28 de jan. de 2013

um tempo rude principia
todos os dias
antes
de qualquer sol possível
espantos que explodem
feito raios
em céus de ninguém
dores que arrancam olhos
a sangue
frio
e a terra segue
no seu santo oficio
em seu girar mecânico
num universo alheio
à todo drama : ou poesia


26 de jan. de 2013

a ilha dos pássaros
azuis
bem que eu preciso
voar
dormem os brotos
que vão se abrir
de manhã
ao chamado
do sol
saltam distantes
os olhos
que é para não
chorar
algodão doce
trompete
momento café
língua profana
professa
que não estamos
sós
milícias miram
em mim
subtrair-me
pra quê?
se tudo canta
enquanto caem
romãs
e espelhos trincam
imagens reais

25 de jan. de 2013

pairam sobre mim
abismos
de misericórdia
daquele
em quem acredito
[ ...e amo

19 de jan. de 2013

descobre enfim
não existir a tal grande cidade
que imaginava
elas são muitas
pequenas
cidades
dentro de um mesmo indefinido
território
homens perdidos
sem história
ou memória comum
que os aproximem. ou
os irmanem. nada
além
da invisível fronteira
de asco
isolamento e medo
a cúpula cinzenta
que tudo encobre
e a noite/trator inexorável
que tudo aplaina
hoje
cai feito um véu sobre o nada
(...lentamente)



18 de jan. de 2013

rio de concreto e náusea
segue
seu destino antigo
de levar
levou
meu sonho ingênuo
de chegar
nave de metal
sem rumo
segue
em linha reta
sonhando âncoras - ou
asas

16 de jan. de 2013

voraz o dia, membro da matilha
dos predadores de nós
manso quando amanhece - uiva
a cada por do sol
. . . .[...quando arranca pedaços

8 de jan. de 2013

queria ser vento
queria ser água, sol
e flor

tudo que fosse
o que não sou

7 de jan. de 2013

tendo nada a dizer, busca lá fora
por imagens
que por si só componham um poema
gerânios adormecidos
enfim despertos
pelas águas gentis de algumas chuvas - e mãos
generosas
tábuas apodrecidas que sorriem
por se saberem vivas
(embora estejam mortas)
estalam
. . . . . . como as árvores de semente que voam
em busca
da terra improvável
(ainda possível) nesta cidade infértil
impermeável
de flores de vidro e aquários
de papel

4 de jan. de 2013

a mulher desce por uma escada estreita e fria
em caracol
imensa
parece não ter fim
há limo nas paredes laterais
por onde as mãostentáculos nervos e unhas
tentam se agarrar
infrutífero esforço
os pés descalços sobre o concreto áspero
latejam
vertiginosa queda
agora se arrasta e se contorce
mormaço – calor insuportável - será
o centro da terra? o magma milenar - o hades
o fim do sacrifício?
tudo serena e outra mulher
antiga e negra
turbante de algodão
branco
imenso caldeirão – Nhá Dita
mexendo a sopa de feijão me olha - e sorri
e não há chão. formigas. o chão formiga
o fogo. as labaredas são
formigas
sou eu essa mulher
e acordo. suando em bicas
o telefone toca – é minha mãe
fala de coisas banais, da chuva que não cessa
do tempo quente
do bolo de fubá cremoso
receita nova
ah... você não sabe quem morreu:
Nhá Dita. acabei de saber. descansou a pobre
vinte anos numa cama de asilo
imóvel. falava com os olhos
lavou tanta roupa
fritou tanta batata. fez tanta sopa de feijão...

2 de jan. de 2013

trajando negro, chegaram as mulheres
vindas do fim do túnel
que desemboca num rio
de lama
vermes e areia
movediça
agarraram-se em árvores
de cipós e leite
de flores
mãos queimadas
elevadores
de edifícios gigantes
de banheiros sem portas e sem
janelas
louças amarelas
uma cidade vertical antiga
puro concreto
escuro e desgastado
rombos de granadas e demônios
que espreitam
nos jardins extramuros
nos portões que se trancam por dentro
que só se abrem ao amanhecer
(se amanhecer)

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