A grande máquina tenta
Me devorar
Os cães da rua
Os carros
O homem velho com seus olhos de vidro
Um pedaço pequeno de céu azul
Entre cinzas
Prestes a se tornarem chuva
O pássaro que pousa no manacá antigo
Tons de lilás e branco - as cores
Perfume
As rodas
Os pés
As asas
Tudo que move tenta
Me devorar
Apenas
Sinais premonitórios
Que antecedem à grande
Dor
24 de mar. de 2012
23 de mar. de 2012
23:00 h
passam navios pela minha janela
vindos do poço
onde pássaros se escondem
e esperam
que o vento sopre
a canção das cordas úmidas
e então adormecem
até que brote a vela branca flor
do dia
que faz voar navios
e navegarem pássaros
no metileno azul
de alguns olhos de céus
não meus
vindos do poço
onde pássaros se escondem
e esperam
que o vento sopre
a canção das cordas úmidas
e então adormecem
até que brote a vela branca flor
do dia
que faz voar navios
e navegarem pássaros
no metileno azul
de alguns olhos de céus
não meus
o meu senhor passou por mim
e não me viu
quase pude tocar sua pele
rude
de sol
senti
o perfume vindo dos seus
cabelos
ouvi
atentamente
suas parábolas de águas
nem sempre
claras
comi
do pão por nós
multiplicado
mais de mil
vezes
[no meu silêncio
te chamei mais de mil
vezes]
mas
meu senhor passou por mim
e não me viu
e não me viu
quase pude tocar sua pele
rude
de sol
senti
o perfume vindo dos seus
cabelos
ouvi
atentamente
suas parábolas de águas
nem sempre
claras
comi
do pão por nós
multiplicado
mais de mil
vezes
[no meu silêncio
te chamei mais de mil
vezes]
mas
meu senhor passou por mim
e não me viu
22 de mar. de 2012
21 de mar. de 2012
20 de mar. de 2012
19 de mar. de 2012
18 de mar. de 2012
por que o telhado é
vermelho?por que a lua
míngua?
por que
eu no quintal
agora
a ver
telhados
e luas
minguantes?
por que a vida
já não
me chama?
(mas meu cão
me chamou)
por que meu cão
sente fome?
por que
de alguma forma
a vida sempre
se revela?
por que
a loucura
é mesmo
um estado de graça?
por que
perco meu tempo
assim entre
nadas
e plenitudes?
por que
fui escolher
esse caminho tão
estreito?
por quê?
16 de mar. de 2012
15 de mar. de 2012
agora um pássaro voa sobre
a cidade
é noite
e as penas não devem ser
azuis
vasto o campo de morangos
e rosas
por onde
caminhei num tempo
longe
faminto - busca o pássaro
os caracóis do dia
simbiótica autofagia
bichos que se devoram
noites-dias
a vida sabe ser crua
mas se mantém – e os bichos
saciados a (se) suportam
a cidade
é noite
e as penas não devem ser
azuis
vasto o campo de morangos
e rosas
por onde
caminhei num tempo
longe
faminto - busca o pássaro
os caracóis do dia
simbiótica autofagia
bichos que se devoram
noites-dias
a vida sabe ser crua
mas se mantém – e os bichos
saciados a (se) suportam
14 de mar. de 2012
13 de mar. de 2012
que o sangue escoe
quente viscoso fosco no humano fosso
(indecifráveis delírios)
que fragmente a bomba e fira
olhos e bocas
e que se rasguem bandeiras — inúteis
tecidos fronteiras
tudo parece arder — então por que
poetas só ousam tocar
nos visgos dos corpos do fogo das suas
próprias peles
(devassa inocência)
e dormem — imersos em seus silêncios
quente viscoso fosco no humano fosso
(indecifráveis delírios)
que fragmente a bomba e fira
olhos e bocas
e que se rasguem bandeiras — inúteis
tecidos fronteiras
tudo parece arder — então por que
poetas só ousam tocar
nos visgos dos corpos do fogo das suas
próprias peles
(devassa inocência)
e dormem — imersos em seus silêncios
10 de mar. de 2012
Ferhad_ve_Shirin
cultivo tulipas em pleno abril — sei que não vingam
mas quem — vai me impedir de sonhar
com a improvável lágrima-flor
de Ferhad?
procurei no deserto a pérola — e quase pude vê-la
nos dromedários olhos úmidos das miragens
das tempestades de areia — vi surgir — o pássaro
que me contou os segredos da terra
da invertida negra flor — onde a pedra — é utopia
e a dor — fecunda
cultivo tulipas em pleno abril — sei que não vingam
mas quem — vai me impedir de sonhar
com a improvável lágrima-flor
de Ferhad?
procurei no deserto a pérola — e quase pude vê-la
nos dromedários olhos úmidos das miragens
das tempestades de areia — vi surgir — o pássaro
que me contou os segredos da terra
da invertida negra flor — onde a pedra — é utopia
e a dor — fecunda
o nome... já não me lembro do nome
da memória
os olhos
de que cor eram mesmo
os olhos
da memória?
tinha boca vermelha e cantava
não ouço mais a canção da memória
eram fortes e ternas
as mãos imensas da memória
me lembro agora – vagamente
tinha um corpo a memória
um rosto
tinha alma
restam os ossos / então / guardados
numa caixa de vidro
pequena
nas noites quentes
estalam
um dia / tudo / será / pó
e serei eu a soprar / pois não há vento
na casa da memória
da memória
os olhos
de que cor eram mesmo
os olhos
da memória?
tinha boca vermelha e cantava
não ouço mais a canção da memória
eram fortes e ternas
as mãos imensas da memória
me lembro agora – vagamente
tinha um corpo a memória
um rosto
tinha alma
restam os ossos / então / guardados
numa caixa de vidro
pequena
nas noites quentes
estalam
um dia / tudo / será / pó
e serei eu a soprar / pois não há vento
na casa da memória
9 de mar. de 2012
além da janela, um mundo - que não conheço
sei que existe pois
vejo a estrada – rasgo de concreto
áspero infecundo
que sob o sol transpira – como num deserto
há certa beleza em tudo
no acostamento um outro
mundo
homens suados em seus aros metálicos
pedais que movem rodas
e tudo gira
bugios atônitos vindos da mata revolvida
tentam
cruzar a linha morte/vida que desconhecem
e o campo / de rosas / vermelhas / parece / delírio
cavalos de silêncio galopam planícies
depois - tudo é montanha e é tudo que sei
além da curva rude há céu – vi
um pássaro desnorteado vindo de lá
olhos de água – rasos - asas em chamas sem
cantar
sei que existe pois
vejo a estrada – rasgo de concreto
áspero infecundo
que sob o sol transpira – como num deserto
há certa beleza em tudo
no acostamento um outro
mundo
homens suados em seus aros metálicos
pedais que movem rodas
e tudo gira
bugios atônitos vindos da mata revolvida
tentam
cruzar a linha morte/vida que desconhecem
e o campo / de rosas / vermelhas / parece / delírio
cavalos de silêncio galopam planícies
depois - tudo é montanha e é tudo que sei
além da curva rude há céu – vi
um pássaro desnorteado vindo de lá
olhos de água – rasos - asas em chamas sem
cantar
aperto folhas secas nas mãos e elas estalam
há em tudo um estado de florescer
até que o outono desfaça
línguas fumaça olhos de amêndoas doces
em tudo que nãocanto um certo
desengano flui
e as seriemas insistem em seus berros
de barro sobre
telhados
tudo podia ser não foi porque não sei
quem sabe?
a lua faz a noite padecer de claridades nuas
quintais cinzentos onde moram cães
sou feliz - colho goiabas gigantes
no muro regado à musgo e trilha
de caracóis
bichos de fogo incandescentes caminham
sobre
meus olhos
o mundo podia se chamar hospício lunar
cemitério de naves espaciais onde não
embarquei
objetos metálicos eternamente em chamas
nesse planeta supostamente azul
aquário de vidro
onde o destino de tudo parece ser – vermelho
arder
há em tudo um estado de florescer
até que o outono desfaça
línguas fumaça olhos de amêndoas doces
em tudo que nãocanto um certo
desengano flui
e as seriemas insistem em seus berros
de barro sobre
telhados
tudo podia ser não foi porque não sei
quem sabe?
a lua faz a noite padecer de claridades nuas
quintais cinzentos onde moram cães
sou feliz - colho goiabas gigantes
no muro regado à musgo e trilha
de caracóis
bichos de fogo incandescentes caminham
sobre
meus olhos
o mundo podia se chamar hospício lunar
cemitério de naves espaciais onde não
embarquei
objetos metálicos eternamente em chamas
nesse planeta supostamente azul
aquário de vidro
onde o destino de tudo parece ser – vermelho
arder
7 de mar. de 2012
sorriso de mil dentes que enverdeceriam
sem deixar de sorrir
a face delicada dos fortes
os pés pequenos
prontos a caminhar eternidades
em frente à velha casa
: a única que foi sua :
segue sonhando casas brancas de esquina
varandas e ventos
e o esquecimento - sol a quarar memórias
agora inda mais brancas
que as sonhadas paredes — e os cabelos
sem deixar de sorrir
a face delicada dos fortes
os pés pequenos
prontos a caminhar eternidades
em frente à velha casa
: a única que foi sua :
segue sonhando casas brancas de esquina
varandas e ventos
e o esquecimento - sol a quarar memórias
agora inda mais brancas
que as sonhadas paredes — e os cabelos
