mãos
quantos olhos
homens e mulheres na sina

dos dias iguais

5.
ondas que se quebram areias quentes
o galo
prestes a cantar

um pio
é quase dia

(vai ser bonito)

pesam meus olhos na janela
renasce a vida

me entrego

à quase morte do sono
da lida
sem sonhar

6.
cheiro de café com pão
em algum lugar
dizem

que o homem do farol é feliz

12 de nov. de 2010

o não sonhado

queria ter sido - não foi
já foi já era - foi
de certa forma somos
também o que não fomos
pois sempre estamos
se estamos - somos
o que pudemos ter sido
(até além do imaginado)
o não sonhado é
o que chamamos vida

chão descoberto

chão descoberto
onde me faço e me descubro
até que me cubra
e eu me desfaça - em chão

10 de nov. de 2010

repercussiva

queria um outro tom na minha poesia
mas ela tem as cores daquilo que sou
ou seja - nada
no fundo branco letras
que não dizem
no ritmo exagerado do vazio que ecoa
onde o último grito é ressonância
repercussão de um som agudo
atávico
bem muito mais antigo
do que eu

9 de nov. de 2010

um poema de Hilda Hilst

Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.


Hilda Hilst. 1959.

diário dos meus sonhos (I)

hoje no meu sonho tudo era triste. meu pai dizia dos sapatos pequenos sempre menores que seus pés. tia Neneta dizia dos amigos que não vieram para o velório do Nonno. meu pai dizia: — melhor assim. a tia lamentava: — mas ele ficou triste. Dona Janda, amarela inteira, vinda de uma cidade sem fronteiras, chorava pelas ruas de pedra que já não reconhecia. Dulcinéia soluçava enquanto escolhia maçãs na feira livre dizendo que até a Neide estava indo embora — todos estão indo embora. e agora? lágrimas rolavam dos olhos atônitos de Dulcinéa e percorriam os sulcos profundos da sua face cinzenta.

sempre na cabeceira da mesa, meu pai se lembra dos sapatos ortopédicos que tio Nelo ganhou, menino, do primo rico de pés tortos. único par para ir à escola — na hora do futebol, a coisa complicava. o tio chutava para um lado, a bola ia para outro. meu velho pai sorria. sorriso largo, olhos brilhantes, que logo se apagavam — quantos dos nossos ainda terão que caminhar com os pés apertados...? ao lado dele, Lúcia marcava uma consulta no ortopedista, no telefone preto de manivela, o tempo todo ocupado — está ficando insuportável caminhar assim.

acordo com a estranha sensação dos pés formigando, olhos inchados e o telefone da sala tocando alto.

8 de nov. de 2010

com verso fiado*

faço versos porque não tenho
com quem conversar
falo com o verso
e o verso me responde
quando ele fala eu ouço
e o traduzo
no fundo, é tudo
conversa fiada
com verso sem verso
a vida é barra
e ponto
(ou dois pontos):
está pronto o poema
que não fiz

*Título que peguei emprestado do blog de Thiago Cervan, um poeta que faz versos afiadíssimos, num estilo e forma que me agradam muito e que por acaso também mora em Piracaia. E só descobrimos isso hoje. :)

...


adriana esposito

Bono dodói.
Tia Tânia, injeção --
Dia de cão.

7 de nov. de 2010

desisto

Bashô Leminski
- e o meu haicai
não sai

do que não quero saber

estio
falta-me a chuva
desoras
falta-me o tempo
charrua
falta-me a terra
semente
não vai brotar
a flor
não vai nascer
o vaso
não vai estar
na mesa
sempre vazia
insistem
meus olhos tolos
procuram
não vão achar
não sabem
nem vão saber:
que a flor é utopia

6 de nov. de 2010

cenário (II)

as águas do lago estão vermelhas (barrentas) como se alguma coisa removesse o fundo, sob um sol imenso hoje estranhamente azul, num céu que de repente enverdeceu.

apenas as nuvens (previsivelmente brancas e densas) guardam alguma lucidez e prepararam as chuvas (que hoje inevitavelmente virão) a remover as tintas do meu delírio vesperal.

um pássaro solitário mergulha e submerge. quando vierem as chuvas, o pássaro retorna. brilho nos olhos, asas vermelhas, na boca o sabor do abismo e o coração em chamas.

nunca mais a leveza das asas secas e a pureza das margens - pássaro da vertigem agora. um raio - enfim, a chuva: e o cenário se desfaz.

5 de nov. de 2010

Tinteiros, tintas desenhadas




by Constança Lucas

Artista visual, poeta e professora de artes visuais, Constança bloga no Imagem e Palavra Constança Lucas, e tem poemas e desenhos publicados em jornais, revistas, livros e vários sites. Considero o trabalho de Constança simplesmente genial, especialmente seus poemas visuais. Mas este tinteiro para desenhar nuvens... É bonito demais. A série completa, AQUI, no Cronópios - "sonhos traçados à mão".

o corpo só*

o corpo só
----------quer
----------quem
----------queira
----------bem
o corpo
só quer
quem queira
bem...
----------o corpo
----------
----------quer
----------quem?
queira bem
que o corpo
é só
a alma também


* Título e um blog que gosto muito: o corpo só

4 de nov. de 2010

...

alimento e cor
canteiro em flor (vermellha) --
pássaro feliz

3 de nov. de 2010

mimética (I)

moro
no coração da montanha
(de certa forma sou
o coração da montanha)
árvores
estendem seus tentáculos
rumo ao sol
(de certa forma
são meus braços)
pássaros
são muitos e cantam
(de certa forma
sou o canto dos pássaros)
-----------fecho meus olhos:-
-----------me atiro
abro minhas asas:-
flutuo

2 de nov. de 2010

roda d'água

dentro de mim
concomitantemente nasce um poema
enquanto um outro morre
moto perpétuo
roda d’água que move a lâmina
que faz serrar a pedra (bruta)
e faz brotar a flor

dias especiais


O jovem Wallace

"Não é todo dia que o mundo
se organiza em um poema."

Wallace Stevens

1 de nov. de 2010

...

a pedra escurecida
do túmulo abandonado
é de todas
a imagem mais pungente
do esquecimento
e as folhas secas
sopradas pelos vento
definem o cenário
da mais absoluta
desolação
[ pálidas e frias
flores de plástico agonizam

31 de out. de 2010

um poema e 02 haicais de Cloves Marques*

TRABALHO DE SEGUNDA-FEIRA

Abri a cortina,
com a luz, pedi licença
aos fantasmas que trabalharam
no fim-de-semana.
(Prédio novo, nem sei se tem...)

Abri as gavetas,
saltaram os problemas
que aprisionei na sexta.

Peguei o lápis mais apontado,
papel virgem,
(Não foi desejado por nenhuma mulher!)
comecei a trabalhar,
só nasceram poemas.

*Cloves Marques é um haijim (um poeta dos haicais), como ele mesmo se apresenta. Pratica o HAICAI já alguns anos, com vários livros escritos. É fundador do Grêmio Haicai Arrecifes, que se reune, no Recife, no primeiro sábado de cada mês. É também Engenheiro Civil. Participa da União Brasileira de Escritores-UBE/PE, da Academia de Letras e Artes do Nordeste, da Academia Recifense de Letras e da Academia de Artes e Letras de Pernambuco.

Bem a luz do dia,
a fome assalta o homem.
A justiça espia.

O sol arrebenta
os pensamentos afoitos.
A vida é lenta.

Mais do poeta, aqui.

da flor, da pedra

as flores amarelas
nos vãos das pedras
suavizam o cinza
(sempre tão ríspido)
- e as pedras

29 de out. de 2010

punctum


40º
primavera quente
nada de chuva

passarinho mergulha
no mar de areia

27 de out. de 2010

olhos de ver vasos

o velho vaso de flor sobre a mesa
porque o vejo
é belo

o belo vaso de flor sobre a mesa
se não houver quem o veja
é nada

anjo



eu sempre quis saber o nome
do meu anjo da guarda
[... agora descobri
ele se chama Bono
mora no meu quintal
e tem os olhos doces
e puros
[... e eu que pensei
que todo anjo
tivesse asas

26 de out. de 2010

...

agora
arrasto minhas asas

estranho
------[... ainda flutuo

25 de out. de 2010

não fim

parto do princípio
que partir é o principio
e chegar é recomeço
[... não fim

dia de haikai

bola amarela
rompe a montanha --
parto do dia

24 de out. de 2010

redoma

cai a tarde. lenta [...como convém
aos domingos
o dia embaçado já não me afronta
há dentro de mim
agora
pequena lamparina
que pretendo manter acesa
protegida dos ventos fortes
(água e óleo que não se misturam
essenciais à existência da chama)
- que venham as noites e os temporais
na redoma de cristal dos meus olhos
aceso o fogo
[... tão frágeis os cristais
tão frágeis

23 de out. de 2010

dois poemas de Jacinta Passos*

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
Feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti.
Se me quiseres amar.

Cântico do exílio

Compreendi, Senhor, compreendi
a voz que sobe
do fundo misterioso do meu ser.
Esta angústia que vive dentro de mim,
Somente há de ter fim
quando nada mais existir entre nós,
quando, num dia sem crepúsculo,
eu me abismar em ti,
no teu esplendor absoluto.

*Do livro: Jacinta Passos, Coração Militante, poesia, prosa, biografia e fortuna crítica, organizado por Janaína Amado. Nem terminei de ler ainda, mas precisava dividir com vocês estas belezas. Virão outras, com certeza. Parabéns, Janaína, o livro é belíssimo, teu trabalho primoroso e a poesia de Jacinta Passos absolutamente encantadora. Abraço forte.

OBS: Recebi uma carta linda de um amigo, hoje, que quero também dividir com vocês: AQUI. Um beijo grande, Lalo.

20 de out. de 2010

reflexo


by mihail ilie

o olhar do macaco
atrás das grades

é puro

- reflexo dos nossos
[... por isso dói tanto

19 de out. de 2010

dos sentires do tempo V

às vezes penso que tudo já foi dito
[... me calo
sempre tão breve meu silêncio
o tempo exato de um espanto
ou de um espasmo
o tempo de qualquer existir
ou extinguir
o tempo aflito do estalo da língua
no céu da boca
o tempo do sentir
[... o tempo

18 de out. de 2010

mutatis mutandis (ou - desejo de voar)

quando a vida se torna
fardo
já não é vida
é fardo
que não pretendo carregar
embora o tenha
colado às minhas costas
[... que um dia serão asas

17 de out. de 2010

o verso

do absurdo, do tempo
da vida
[de tudo
o que vale é o verso
vide
[... o verso

16 de out. de 2010

Antero de Alda - um poema, uma fotografia


"Quem canta sua aldeia canta o mundo"!


Poema em Viagem

na viagem distrai-se o poema
mas pode ser de sangue, névoa ou fogo------------guerra!

até silêncio!

tão depressa infantil como impiedosamente velho –
até no cheiro!

na viagem, o provérbio diz-lhe:
“molda-te ao vento...”

vento!

não sejas cruel
se me rasgas o caminho no rosto.


Este texto faz parte de um dos scriptpoemas de Antero de Alda. Como se não bastasse a excelência dos textos, seu trabalho no campo da ciberarte é simplesmente genial. O artista expõe seus trabalhos poéticos, shortpoems e fotografia, em vários sites interligados, e sua obra, aproveitando os recursos oferecidos pela informática, mistura diferentes campos artisticos: música, som, fotografia, texto, vídeo, etc. Deixo aqui os links dos sites e quero convidá-los a uma viagem fascinante à aldeia do poeta Antero de Alda, a quem deixo um abraço, com minha admiração incondicional.

Site Oficial

Câmara Antiga

Os dias todos iguais

um poema de Marcantonio

VERSO ELÁSTICO

Dedicado a Nydia Bonetti
e a partir da leitura de seu poema Poliverso


Tentar abarcar o desmedido
como se fora ínfimo;
tocar o pequeno
como se transbordasse.

A forma inconclusa
das cordilheiras verdes,
a estranha flor azulada
sobre a pedra inóspita.

Para o besouro
(grifo guerreiro)
mil palavras.
Para a vida e a morte
dois monossílabos;
para a estrada inteira,
um discurso impossível
com vírgulas erradicadas.

Para cada urgência de água,
navegar
com diferentes calados:
a canoa instável
na arável superfície;
o rude encouraçado
assustador;
o submarino silente
sob a voragem.

Para toda a arte,
um aceno pasmo,
em pé na beira,
do todo à margem.


Conheci a poesia de Marcantonio a pouco tempo e confesso - fiquei impressionada. Sem dúvida, um grande poeta - um dos melhores. Além de poeta, artista plástico brilhante, publica seus trabalhos no DiárioExtrovertido. Dono de um estilo marcante e consistente, domina as suas duas artes com perfeição. Guardem bem este nome. Tenho a impressão que ouviremos falar muito dele. Obrigada, Marcantonio, beijo!

13 de out. de 2010

pontos



vórtice vértice vertigem
ventania

tudo tão distante do ponto
em que me encontro

(vazia)

equidistante o outro ponto
é fantasia

10 de out. de 2010

antigo, o jasmineiro

estranha esta noite quente de primavera
tento sair à rua tento
não posso
há algo que me impede que me segura
me paralisa
tenho bolas de ferro presas aos pés
as mãos atadas
e um nó na garganta
antigo, o jasmineiro tem pena de mim
e em perfume
me manda sinais
de que há vida lá fora
e que ela pode ser
doce
[... ainda

8 de out. de 2010

delírios


Flávio Scramignon - Sumi-ê

garças rosas
desafiam a lógica das cores dos bichos

todos - deveriam ser azuis

como as pedras, as árvores
e as maçãs

sob o céu vermelho dos meus delírios

6 de out. de 2010

olhos mofados

czarinas pós-modernas
lavram minas de ferro e carvão

matéria negra de que se faz o pão
de cada noite

se amanhecer moer do que restou
e deglutir fuligem

olhos mofados
gerânios na fotografia são

lembranças

5 de out. de 2010

dos sentires do tempo IV

olho minhas mãos
não as reconheço
quem foi
que as vestiu
com as luvas do tempo
e quando e como?
— não sei
mas elas estão em mim

4 de out. de 2010

franciscando


arteblog galeria

hahaha um Deus
hahaha um Deus que nos ama
hahaha

há um Deus?
há um Deus que nos ama?
há?

ah... um Deus
ah... um Deus que nos ame
ah...

há um Deus!
há um Deus que nos ama.
há!

Vocês sabem o que o EITA!? Todos convidados a conhecer. :)

2 de out. de 2010

Havana

na rota dos meus sonhos
ainda te encontro
con sus guitarras y cantos
sus poemas de arcilla y piedra
minerales y hojas
ojos de tabaco y doçura
manos de esperanza
fuegos de ternura
Habana
(reconheço-me ilha)
cenizas de lo que soñé

30 de set. de 2010

...


------------coisa mais bonita
------------gente ou passarinho
------------ver fazer ninho

28 de set. de 2010

um poema de Roseana Murray

A solidão passa pontual todas as tardes
Bonde azul sem passageiros
Rumo a lugar nenhum
E deixa na pele o desejo de outra pele...

Roseana Murray

+ - * X / ² = ? ! . . .

22 05 + 06 08 – 19 25 X 20 06
+ - * X / ² = ? ! . . .
que conta é esta que soma e diminui

eleva
multiplica e divide depois termina
e o resto
é um número de bronze
colado numa pedra

poesia?!

mata o mato
com mata

mato

tudo parece ter
seu lado

mata dor

erva daninha
flor

27 de set. de 2010

...

não força a vida, filho
absoluta
ela acontece
(ou não)
alheia aos nossos sonhos

angulares

no caminho de pedras
há muitas
pedras
nem todas são
roladas
angulares muitas
resistem
em arestas e pontas
[... meus pés descalços
as encontram

25 de set. de 2010

cinco poemas de Geraldo Barros

I.

sinto um rio
se despreguiçando
em meu peito
quando os meus olhos
abrem a manhã
nos seus

II.

é em mãos gentis
que o vento repousa
depois de um longo temporal

a poesia
escorre nos dedos

III.

quanto mais
esfrego a língua
num poema

mais ele mancha
minha alma

IV.

ando cheio
de tantos vazios
que uma hora
esse nada explode
e tudo vai acontecer

V.

tudo o que tocava umidecia
não sabia ela que dentro dela
corria um rio


O poeta Geraldo Barros percorre um caminho na poesia que me agrada muito. São poemas minimalistas, intimistas, quase epigramáticos, que possuem o que considero mais importantante na poesia - identidade. Sim - é possível reconhecê-los. Eu gosto demais... Especialmente destes, a mim presenteados. :) Obrigada Geraldo. São mesmo lindos. Beijos!

OBS: Pode haver melhor presente do que um poema?! Ganhei mais um :) E ele é azul... aqui:
uns cantares - no blog A ti, poesia do poeta Danilo de Abreu Lima, que acompanho e admiro desde os tempos do Overmundo. Obrigada, Danilo. Tua poesia me comove. Beijos!

24 de set. de 2010

na estrada

olho cada semblante
que encontro no caminho
sinto por todos
imensa compaixão
irmãos nas dores
companheiros de estrada
sonho comum:
a vida
[... e o fardo
da humana condição

.
.
.

os lírios brancos
sob a árvore imensa
apascentam-me

(n.t.) Revista Literária em Tradução



(n.t.) Revista Literária em Tradução nº 1

Belíssima estreia da (n.t.), Revista Literária em Tradução, um empreendimento de Gleiton Lentz (editor), Roger Sulis (coeditor), Aline Daka (curadora) e Fedra Hinosa (consultora). Brilhantes traduções de poemas de Marina Tsvetaeva, Halina Poświatowska, Nâzım Hikmet e muito, muito mais. Um ótimo programa para o final de semana, uma revista que veio para ficar. Parabéns Aline, a você e a todos que participam deste projeto. Sucesso!

22 de set. de 2010

depois, o canto

a cada dia que amanhece (dizem)
partem pássaros
dos infinitos ninhos dentro de nós
hoje, ainda de madrugada
um pássaro vermelho
atravessou meus olhos e foi
rumo ao dia de sol
(depois
... o canto)

21 de set. de 2010

um poema de Ledusha Spinardi

Cristal na Neblina

A mínima idéia da tua presença expõe minha alma às curvas,
como a desfrutar silenciosa o frescor de pérolas no pescoço.
Ouço um por um os pingos além dos pássaros
no rastro recente da chuva.
Tímidas ainda ontem,
as rosas no aparador ostentam contornos carnais e tudo pulsa - volúpia
- na lisa luz da folhagem.
A mínima idéia da tua presença afia a lâmina
dos meus sentidos, o faro para analogias.
Ouço risos no meu sonho,
recrio teus olhos no escuro, vejo cristais na neblina
quando secretamente tua alma me visita.
Os cheiros que a chuva desprende,
tua voz na minha nuca, alinham-me à beira da glória.
Esculpirei o verbo para o que procuras?
Às vezes arde um sol sombrio
no cerne desse ofício, amar.
Conto horas fora do tempo e outras que adivinho nesta, exatíssima.
Como uma vírgula tua presença me devolve o verso,
eco de pétala no precipício.

* Ledusha com Diamantes - by Celso Fonseca and Ronaldo Bastos.

Sem dúvida, Ledusha Spinardi é uma das mais talentosas poetas e intelectuais da atualidade, e saber de seu imenso carinho pelos animais e seu empenho em favor dos bichinhos, só fez crescer minha admiração por ela. Um pouco mais da poeta aqui e aqui. beijo, Ledusha!

20 de set. de 2010

rompantes

[... e de repente
a paz - das águas do lago
mergulha em mim

[inteira]

19 de set. de 2010

setembros

o tempo
corrói a vida pelas bordas
insaciável
já devorou
mais da metade do que sou
[...ou do que fui?
e nos setembros
ele arranca pedaços
inteiros

quando setembro vier será outono lá mas a primavera romperá aqui
as flores do renascer
a alegria tomará o espaço onde a vida nos ensinará a amar a beleza
que nos transcenderá
não
o insaciável tempo não nos sacia a sede da beleza que nos trará
setembro a cada ano que está por vir
Nydia
o teu setembro é poesia...

Obrigada, Flávio. Tua poesia me faz feliz - Uma beleza... Beijos!

Flavio Miragaia Perri

18 de set. de 2010

nanquin


sumi-ê-Rita Böhm

procuro no escuro – a palavra nova
tateio espaços
risco rasgo
não posso vê-las
tento tintas outras tons
texturas
na minha pele escrita
caneta tinteiro
mata borrão borracha
papel de arroz tão fino
requer cuidado.

O poeta Fouad Talal me dedicou um poema lindo no seu blog Verso de Cor, um espaço incrivelmente criativo, de um poeta que além de ser "todo coração" é puro talento. Todos convidadíssimos para o próximo vôo ao tempus fugit: utere! - que o tempo urge... e é preciso aproveitar o dia de sol. Obrigada Fouad, beijo!

17 de set. de 2010

...

que dia estranho
tudo parece pouco
distante e raso

improvável segundo sol

olhando a cidade
vislumbrando as trevas
Jane Jacobs


se acaso
a boreal aurora dos tempos
não chegar
tão improvável o segundo sol

[... ocaso dos tempos]

16 de set. de 2010

poliverso

1.
vai longe o tempo
dos poemas longos
versos conclusivos
começo
meio
fim

2.
busco por epigramas
o peso em gramas
de jardim
minimetrias assim
metrias  sim
não metrias

3.
o verso r a s g a d o
mutilad
         o
                      torto
completamente
a
  b
     s
         o
      r
  t
o

4.
o verso demente
o que diz sem dizer
nada
e o que não diz
tudo e nunca
é o lugar
deste meu poliverso
que um dia foi uni
agora já não
(até) mais ver

15 de set. de 2010

véspera

espero
ainda
ver
da tua
mão
brotar
a flor

14 de set. de 2010

primeiro azul

mantenho ainda
pendurada na parede
a lamparina azul

onde acendi (menina)
minha primeira fantasia

mimo



Recebi este prêmio do poeta Assis de Mello, o que me deixou muito feliz, admiradora que sou da sua exuberante e refinada poesia. Fazendo uso de uma linguagem absolutamente própria - e rara, o poeta se destaca e se impõe como uma das vozes mais brilhantes no cenário poético atual. Obrigada Chico!

Tenho sempre muita dificuldade em escolher meus indicados, então ofereço este prêmio (que costumo chamar de "mimo") a todos os poetas blogueiros que caminham juntos por este território admirável da poesia. Beijos!

13 de set. de 2010

congadas violas e estradas

som de viola
canto de pássaros
e o vento
[...o vento
espadas de madeira
que se tocam
no ar
o ritmo nos pés
e a cantoria
que ecoa
e faz sorrir
o São Benedito
na memória sonora
inteira
minha infância
diante
dos meus olhos
estrada de terra
[... batida e longa
se afunila
e muito além
das incontáveis
porteiras
quase
no infinito
tudo
desaparece

12 de set. de 2010

cenário


Drue Kataoka

pedaço de céu
entre nuvens cinzas

derrama

c-h-u-v-a---d-e---l-u-z

holofote de sol

que branco
brinca de lua cheia

obsidiana

estilhaços de noite
penetram nos meus olhos
já tão escuros

houvesse ao menos lua
[...lascas de prata

10 de set. de 2010

bando


mallard_moon

quem amordaça
o pássaro que canta
e aprisiona
o vôo?
o rubro tom
e o brilho dos rubis
quem pode ofuscar?
nossos vestígios
passos, cantos
pensamentos
haverá quem apague?
dispersará o bando
que de fênix a alma
do fogo herdou
a chama e o ímpeto
do eterno renascer?

9 de set. de 2010

urbanas heras

caligráfica ilusão - grafite
urbanas heras

território de aventura

onde o muro é apenas suporte
não fronteira do absurdo

8 de set. de 2010

palavra escrita

lembra
quando tudo
era começo
e o fim
palavra não dita
hoje
começo é lugar
distante
e o fim
palavra escrita
(tatuagem
catártica)
na pele
do instante

7 de set. de 2010

criatura

mas de mil vezes
te criei
não te fizeste

insistes em não ser
já nem te sopro

6 de set. de 2010

Coleção Orpheu


A coleção Orpheu da editora Multifoco é um selo voltado para a poesia brasileira, que se propõe através de um processo de pesquisa cuidadosa, buscar o poeta e sua poesia. Exatamente como Orpheu buscou Eurídice, sair à procura de poetas, inéditos ou não, que mereçam vir à luz, através do livro. E com esta multiplicidade de vozes, traçar uma linha harmônica audível, do panorama atual da nossa poesia. Aqui, os Lançamentos. Imperdíveis.

5 de set. de 2010

olhos de esperar ventania

nos meus olhos miúdos
onde um dia brotaram flores
in_contidas

onde pousaram pássaros
i_nesperados

urge outra vez ventania
a soprar gravetos

que restituem ninhos
ao primitivo estado de graça

4 de set. de 2010

do inevitável

na órbita
dos nossos sonhos
havia
um planeta vermelho

colisão inevitável

terra vazia
[...estrela cadente

chama azul

ausências são fogueiras
onde se atiram trapos
que se incendeiam

[... chama
azul
autocombustão

turbulenta e completa
solidão...]

2 de set. de 2010

... de primavera quase

moram peixes azuis
no fundo dos meus olhos
quando miram o céu

[... de primavera quase

1 de set. de 2010

movimento e não



garças brancas
sobre o lago

impassível

- movimento
e não

tudo

na natureza
se equilibra

31 de ago. de 2010

depois de ler rodrigo*

cães
poeira

céu de sol
se pôr

in termináveis
dias

hoje
[... dor de dente

*rodrigo de souza leão

30 de ago. de 2010

dos sentires do tempo - III

fim

do tempo
das sonoras mentiras

hora
das verdades silenciosas

29 de ago. de 2010

textura de vento e flor

ando em busca
dos véus
que nos desnudam
e dos vestidos
que nos despojam
ando em busca
dos panos etéreos
que nos revelam
textura de vento
e flor

28 de ago. de 2010

sibilos e tramas nos olhos da noite


sibilos na noite
sufocam as pedras

e o relógio da sala
padece
do seu próprio tom

pássaro noturno
matematicamente
pia]

esquivo-me de crer
no que meus olhos
lacrimam ver

[crias da chuva
e do vento

tão claramente ouço
o que os esquilos
tramam

nas horas subterrâneas

27 de ago. de 2010

geografias

no território imperfeito
em que habitamos

a pele é fronteira

afetos são águas que fluem
em fios

ou caudalosos rios...]

ausências
[...profundezas abissais

memórias são trilhas

que a mata densa e invasiva
da vida cotidiana

encobre lentamente

26 de ago. de 2010

poema*


Drummond

poema

mais do que rito
é ato
de coragem

e profissão de fé



*Depois de ouvir depoimento de Augusto de Campos a Edson Cruz, aqui, na TV Cronópios.

25 de ago. de 2010

dois poemas de Jorge Elias Neto*

A poesia começa assim

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.
E, quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
---------jogar-se nos trilhos
-----------------para salvar a flor.


Pastora

Filha, não te embriagues com teu nome.

Passa tardes tosquiando nuvens;
sê cortesã do Sol.
Destila histórias.
Besunta, cada mão, com momentos
e molda tua vida com simplicidade.

*do livro Rascunhos do Absurdo - em que "o poeta sente o absurdo do tempo humano", tem consciência plena dos "gestos costumeiros", ainda assim "se lança ao chão para salvar a flor". Em Rascunhos do Absurdo, a poesia parece vir num crescendo, da suavidade do Livro de Notas até explodir em Gaza e depois, a redenção, na belíssima homengem a Marvilla - puro encantamento. Mais do poeta, aqui, no estalo da palavra.

24 de ago. de 2010

overdose de lua


sumi-e

1-

vê-se daqui a lua
olhos da cor de amar
- ela é mulher

2-

surgiu vermelha
agora prateada
a lua cheia

múltiplas faces
- caleidoscópica

3-

lúcidos / loucos
- lobos lunáticos
na mesma rua

uivamos todos
pra mesma lua

23 de ago. de 2010

quereres

inverno ainda
cheia noite seca lua
queria chuva

primavera dia
e o sol depois

22 de ago. de 2010

callas




quando o silêncio
vai além
do que se pode suportar
ouço maria callas
(puro êxtase)
que dissimula
a voz aguda do silêncio

21 de ago. de 2010

das inconclusões

de onde o quebranto que transforma
o sentir em palavras

e a alquimia antiga que transmuta
a palavra em outro sentir

olhos ou coração
decodificam o verso e o traduzem

pedra filosofal é o verbo
ao mesmo tempo criador e criatura

a fonte a sede a água e a boca seca
mais do que susto o poema é loucura

nos meus olhos vermelhos reflexos
ardem fogueiras

(e a grande obra ainda por se fazer)

18 de ago. de 2010

vida que não


arte de leila pugnaloni

sopro
que se insinua
disfarce
traço intocável
insípido
ondas
que não vão dar
no mar
mira
que não se almeja
alvo
que não se atira
vida
que não fulgor

17 de ago. de 2010

teatro da vida

Recebi uma homenagem linda no Teatro da Vida, de Lara Amaral, poeta brilhante, que com sua poesia que oscila entre o azul e o laranja, em suas infinitas nuances, que vão do azul celeste ao marinho abissal, do laranja amargo à lima doce da pérsia, nos encanta a todos. Obrigada, Lara. E como eu sempre digo: olhares atentos como estes é que fazem valer a pena seguir em frente neste "território de aventura" da poesia. Beijo grande!

16 de ago. de 2010

vazio e sombra


arte - mila thiele - vazio e sombra

se no vazio
habita a paz

hoje sou
seu templo

15 de ago. de 2010

recorrente

não quero mais falar do verso
não quero

mas vou falar do que?

se o verso é tudo que me resta
hoje

é tudo que me basta

é tudo
embora seja nada – ou quase

nada

14 de ago. de 2010

é verso só


flickr plasticpumpkin

fosse flor
o verso

arrancava-lhe as pétalas

pássaro fosse
- as penas

é verso só

arranco-lhe a pele apenas
e deixo sangrar

do que não se contém

olhos de mar
os olhos do poema

nem sempre calmos

quando convulsos
bramem

o verso puro

(tsunami)

13 de ago. de 2010

um "poema de cercania e longitude"

O poeta Assis Freitas - cujas palavras têm o dom de fazer clarear o dia, antecipar as flores e o canto dos pássaros - me dedicou um poema - aqui.

Obrigada, Assis! Que bom saber, que dentre estes teus 1001 poemas - todos belos - um deles foi pra mim. Abraço grande, com a minha admiração incondicional.

12 de ago. de 2010

que vale o verso


michelangelo_david_detail

de que me vale o verso
feito de barro

se não houver quem o sopre

. . . davi me ensina
a santidade da canção . . .

11 de ago. de 2010

que sei do verso

que gosto tem o verso
e que textura?

só sei da cor: vermelha

do coração na boca
da alma na palma da mão

10 de ago. de 2010

uma entrevista e um poema

Caros, o poeta Hilton Valeriano publicou uma conversa nossa sobre poesia aqui, no Poesia Diversa e o poeta Julio Rodrigues Correia me dedicou um poema aqui, no Acroatico. Dois grandes amigos, dois belos poetas, dois blogs que pela qualidade se tornaram para mim leituras diárias essenciais. Obrigada Hilton, obrigada, Julio. Abraços!

9 de ago. de 2010

dezespelhos


Arte: YinXin

imenso o lago e eu
i(n) ma(r)gem plácida

o espelho d’água
desreflete meu rosto

nas águas profundas
há outros dezespelhos

onde talvez eu esteja



Obs: Amigos, inventei de fazer um blog rascunho e me perdi. Vou postar os poemas todos aqui e desativar o rascunho. Talvez alguns poemas se repitam, pois perdi mesmo o controle do que já foi postado. Aproveito para agradecer as leituras e comentários e mais uma vez repito: tê-los aqui é o que vale. Tenho lido vocês sempre, mas ainda sem condições de estar mais presente. Abraços!

8 de ago. de 2010

sereno

de onde me vem esta paz incomum que chega
assim
sem ser anunciada

nesta noite sem luz e fria

de onde, este perfume doce misto de lírio branco
e jasmim

e o som atávico do relógio da sala que antes rugia
hoje me embala
feito cantiga de ninar

tudo mais é silêncio e tudo é pleno

posso tocar a vida agora posso tocar

com as pontas dos meus dedos desenho na vidraça
um coração - sereno

onde mergulho e enfim
adormeço

relembrando hiroshima




por Francine Orr

7 de ago. de 2010

mais um poema de Else Lasker-Schüler

Reconciliação

Há-de uma grande estrela cair no meu colo…
A noite será de vigília,
E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.
Será noite de reconciliação -
Há tanto Deus a derramar-se em nós.
Crianças são os nossos corações,
Anseiam pela paz, doces-cansados.
E nossos lábios desejam beijar-se -
Por que hesitas?
Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.
Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.
Há-de uma grande estrela cair no meu colo.

in Baladas Hebraicas, trad. de João Barrento, Assírio e Alvim

6 de ago. de 2010

ópio


opium - YinXin

trago meu ópio pelos olhos - que nem mais vermelhos ficam
então flutuo no mar branco de entrelaçadas fibras
papyrus papel

onde navios são letras negras que me levam

depois retorno de mãos vazias e olhos vagos

onde flutuam peixes metafísicos metafóricos - que agonizam
nas águas barrentas do infinito cansaço
dos que navegam sem chegar

5 de ago. de 2010

sal da terra luz do mundo


Caros, quero convidá-los hoje a conhecer a revista Sal da Terra Luz do Mundo, de Ana Lucia Vasconcelos, jornalista, atriz, cientista política e uma super escritora, que mantém este "espaço de cobertura de eventos de arte- musica, erudita, jazz, teatro, dança, cinema, artes plásticas e literatura que acontecem na cidade; além entrevistas e perfis com escritores, diretores de teatro, cineastas, artistas plásticos, dramaturgos, músicos, dançarinos, e ainda reflexão sobre temas de cultura, todas as áreas do conhecimento humano, saúde integral, e espiritualidade". Um espaço realmente interessantíssimo, que vale a pena conhecer. Ana reproduziu lá minha entrevista a Marcelo Novaes (Bloco de Notas) e publicou alguns de meus poemas inéditos.

Detalhe que preciso compartilhar com vocês: Ana Lucia foi amiga íntima de Hilda Hilst e está concluindo um livro fantástico sobre a vida e obra desta que é, sem dúvida, uma das maiores escritoras brasileiras. Uma "não tão mínima" amostra está publicada neste ensaio no Cronópios e também no site de Ana. “um mergulho nos fascinantes mundos de Hilda”. Estão todos convidadíssimos.


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
(um dos versos de Hilda que mais gosto)

obrigada, Ana! beijo.

3 de ago. de 2010

. . .

inventei teus olhos
e mergulhei

agora me afogo

não encontro a saída
não encontro

dos olhos que inventei

1 de ago. de 2010

flor de marrakech

há um jardim qualquer
em qualquer canto

onde uma flor qualquer
brotou

de qualquer cor

de qualquer forma é flor
e eu a oferto

a quem souber cuidar
ou qualquer coisa

assim

(qualquer coisa)

30 de jul. de 2010

outro poema de Else Lasker-Schüler*



Despedida

Mas tu nunca vinhas com a noite –
E eu sentada com casaco de estrelas.

… Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.

Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta.

Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.

Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.

Mas tu nunca vinhas com a noite
… E eu de pé com sapatos dourados.

*a alma e o caos

28 de jul. de 2010

das águas

sabe
não sei
achei que sabia
sei não
acho
que saber
é quase nada
é pouco
é poço
sem fundo
prefiro
as águas claras

(ou obscurecidas)
do sentir

23 de jul. de 2010

partilha

na noite seca
brilho de estrela única
no céu de tantas
(possíveis e prováveis)
umedecem meus olhos
- partilhada dor

22 de jul. de 2010

um poema de Else Lasker-Schüler



Cansaço

Todos os brancos sonos
Da minha calma
Caíram na fímbia escura do firmamento.

Ora a dúvida cobre minha alma
E meus sonhos são produtos do tormento.

Ah, queria dormir de anseios livre
Saber de um rio fundo, como o que em mim vive.

E fluir com suas águas...

21 de jul. de 2010

canto

o verbo se desprende
do véu

da boca

bando
de pássaros brancos

em vôos rasantes

pequeno céu muitas asas
palavras são

penas

(sopro)

19 de jul. de 2010

céu de sonhar

a tarde seca
um céu de cerejeiras
primeira estrela

até as pedras sonham
com as asas que não têm

18 de jul. de 2010

avessos e espelhos

dentro de mim mora outra - meu avesso

quando olho no espelho
é ele (meu avesso) que vejo

nos meus sonhos
é ela (a outra) que atua como num filme

na memória mais antiga é ela que sorri

é meu reflexo
que caminha pelas ruas – olhos em chamas

tanto sol

enquanto (quem?) cativa se debate
no buraco do espelho onde (obtusa mente)

vive no escuro

16 de jul. de 2010

resignação

palavra indesejada
jamais proferida
banida
do vocabulário
depois esquecida
agora enfim
expressa
pronunciada
de forma lenta
soletrada
e o gosto dela
amarga
o céu da boca
amarra a língua
faz salivar
e o cheiro
é de bolor de gaveta
de mofo de porão
de casa abandonada
de túmulo vazio
aberto
à espera do corpo
resignado

14 de jul. de 2010

lugar

quero um lugar
só meu
este lugar é aqui
este lugar nenhum
lugar algum
é onde
é onde não estou
neste lugar eu sou

(ninguém)

esquinas

faço versos porque já morri
tanto e tantas vezes
mas não encontro o caminho de casa
onde era mesmo que eu morava?
no acaso me lanço
no espaço em branco longe dos apegos
flutuo
há uma curva no rio – havia mesmo um rio?
tinha botas de sol – ainda tenho pés?
há um lugar onde as almas se encontram
os corpos são frascos
de vidro - não eram potes
de barro?
há janelas que nunca se abriram
cortinas transparências
o vento - havia mesmo o vento?
podia ouvir seu sopro
ao menos uma carta eu poderia ter escrito
na próxima esquina quem sabe
no próximo verso

12 de jul. de 2010

um poema de Velimir Khlébnikov

Basta-me um mínimo:
lasca de pão,
gota de leite
e, céu acima,
nuvens alvíssimas.

mais de Velimir Khlébnikov

11 de jul. de 2010

meio dia inteiro

1-

meio dia inteiro
princípio da tarde
e o sol desmaia

não sei de tristeza
ou de paixão

2-

fim da tarde
desfalece de vez o sol
ante meus olhos plenos

o dourado no céu revela:
era tristeza não

9 de jul. de 2010

mínimazul e outros tons

1-

um céu inteiro
refletido nas asas
- mínimazul

(brabuletinha)


2-

é tanto mato
que meus olhos escuros
enverdeceram

meu coração é ninho
asas que te quero

(céu)


3-

privilégio acordar
entre tons
de azul e verde
face vermelha do sol
que sonhei

7 de jul. de 2010

última flor

terra exaurida
cansada

entregue...

oferta
sua última flor
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