5 de abr. de 2011

c. q. d.

acordo cedo e abro a janela que dá para o quintal. depois de tanta chuva, solzinho sem vergonha aparece. aproveito que Bono saiu pra passear - desço depressa. de repente me vejo ali, de pijama, chinelos, descabelada - ai que saudades da minha antiga juba - vassoura na mão -limpando a sujeirada do meu cão. acho graça. que diriam de mim meus leitores se me vissem assim? não que eu seja muito diferente disso mas... entre o poeta e a pessoa - quanta diferença. um dia acreditei que nossos versos nos revelassem. mas não - nada nos revela. nem nossas imagens desfocadas em nossos mínimos perfis. nem nossas pequenas ou grandes biografias - nada. somos incógnitas. inclusive - e sobretudo - pra nós mesmos. equações impossíveis. soluções vazias. perdida entre inquietações e rabiscos, vejo Bono chegar. o tempo como de costume voa e o sol outra vez se esconde. deixo a limpeza do quintal para amanhã, que é dia de Marlene. entre panos e baldes, sabão e vassouras, ela sim é feliz. é o que é. sem conjecturas. sem expectativas. sem poesia. recomeça a chover. não temos mesmo o controle de nada. c. q. d.
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