27 de fev. de 2012

na casa vazia
tantos espelhos
ninguém
às vezes se pergunta
se um dia houve mesmo aquele campo
onde pisou descalça
sobre folhas douradas
e pétalas
tenta rememorar
mas tudo que vê
é uma estrada de pedra longa e tortuosa
em pleno deserto
(e é sempre meio-dia)

24 de fev. de 2012

cansada da viagem
nem percebi os campos
verdes de chuva

21 de fev. de 2012

a cidade cresceu
além dos limites da minha infância
subiu montanhas
engoliu pastos e bois
secou
pequenos lagos
calou
corujas e sapos
apagou vagalumes
derrubou árvores
arrancou
roseiras e pomares
bulêmica
a cidade vomita
saudade
do chão de terra que já não se vê

20 de fev. de 2012

na trilha das doçuras há sempre um rastro
perfumes / cristais

abelhas ou formigas

tudo que beija

flores

tudo que mel ou sol — até — que chova
às vezes pedra

17 de fev. de 2012

da velhice, me impressionam as faces
sempre crescentes
olhos
boca
nariz
orelhas
e mãos (imensas)
como num último apelo dos sentidos

15 de fev. de 2012

a árvore imensa
no alto da montanha
parece um delírio

o céu amarelo
do pôr-do-sol da seca
parece pintura

a minha solidão
e o tamanho da lua
parece loucura

14 de fev. de 2012

você me tiraria pra dançar
pergunto
mas não há música
você diria
nenhuma voz
na memória dos pés
uma canção
antiga
na memória dos sentidos
nós

13 de fev. de 2012

a chuva
fez com o muro antigo
o que a vida fez
comigo

expôs as entranhas

(de barro e pedra)

9 de fev. de 2012

e então conclui
em meio ao calor sufocante
que todo oásis é miragem

até que se encontre
(há quem)
talvez seja mesmo culpa
dos meus pés
pequenos

essa minha constante
falta de equilíbrio
tantas vozes dentro de mim
que às vezes me vejo dançando
um balé polifônico
entre tambores
violinos
cítaras e tamborim
descalça
no chão do mais áspero concreto

8 de fev. de 2012

I-

nomes que tempestades
artaud, rimbaud, celan
três caravelas
escaravelhos?
mares
que (não?) nav-ego
(alter marinos — blues)

II-


uma dama na sombra
não / sou / eu
mas canto
a canção da torre
não / assim / tão alta
(ao longe vejo um rio)

7 de fev. de 2012

silêncio
é tudo que buscou

e invisibilidade

não ser
é tudo que plantou

colheu

flores vermelhas
que sangram

mãos vazias
quer voltar para casa
virar as costas ao mundo
buscar o velho
caminho
despertar do sono
do não
e encontrar o porto
onde
o grande barco ancora
zarpar
vias do coração

6 de fev. de 2012

Cantar a Pele de Lontra - alguns poemas

Alguns dos meus poemas publicados hoje no Cantar a Pele de Lontra, na série NOVOS POETAS BRASILEIROS. Grata Claudio!

4 de fev. de 2012

mundos cabem num livro mas
nenhum livro é

o mundo

nem todos os livros
do mundo são

o mundo

fogueiras -
páginas que ardem sufocam

o mundo

e depois o libertam

2 de fev. de 2012

Nhô Danié

um preto velho na minha infância
cheia de cores

procissão de fantasmas — felizes
passaram hoje

pela janela dos olhos da memória

1 de fev. de 2012

canta-se o que se vive
canto a poesia
(que mais eu cantaria)
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