24 de nov. de 2011

estranha tarde
sem rumo sem meta
sinal ou seta
sequer estrada
e um desejo absurdo
de caminhar

20 de nov. de 2011

do trigo não plantado
fez-se o pão
das misérias

do pão não repartido
fez-se o gueto

do gueto ignorado
fez-se o ódio

do ódio incontido
a violência

da violência bruta
 fez-se o medo

do medo escancarado
fizeram-se
as prisões

tijolo por tijolo
 muros trágicos

18 de nov. de 2011

Meus poemas n'O BULE










Um prazer estar n'O BULE. E em tão boa companhia. Grata Geraldo. Abraço!

Nessa mesma edição, poemas de Claudio Daniel e Paulo Kauim.

16 de nov. de 2011

caminho queimando meus pés no tempo
que se fez pedra

arestas que se encaixam precisas

nenhum vão

daninha
a erva não vai nascer

nem a flor

15 de nov. de 2011

éramos jovens
havia uma maçã – vermelha
era um tempo
em que as maçãs eram todas
vermelhas
pequeno sóis sem
sementes
ardiam
era tempo de sol – vermelho
éramos sóis
maçãs
e o tempo não havia
mas isso já faz tanto - tempo

14 de nov. de 2011

como se o tempo fosse um bicho
uma fera do pântano
agarro-o pelas crinas
ele se vira e me olha
com seus olhos de lava e cinzas
dragão
ressurgido dos escombros
(ancestral
das aves que renascem
para morrer todos os dias
ao por do sol)
autofágica criatura
ruminante de asas
tritura gente e flor e pedra e bicho
que encontra no caminho
bulêmico — regurgita pedaços
acende a pira
onde tudo arde e finalmente
num gran finale trágico
previsível e recorrente — se atira
e então — tudo é noite

11 de nov. de 2011

tudo que quero é caminhar em paz
embora
já não existam ruas
e a cidade
apenas
uma miragem que se dilui
ao cair
das tardes

10 de nov. de 2011

de tudo que a vida oferece
pra saciar as sedes
sorvi
tão
pouco
mas tenho
os pés
fincados no riacho - acho
que virei árvore

8 de nov. de 2011

rumores
ecoam as águas
no pé da montanha
sonhando
vertigens

5 de nov. de 2011

asas
que te quero
céu

4 de nov. de 2011

As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira

O poeta Rubens Jardim, tem publicado em seu site uma série interessantíssima, intitulada "AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA", e foi com grata surpresa e alegria que vi meu nome citado ali, entre essas mulheres poetas que admiro, no espaço deste que considero um grande poeta. Super obrigada, caro Rubens. Foi mesmo uma emoção. Abraços fraternos!

2 de nov. de 2011

a solidão é fera
já não domesticável

: resta contê-la

eu, com meus versos
a cerco

1 de nov. de 2011

milenar  cansaço
sete mil sóis sobre sua cabeça
a r d e m - sente sede
pesam mundos nas costas
m u t a n t e - rumina o capim seco
remoído há séculos
dromedária sina - m o r m a ç o
vento nenhum
d .e. s. e. r. t. o

28 de out. de 2011

o tempo do verso
é nunca
é quando
é mudo
o tempo do verso
é mundo
é terra é tudo
o tempo do verso
é fundo
é raso é rasgo
o tempo do verso
é leve é bruto
é bruma
o tempo do verso
é brisa
é breve
é nada - e paralisa

21 de out. de 2011

e por ser raso
exagera
que todo exagerado
no fundo
é raso
ou fundo
depende do olhar
sempre tão relativo
tão raso
às vezes tão
pro fundo

17 de out. de 2011

paralelas linhas
que de tão retas
e longas - se afunilam
seja de fuga ou de encontro
:um ponto

12 de out. de 2011

a árvore
que me viu menina
a mesma
que me viu mulher
a mesma
que estará por aqui
quando eu já
não estiver

7 de out. de 2011

vermelhos meus olhos
de poeira ou pólen
pêlo de cão
talvez
cansaço
do vôo constante
em linha
reta
rumo ao vermelho sol
que nunca
se põe

3 de out. de 2011

as garças rosas
outra vez me chamam
com a voz rouca
das garças
rosas
meus pés descalços
seguem
na trilha
das garças loucas
que embora tendo asas
insistem em
caminhar

2 de out. de 2011

o fim das coisas parece mesmo
ser
como
um rio
que sempre termina onde
começa
outro rio
ou mar - tudo parece recomeçar

30 de set. de 2011

volta a mergulhar no vazio
ainda mais fundo
suporta
cada vez mais
tempo
submerso
um dia vira peixe
e não
retorna
à superfície
na noite abissal
seu habitat natural, talvez
se encontre

29 de set. de 2011

torto, pende para a rua
(num grau absurdo)
o pé de goiaba
que ninguém plantou
parece seguir
desafiando a lógica
de existir

28 de set. de 2011

triste feito um pato
quero não caminhar no pasto
quero sim
mergulhar no lago
o prado
não é pra mim
tenho asas mas amo as águas
mergulho

24 de set. de 2011

a voz do homem grita — pedra
a rocha ecoa — sal

no coral dos aflitos — estratos
minerais

silícios cristalinos
octaedros azuis

lâmina

e

corte

areias incontidas
por incontáveis mãos

espuma

e

vento forte

23 de set. de 2011

acordou tarde demais
quase noite
e era este o último sol

20 de set. de 2011

canto:-
a palavra que se desprende
do céu da boca

19 de set. de 2011

e finalmente Minas
estava lá

nossos velhos todos
nomes de rua

nos olhavam passar

15 de set. de 2011

Um Poema Visual de Constança Lucas


























Postal com um Poema Visual da Constança Lucas. Acabei de receber. Lindíssimo. Grata Constança. Teu trabalho é mesmo fascinante. E esse frasco de "coisas" faz pensar... Abraços!

14 de set. de 2011

pássaros em fuga
rumo ao pôr do sol:- os dias
voam
no deserto hodierno
linguagem é esfinge
autofágica
que a si mesma
se decifra
e se devora

11 de set. de 2011

o planeta apodrece
passou do verde à decrepitude
sem conhecer o gosto doce
da alegria madura
talvez sejam apenas
meus olhos
secos
deturpada visão
no deserto cotidiano
o que impeça o vislumbre
da imensa
e generosa árvore
da vida possível
ouço pássaros, não posso vê-los
serão necrófagos ou sabiás
laranjeira?
sinto cheiro de mel

9 de set. de 2011

o mundo atônito - fogo no céu
no arranha-céu
arranha céu
e terra
não mais o mesmo
céu
a mesma terra
os mesmos homens - não mais

*

o medo
é a bomba que corrói
sufoca – paralisa – cala
implode

o ódio
é a bomba que destrói
devasta - dilacera – grita
explode

*

o ódio cega - o medo seca
o ódio inflama - o medo murcha
o ódio queima - o medo é cinza

*

o ódio
é mais forte do que o medo

porque mata e depois
mata de medo

*

na terra desolada, passeiam juntos
até que morram

pois que um dia - medo e ódio
terão fim
lonjuras distâncias longitudes:- espaço
entre dois nadas ... se afasta
já nem se lembra do que um dia:- cais
o mar
o sal
o mar
o sol
o mar
e nenhuma vontade de retornar
adormecidas mãos que se desprendem
da tábua em que flutua

7 de set. de 2011

rebelados bichos de dentro de mim
me arranham
nenhum deles sou eu
hospedeiro
animal estranho
engolidor de luas
auroras
e campos de flores
predador de sóis poentes
seres que voam
— onde? os outros da minha espécie

5 de set. de 2011

onde mora a palavra não dita
e não escrita
(nenhuma luz)
lugar
de onde não se retorna
super massiva estrela
que agoniza
não silenciar
pois que canto jamais
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