21 de mai. de 2011

a morte ronda
o pássaro - a flor
meus olhos

a vida é ciranda

19 de mai. de 2011

outono: outros tons
ou tônus
sobre a pele do dia
e a minha
: epidérmica
estação

18 de mai. de 2011

ovelha branca
destoa
neste templo de negras
serpentes e chacais
não discriminem
o seu olhar
albino
a sua alma
clara
seu coração
vermelho
sangra:- dores iguais

15 de mai. de 2011

a cada poema que leio
arranco um pedaço

não do poema
mas do poeta

nas madrugadas
saio às ruas sangrando

colagens
que não cicatrizam

13 de mai. de 2011

luar de outono
e o velho telhado --
brilha
mas do que vale a vida
se não for dividida:-
nada

inteiro
brilho * estrela
pele
cor
do que um dia
pérola
flor

9 de mai. de 2011

os olhos da noite estão vermelhos
os cabelos embaraçados
a pele fria

a noite é uma velha senhora
que caminha descalça
sobre folhas secas

na ilusão do silêncio
onde cabe o silêncio
cabe a palavra multiplicada

que silêncio é vazio (infinita cratera)
que somente a palavra

aterra

8 de mai. de 2011

repara
que solidão é mais
estado de alma
que de pele
é mais
estado de sentir
que de estar
e o ser?
em que estado fica
nesse caminho estreito
e não delimitado
da alma à flor
da pele

um poema de GIANNIS RITSOS (I)













GRECIDADE

I

Estas árvores não sossegam com menos céu,
estas pedras não sossegam sob passos estrangeiros,
estas faces não sossegam a não ser sob o sol,
estes corações não sossegam a não ser com a justiça.

Εsta paisagem é dura como o silêncio,
cerra no seu seio suas rochas incandescentes,
cerra na luz suas oliveiras órfãs e suas vinhas,
cerra os dentes. Não existe água. Somente luz.
O caminho perde-se na luz e a sombra do curral é ferro.

Marmorizaram as árvores, os rios e as vozes calcinados pelo sol.
A raiz tropeça no mármore. Os lentiscos empoeirados.
A mula e a rocha. Ofegam. Não existe água.
Todos têm sede. Há muito tempo. Todos mascam um bocado de céu sobre sua amargura.

Seus olhos estão vermelhos da vigília,
um vinco fundo acunhado entre suas sobrancelhas
como um cipreste entre duas montanhas no pôr-do-sol.

Suas mãos estão coladas no rifle,
o rifle é uma extensão das suas mãos,
Suas mãos são uma extensão das suas almas -
têm sobre seus lábios a ira
e no fundo dos seus olhos a mágoa
como uma estrela em uma fossa de sal.

Quando apertam as mãos o sol surge para o mundo,
quando sorriem uma pequena andorinha foge-lhes das barbas selvagens,
quando dormem doze astros caem dos seus bolsos vazios,
quando se matam a vida segue adiante com bandeiras e tambores.

Há tantos anos todos têm fome, todos têm sede, todos se matam
sitiados por terra e mar;
O calor devorou seus campos e a salinidade regou suas casas,
o vento derrubou suas portas e as poucas primaveras da praça,
pelos buracos dos seus sobretudos entra e sai a morte,
suas línguas são acres como o fruto do cipreste;
seus cães morreram abraçados nas suas sombras;
a chuva bate nos seus ossos.

Em cima das guaritas petrificados fumam o estrume e a noite
mantendo um olho no mar enfurecido onde afundou
o mastro quebrado da lua.

O pão acabou, as balas acabaram,
agora carregam seus canhões somente com seus corações.

Há tantos anos sitiados por terra e mar,
todos têm fome, todos se matam e ninguém morreu -
Em cima das guaritas brilham seus olhos,
uma grande bandeira, um grande incêndio rubro
e cada alvorada milhares de pombas fogem das suas mãos
para as quatro portas do horizonte.

7 de mai. de 2011

saudade
da língua dos coptas - primitivos tempos
corre em mim
um Nilo Azul de palavras e ritos
(trago no peito a marca)

6 de mai. de 2011

lembrar tem doido
feito farpas sob as unhas
(ao por do sol lateja)
o esquecimento
faz parar de doer
... mas nos meus sonhos
todas as flores ferem
espinhos

5 de mai. de 2011

festa no pasto hoje
meu cão correndo atrás das seriemas
que invadiram a manhã com seus cantos agudos
anunciando que de tarde vem chuva
e borboletas muitas compunham a paisagem
das miudezas que meus olhos procuram
e sempre encontram
o céu azul
a árvore vermelha
o asfalto cinzento
hoje tudo que sinto e penso
são coisas e cores
como se a alma
se alojasse nos olhos

3 de mai. de 2011

tecer palavras
em tempos de silêncio
ofício [... arte
canto
a vida miúda que me cerca
tudo mais
são olhares outros tantos
que não os meus

2 de mai. de 2011

perto daqui
silencioso e raso passa um rio
não posso ouvi-lo
— pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem
— ávidas de lua
e mar

1 de mai. de 2011

inquietos metais
voz de cristal

underground
eloqüente

soul...
letra:
tatuagem catártica
mídia:
pensamento em círculos
melodia:
contestação em tons
ler é ouvir
escrever é compor --
palavra é música

ouçam
caminho pelas ruas de Nova Orleães
um sentimento "blues" me chama
respondo: noite escura
metal
“Old Man River"
sonham vapores - navegam
melancolia e blues
há um piano
um violino um bandolim
ai de mim
nesse meu silêncio
sem cordas

29 de abr. de 2011

ciente da minha humana condição
precária e efêmera — ouso
desafiar os dogmas
pós-modernos
e creio
no único Deus
criador de céus e terras
e em seu filho
creio também em seu espírito
que paira
sobre as águas do planeta
e sobre nós
creio e professo minha fé
na vida
que não termina por aqui
voraz o dia — membro da matilha
dos predadores de nós
manso quando amanhece
— uiva
a cada por do sol
[... quando arranca pedaços
faz vento
onde mora meu Deus — palavra
que me vem feito brisa
quando meu coração fraqueja
(humano)
e sente dor

27 de abr. de 2011

agora sente saudades
do vácuo
em que flutuou por longos anos
era tão terno e claro
o aquário vazio
mas como dói ter saudades
assim, de nada
e os olhos do gato
o tempo todo à espreita
sem ter amigos
o poeta se faz presente
o poema é seu presente
e ele o oferta
aos amigos que não tem

23 de abr. de 2011

mais só
que o morto a lua e o louco
de Cooper
se debruça na janela
e segue
o arrastar sinuoso
de uma lagarta de fogo
sobre a parede quente
do sol do dia

21 de abr. de 2011

escrevo porque sim
se não
não sei
o que seria de mim
escrevo, por que não?
nem sei
o que seria
se não fosse assim
[... então

20 de abr. de 2011

angustia é lâmina
mais
que afiada
e no seu corpo
já não cabe
mais
cicatriz
respiro fundo
trago os olhos vermelhos
do ar de outono

18 de abr. de 2011

ZUNÁI- Ano VII - Edição XXII - Março de 2011

Amigos, acaba de sair a nova edição da Revista Zunái, como sempre, impecável, com ensaios, poemas (incluindo alguns meus inéditos), entrevistas, traduções, etc. Na galeria: Gabriela Marcondes. Mais uma belíssima edição. Fica aqui meu convite para leitura. Abraços!    
luar de outono
mariposa mergulha
no espelho d’água
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