16 de jan. de 2012

palestina flor

dos escombros da luta

há de brotar - pequena - a flor

e invadirá

os campos

onde correu o sangue

e a lágrima

há de crescer vermelha - a flor

e clarear no sol da liberdade

15 de jan. de 2012

dias de chuva e mais
nada
só Bashô
parece
fazer algum sentido

14 de jan. de 2012

Conceitos acabam por gerar preconceitos e pós-conceitos, que acabam repetidos à exaustão. Poetas e filósofos de plantão: exercitemos o livre pensamento, o livre delírio, a livre razão.
palestino povo sente sede
que será saciada
com a videira
replantada
em ancestrais contornos

a fita no cabelo

teclado negro . letras brancas . Maria à minha frente . me olha . menina palestina . pele negra . vestido vermelho . numa das mãos a pomba . da paz . distante o som da bomba . que desfaz . romãs e flores do deserto . damascos . e dois . cavalos . olham . na mesma direção . letras são molduras . p a i x p e a c e p a z p a c o p a c e p a i x s h a l o m s a l l a a m s h a n t y s e l a m v r e d e p a k e h e t e p r a h u a s h t e i r i n i m i r h e i w a s u l h p h y o n g h y w a e m i r e m b e p a c i s u l a p o k o j p a s c h m i e r s u k u t h u l a a s h t i p a z 和 平 평 화 ε ι ρ ή ν η ש ל ו ם м и р س ل ا م ص ل ح 平 和 ค ว า ม ส ง บ . brancos . os cavalos . a pomba . a nuvem . parede e papel . a tela à minha frente . areias e bandeiras . a fita no cabelo da menina . a paz . miragem nos seus olhos . colada em suas mãos . a paz.

videiras

o javali selvagem invadiu a videira
os animais do descampado
nela pastam
terra de ninguém
pisada
por passantes e bichos
queimados os mourões
roubados
os arames farpados
perdidos os rebentos
seco o rio e o mar - distante

11 de jan. de 2012

existe
certo cansaço
em existir

9 de jan. de 2012

manhã cinzenta
quando brilham os olhos
faz sempre sol

e tudo se repete

e tudo se repete. um avião corta o céu. passa perto da lua. o vento sopra nuvens. cinzentas. que dão um ar fantasmagórico à noite vazia. abro portas. fecho portas. abro gavetas. fecho gavetas. vou ao quintal. e tudo se repete. como num filme. palavras. também as palavras se repetem. os rostos se repetem. o limbo das pedras. os cães na noite. finalmente o silêncio. sempre novo. o silêncio. tem muitas faces. só o silêncio é sempre novo. hoje ele veste máscara. sem expressão. apático. hoje o silêncio não me diz. nada. paralisa. o mormaço é antigo. o copo d’água. dormir é tão velho. um ruído na rua. o relógio da sala. o tempo. uma coruja agora. deve ser velha. como seu canto. palavras que procuram. sentido. rumo. explicação. palavras que terminam. de repente. se sabem inúteis. não insistem. calam.

6 de jan. de 2012

Mística e poesia: Um diálogo em Nydia Bonetti

Ensaio - Autor: Sandrio Candido Pereira

         Já me questionaram inúmeras vezes porque escrevo, a resposta é que escrevo por uma necessidade. Talvez até seja uma necessidade a escrita, tão banal quanto às outras necessidades que temos. Penso que escrever não seja apenas deixar no papel algumas considerações sobre temas que nos cerca, não é apenas uma reflexão lingüística,mas um ato existencial. Confesso que alguns enxergam aqui uma romantização da escrita, que seja, tenho necessidade de romantizar algumas coisas da vida. Só cuido do meu jardim porque a terra seca me parece demasiado feia. Escrever é um ato de busca. É colocar-se no limiar das questões essenciais que nos rodeia; escrever poemas é dialogar com a mística e com a espiritualidade (não esta coisa moderna de abraçar arvores, não comer carne, não fumar e não beber, não dançar em nome da espiritualidade, falo da espiritualidade enquanto pergunta essencial sobre o ser humano).
 
Espiritualidade é a forma de dizer o sagrado, ela surge da mística que é a forma como cada um relaciona-se com o sagrado. Mesmo que a arte tenha tomado a morte de Deus como tema no ultimo século, hoje o tema do sagrado e da transcendência (que está além do Deus cristão) pode ser percebido em inúmeros poetas, seja na blogosfera ou nos poetas publicados em livros. Intencionalmente ou não. Na blogosfera uma das poetas que dialogam com uma espécie de mística poética é Nydia Bonetti. A poeta de São Paulo escreve no blog longitudes e deixa escapar entre os versos (quase sempre pequenos poemas, mas de uma intensidade enorme) uma visão em torno do sagrado. Talvez como uma Cecília Meirelles que cantava o sagrado, mas nunca o nomeava, assim Nydia  o faz. Este é um dos pilares da mística, aproximar-se do mistério sem encerrá-lo em um nome.

Imagens fortes da mística aparecem na poética da Nydia como a imagem do abismo, que interpreto com um lançar-se nas funduras do ser humano, como nos pede santa Tereza D Ávila em castelos da morada no interior. “faço versos a beira do abismo/do abismo que sou/me atiro/ ainda/ que caminhe no raso/ rio.” Enquanto a poeta escreve a beira do abismo, ela mesma torna-se o abismo, surge a contradição de quem caminho no raso do rio. Penso no encontro adiado enquanto leio este poema, no encontro daquele que busca em suas profundezas algo, mas que se depara com o raso, com o rio onde somos obrigados a navegar todos os dias. Afinal não é apenas o poeta que está na terra, mas o ser humano que se faz poeta também. Separa-los me parece difícil ou impossível.
      
Que a mística é um exercício do silêncio, já sabemos, mas que há palavras nela que só quem exercita sabe, isto é da propriedade dos místicos, só eles conhecem as palavras ditas em seus silêncios. Em um poema Nydia diz: “no espaço fragmentado da minha lucidez/cabem verdades/poucas”. Os místicos sempre causaram pavor ao sistema religioso por desconstruir as supostas verdades, místico é um ser que desconstrói a verdade em nome da liberdade de cada um para acolher o mistério, assim foi com grandes místicos cristãos como São João da Cruz, Santo Inácio de Loyola, santa Tereza D’Ávila, mestre Eckhart,  Teilhard de Chirdim entre outros, (falo dos místicos cristãos porque são aqueles que conheço melhor, mas poderia citar os místicos da filosofia como E. Cioram, Simone Weil), porém não se desconstrói a verdade por nada, desconstrói se para perseverar no mistério, “e um espanto do tamanho do mundo”, para alguns a mística e a filosofia surgem deste espanto em relação a nossa busca, claro que são coisas diferentes que não tenciono explicar aqui, espanto que nos leva a fazer a pergunta, a se extasiar diante da profundezas, do abismo que somos.O poema continua : “ cabem também silêncios/ muitos/ e algumas palavras”.Como eu mencionei no inicio do parágrafo, o ato do silêncio faz parte da essência da vida de um místico, o silêncio porem é que os faz aproximar-se do mistério, sem falsas verdades, sem imagens prontas. Há na teologia da bíblia cristã uma imagem para este ato. No livro do Êxodo quando Deus (mistério) se aproxima, é exigido de Moises que desamarre as sandálias para pisar no lugar santo e falar com Deus, a teologia da entende este desamarrar as sandálias como o ato místico de despir-se das formulas, das imagens, para aprender do mistério, para chegar ao mistério. Na poesia da Nydia é possível perceber este despir-se das imagens já feitas para mergulhar nas imagens que se dizem por si mesmas. Como uma ascese do que pensamos sobre o mistério para aquilo que o mistério pensa sobre si mesmo, aquilo que ele é em sua profundidade.
        
A poesia de Nydia exige do leitor, certa calma, não nos enganemos com o tamanho do poema, por trás de cada palavra deixada no papel há um fundo do qual emerge a palavra, como a “samaritana do evangelho que vai ao poço buscar água e lá encontra Jesus” Nydia desce as profundezas para encontrar  não apenas uma palavra, mas para deparar-se com o silêncio, com esta aparente falta de sentido no qual estamos imersos. Alguns dizem que não há sentido, sim, eu admito que haja esta possibilidade, mas questiono-me, estão todos preparados para ela? Ao se aproximar do mistério a poeta não deseja construir uma visão, um dogma ou uma imagem do mistério, isto já faz a teologia. A poeta deseja apenas fazer a pergunta sobre a vida. Tendo de volta como resposta na maioria das vezes o eco de sua voz transmudada em poemas que se vestem de silêncios e imagens.
        
A poesia da Nydia é no fundo um mergulho na duvida, e neste mergulho é que surge como barco a palavra, para atravessar este mar que é a vida, porque como “os dias/que parecem intermináveis/são apenas pedaços/ começo/ de outros intermináveis/ dias. Só quem tem a consciência de Nydia pode afirmar: “hoje sou poço/onde mergulham todos/ os sentimentos do mundo”. Como diz santo Agostinho: “inquieto está o meu coração enquanto não repousa em vós”. Talvez não haja na poesia da Nydia uma resposta, mas apenas a duvida, esta inquietação que a faz escrever. Além das considerações lingüísticas sobre a poesia, lembro ao ler Nydia, que em cada ser humano há esta profundeza na qual alguns ousam mergulhar. Afinal Nydia é uma poeta que “tem os pés fincados no riacho”.
parte de mim despedaça
na medida exata
dos meus espantos

segue inteira
minha metade pedra

4 de jan. de 2012

faço versos à beira do abismo
do abismo que sou
me atiro
ainda
que caminhe no raso
rio

2 de jan. de 2012

três mulheres que passam
com olhos
de noite
duas são sombras
do que um dia puderam ser
a outra é sol do que não foi

1 de jan. de 2012

houve um tempo em que os gerânios pendiam
sobre as paredes brancas
tempos outros - agora - as jardineiras podres
num impulso suicida
se atiram
janela abaixo
meu cão
que se cuide

30 de dez. de 2011

a poesia
fez de mim uma ilha
onde pássaros pousam
queimam os pés
e partem

29 de dez. de 2011

termina o ano como começou
nada nas mãos - a não ser
o verso

26 de dez. de 2011

ah, como deseja mergulhar no vazio
que seja céu ou mar
desde que seja azul
e fundo

22 de dez. de 2011

linha e cerol
e lá se vai o que restou
do sol

21 de dez. de 2011

as velhas árvores estão tombando
como num presságio
em sânscrito medita
tatua dragões em mandarim
canta mantras em híndi
mensageiros do vento em bengali
na sua língua sangram
piercings di_versos

20 de dez. de 2011

há um cansaço em tudo - antigo e reticente
como uma roda d’água
(enferrujadas engrenagens)
prestes a se romper
a água - é fio
e o som da serra - monótono e insistente
agora é canto quase
lamúria
quase gemido quase
dor
e segue a roda
que move a lâmina
que serra a pedra - que há tanto tempo é pó

18 de dez. de 2011

os dias
que parecem intermináveis
são apenas pedaços
começo
de outros intermináveis
dias

17 de dez. de 2011

há um lugar
onde mora um nome
(embora o nome
nunca tenha estado
nesse lugar)
e quando eu passo
o nome me chama
e eu sigo
sem saber se respondo
ou canto

16 de dez. de 2011

dos êxtases sublimes
aos horrores supremos
compartilho

hoje sou poço
onde mergulham todos
os sentimentos do mundo

15 de dez. de 2011

A Gata Por um Fio

A GATA POR UM FIO - de Sandra Santos

Imagem retirada do Blog: Poupée Amélie - de Sandra Amélie.
que sabe o peixe a não ser
do vidro
da água
do gato
que pressente
e a ave, que sabe
a não de ser
da asa
do canto
do sol
que precisa
eu, que sei quase
nada
navego e voo
em seus azuis aquários
e céus
que persigo

12 de dez. de 2011

era manhã bem cedo e se julgava pássaro

quando caiu a tarde
se viu pedra

(e sua cota era apenas um dia)

vida de pedra
deveria ter vivido

não viveu
sonhando asas

pássaros — teriam pousado e feito ninho
raios partiram — árvore velha e lassa
que renasçam morangos
quando chover
e o jardim de concreto e asco
seja campo
— e vasto

10 de dez. de 2011

na madrugada
lacrimejam os olhos
da vidraça
sol atrevido
lambe gotas de orvalho –
surge a manhã
o muro branco
tinto de sol se pôr
resplandece
manhã absurda
escancara os dentes
de sol

6 de dez. de 2011

Nas verdades que canta, a força do poema
Que pedra seja
pedra
E vento seja
Vento
Que seja eterno enquanto
Cascalho e ventania

Que se sopre e que se pise — caminho
Alento
Brisa
Dia
De olhos secos e chão
Nenhum

Diga de nós (busca e retrato)
Do que sai pelos olhos — palavra
Feito carne
Solidez de vento
Invisível pedra
Que seja

A mais precária das verdades
Em que ainda acredito

4 de dez. de 2011

a montanha está lá

quase branca

chuva fina é cortina

quase etérea –

a encobrir

mata lúcida

terra

sólido chão

pasto e casa de bichos

carne e sangue

(matérias impuras)

água não lava

esconde

escorre

esquece

que tudo é miragem

e se desfaz

num sopro

de vento

(ou tempo)

3 de dez. de 2011

Já não te busco, Dionísio.
Cultivo
videiras.
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