17 de abr. de 2011

o banco de madeira apodrecida
mais velho que a casa
já tão velha
viu brotar
a árvore
viu crescer
a árvore
agora já tão velha
que viu
o primeiro balanço
cujas cordas já se romperam
há tanto tempo
mormaço
exatos
30º
desiste
abre janelas
respira
(jasmim
lhe deixa
tonta)
ninguém
na rua
(um cão
sequer)
queria
ar
alguém
a lhe dizer:-
vai passar

16 de abr. de 2011

então finalmente
quando ele dói e sangra
(o bruto
coração)
é dado o sinal:
foi encontrada a mina
onde habita a palavra
bruta
jóia rara / lâmina

15 de abr. de 2011

cava fundo no peito
tenta encontrar
a palavra escondida
é preciso ir além
da epiderme
dilacerar a carne
romper nervos e veias
ver transpassado
o bruto
coração

14 de abr. de 2011

um poema de John Berger


My heart born naked
was swaddled in lullabies.
Later alone it wore
poems for clothes.
Like a shirt
I carried on my back
the poetry I had read.

So I lived for half a century
until wordlessly we met.

From my shirt on the back of the chair
I learn tonight
how many years
of learning by heart
I waited for you.


Meu coração que nasceu nu
foi logo envolto em canções de ninar.
Depois sozinho se vestiu
de poemas como roupa.
Como uma camisa
carreguei nas minhas costas
a poesia que li.

Assim vivi durante meio século
até que sem palavras nos encontramos.

Com minha camisa no encosto da cadeira
esta noite descubro
quantos anos
lendo meu coração
Esperei por você.

11 de abr. de 2011

festa

pequena, minha aldeia
nela cabe uma casa
com quintal
(onde mora um cão)
e crescem flores
nas frestas
que se abrem no chão
(meu canteiro)
onde pássaros pousam
e caracóis azuis
rastejam
(uma festa)

8 de abr. de 2011

brilha lá fora
a lua fatiada --
hoje dourada
as coisas não tem paz
até o que não vive se contorce
e o que vive se deforma
(ainda não sei
se inércia
é tender para o nada
ou para o fundo)
pífaros soam
enquanto o vento roça
as rotas
cortinas de crochê
de algodão cru
(a vida é sopro)
neste momento exato
do poema

7 de abr. de 2011

já é abril?
vou abrir as janelas
e ouvir o vento

6 de abr. de 2011

alguém me disse que a vida passou
e eu não estava lá
juro que não vi — da minha janela
a vida passar
— esquiva

5 de abr. de 2011

c. q. d.

acordo cedo e abro a janela que dá para o quintal. depois de tanta chuva, solzinho sem vergonha aparece. aproveito que Bono saiu pra passear - desço depressa. de repente me vejo ali, de pijama, chinelos, descabelada - ai que saudades da minha antiga juba - vassoura na mão -limpando a sujeirada do meu cão. acho graça. que diriam de mim meus leitores se me vissem assim? não que eu seja muito diferente disso mas... entre o poeta e a pessoa - quanta diferença. um dia acreditei que nossos versos nos revelassem. mas não - nada nos revela. nem nossas imagens desfocadas em nossos mínimos perfis. nem nossas pequenas ou grandes biografias - nada. somos incógnitas. inclusive - e sobretudo - pra nós mesmos. equações impossíveis. soluções vazias. perdida entre inquietações e rabiscos, vejo Bono chegar. o tempo como de costume voa e o sol outra vez se esconde. deixo a limpeza do quintal para amanhã, que é dia de Marlene. entre panos e baldes, sabão e vassouras, ela sim é feliz. é o que é. sem conjecturas. sem expectativas. sem poesia. recomeça a chover. não temos mesmo o controle de nada. c. q. d.

30 de mar. de 2011

pretos
pássaros pousam
no fio
desencapado
dos meus nervos

29 de mar. de 2011

febre
parábolas das águas ternas
termas
gêiseres inquietos
nascentes
vulcânicas rochas quentes
onde
lagartos
se estendem
até mudar de cor
[... talvez
de pele

28 de mar. de 2011

outra vez
dei de cara com o tempo
mas sua face
já não
me pareceu assim
tão feia
fera domesticada
comeu na minha mão:-
migalhas

27 de mar. de 2011

a rosa de Fukushima
brotará
— azul
talvez
brote vermelha
— em chamas
a rosa de Fukushima

26 de mar. de 2011

chacais — são os donos dos guetos
----------peixes miúdos tragam
----------------------o pó o fumo a fome

cinzentas guelras já nem de lembram
----.--que um dia vermelhas flutuaram
--------------------em céus azuis

--------------------e além do morro

outros meninos sonham
----------em seus aquários de cristal
----------------------— vida tão frágil

já não há fronteiras — guerrilhas
--------------.-------território do medo

24 de mar. de 2011

bem do meu lado fingem
dormir
personagens
da última página
do último livro que li:-
um truque
para que não os esqueça

feito fengs sopram
folhas
sonho com o Huang He
antiga serpente
domesticada pelo grande Yü
— longs
vermelhos sobrevoam

no céu de fogo da memória

22 de mar. de 2011

velha vida

feito meu pai me sento
na sua velha
poltrona
marrom
na cabeceira da mesa
de tábua
me apoio
no parapeito gasto
da janela
me curvo
a velha vida se repete
[... dói
saber ninguém
a repetir meus gestos

19 de mar. de 2011

imensa a lua
reflete
nos olhos
do meu
cão
e fica
do tamanho
dos seus
olhos
— e dos meus

ao acaso

faço poemas inconseqüentes
já não me importo com isso
tudo que espero do poema
é que ele se liberte
que ele me liberte
que ele liberte alguém
ao acaso
[acaso exista ainda
alguém
aprisionado
neste tempo absurdo
de liberdade extrema
e solidão
absoluta]

18 de mar. de 2011

a água na chaleira ferve
é madrugada já
a erva é doce

(a camomila nem tanto)

16 de mar. de 2011

minha casa de sapê -
será tempo de colheita
no mundo lá fora?

Bashô

13 de mar. de 2011

todos os dias leio
Rodrigo

duas vezes por dia

os seus cachorros
são azuis

as minhas garças
rosas

sem
nenhuma obsessão
ok. então era isso
tão pouco

12 de mar. de 2011

hei de doar tudo que tenho
ou seja — palavra
que seja pouca e rasa
que seja
assim
hei de doar também a falta
ou seja — silêncio
que seja muito e fundo
que seja
assim
seja

10 de mar. de 2011

cai sobre mim um manto
tecido
em escrúpulos e náuseas

combustível no ar
e uma faísca
basta
um rio
de fogo
se pressente
ninguém dirá
que falo da morte
alguém até
dirá
que me ouviu
dizer
da vida

9 de mar. de 2011

os cães de Hilda uivam
enquanto
passam as caravanas
vazias
de palavras e gentes
a.o v.e.n.t.o

8 de mar. de 2011

. . .

na casa de câmbio
do sol nascente --
moeda é semente

6 de mar. de 2011

um poema de Igor K. Marques



a carga de azul casual
irrompe anil no branco
fluorescente do monitor
no corte transversal
de um fragmento de texto
na percussão dos dedos
impondo o ritmo de criação
na busca da cadência
precisa da escrita
ainda sem nexo
divagando no caos inicial
entrelinha e entrelaços
entranha de cabeleira
de tranças em transe
no devaneio vagabundo
no ócio perturbador
descompasso preciso
nem côncavo
nem convexo
berço da criação
de uma ciência inexata
da poesia

Igor K. Marques - poeta e artista plástico, mantém os blogs: desenhos e poemas e free jazz textos e imagens .

Todos convidados a conhecer o trabalho de Igor, pois como ele mesmo diz: "PRECISAMOS NOS SURPREENDER COM O OLHAR DO OUTRO"

5 de mar. de 2011

ave
de rapina mergulha
em busca
do peixe
(depois o grito)
imagem
refletida no espelho
d’água
ser
da montanha
o sol
nas asas
a vida no bico
retorna ao ninho
natureza sorri
e o peixe
cumpre seu destino

3 de mar. de 2011

. . .

será outono?
voam folhas no vento
silenciosas

2 de mar. de 2011

brancos
os tigres me observam --
não sabem
se me lambem ou me devoram
os tigres da memória

1 de mar. de 2011

diversos e afins

onde a montanha encontra a água
nasce a flor


QUINQUAGÉSIMA QUARTA LEVA - Diversos e Afins - entre caminhos e palavras - seguir em frente é preciso - e eu vou - em busca da flor.

Obrigada, Leila e Fabrício. Bom estar no caminho com vocês. Abraços!


E agora, ellenizada. :)

pedra

raZtro
no céu de aZul turqueZa:-
a vida
hoje é caminho de pedra
rara
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