às vezes se pergunta
se um dia houve mesmo aquele campo
onde pisou descalça
sobre folhas douradas
e pétalas
tenta rememorar
mas tudo que vê
é uma estrada de pedra longa e tortuosa
em pleno deserto
(e é sempre meio-dia)
24 de fev. de 2012
cansada da viagem
nem percebi os campos
verdes de chuva
21 de fev. de 2012
a cidade cresceu
além dos limites da minha infância
subiu montanhas
engoliu pastos e bois
secou
pequenos lagos
calou
corujas e sapos
apagou vagalumes
derrubou árvores
arrancou
roseiras e pomares
bulêmica
a cidade vomita
saudade
do chão de terra que já não se vê
20 de fev. de 2012
na trilha das doçuras há sempre um rastro
perfumes / cristais
abelhas ou formigas
tudo que beija
flores
tudo que mel ou sol — até — que chova
às vezes pedra
17 de fev. de 2012
da velhice, me impressionam as faces
sempre crescentes
olhos
boca
nariz
orelhas
e mãos (imensas)
como num último apelo dos sentidos
15 de fev. de 2012
a árvore imensa
no alto da montanha
parece um delírio
o céu amarelo
do pôr-do-sol da seca
parece pintura
a minha solidão
e o tamanho da lua
parece loucura
14 de fev. de 2012
você me tiraria pra dançar
pergunto
mas não há música
você diria
nenhuma voz
na memória dos pés
uma canção
antiga
na memória dos sentidos
nós
13 de fev. de 2012
a chuva
fez com o muro antigo
o que a vida fez
comigo
expôs as entranhas
(de barro e pedra)
9 de fev. de 2012
e então conclui
em meio ao calor sufocante
que todo oásis é miragem
até que se encontre
(há quem)
talvez seja mesmo culpa
dos meus pés
pequenos
essa minha constante
falta de equilíbrio
tantas vozes dentro de mim
que às vezes me vejo dançando
um balé polifônico
entre tambores
violinos
cítaras e tamborim
descalça
no chão do mais áspero concreto
8 de fev. de 2012
I-
nomes que tempestades
artaud, rimbaud, celan
três caravelas
escaravelhos?
mares
que (não?) nav-ego
(alter marinos — blues)
II-
há
uma dama na sombra
não / sou / eu
mas canto
a canção da torre
não / assim / tão alta
(ao longe vejo um rio)
7 de fev. de 2012
silêncio
é tudo que buscou
e invisibilidade
não ser
é tudo que plantou
colheu
flores vermelhas
que sangram
mãos vazias
quer voltar para casa
virar as costas ao mundo
buscar o velho
caminho
despertar do sono
do não
e encontrar o porto
onde
o grande barco ancora
zarpar
vias do coração