29 de mai. de 2010

(XIV)

estranho

palavra alguma hoje
faz sentido

talvez pressintam

olhos nenhum
a procurar por elas

28 de mai. de 2010

um poema de Beto Palaio*

O EQUILIBRISTA

(Para Nydia Bonetti)

Minha vida é um trapézio
Sem rede para segurar minha queda
Olho para o vazio abaixo
Mas não caio

Meu andaime é a corda bamba
Com um varapau como companheiro
Ao caminhar resoluto, bambeio
Mas não caio

O público ovaciona a travessia
Minha ex-mulher grita "tomara que caia"
Meu patrão rasga meu holerite
Mas não caio

A corda bamba é feita de arco-íris
Há um anjo em cada ponta, protetores
Pula na corda um deus menino
Mas não caio

Uma diáfana mãe vem me seguir
Com seu próprio varapau a se equilibrar
Ela passa com receio que eu caia
Mas não caio

Há nesta corda um grifo nebuloso
O próprio universo que vem se regozijar
Do tempo que ele empresta e toma
Nele eu caio


*"Beto Palaio é um brasileiro que com afinco mergulha na arte (eu acrescentaria - e na literatura) em toda sua dimensão" - Emprestei esta frase do Blog do Favre, para definir Beto Palaio. Seu blog, o Littera Tour e sua revista eletrônica - Around the World in 8 Seconds - são mesmo um deleite para nossos olhos e almas - e os seus haicais - encantados. Obrigada, Beto. Sei que seu habitat natural é a prosa mas são tão tênues estes contornos, que se você não era, agora é - poeta.

26 de mai. de 2010

(XIII)

etérea
a ponte que atravesso

um passo

entre o papel em branco
e o verso

um risco

(na ponta do lápis)

25 de mai. de 2010

dois poemas de Adriano Nunes*

"Depois de horas"
Para Nydia Bonetti e Lou Vilela.
Agora me atravesso...
Ponte para o horizonte,
Ponte para estar longe,
Ponte pra mais além.

Agora me desperto
Para o verso - que medo!
Para o tempo - que tédio!
Para a vida - que dor!

Há silêncios revoltos
Em tudo: eis a minh'alma
A temer o papel
Em branco, mundos, lápis.


"vida-verso"
Para Nydia Bonetti
resta o verso.
a vida é
nada, é tudo.
a vida é
todo o resto.
não me iludo.

nesta, o ver-
so. a vida é
tudo, é nada.
a vida é
o reverso.
que cilada!

*Adriano Nunes, que matém o blog "quefaçooquenãofaço", é um super poeta, que em sua busca "pelo momento raro" nos tem brindado com poemas de alto nível, onde se percebe uma dor latente e uma angústia diante do tempo "que voa e fere feito bala perdida". Ter dois poemas a mim dedicados, um juntinho da Lou, poeta que admiro, foi uma alegria. Obrigada.

22 de mai. de 2010

(XII)

palavras
procuro por elas

só no deserto as encontro

temo
emudecer para sempre

tanto mar

(mergulho)

21 de mai. de 2010

(XI)

antiga, a dor
colou em mim

dói mais
quando tento arrancá-la

então a carrego

(ficamos assim)

19 de mai. de 2010

(X)

vejo a montanha
e a mata

intocável

refúgio
de sagüis e bugios

entre nuvens e azuis

alheia
à cidade invasiva

difusa, resiste

uma águia
corta o silêncio

e dissipa a miragem

17 de mai. de 2010

(IX)

árvores do quintal
da infância

revi vi

sumo nos olhos

saudade
é nódoa que não sai

(bananeiras mexeriqueiras)

14 de mai. de 2010

(VIII)

pirilampo é flor
que o vento soprou

estrela é bicho voador

posso ver bem claro
com meus olhos de inseto

fluorescências germinais

em seus azuis - o vento
espera

tempo de florescer

10 de mai. de 2010

(VII)

preto no branco
os dias se repetem

no calendário

em frente
aos nossos olhos

vermelhos

domingos se destacam
festas

profanas e sacras

herege o tempo
ri de tudo

e passa

9 de mai. de 2010

...

“O scrittore, con quali lettere scriverai tu con tal perfezione la intera figurazione qual fa qui il disegno(...) quanto più minutamente descriverai, tanto più confonderai la mente del lettore e più lo rimoverai dalla cognizione della cosa descritta. Dunque è necessario figurare e descrivere.”

Leonardo da Vinci



Leonardo_da_Vinci_Design_for_St_Anne

5 de mai. de 2010

(VI)

escarpas

onde crescem
begônias

intocáveis
plenas

inacessíveis

meus olhos
vagos

as recriam

no vaso
sobre a mesa

cultivo

begônias
inventadas

(V)

quando você chegou
era tão tarde

sono pesado - eu já dormia

você devia
ter batido mais forte

3 de mai. de 2010

(IV)


tempo de ser
bambu

(rizoma)

em subterrâneos
adormecido

em breve
(haverá tempo?)

de ser

mensageiro
do vento

— hiroshima
diz que sim

(IV)

1 de mai. de 2010

(III)

perdoa pai
te julguei tão fraco

hoje carrego meus fracassos
tão maiores que os teus

(III)

29 de abr. de 2010

(II)

não ouso pedir
o maná dos céus

peço os frutos da terra

na lida
dos humanos quereres

cansaço e suor

grão
que se possa colher

pão
ainda que ázimo

mão
que se possa tocar

saciadas fomes

(II)

26 de abr. de 2010

(I)


Street Crossing, Paris 1964 - Jon Goell


pai
o que sentia

ao percorrer caminhos
que hoje são meus

insondáveis
todos os caminhos

(I)

25 de abr. de 2010

ainda o deserto

o poeta não tem mesmo nenhum pudor
no corpo do poema
se desnuda e se expõe em praça pública

perdi a voz
nenhum som
gemido canto
sopro
p a l a v r a
estou muda
talvez
não tenha mesmo
nada
mais a dizer

22 de abr. de 2010

na estrada

depois de ler Walkyria

busco um caminho novo
de ser estar de poemar
será que encontro?

20 de abr. de 2010

agônica

do que não somos
dizem
brotam flores
única e trágica
espécie
a florescer
hoje
no meu jardim

16 de abr. de 2010

massacre

a luta pelo pão
massacrou a poesia

é tudo tão raso
tudo tão pouco
tudo tão

des_humano

verso nenhum resiste
a uni_verso tão

limitado

12 de abr. de 2010

dos poetas, loucuras e vaidades


bukowski_crazy_inspiring_life

de perto ninguém é normal
às vezes segue em linha reta
a vida, que é meu bem, meu mal
caetano veloso
I-

no fino fio
que a lucidez
separa da loucura
o poeta se equilibra

ventos fortes soprando

II -

canto eu
cantamos nós
cantam vocês

sonoro verso
que nos faz poetas

III -

era um poema e tanto
era o melhor de todos

foi para o ralo

antes mesmo
de chegar ao rio

evaporou

que pena
não saberá dos abismos

nem do sal

IV -

solidão já não dói
vira poesia

ser poeta é ir além
do que se pode suportar

V -

chamam-me poeta

sou apenas uma tola
(uma louca de pedra)

que se desmancha em versos

VI -

todos

os poetas padecem
do mesmo mal (pecado?)

da vaidade dos poetas
livrai-nos Senhor

9 de abr. de 2010

...

tarde sem sol
passarinho no ninho

por não ter asas
flor de esperar - espera

8 de abr. de 2010

incrédula

era preciso acreditar
que outonos viriam
e arrancariam folhas e ventos soprariam
mas não - insisti na utopia
do eterno verão
das flores que não morrem - do céu
sempre azul

tenho as mãos e as unhas
sujas de terra agora
fui procurar sob as folhas secas
meus olhos antigos
não encontrei
quis mergulhar no campo
em busca de estrelas que já não havia

a pedra me salvou a pedra
me impediu de seguir – a pedra
filha do fogo
onde queimam poetas e loucos
filha das horas
que sedimentam folhas e poeiras
estratos de tempo
sopro

a carne
se curvou à pedra
o sangue
fecundou a terra
era inverno já - e eu nem sabia
que outras flores viriam
vieram - ainda assim
não acreditei

5 de abr. de 2010

o infinito jaz z

paralelas linhas que se tocam
no infinito
perpendiculares que se cruzam ali
na esquina
(neon)
escolhi transitar
por aquelas que nunca se encontram
o infinito jaz z no caminho
(no mesmo tom)

3 de abr. de 2010

dívidas


Foto: Frank Horvat

amor
com amor se paga


tem alguém me devendo

tenho também
algumas contas penduradas

em algum velho balcão
por ai

31 de mar. de 2010

visagem

olhando a cidade
do alto
pude ver seus contornos
montanhas
em tons de azul e verde
amenizam arestas
(e a rispidez)
das disparidades
humanas e sociais
daqui
é tudo terra e gente

27 de mar. de 2010

narciso às avessas


narciso_aurora_mim

águas paradas são águas tristes
pois contariam a essência das águas

fluir e encontrar o mar

águas paradas já não cantam
pois águas tristes não sabem cantar

águas paradas não refletem nada
pois não desejam ser tocadas pelo sol

(são águas mortas e vivem bem assim)

eu , Narciso às avessas
vejo estas águas refletidas em mim

22 de mar. de 2010

pássaro (desde)

imensa, a árvore
me fez voltar à infância
flores
o que meus olhos viam
(eu desejava os frutos)
as mãos se aventuravam
na vertical vertigem
dos galhos altos
(eu desejava o vento)

18 de mar. de 2010

em pétalas

bem agora
que eu tinha tanto a dizer
me falta a voz
(tenho pétalas
entaladas na garganta)
macias
seriam as palavras
vermelhas
(seda, perfume)

abre a janela
e olha
teus canteiros
(ou o velho vaso de flores
sobre a mesa da sala)
e tenta
me traduzir

16 de mar. de 2010

um poema de Abel G. Facundo


Van_Gogh_Vase_with_Three_Sunflowers

O GIRASSOL SEM PÉTALAS


Un hombre que cultiva su jardín,
como quería Voltaire.

J. L.Borges

Vou semear jardins em meu quarto,
sei que ambos tememos a morte.

Ele aprendeu a encher minhas camisas com sua sombra,
a cobrir minhas porções com seus lamentos
de bailarino estreito.

Às vezes quando não existe o mundo,
nós dois vamos desnudos a matar a manhã.
Os versos que brotam dele aliviam nosso medo,
e em farrapos eu rompo uma face
quado nas horas bárbaras a luz já não é a luz.

Vou semear jardins em meu quarto,
neste cravo que sangra por sua pele,
hei de pendurar o óleo onde um pintor qualquer
quis traçar girassóis para Vincent.

14 de mar. de 2010

areia

sobra soçobra
excede extrapola (vaza)

arestas, pontas
asperezas tantas (sentires)
lapidar é preciso
polir lustrar finalizar

poesia é o pó
do que foi brunido (soprado)
do que foi sentido
esmerilhado pelo vento forte
da palavra

13 de mar. de 2010

sinais


Ômega Centauri - cdcc.usp.br

são como estrelas
sonhos

morrem

mas permanece
o rastro

(de luz)

outras noites
muito além das nossas
iluminam

* Tenho um poema, flutuando em Vidráguas.

10 de mar. de 2010

há sim

há mares que nunca secam
ha braços intermináveis

há talhos na minha mão

há maços neste papel
há risco num verso. há sim

9 de mar. de 2010

das imperfeições

sempre viveu
tentando ser perfeito

sempre exigiu perfeição

se encontra agora
(enfim)

na mais perfeita solidão
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