O Jogo de xícaras de porcelana
Dante Alighieri
A máquina de escrever Corona
A Câmera Voigtlander Bessa
De todas estas preciosidades, a mais especial para mim com certeza foi uma coleção de 24 livros verdes, verdinhos com detalhes dourados: A Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Aquela mesma para quem Drummond fez o poema BIBLIOTECA VERDE, considerado por muitos, um dos grandes poemas da literatura mundial. Dizem que alguns, dentre os maiores nomes da literatura brasileira e portuguesa tornaram se escritores sob influência desta coleção. Carlos Drumommd de Andrade ganhou uma de seu pai quando tinha entre 10 e 11 anos. Uma obra para ser lida aos poucos, pela vida afora, mas dá vontade de fazer como o menino Carlos, ver as figuras, passar a noite inteira lendo. Carecemos de tudo...
“O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente”
Biblioteca Verde
Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente
Autor: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Pesquisando sobre a coleção que sempre encantou a mim e a outras gerações de minha família, encontrei no Jornal de Poesia, um texto de Wilson Martins, publicado originariamente na Gazeta doPovo de Curitiba, 26/06/1999: O Baú do Fernando" , onde ele conta onde ele conta alguns detalhes muito interessantes sobre a obra. Segundo informações colhidas por ele, existiriam apenas cinco exemplares completos no Brasil e apenas um em Portugal.
Encontrei também no Blog O Chato, de Afonso Escosteguy, uma matéria onde ele conta sua história de herdeiro de uma destas raridades. Então somos sete, agora, ou melhor, oito, pois um velho conhecido de nossa família também possui uma, talvez dentre todas as que existam, a que esteja em melhor estado de conservação. Infelizmente, como ele mesmo afirmou numa conversa há poucos dias, nunca foi aberta, nem por ele, nem por seu pai, muito menos por seus filhos. "Fica lá, enfeitando a estande..." Uma lástima, pois a minha, se encontra um tanto deteriorada, especialmente as capas, e algumas páginas internas, não apenas por ação do tempo, mas pelas incontáveis vezes que foi aberta, lida, relida e reverenciada.
Sem dúvida, uma beleza, não só na forma mas especialmente no conteúdo. O prefácio de Andrew Lang, “A Literatura no século XIX” é antológico. Encontra-se na folha de rosto, os seguintes dizeres: "Colecção das produções literárias mais célebres do mundo, na qual estão representados os autores mais afamados dos tempos antigos, medievaes e modernos". E os textos de Fernando Pessoa... Bem esta é outra história, que conto depois.
Como disse Escosteguy, “é de arrepiar”, saber que temos em nossas mãos um exemplar desta coleção histórica. Realmente uma sorte, um privilégio, uma emoção: A minha biblioteca verde, verdinha...

“Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver”



