21 de out. de 2011

e por ser raso
exagera
que todo exagerado
no fundo
é raso
ou fundo
depende do olhar
sempre tão relativo
tão raso
às vezes tão
pro fundo

17 de out. de 2011

paralelas linhas
que de tão retas
e longas - se afunilam
seja de fuga ou de encontro
:um ponto

12 de out. de 2011

a árvore
que me viu menina
a mesma
que me viu mulher
a mesma
que estará por aqui
quando eu já
não estiver

7 de out. de 2011

vermelhos meus olhos
de poeira ou pólen
pêlo de cão
talvez
cansaço
do vôo constante
em linha
reta
rumo ao vermelho sol
que nunca
se põe

3 de out. de 2011

as garças rosas
outra vez me chamam
com a voz rouca
das garças
rosas
meus pés descalços
seguem
na trilha
das garças loucas
que embora tendo asas
insistem em
caminhar

2 de out. de 2011

o fim das coisas parece mesmo
ser
como
um rio
que sempre termina onde
começa
outro rio
ou mar - tudo parece recomeçar

30 de set. de 2011

volta a mergulhar no vazio
ainda mais fundo
suporta
cada vez mais
tempo
submerso
um dia vira peixe
e não
retorna
à superfície
na noite abissal
seu habitat natural, talvez
se encontre

29 de set. de 2011

torto, pende para a rua
(num grau absurdo)
o pé de goiaba
que ninguém plantou
parece seguir
desafiando a lógica
de existir

28 de set. de 2011

triste feito um pato
quero não caminhar no pasto
quero sim
mergulhar no lago
o prado
não é pra mim
tenho asas mas amo as águas
mergulho

24 de set. de 2011

a voz do homem grita — pedra
a rocha ecoa — sal

no coral dos aflitos — estratos
minerais

silícios cristalinos
octaedros azuis

lâmina

e

corte

areias incontidas
por incontáveis mãos

espuma

e

vento forte

23 de set. de 2011

acordou tarde demais
quase noite
e era este o último sol

20 de set. de 2011

canto:-
a palavra que se desprende
do céu da boca

19 de set. de 2011

e finalmente Minas
estava lá

nossos velhos todos
nomes de rua

nos olhavam passar

15 de set. de 2011

Um Poema Visual de Constança Lucas


























Postal com um Poema Visual da Constança Lucas. Acabei de receber. Lindíssimo. Grata Constança. Teu trabalho é mesmo fascinante. E esse frasco de "coisas" faz pensar... Abraços!

14 de set. de 2011

pássaros em fuga
rumo ao pôr do sol:- os dias
voam
no deserto hodierno
linguagem é esfinge
autofágica
que a si mesma
se decifra
e se devora

11 de set. de 2011

o planeta apodrece
passou do verde à decrepitude
sem conhecer o gosto doce
da alegria madura
talvez sejam apenas
meus olhos
secos
deturpada visão
no deserto cotidiano
o que impeça o vislumbre
da imensa
e generosa árvore
da vida possível
ouço pássaros, não posso vê-los
serão necrófagos ou sabiás
laranjeira?
sinto cheiro de mel

9 de set. de 2011

o mundo atônito - fogo no céu
no arranha-céu
arranha céu
e terra
não mais o mesmo
céu
a mesma terra
os mesmos homens - não mais

*

o medo
é a bomba que corrói
sufoca – paralisa – cala
implode

o ódio
é a bomba que destrói
devasta - dilacera – grita
explode

*

o ódio cega - o medo seca
o ódio inflama - o medo murcha
o ódio queima - o medo é cinza

*

o ódio
é mais forte do que o medo

porque mata e depois
mata de medo

*

na terra desolada, passeiam juntos
até que morram

pois que um dia - medo e ódio
terão fim
lonjuras distâncias longitudes:- espaço
entre dois nadas ... se afasta
já nem se lembra do que um dia:- cais
o mar
o sal
o mar
o sol
o mar
e nenhuma vontade de retornar
adormecidas mãos que se desprendem
da tábua em que flutua

7 de set. de 2011

rebelados bichos de dentro de mim
me arranham
nenhum deles sou eu
hospedeiro
animal estranho
engolidor de luas
auroras
e campos de flores
predador de sóis poentes
seres que voam
— onde? os outros da minha espécie

5 de set. de 2011

onde mora a palavra não dita
e não escrita
(nenhuma luz)
lugar
de onde não se retorna
super massiva estrela
que agoniza
não silenciar
pois que canto jamais

31 de ago. de 2011

ser como um cão
adormecer
na rua
no asfalto quente
sob um céu
infinitamente
azul
cúpula perfeita
onde meu Deus
habita
o meu colar de contas secas
é tudo que sei

dos mergulhos que não dei

28 de ago. de 2011

lampiões nas varandas
denunciam
que por aqui
o tempo já passou
distantes
luminosos nas esquinas
anunciam
um tempo eterno
de mentira

24 de ago. de 2011

o mundo me estranha
:- normal
também me estranharia
se não me conhecesse
há tanto tempo
:- e tão bem
se bem
que ultimamente
ando me estranhando
:- mais que ninguém

19 de ago. de 2011

a calma do lago
a calma
da flor na brisa
a calma do olhar
a vida
sem pressa

18 de ago. de 2011

carece de alma
meu pobre verso
de corpo
meu verso carece
de tudo
que em mim
é falta
ou excede
carece de nadas

na trilha dos moinhos de vento

fecho as janelas do dia
tantas janelas
que as cortinas dos meus olhos gastos
perderam as contas
montanha
e pôr-do-sol
tatuados nas retinas
(que sóis nascentes vi tão poucos)
e a noite faz ruir janelas
cortinas
montanha e pôr-do-sol
meus olhos
a noite faz ruir o nada que restou
dos dias

16 de ago. de 2011

descompostas palavras
tipologia estranha
        comuns
                lugares
componentes singulares
paradoxos

híbridas como a arte
arame e papelão
        laminadas telas
                estuques
variedades cromáticas
transparências

no espaço fragmentado
da minha poesia
        flutuam
                objetos
evidências
da minha desconstrução

12 de ago. de 2011

ao deixar sua terra sabia
que era pra não voltar
todo exílio é afronta
e corte
que jamais cicatriza
pele que sangra herança
que trago nos olhos
ele voltou
quis morrer sozinho
numa terra
que já não era sua
(já não tinha mais terra)
e ficou por lá
virou pó sob pedra
a mesma
que o manteve e o matou:– flor
nenhuma
alguma prece

10 de ago. de 2011

tudo é cansaço
sequer o sol aquece
a vida hai cai

9 de ago. de 2011

exercícios de abandono

hoje o desejo de silêncio é maior
do que qualquer palavra
e impede
toda e qualquer tentativa
de revolução ou resistência
se entrega
em resignada apatia
à tortura silenciosa
dos que se perdem no caminho
sem chance
de retorno ou recomeço
nenhuma força
para o próximo passo
abre-te chão me traga
faz de mim o nada - que sempre
fui
tenta gritar mas a voz
lhe falta
não há saída - a vida lhe nega
a vida

4 de ago. de 2011

vaso verso

ratos rondam a última flor
do lago
(pelas bordas)
enquanto peixes
a devoram pelas raízes
com meus olhos muranos
resgato e replanto
a flor
nesse vaso verso tão
pequeno

2 de ago. de 2011

EUTOMIA

Amigos, acaba de sair a nova edição da Revista OnLine de Literatura e Linguística - EUTOMIA, onde alguns dos meus poemas foram publicados. Criada pelo Departamento de Letras da UFPE, visa o debate crítico, a reflexão teórico-crítica e a abertura de canais de articulação com a comunidade literária. Tem como Editora Chefe, Sueli Cavendish.

Online desde 2008, recebe artigos, ensaios, resenhas e traduções, em teoria literária, crítica literária e linguística; e está aberta também à produção ficcional – contos e poemas.

Maiores informações sobre a revista, AQUI. Realmente um belíssimo trabalho, sob o comando de Sueli Cavendish e de toda equipe, formada por professores da UFPE  e também por professores e pesquisadores de outras universidades do Brasil e do exterior. 

o velho tema

salgado mar
haverá tempo ainda?
deliram
naufragados navios
em seus túmulos
de silêncios e corais
sonhando
improváveis resgates
velas e ventos
cais
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