16 de ago. de 2010

vazio e sombra


arte - mila thiele - vazio e sombra

se no vazio
habita a paz

hoje sou
seu templo

15 de ago. de 2010

recorrente

não quero mais falar do verso
não quero

mas vou falar do que?

se o verso é tudo que me resta
hoje

é tudo que me basta

é tudo
embora seja nada – ou quase

nada

14 de ago. de 2010

é verso só


flickr plasticpumpkin

fosse flor
o verso

arrancava-lhe as pétalas

pássaro fosse
- as penas

é verso só

arranco-lhe a pele apenas
e deixo sangrar

do que não se contém

olhos de mar
os olhos do poema

nem sempre calmos

quando convulsos
bramem

o verso puro

(tsunami)

13 de ago. de 2010

um "poema de cercania e longitude"

O poeta Assis Freitas - cujas palavras têm o dom de fazer clarear o dia, antecipar as flores e o canto dos pássaros - me dedicou um poema - aqui.

Obrigada, Assis! Que bom saber, que dentre estes teus 1001 poemas - todos belos - um deles foi pra mim. Abraço grande, com a minha admiração incondicional.

12 de ago. de 2010

que vale o verso


michelangelo_david_detail

de que me vale o verso
feito de barro

se não houver quem o sopre

. . . davi me ensina
a santidade da canção . . .

11 de ago. de 2010

que sei do verso

que gosto tem o verso
e que textura?

só sei da cor: vermelha

do coração na boca
da alma na palma da mão

10 de ago. de 2010

uma entrevista e um poema

Caros, o poeta Hilton Valeriano publicou uma conversa nossa sobre poesia aqui, no Poesia Diversa e o poeta Julio Rodrigues Correia me dedicou um poema aqui, no Acroatico. Dois grandes amigos, dois belos poetas, dois blogs que pela qualidade se tornaram para mim leituras diárias essenciais. Obrigada Hilton, obrigada, Julio. Abraços!

9 de ago. de 2010

dezespelhos


Arte: YinXin

imenso o lago e eu
i(n) ma(r)gem plácida

o espelho d’água
desreflete meu rosto

nas águas profundas
há outros dezespelhos

onde talvez eu esteja



Obs: Amigos, inventei de fazer um blog rascunho e me perdi. Vou postar os poemas todos aqui e desativar o rascunho. Talvez alguns poemas se repitam, pois perdi mesmo o controle do que já foi postado. Aproveito para agradecer as leituras e comentários e mais uma vez repito: tê-los aqui é o que vale. Tenho lido vocês sempre, mas ainda sem condições de estar mais presente. Abraços!

8 de ago. de 2010

sereno

de onde me vem esta paz incomum que chega
assim
sem ser anunciada

nesta noite sem luz e fria

de onde, este perfume doce misto de lírio branco
e jasmim

e o som atávico do relógio da sala que antes rugia
hoje me embala
feito cantiga de ninar

tudo mais é silêncio e tudo é pleno

posso tocar a vida agora posso tocar

com as pontas dos meus dedos desenho na vidraça
um coração - sereno

onde mergulho e enfim
adormeço

relembrando hiroshima




por Francine Orr

7 de ago. de 2010

mais um poema de Else Lasker-Schüler

Reconciliação

Há-de uma grande estrela cair no meu colo…
A noite será de vigília,
E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.
Será noite de reconciliação -
Há tanto Deus a derramar-se em nós.
Crianças são os nossos corações,
Anseiam pela paz, doces-cansados.
E nossos lábios desejam beijar-se -
Por que hesitas?
Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.
Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.
Há-de uma grande estrela cair no meu colo.

in Baladas Hebraicas, trad. de João Barrento, Assírio e Alvim

6 de ago. de 2010

ópio


opium - YinXin

trago meu ópio pelos olhos - que nem mais vermelhos ficam
então flutuo no mar branco de entrelaçadas fibras
papyrus papel

onde navios são letras negras que me levam

depois retorno de mãos vazias e olhos vagos

onde flutuam peixes metafísicos metafóricos - que agonizam
nas águas barrentas do infinito cansaço
dos que navegam sem chegar

5 de ago. de 2010

sal da terra luz do mundo


Caros, quero convidá-los hoje a conhecer a revista Sal da Terra Luz do Mundo, de Ana Lucia Vasconcelos, jornalista, atriz, cientista política e uma super escritora, que mantém este "espaço de cobertura de eventos de arte- musica, erudita, jazz, teatro, dança, cinema, artes plásticas e literatura que acontecem na cidade; além entrevistas e perfis com escritores, diretores de teatro, cineastas, artistas plásticos, dramaturgos, músicos, dançarinos, e ainda reflexão sobre temas de cultura, todas as áreas do conhecimento humano, saúde integral, e espiritualidade". Um espaço realmente interessantíssimo, que vale a pena conhecer. Ana reproduziu lá minha entrevista a Marcelo Novaes (Bloco de Notas) e publicou alguns de meus poemas inéditos.

Detalhe que preciso compartilhar com vocês: Ana Lucia foi amiga íntima de Hilda Hilst e está concluindo um livro fantástico sobre a vida e obra desta que é, sem dúvida, uma das maiores escritoras brasileiras. Uma "não tão mínima" amostra está publicada neste ensaio no Cronópios e também no site de Ana. “um mergulho nos fascinantes mundos de Hilda”. Estão todos convidadíssimos.


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
(um dos versos de Hilda que mais gosto)

obrigada, Ana! beijo.

3 de ago. de 2010

. . .

inventei teus olhos
e mergulhei

agora me afogo

não encontro a saída
não encontro

dos olhos que inventei

1 de ago. de 2010

flor de marrakech

há um jardim qualquer
em qualquer canto

onde uma flor qualquer
brotou

de qualquer cor

de qualquer forma é flor
e eu a oferto

a quem souber cuidar
ou qualquer coisa

assim

(qualquer coisa)

30 de jul. de 2010

outro poema de Else Lasker-Schüler*



Despedida

Mas tu nunca vinhas com a noite –
E eu sentada com casaco de estrelas.

… Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.

Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta.

Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.

Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.

Mas tu nunca vinhas com a noite
… E eu de pé com sapatos dourados.

*a alma e o caos

28 de jul. de 2010

das águas

sabe
não sei
achei que sabia
sei não
acho
que saber
é quase nada
é pouco
é poço
sem fundo
prefiro
as águas claras

(ou obscurecidas)
do sentir

23 de jul. de 2010

partilha

na noite seca
brilho de estrela única
no céu de tantas
(possíveis e prováveis)
umedecem meus olhos
- partilhada dor

22 de jul. de 2010

um poema de Else Lasker-Schüler



Cansaço

Todos os brancos sonos
Da minha calma
Caíram na fímbia escura do firmamento.

Ora a dúvida cobre minha alma
E meus sonhos são produtos do tormento.

Ah, queria dormir de anseios livre
Saber de um rio fundo, como o que em mim vive.

E fluir com suas águas...

21 de jul. de 2010

canto

o verbo se desprende
do véu

da boca

bando
de pássaros brancos

em vôos rasantes

pequeno céu muitas asas
palavras são

penas

(sopro)

19 de jul. de 2010

céu de sonhar

a tarde seca
um céu de cerejeiras
primeira estrela

até as pedras sonham
com as asas que não têm

18 de jul. de 2010

avessos e espelhos

dentro de mim mora outra - meu avesso

quando olho no espelho
é ele (meu avesso) que vejo

nos meus sonhos
é ela (a outra) que atua como num filme

na memória mais antiga é ela que sorri

é meu reflexo
que caminha pelas ruas – olhos em chamas

tanto sol

enquanto (quem?) cativa se debate
no buraco do espelho onde (obtusa mente)

vive no escuro

16 de jul. de 2010

resignação

palavra indesejada
jamais proferida
banida
do vocabulário
depois esquecida
agora enfim
expressa
pronunciada
de forma lenta
soletrada
e o gosto dela
amarga
o céu da boca
amarra a língua
faz salivar
e o cheiro
é de bolor de gaveta
de mofo de porão
de casa abandonada
de túmulo vazio
aberto
à espera do corpo
resignado

14 de jul. de 2010

lugar

quero um lugar
só meu
este lugar é aqui
este lugar nenhum
lugar algum
é onde
é onde não estou
neste lugar eu sou

(ninguém)

esquinas

faço versos porque já morri
tanto e tantas vezes
mas não encontro o caminho de casa
onde era mesmo que eu morava?
no acaso me lanço
no espaço em branco longe dos apegos
flutuo
há uma curva no rio – havia mesmo um rio?
tinha botas de sol – ainda tenho pés?
há um lugar onde as almas se encontram
os corpos são frascos
de vidro - não eram potes
de barro?
há janelas que nunca se abriram
cortinas transparências
o vento - havia mesmo o vento?
podia ouvir seu sopro
ao menos uma carta eu poderia ter escrito
na próxima esquina quem sabe
no próximo verso

12 de jul. de 2010

um poema de Velimir Khlébnikov

Basta-me um mínimo:
lasca de pão,
gota de leite
e, céu acima,
nuvens alvíssimas.

mais de Velimir Khlébnikov

11 de jul. de 2010

meio dia inteiro

1-

meio dia inteiro
princípio da tarde
e o sol desmaia

não sei de tristeza
ou de paixão

2-

fim da tarde
desfalece de vez o sol
ante meus olhos plenos

o dourado no céu revela:
era tristeza não

9 de jul. de 2010

mínimazul e outros tons

1-

um céu inteiro
refletido nas asas
- mínimazul

(brabuletinha)


2-

é tanto mato
que meus olhos escuros
enverdeceram

meu coração é ninho
asas que te quero

(céu)


3-

privilégio acordar
entre tons
de azul e verde
face vermelha do sol
que sonhei

7 de jul. de 2010

última flor

terra exaurida
cansada

entregue...

oferta
sua última flor

5 de jul. de 2010

ilha


(sou) ilha
que se afasta do que foi
l--e--n--t--a--m--e--n--t--e

sonhando
com seu (meu) pedaço
c--o--n--t--i--n--e--n--t--e


4 de jul. de 2010

moldura

é noite. teclado negro letras brancas maria à minha frente me olha. menina palestina pele negra vestido vermelho numa das mãos a pomba da paz. romãs damascos mel e flores do deserto distante o som da bomba que desfaz. letras são rústicas molduras - p a i x p e a c e p a z p a c o p a c e p a i x s h a l o m s a l l a a m s h a n t y s e l a m v r e d e p a k e h e t e p r a h u a s h t e i r i n i m i r h e i w a s u l h p h y o n g h y w a e m i r e m b e p a c i s u l a p o k o j p a s c h m i e r s u k u t h u l a a s h t i p a z 和 平 평 화 ε ι ρ ή ν η ש ל ו ם м и р س ل ا م ص ل ح 平 和 ค ว า ม ส ง บ - brancas as pombas parede e papel a tela à minha frente brancas areias e bandeiras a fita no cabelo a nuvem no céu. a paz miragem nos seus olhos a paz colada em suas mãos a paz moldura que esfarela diante dos seus - olhos incrédulos. a ave se debate a ave prestes a fugir a ave. árido e frio o deserto se impõe. é noite.

tempos difíceis

que tempo é esse, em que a solidão é quase benção
e outro o inimigo a ser temido...?!

1 de jul. de 2010

olhos de doer

um cão estranho me olha e segue
com seus olhos de cão

estranho

olhos de ser feliz os olhos do cão

não vai saber nunca
dos humanos olhos fundos de doer

tanto
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