15 de mar. de 2012

agora um pássaro voa sobre
a cidade
é noite
e as penas não devem ser
azuis

vasto o campo de morangos
e rosas
por onde
caminhei num tempo
longe

faminto - busca o pássaro
os caracóis do dia

simbiótica autofagia

bichos que se devoram
noites-dias
a vida sabe ser crua
mas se mantém – e os bichos
saciados a (se) suportam

14 de mar. de 2012

me ronda um poema - não
escrito
inscrito
na mais antiga
das minhas utopias
ele tem rosto e nome que
desconheço – e não
me busca
por que
me persegue se não
me deseja - talvez não
exista
e eu delire
talvez seja apenas
delírio
de outro poeta a me buscar

13 de mar. de 2012

que o sangue escoe
quente viscoso fosco no humano fosso

(indecifráveis delírios)

que fragmente a bomba e fira
olhos e bocas

e que se rasguem bandeiras — inúteis
tecidos fronteiras

tudo parece arder — então por que
poetas só ousam tocar

nos visgos dos corpos do fogo das suas
próprias peles

(devassa inocência)

e dormem — imersos em seus silêncios
a chuva. bate . no vidro. do quarto : anunciada presença
feita de vento e ruído
vindos de um templo suspenso – reluz
nos raios. de um sol. que insiste
em flutuar. do outro. lado — adjacente? oposto. latente
bola vermelha e línguas
de fogo
halo e um arco
íris

10 de mar. de 2012

Ferhad_ve_Shirin

cultivo tulipas em pleno abril — sei que não vingam
mas quem — vai me impedir de sonhar

com a improvável lágrima-flor
de Ferhad?

procurei no deserto a pérola — e quase pude vê-la
nos dromedários olhos úmidos das miragens

das tempestades de areia — vi surgir — o pássaro
que me contou os segredos da terra

da invertida negra flor — onde a pedra — é utopia
e a dor — fecunda
o nome... já não me lembro do nome
da memória
os olhos
de que cor eram mesmo
os olhos
da memória?

tinha boca vermelha e cantava
não ouço mais a canção da memória
eram fortes e ternas
as mãos imensas da memória

me lembro agora – vagamente
tinha um corpo a memória
um rosto

tinha alma

restam os ossos / então / guardados
numa caixa de vidro
pequena

nas noites quentes
estalam

um dia / tudo / será / pó
e serei eu a soprar / pois não há vento
na casa da memória

9 de mar. de 2012

além da janela, um mundo - que não conheço
sei que existe pois
vejo a estrada – rasgo de concreto
áspero infecundo
que sob o sol transpira – como num deserto
há certa beleza em tudo
no acostamento um outro
mundo
homens suados em seus aros metálicos
pedais que movem rodas
e tudo gira
bugios atônitos vindos da mata revolvida
tentam
cruzar a linha morte/vida que desconhecem
e o campo / de rosas / vermelhas / parece / delírio
cavalos de silêncio galopam planícies
depois - tudo é montanha e é tudo que sei
além da curva rude há céu – vi
um pássaro desnorteado vindo de lá
olhos de água – rasos - asas em chamas sem
cantar
aperto folhas secas nas mãos e elas estalam
há em tudo um estado de florescer
até que o outono desfaça
línguas fumaça olhos de amêndoas doces
em tudo que nãocanto um certo
desengano flui
e as seriemas insistem em seus berros
de barro sobre
telhados
tudo podia ser não foi porque não sei
quem sabe?
a lua faz a noite padecer de claridades nuas
quintais cinzentos onde moram cães
sou feliz - colho goiabas gigantes
no muro regado à musgo e trilha
de caracóis
bichos de fogo incandescentes caminham
sobre
meus olhos
o mundo podia se chamar hospício lunar
cemitério de naves espaciais onde não
embarquei
objetos metálicos eternamente em chamas
nesse planeta supostamente azul
aquário de vidro
onde o destino de tudo parece ser – vermelho
arder

7 de mar. de 2012

sorriso de mil dentes que enverdeceriam
sem deixar de sorrir
a face delicada dos fortes
os pés pequenos
prontos a caminhar eternidades
em frente à velha casa
: a única que foi sua :
segue sonhando casas brancas de esquina
varandas e ventos
e o esquecimento - sol a quarar memórias
agora inda mais brancas
que as sonhadas paredes — e os cabelos

6 de mar. de 2012

segue cantando o rio
vozes
que carregam
folhas
[...e a velha mangueira
sonha
navegar
no sopro do vento
voa
[...a loucura
das árvores velhas
quero aprender

5 de mar. de 2012

ah... se soubessem
de que lugar sombrio
brotam os versos
[...ainda fosse terra
— é casa
vazia
ouço vozes muitas — não as distingo
serão mantras? gregorianos cantos?
ladainhas carpideiras? fantasmas?
repetem palavras repetem
e tudo que preciso
é do som
de um pedregulho
atirado no lago
e que os círculos concêntricos
nos redimam — e a palavra se liberte
algo incerto assim
como um raio – ou pássaro
que corta nossos olhos
num voo rasante
o verso
quando surge
súbito, vertiginoso, alado
inesperado
árvores em chamas
túneis de vento
assim — o verso in certo
quando

4 de mar. de 2012

música longe
rio vento folha violão
pássaro rio
e tudo ecoa
dentro do peito caixa
coração
uma lasca de madeira sob as unhas
eis a dor
do poema que não se liberta
alienígenaestranhapalavra-espi​nho
entre carne e pele
que faz doer a alma
e sangra

2 de mar. de 2012

teu rosto no retrato. os olhos fundos
perdidos
como quem busca vida
distantes
como quem sabe o tempo
verdes em sépia na fotografia
grafada face sagrada grafia
lábios cerrados como quem pressente
o grande silêncio

27 de fev. de 2012

na casa vazia
tantos espelhos
ninguém
às vezes se pergunta
se um dia houve mesmo aquele campo
onde pisou descalça
sobre folhas douradas
e pétalas
tenta rememorar
mas tudo que vê
é uma estrada de pedra longa e tortuosa
em pleno deserto
(e é sempre meio-dia)

24 de fev. de 2012

cansada da viagem
nem percebi os campos
verdes de chuva

21 de fev. de 2012

a cidade cresceu
além dos limites da minha infância
subiu montanhas
engoliu pastos e bois
secou
pequenos lagos
calou
corujas e sapos
apagou vagalumes
derrubou árvores
arrancou
roseiras e pomares
bulêmica
a cidade vomita
saudade
do chão de terra que já não se vê

20 de fev. de 2012

na trilha das doçuras há sempre um rastro
perfumes / cristais

abelhas ou formigas

tudo que beija

flores

tudo que mel ou sol — até — que chova
às vezes pedra

17 de fev. de 2012

da velhice, me impressionam as faces
sempre crescentes
olhos
boca
nariz
orelhas
e mãos (imensas)
como num último apelo dos sentidos

15 de fev. de 2012

a árvore imensa
no alto da montanha
parece um delírio

o céu amarelo
do pôr-do-sol da seca
parece pintura

a minha solidão
e o tamanho da lua
parece loucura

14 de fev. de 2012

você me tiraria pra dançar
pergunto
mas não há música
você diria
nenhuma voz
na memória dos pés
uma canção
antiga
na memória dos sentidos
nós

13 de fev. de 2012

a chuva
fez com o muro antigo
o que a vida fez
comigo

expôs as entranhas

(de barro e pedra)

9 de fev. de 2012

e então conclui
em meio ao calor sufocante
que todo oásis é miragem

até que se encontre
(há quem)
talvez seja mesmo culpa
dos meus pés
pequenos

essa minha constante
falta de equilíbrio
tantas vozes dentro de mim
que às vezes me vejo dançando
um balé polifônico
entre tambores
violinos
cítaras e tamborim
descalça
no chão do mais áspero concreto

8 de fev. de 2012

I-

nomes que tempestades
artaud, rimbaud, celan
três caravelas
escaravelhos?
mares
que (não?) nav-ego
(alter marinos — blues)

II-


uma dama na sombra
não / sou / eu
mas canto
a canção da torre
não / assim / tão alta
(ao longe vejo um rio)

7 de fev. de 2012

silêncio
é tudo que buscou

e invisibilidade

não ser
é tudo que plantou

colheu

flores vermelhas
que sangram

mãos vazias
quer voltar para casa
virar as costas ao mundo
buscar o velho
caminho
despertar do sono
do não
e encontrar o porto
onde
o grande barco ancora
zarpar
vias do coração

6 de fev. de 2012

Cantar a Pele de Lontra - alguns poemas

Alguns dos meus poemas publicados hoje no Cantar a Pele de Lontra, na série NOVOS POETAS BRASILEIROS. Grata Claudio!

4 de fev. de 2012

mundos cabem num livro mas
nenhum livro é

o mundo

nem todos os livros
do mundo são

o mundo

fogueiras -
páginas que ardem sufocam

o mundo

e depois o libertam

2 de fev. de 2012

Nhô Danié

um preto velho na minha infância
cheia de cores

procissão de fantasmas — felizes
passaram hoje

pela janela dos olhos da memória

1 de fev. de 2012

canta-se o que se vive
canto a poesia
(que mais eu cantaria)
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