20 de set. de 2010

rompantes

[... e de repente
a paz - das águas do lago
mergulha em mim

[inteira]

19 de set. de 2010

setembros

o tempo
corrói a vida pelas bordas
insaciável
já devorou
mais da metade do que sou
[...ou do que fui?
e nos setembros
ele arranca pedaços
inteiros

quando setembro vier será outono lá mas a primavera romperá aqui
as flores do renascer
a alegria tomará o espaço onde a vida nos ensinará a amar a beleza
que nos transcenderá
não
o insaciável tempo não nos sacia a sede da beleza que nos trará
setembro a cada ano que está por vir
Nydia
o teu setembro é poesia...

Obrigada, Flávio. Tua poesia me faz feliz - Uma beleza... Beijos!

Flavio Miragaia Perri

18 de set. de 2010

nanquin


sumi-ê-Rita Böhm

procuro no escuro – a palavra nova
tateio espaços
risco rasgo
não posso vê-las
tento tintas outras tons
texturas
na minha pele escrita
caneta tinteiro
mata borrão borracha
papel de arroz tão fino
requer cuidado.

O poeta Fouad Talal me dedicou um poema lindo no seu blog Verso de Cor, um espaço incrivelmente criativo, de um poeta que além de ser "todo coração" é puro talento. Todos convidadíssimos para o próximo vôo ao tempus fugit: utere! - que o tempo urge... e é preciso aproveitar o dia de sol. Obrigada Fouad, beijo!

17 de set. de 2010

...

que dia estranho
tudo parece pouco
distante e raso

improvável segundo sol

olhando a cidade
vislumbrando as trevas
Jane Jacobs


se acaso
a boreal aurora dos tempos
não chegar
tão improvável o segundo sol

[... ocaso dos tempos]

16 de set. de 2010

poliverso

1.
vai longe o tempo
dos poemas longos
versos conclusivos
começo
meio
fim

2.
busco por epigramas
o peso em gramas
de jardim
minimetrias assim
metrias  sim
não metrias

3.
o verso r a s g a d o
mutilad
         o
                      torto
completamente
a
  b
     s
         o
      r
  t
o

4.
o verso demente
o que diz sem dizer
nada
e o que não diz
tudo e nunca
é o lugar
deste meu poliverso
que um dia foi uni
agora já não
(até) mais ver

15 de set. de 2010

véspera

espero
ainda
ver
da tua
mão
brotar
a flor

14 de set. de 2010

primeiro azul

mantenho ainda
pendurada na parede
a lamparina azul

onde acendi (menina)
minha primeira fantasia

mimo



Recebi este prêmio do poeta Assis de Mello, o que me deixou muito feliz, admiradora que sou da sua exuberante e refinada poesia. Fazendo uso de uma linguagem absolutamente própria - e rara, o poeta se destaca e se impõe como uma das vozes mais brilhantes no cenário poético atual. Obrigada Chico!

Tenho sempre muita dificuldade em escolher meus indicados, então ofereço este prêmio (que costumo chamar de "mimo") a todos os poetas blogueiros que caminham juntos por este território admirável da poesia. Beijos!

13 de set. de 2010

congadas violas e estradas

som de viola
canto de pássaros
e o vento
[...o vento
espadas de madeira
que se tocam
no ar
o ritmo nos pés
e a cantoria
que ecoa
e faz sorrir
o São Benedito
na memória sonora
inteira
minha infância
diante
dos meus olhos
estrada de terra
[... batida e longa
se afunila
e muito além
das incontáveis
porteiras
quase
no infinito
tudo
desaparece

12 de set. de 2010

cenário


Drue Kataoka

pedaço de céu
entre nuvens cinzas

derrama

c-h-u-v-a---d-e---l-u-z

holofote de sol

que branco
brinca de lua cheia

obsidiana

estilhaços de noite
penetram nos meus olhos
já tão escuros

houvesse ao menos lua
[...lascas de prata

10 de set. de 2010

bando


mallard_moon

quem amordaça
o pássaro que canta
e aprisiona
o vôo?
o rubro tom
e o brilho dos rubis
quem pode ofuscar?
nossos vestígios
passos, cantos
pensamentos
haverá quem apague?
dispersará o bando
que de fênix a alma
do fogo herdou
a chama e o ímpeto
do eterno renascer?

9 de set. de 2010

urbanas heras

caligráfica ilusão - grafite
urbanas heras

território de aventura

onde o muro é apenas suporte
não fronteira do absurdo

8 de set. de 2010

palavra escrita

lembra
quando tudo
era começo
e o fim
palavra não dita
hoje
começo é lugar
distante
e o fim
palavra escrita
(tatuagem
catártica)
na pele
do instante

7 de set. de 2010

criatura

mas de mil vezes
te criei
não te fizeste

insistes em não ser
já nem te sopro

6 de set. de 2010

Coleção Orpheu


A coleção Orpheu da editora Multifoco é um selo voltado para a poesia brasileira, que se propõe através de um processo de pesquisa cuidadosa, buscar o poeta e sua poesia. Exatamente como Orpheu buscou Eurídice, sair à procura de poetas, inéditos ou não, que mereçam vir à luz, através do livro. E com esta multiplicidade de vozes, traçar uma linha harmônica audível, do panorama atual da nossa poesia. Aqui, os Lançamentos. Imperdíveis.

5 de set. de 2010

olhos de esperar ventania

nos meus olhos miúdos
onde um dia brotaram flores
in_contidas

onde pousaram pássaros
i_nesperados

urge outra vez ventania
a soprar gravetos

que restituem ninhos
ao primitivo estado de graça

4 de set. de 2010

do inevitável

na órbita
dos nossos sonhos
havia
um planeta vermelho

colisão inevitável

terra vazia
[...estrela cadente

chama azul

ausências são fogueiras
onde se atiram trapos
que se incendeiam

[... chama
azul
autocombustão

turbulenta e completa
solidão...]

2 de set. de 2010

... de primavera quase

moram peixes azuis
no fundo dos meus olhos
quando miram o céu

[... de primavera quase

1 de set. de 2010

movimento e não



garças brancas
sobre o lago

impassível

- movimento
e não

tudo

na natureza
se equilibra

31 de ago. de 2010

depois de ler rodrigo*

cães
poeira

céu de sol
se pôr

in termináveis
dias

hoje
[... dor de dente

*rodrigo de souza leão

30 de ago. de 2010

dos sentires do tempo - III

fim

do tempo
das sonoras mentiras

hora
das verdades silenciosas

29 de ago. de 2010

textura de vento e flor

ando em busca
dos véus
que nos desnudam
e dos vestidos
que nos despojam
ando em busca
dos panos etéreos
que nos revelam
textura de vento
e flor

28 de ago. de 2010

sibilos e tramas nos olhos da noite


sibilos na noite
sufocam as pedras

e o relógio da sala
padece
do seu próprio tom

pássaro noturno
matematicamente
pia]

esquivo-me de crer
no que meus olhos
lacrimam ver

[crias da chuva
e do vento

tão claramente ouço
o que os esquilos
tramam

nas horas subterrâneas

27 de ago. de 2010

geografias

no território imperfeito
em que habitamos

a pele é fronteira

afetos são águas que fluem
em fios

ou caudalosos rios...]

ausências
[...profundezas abissais

memórias são trilhas

que a mata densa e invasiva
da vida cotidiana

encobre lentamente

26 de ago. de 2010

poema*


Drummond

poema

mais do que rito
é ato
de coragem

e profissão de fé



*Depois de ouvir depoimento de Augusto de Campos a Edson Cruz, aqui, na TV Cronópios.

25 de ago. de 2010

dois poemas de Jorge Elias Neto*

A poesia começa assim

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.
E, quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
---------jogar-se nos trilhos
-----------------para salvar a flor.


Pastora

Filha, não te embriagues com teu nome.

Passa tardes tosquiando nuvens;
sê cortesã do Sol.
Destila histórias.
Besunta, cada mão, com momentos
e molda tua vida com simplicidade.

*do livro Rascunhos do Absurdo - em que "o poeta sente o absurdo do tempo humano", tem consciência plena dos "gestos costumeiros", ainda assim "se lança ao chão para salvar a flor". Em Rascunhos do Absurdo, a poesia parece vir num crescendo, da suavidade do Livro de Notas até explodir em Gaza e depois, a redenção, na belíssima homengem a Marvilla - puro encantamento. Mais do poeta, aqui, no estalo da palavra.

24 de ago. de 2010

overdose de lua


sumi-e

1-

vê-se daqui a lua
olhos da cor de amar
- ela é mulher

2-

surgiu vermelha
agora prateada
a lua cheia

múltiplas faces
- caleidoscópica

3-

lúcidos / loucos
- lobos lunáticos
na mesma rua

uivamos todos
pra mesma lua

23 de ago. de 2010

quereres

inverno ainda
cheia noite seca lua
queria chuva

primavera dia
e o sol depois

22 de ago. de 2010

callas




quando o silêncio
vai além
do que se pode suportar
ouço maria callas
(puro êxtase)
que dissimula
a voz aguda do silêncio

21 de ago. de 2010

das inconclusões

de onde o quebranto que transforma
o sentir em palavras

e a alquimia antiga que transmuta
a palavra em outro sentir

olhos ou coração
decodificam o verso e o traduzem

pedra filosofal é o verbo
ao mesmo tempo criador e criatura

a fonte a sede a água e a boca seca
mais do que susto o poema é loucura

nos meus olhos vermelhos reflexos
ardem fogueiras

(e a grande obra ainda por se fazer)

18 de ago. de 2010

vida que não


arte de leila pugnaloni

sopro
que se insinua
disfarce
traço intocável
insípido
ondas
que não vão dar
no mar
mira
que não se almeja
alvo
que não se atira
vida
que não fulgor

17 de ago. de 2010

teatro da vida

Recebi uma homenagem linda no Teatro da Vida, de Lara Amaral, poeta brilhante, que com sua poesia que oscila entre o azul e o laranja, em suas infinitas nuances, que vão do azul celeste ao marinho abissal, do laranja amargo à lima doce da pérsia, nos encanta a todos. Obrigada, Lara. E como eu sempre digo: olhares atentos como estes é que fazem valer a pena seguir em frente neste "território de aventura" da poesia. Beijo grande!
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