5 de mar. de 2012

ouço vozes muitas — não as distingo
serão mantras? gregorianos cantos?
ladainhas carpideiras? fantasmas?
repetem palavras repetem
e tudo que preciso
é do som
de um pedregulho
atirado no lago
e que os círculos concêntricos
nos redimam — e a palavra se liberte
algo incerto assim
como um raio – ou pássaro
que corta nossos olhos
num voo rasante
o verso
quando surge
súbito, vertiginoso, alado
inesperado
árvores em chamas
túneis de vento
assim — o verso in certo
quando

4 de mar. de 2012

música longe
rio vento folha violão
pássaro rio
e tudo ecoa
dentro do peito caixa
coração
uma lasca de madeira sob as unhas
eis a dor
do poema que não se liberta
alienígenaestranhapalavra-espi​nho
entre carne e pele
que faz doer a alma
e sangra

2 de mar. de 2012

teu rosto no retrato. os olhos fundos
perdidos
como quem busca vida
distantes
como quem sabe o tempo
verdes em sépia na fotografia
grafada face sagrada grafia
lábios cerrados como quem pressente
o grande silêncio

27 de fev. de 2012

na casa vazia
tantos espelhos
ninguém
às vezes se pergunta
se um dia houve mesmo aquele campo
onde pisou descalça
sobre folhas douradas
e pétalas
tenta rememorar
mas tudo que vê
é uma estrada de pedra longa e tortuosa
em pleno deserto
(e é sempre meio-dia)

24 de fev. de 2012

cansada da viagem
nem percebi os campos
verdes de chuva

21 de fev. de 2012

a cidade cresceu
além dos limites da minha infância
subiu montanhas
engoliu pastos e bois
secou
pequenos lagos
calou
corujas e sapos
apagou vagalumes
derrubou árvores
arrancou
roseiras e pomares
bulêmica
a cidade vomita
saudade
do chão de terra que já não se vê

20 de fev. de 2012

na trilha das doçuras há sempre um rastro
perfumes / cristais

abelhas ou formigas

tudo que beija

flores

tudo que mel ou sol — até — que chova
às vezes pedra

17 de fev. de 2012

da velhice, me impressionam as faces
sempre crescentes
olhos
boca
nariz
orelhas
e mãos (imensas)
como num último apelo dos sentidos

15 de fev. de 2012

a árvore imensa
no alto da montanha
parece um delírio

o céu amarelo
do pôr-do-sol da seca
parece pintura

a minha solidão
e o tamanho da lua
parece loucura

14 de fev. de 2012

você me tiraria pra dançar
pergunto
mas não há música
você diria
nenhuma voz
na memória dos pés
uma canção
antiga
na memória dos sentidos
nós

13 de fev. de 2012

a chuva
fez com o muro antigo
o que a vida fez
comigo

expôs as entranhas

(de barro e pedra)

9 de fev. de 2012

e então conclui
em meio ao calor sufocante
que todo oásis é miragem

até que se encontre
(há quem)
talvez seja mesmo culpa
dos meus pés
pequenos

essa minha constante
falta de equilíbrio
tantas vozes dentro de mim
que às vezes me vejo dançando
um balé polifônico
entre tambores
violinos
cítaras e tamborim
descalça
no chão do mais áspero concreto

8 de fev. de 2012

I-

nomes que tempestades
artaud, rimbaud, celan
três caravelas
escaravelhos?
mares
que (não?) nav-ego
(alter marinos — blues)

II-


uma dama na sombra
não / sou / eu
mas canto
a canção da torre
não / assim / tão alta
(ao longe vejo um rio)

7 de fev. de 2012

silêncio
é tudo que buscou

e invisibilidade

não ser
é tudo que plantou

colheu

flores vermelhas
que sangram

mãos vazias
quer voltar para casa
virar as costas ao mundo
buscar o velho
caminho
despertar do sono
do não
e encontrar o porto
onde
o grande barco ancora
zarpar
vias do coração

6 de fev. de 2012

Cantar a Pele de Lontra - alguns poemas

Alguns dos meus poemas publicados hoje no Cantar a Pele de Lontra, na série NOVOS POETAS BRASILEIROS. Grata Claudio!

4 de fev. de 2012

mundos cabem num livro mas
nenhum livro é

o mundo

nem todos os livros
do mundo são

o mundo

fogueiras -
páginas que ardem sufocam

o mundo

e depois o libertam

2 de fev. de 2012

Nhô Danié

um preto velho na minha infância
cheia de cores

procissão de fantasmas — felizes
passaram hoje

pela janela dos olhos da memória

1 de fev. de 2012

canta-se o que se vive
canto a poesia
(que mais eu cantaria)

31 de jan. de 2012

Musa Rara-Literatura e Adjacências - Alguns poemas

Alguns dos meus poemas foram publicados hoje no Musa Rara, novo portal de literatura "e adjacências", um projeto fantástico do poeta e editor Edson Cruz. Grata Edson!   

29 de jan. de 2012

Sophia,
que sabe o mundo
da luz?
sete pilares te sustentam
óh, casa
onde mora o verbo
lembrança original
saudades
da Mãe.

26 de jan. de 2012

cresce o silencio a cada espanto tantos – espantos e silêncios
que já não cabem
na superfície áspera vermelha dos olhos que lamentam
terem visto o que viram
sem óculos escuros - escudos – contra o sol do dia
outro dia – em que a infâmia
engoliu e a inocência
e o mal sangrou - mais uma vez - a pele parda do povo
que já não sabe a cor – e a face
que possui
deformados espelhos
zumbis atônitos
povo sem pátria – e mãe
língua nenhuma que os resgate
procissão de fantasmas
noite

24 de jan. de 2012

vó Maria e seu rosário de contas
negras
me lembro dela
(olhos de água e cinzas)
lavando roupa
fazendo
sabão
nonna, sempre à beira de algum
fogão
sempre à beira de tudo
de nada
me lembro dela
(olhos de fogo e neblina)
palhas bentas e velas
choram
lenhas verdes quando queimam
voam
roupas brancas nos varais
a benção

23 de jan. de 2012

dizem
que seu silêncio vale ouro
mas é apenas um tolo
que não aprendeu a cantar

20 de jan. de 2012

e desde ontem tudo gira
e mesmo estando aqui
não estou
lugar nenhum
tenho andado
carnadura do nada
folhas de manga sob
o travesseiro - surto
labiríntico
a flor exógena capta

sinais

arqueja

chagada

sagrada ferida – antiga

sangra

vermelha

exangue

a flor exótica rapta

o instante

19 de jan. de 2012

uma canção antiga na língua da tarde
sem alarde
invade
vidraças
dissoluta atravessa cotinas
dissolve véus
vestidos
vestígios do dia - quer tocar na pele
nua
que se insinua
ao ouvir a canção - epifania - estrelas
em meio aos escombros
lua cheia - qualquer ruído será
música
ser:- talvez seja
uma ilha

não ser:- estático
continente

do qual

dificilmente
se retorna

18 de jan. de 2012

ambidestros - os bichos

da cidade

caminham sobre

pedras

as duas mãos são

garras

que abarcam

os restos

(abraços desconhecem)

17 de jan. de 2012

de ter de onde se ir

A poeta e amiga Marceli Andresa Becker, publica hoje no DE TER DE ONDE SE IR, alguns dos meus poemas. Uma honra, Mar! Beijo!
English French German Spain Italian Dutch Russian Japanese Korean Arabic Chinese Simplified