1 de ago. de 2010

flor de marrakech

há um jardim qualquer
em qualquer canto

onde uma flor qualquer
brotou

de qualquer cor

de qualquer forma é flor
e eu a oferto

a quem souber cuidar
ou qualquer coisa

assim

(qualquer coisa)

30 de jul. de 2010

outro poema de Else Lasker-Schüler*



Despedida

Mas tu nunca vinhas com a noite –
E eu sentada com casaco de estrelas.

… Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.

Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta.

Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.

Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.

Mas tu nunca vinhas com a noite
… E eu de pé com sapatos dourados.

*a alma e o caos

28 de jul. de 2010

das águas

sabe
não sei
achei que sabia
sei não
acho
que saber
é quase nada
é pouco
é poço
sem fundo
prefiro
as águas claras

(ou obscurecidas)
do sentir

23 de jul. de 2010

partilha

na noite seca
brilho de estrela única
no céu de tantas
(possíveis e prováveis)
umedecem meus olhos
- partilhada dor

22 de jul. de 2010

um poema de Else Lasker-Schüler



Cansaço

Todos os brancos sonos
Da minha calma
Caíram na fímbia escura do firmamento.

Ora a dúvida cobre minha alma
E meus sonhos são produtos do tormento.

Ah, queria dormir de anseios livre
Saber de um rio fundo, como o que em mim vive.

E fluir com suas águas...

21 de jul. de 2010

canto

o verbo se desprende
do véu

da boca

bando
de pássaros brancos

em vôos rasantes

pequeno céu muitas asas
palavras são

penas

(sopro)

19 de jul. de 2010

céu de sonhar

a tarde seca
um céu de cerejeiras
primeira estrela

até as pedras sonham
com as asas que não têm

18 de jul. de 2010

avessos e espelhos

dentro de mim mora outra - meu avesso

quando olho no espelho
é ele (meu avesso) que vejo

nos meus sonhos
é ela (a outra) que atua como num filme

na memória mais antiga é ela que sorri

é meu reflexo
que caminha pelas ruas – olhos em chamas

tanto sol

enquanto (quem?) cativa se debate
no buraco do espelho onde (obtusa mente)

vive no escuro

16 de jul. de 2010

resignação

palavra indesejada
jamais proferida
banida
do vocabulário
depois esquecida
agora enfim
expressa
pronunciada
de forma lenta
soletrada
e o gosto dela
amarga
o céu da boca
amarra a língua
faz salivar
e o cheiro
é de bolor de gaveta
de mofo de porão
de casa abandonada
de túmulo vazio
aberto
à espera do corpo
resignado

14 de jul. de 2010

lugar

quero um lugar
só meu
este lugar é aqui
este lugar nenhum
lugar algum
é onde
é onde não estou
neste lugar eu sou

(ninguém)

esquinas

faço versos porque já morri
tanto e tantas vezes
mas não encontro o caminho de casa
onde era mesmo que eu morava?
no acaso me lanço
no espaço em branco longe dos apegos
flutuo
há uma curva no rio – havia mesmo um rio?
tinha botas de sol – ainda tenho pés?
há um lugar onde as almas se encontram
os corpos são frascos
de vidro - não eram potes
de barro?
há janelas que nunca se abriram
cortinas transparências
o vento - havia mesmo o vento?
podia ouvir seu sopro
ao menos uma carta eu poderia ter escrito
na próxima esquina quem sabe
no próximo verso

12 de jul. de 2010

um poema de Velimir Khlébnikov

Basta-me um mínimo:
lasca de pão,
gota de leite
e, céu acima,
nuvens alvíssimas.

mais de Velimir Khlébnikov

11 de jul. de 2010

meio dia inteiro

1-

meio dia inteiro
princípio da tarde
e o sol desmaia

não sei de tristeza
ou de paixão

2-

fim da tarde
desfalece de vez o sol
ante meus olhos plenos

o dourado no céu revela:
era tristeza não

9 de jul. de 2010

mínimazul e outros tons

1-

um céu inteiro
refletido nas asas
- mínimazul

(brabuletinha)


2-

é tanto mato
que meus olhos escuros
enverdeceram

meu coração é ninho
asas que te quero

(céu)


3-

privilégio acordar
entre tons
de azul e verde
face vermelha do sol
que sonhei

7 de jul. de 2010

última flor

terra exaurida
cansada

entregue...

oferta
sua última flor

5 de jul. de 2010

ilha


(sou) ilha
que se afasta do que foi
l--e--n--t--a--m--e--n--t--e

sonhando
com seu (meu) pedaço
c--o--n--t--i--n--e--n--t--e


4 de jul. de 2010

moldura

é noite. teclado negro letras brancas maria à minha frente me olha. menina palestina pele negra vestido vermelho numa das mãos a pomba da paz. romãs damascos mel e flores do deserto distante o som da bomba que desfaz. letras são rústicas molduras - p a i x p e a c e p a z p a c o p a c e p a i x s h a l o m s a l l a a m s h a n t y s e l a m v r e d e p a k e h e t e p r a h u a s h t e i r i n i m i r h e i w a s u l h p h y o n g h y w a e m i r e m b e p a c i s u l a p o k o j p a s c h m i e r s u k u t h u l a a s h t i p a z 和 平 평 화 ε ι ρ ή ν η ש ל ו ם м и р س ل ا م ص ل ح 平 和 ค ว า ม ส ง บ - brancas as pombas parede e papel a tela à minha frente brancas areias e bandeiras a fita no cabelo a nuvem no céu. a paz miragem nos seus olhos a paz colada em suas mãos a paz moldura que esfarela diante dos seus - olhos incrédulos. a ave se debate a ave prestes a fugir a ave. árido e frio o deserto se impõe. é noite.

tempos difíceis

que tempo é esse, em que a solidão é quase benção
e outro o inimigo a ser temido...?!

1 de jul. de 2010

olhos de doer

um cão estranho me olha e segue
com seus olhos de cão

estranho

olhos de ser feliz os olhos do cão

não vai saber nunca
dos humanos olhos fundos de doer

tanto

30 de jun. de 2010

aquário



peixes flutuam
no céu azul lá fora

enquanto eu me afogo

no aquário hermético
do meu quarto

29 de jun. de 2010

intradução

ábacos
já não contam o tempo

lágrimas não o detém

dígitos
tendem ao infinito

círculos não o contém

símbolos
não o traduzem

- os olhos fundos sim

(e a pedra)

28 de jun. de 2010

reverso

a terra saiu do eixo o mar invadiu cidades montanhas se aplainaram vulcões explodiram o abismo se revelou e o homem - vísceras expostas - assiste ao reverso da vida.

inverno

com meus olhos de abismo
contemplo

velho jardim de árvores velhas

- as flores
onde estão as flores

vermelhas?

o que vejo são folhas secas
ásperos troncos

raízes expostas

27 de jun. de 2010

agreste

vivo - labuto
sobre o solo agônico
dos dias iguais

invento cores
cultivo
ásperas flores

imperfeitas e desiguais

24 de jun. de 2010

assimetria

branco o meu papel
vive à espera do traço
que o defina
mas não o preencha

assimétrico espaço

guardador do fogo

fogueira
de gravetos no céu

sopra
o guardador do fogo

sabe
das noites do deserto

sabe
também do sol e do mel

faíscas são estrelas
lamparinas

(porque ainda é São João)

Leonardo da Vinci (I)



St_John_in_the_Wilderness_Design

22 de jun. de 2010

há quem?

não confundam
eu, comigo
- eu
vive além
do meu umbigo
fronteira
- eu
vivo aquém

(interessar possa)

21 de jun. de 2010

desabrigo

o não lugar:

onde habita a não vida
e o não sonhar

- morada de tantos.

20 de jun. de 2010

haicais de teruko oda


Japanese Style painting - Shouen's Yamato-e


Como versos livres
- ao toque dos tico-ticos -
as flores que caem.


Vasos amontoados -
A florada de crisântemos
nos fundos do templo.


Um quê de inquietude
no balé das borboletas —
Tarde de outono.


Insetos que cantam
parecem adivinhar
minha solidão.


No meu chá das cinco
que tão rápido esfriou
prenúncio de inverno.


teruko oda - germinaliteratura

inscrições e hellenismos

Hoje estou feliz. Fui recebida na casa de duas super poetas e grandes mulheres: Adelaide Amorim e Nina Rizzi. Convido vocês para uma visita ao Inscrições e ao Ellenismos, dois espaços generosos, onde os poetas e poemas-amigos são sempre muito bem recebidos com chás, flores e cheiros - e claro, poesia - da melhor qualidade.

"Os poetas falam a mesma lingua, com a graça de se aproximarem pelas diferenças".

Dade Amorim

"Cato conchinhas na praia e faço máscaras pra me reinventar. Do tipo que se debruça, por horas, sobre uma obra de arte, posso me ler nas entrelinhas."

Nina Rizzi

18 de jun. de 2010

ancoração

pernas finas e pretas
olhos fundos

o menino caminha
rumo ao seu submundo

(solo tão ríspido
para pés tão pequenos)

há que endurecer coração
âncora que o sustenta

e o mantém

(no oceano mar
lugar das indiferenças)

17 de jun. de 2010

do sentimento das coisas (II)

consigo finalmente me comportar dentro dos limites de rio estreito que sou. não mais transpor a linha frágil dos contornos de mim e transbordar. seguir a sina dos rios pequenos: não saber dos abismos nem do sal. o som da fonte próxima seja acalento - pássaros quando amanhecer e o florescer dos lírios - na noite inevitável.

15 de jun. de 2010

tempo quase


wind from faraway - nakagima kioshi


vento de longe

gravetos e segredos

antigo sopro

menina quase moça

tempo quase de voar
&
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