20 de jan. de 2009

A MINHA "BIBLIOTECA VERDE"

Recebi como herança de meu pai, que herdou de meu avô, algumas antiguidades de valor inestimável para mim: um exemplar belíssimo da Divina Comédia Humana de Dante Alighieri, de 1908; um jogo de chá de porcelana chinesa, riquíssima em detalhes, verdadeira obra de arte, que foi repartida entre os netos, cabendo a mim e minhas duas irmãs duas xícaras e um açucareiro (ainda não chegamos na fase de brigar pelo açucareiro...); dois cachepôs de prata, com flores em alto relevo, que desapareceu, e mais tarde foi descoberto, na casa da... Deixa pra lá...

O Jogo de xícaras de porcelana


Dante Alighieri

Tem mais: Uma máquina de escrever Corona, fabricada nos EUA em 1917, lindinha; uma cópia da máscara mortuária de Beethoven, que assombrou minha infância, pois o nonno insistia em nos mostrar “as marcas dos pelinhos do nariz do gênio”; uma câmera Voigtlander Bessa, de 1911, máquina Alemã criada pela conceituada Voigtlander, que usa filme 120, 6x9 e tem diafragma de 9 lâminas, sonho e muitos fotógrafos e colecionadores, extremamente leve e pequena quando comparada com outras 6x9 de fole; um livro do poeta Carducci, nascido também em Pietrasanta – Luca, região da Toscana, de onde vieram meus antepassados, e muitos, muitos livros e discos 78 rotações, de óperas e cançonetas italianas.

A máquina de escrever Corona



A Câmera Voigtlander Bessa

De todas estas preciosidades, a mais especial para mim com certeza foi uma coleção de 24 livros verdes, verdinhos com detalhes dourados: A Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Aquela mesma para quem Drummond fez o poema BIBLIOTECA VERDE, considerado por muitos, um dos grandes poemas da literatura mundial. Dizem que alguns, dentre os maiores nomes da literatura brasileira e portuguesa tornaram se escritores sob influência desta coleção. Carlos Drumommd de Andrade ganhou uma de seu pai quando tinha entre 10 e 11 anos. Uma obra para ser lida aos poucos, pela vida afora, mas dá vontade de fazer como o menino Carlos, ver as figuras, passar a noite inteira lendo. Carecemos de tudo...

“O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente”





Foto: Blog do Chato - Idêntica a minha


Biblioteca Verde

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente


Autor: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Pesquisando sobre a coleção que sempre encantou a mim e a outras gerações de minha família, encontrei no Jornal de Poesia, um texto de Wilson Martins, publicado originariamente na Gazeta doPovo de Curitiba, 26/06/1999: O Baú do Fernando" , onde ele conta onde ele conta alguns detalhes muito interessantes sobre a obra. Segundo informações colhidas por ele, existiriam apenas cinco exemplares completos no Brasil e apenas um em Portugal.

Encontrei também no Blog O Chato, de Afonso Escosteguy, uma matéria onde ele conta sua história de herdeiro de uma destas raridades. Então somos sete, agora, ou melhor, oito, pois um velho conhecido de nossa família também possui uma, talvez dentre todas as que existam, a que esteja em melhor estado de conservação. Infelizmente, como ele mesmo afirmou numa conversa há poucos dias, nunca foi aberta, nem por ele, nem por seu pai, muito menos por seus filhos. "Fica lá, enfeitando a estande..." Uma lástima, pois a minha, se encontra um tanto deteriorada, especialmente as capas, e algumas páginas internas, não apenas por ação do tempo, mas pelas incontáveis vezes que foi aberta, lida, relida e reverenciada.

Sem dúvida, uma beleza, não só na forma mas especialmente no conteúdo. O prefácio de Andrew Lang, “A Literatura no século XIX” é antológico. Encontra-se na folha de rosto, os seguintes dizeres: "Colecção das produções literárias mais célebres do mundo, na qual estão representados os autores mais afamados dos tempos antigos, medievaes e modernos". E os textos de Fernando Pessoa... Bem esta é outra história, que conto depois.

Como disse Escosteguy, “é de arrepiar”, saber que temos em nossas mãos um exemplar desta coleção histórica. Realmente uma sorte, um privilégio, uma emoção: A minha biblioteca verde, verdinha...



“Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver”

PÁSSARO

já não sei mais
definir as cores
das minhas asas

— nem sei
se ainda tenho asas

também não posso
imaginar o tom
da minha voz

— nem sei
se ainda tenho voz

só sei que vôo
e canto
isto me basta
e pronto

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19 de jan. de 2009

BOREAL AURORA

Aurora
romana deusa
dos amanheceres
desperta

espera pelo filho
Bóreas
— devorador Titã
que virá

trazido
pelos ventos nortes
vindos da Hiperbórea
terra

voando pelos ares
se abraçam
— partículas de vento
em magnéticos campos

do impacto do abraço
o céu tingido brilha
e a Boreal Aurora
se faz

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UM POEMA

Esperando, esperando
Esperei

O dia veio
— Que o dia sempre vem
E me trouxe você

Canto novo
Agora em minha boca

Um poema

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18 de jan. de 2009

O RISCO E A INVENÇÃO



"O “Olho Alado” de Alberti serve como metáfora emblemática que resume e fundamenta a atitude do artista, do desenhista, do pintor ou do arquiteto projetista diante de uma demanda de trabalho. A divisa “QUID TUM” “E AGORA?”, mínima e sutil, revela a difícil busca da imaginação ativa, o esforço intelectual, empreendido na investigação, diante do desafio de enunciar a questão e escolher as possibilidades de solução.

Atualmente, entre os pesquisadores que tratam da cognição, há uma corrente que se ocupa com a maneira pela qual um indivíduo construiria internamente em função de sua situação específica, uma ‘pré-visão’ de mundo e, a partir dessa construção, a forma como se dará todas as interações com o mundo à sua volta, inclusive aquelas ações transformadoras.

Essa é uma abordagem distinta daquela que supõe que o ‘mundo’ está lá fora a espera de ser internalizado e modelado por aquele que o fruirá. Ou seja, é uma abordagem que reconhece o indivíduo dotado de uma consciência ativa e intencional. O que vale dizer que essa mesma ‘pré-visão’ de mundo pessoal conduz a forma pela qual o artista interage com os desafios de uma demanda e marca suas escolhas."

O scrittore, con quali lettere scriverai tu con tal perfezione la intera figurazione qual fa qui il disegno?

Anotação de Leonardo da Vinci em um dos seus cadernos de desenho

Fonte: Tese de Doutorado em Urbanismo - José Barki FAU/UFRJ: O RISCO E A INVENÇÃO

Miguel Ângelo
Estudos para a Sibila Líbia, 1511, Metropolitan Museum of Art

Miguel Ângelo
Sibila Líbia, 1508-1512, afresco no tecto da Capela Sistina.

17 de jan. de 2009

JANELAS PARA A PAZ

Sou fascinada por janelas. Ganhei algumas de presente do brilhante fotógrafo publicitário cineasta gaúcho brasileiro palestino, KAIS ISMAIL. Deixo aqui minha solidariedade, meu abraço, meu desejo de PAZ.

Janelas para Nydia - A cortina e o vento


Janelas para Nydia - O músico e a Santa


Janelas para Nydia -Todos os Santos


Janelas para Nydia - A Cinderela

Fotos: Kais Ismail

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16 de jan. de 2009

SANTUÁRIO



porque as guerras
com seus soldados
porque as cercas
de arames farpados

porque a intolerância
com o diverso
porque
a inconstância no verso

porque a fome
em meio a tantos campos
sozinho num canto
em meio a tantos

porque o medo
com seus suplícios
se nada ou ninguém há
que a alma aprisione

porque o desespero
com seus cilícios
se no fundo de nós
em calma, um Deus habita

15 de jan. de 2009

TRIBUTO A EMILY DICKINSON



Tela: Tribute To Emily Dickinson - Julie Fillo

"Nunca vi um campo de urzes,
Nunca vi o mar;
Mas sei como as urzes são
E posso as ondas imaginar.
Nunca falei com Deus
Nem visitei o céu;
Mas estou certa de que existe esse lugar
Como se tivesse um mapa nas mãos."

14 de jan. de 2009

MÍNIMA

Rímel. Lápis. Blush. Batom
Agenda. Aspirina. Espelho
Chaves. Talão de cheques
Carteira. Calculadora
Cartão de crédito
Lixa de unha. Desodorante
Creme hidratante

Um terço. Uma oração. Medalhas
E uma fita azul da Mãe Aparecida
(Que a casa do Senhor do Bonfim
Ficou distante)
Um canivete artesanal de estimação
Herança de meu pai
3 x 4 daqueles que amo

Lentes de contato. Óculos de sol
Lenços de papel. CIC. RG. CREA SP
Canetas. Cartão de visita. Celular
Escovas. Filtro solar
E a imprescindível folha de papel
Em branco
À espera dos versos

Deus,
Como sou pequena!
Quase tudo que sou e preciso
Cabe dentro da minha bolsa

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12 de jan. de 2009

POESIA ANTIGA II

Estesícoro

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Estesícoro (em grego, Στησίχορος - Stēsíkhoros, na transliteração) foi um poeta lírico grego, que viveu aproximadamente entre 632 e 553 a.C. Seu nome verdadeiro era Tísias, mas ficou conhecido como Estesícoro, que significa "dirigente do coro".

Embora Platão o ligue à cidade de Hímera (Sicília), que inclusive teria emitido moedas em sua honra, há dúvidas sobre a terra de origem de Estesícoro. Alguns autores antigos mencionam a cidade de Metauro, e outros citam Locri, ambas no sul da Itália (Magna Grécia).Foi o primeiro grande poeta de uma pólis do Ocidente, tendo sua obra reunida pelos eruditos alexandrinos em 26 livros, dos quais só restaram poucos fragmentos.

Segundo a Suda, ele foi o criador dos corais em que o canto era acompanhado pela Lira. Mas ainda que seja incluído entre os poetas líricos, na escala e no tratamento seus poemas encontram-se mais próximos dos épicos de Homero do que das outras obras líricas. Exemplo disso é o poema "Geryoneis", que narra, detalhadamente, a morte de Gerião às mãos de Hércules.

Se na forma Estesícaro parecia ter nos épicos homéricos um modelo a ser imitado (como o demonstram vários fragmentos de sua produção poética), ele não relutava em contrariar a narrativa do autor da Ilíada sobre a Guerra de Tróia. Em seu poema mais famoso, "Palinódia", insiste que Helena foi para o Egito e somente seu fantasma esteve em Tróia, revitalizando uma antiga lenda bem aceita em vários pontos do mundo helênico
.

"Primavera"

Tempo de primavera:
trissam as andorinhas.
Com langue melodia frígia
convém cantar essas canções
das Graças de formosas tranças:
surgiu a doce primavera.

Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

"Helena"

Muitos marmelos atiraram
ao Príncipe em seu carro,
muitos ramos de mirto
e coroas de rosas,
grinaldas de violetas.

Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

"O Hiperiônide Sol"

O Hiperiônide Sol
desceu o Oceano em sua taça de ouro
para alcançar as negras profundezas
da sagrada noite,
e para ir ter com a mãe,
com a legítima esposa e os caros filhos.
O outro, o filho de Zeus, a pé se dirigiu
para a sombra do bosque de loureiros.

Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

ARTE ANTIGA - II

A arte etrusca

Pouco se sabe da procedência, língua, religião e costumes dos etruscos, apesar de muitos documentos e estudos sobre eles.
Primeiras manifestações culturais: fim do século IX e início do século VIII a.C., englobando planície do pó e costa tirrena até a Campânia. Roma até o século I a.C. : sob influencia direta da cultura etrusca. O povo era hábil, trabalhador, desfrutava das jazidas de metais, da fertilidade do solo, com posição geográfica propícia ao tráfico marítimo, com todos os países mediterrâneos.

Essencialmente urbana, cidades protegidas por fortes muralhas, sociedade fechada, conservadora, profundo sentimento do sagrado, conservando por muito tempo os cultos antigos. Supõe-se que acreditavam numa entidade divina dominante. A força misteriosa (Fortuna) reinava através de práticas de adivinhação. A visão do além era aterrorizante. Por isso toda arte etrusca é destinada à tumba, pois por meio dela, podiam de algum modo, continuar a viver.

Muito influenciada pela cultura figurativa grega; influencia exterior, formalista, pois a arte grega era a expressão da vida e a etrusca, obcecada pela idéia e temor da morte. Uma arte mais supersticiosa que religiosa. A arte etrusca tem um caráter popularesco, nasce da vida cotidiana. É realista, pois mediante a arte, a realidade continua a existir. Por isso a arte etrusca não pode ser considerada clássica, sendo a primeira fonte da corrente “anticlássica”, que se tornará quase uma constante contrária, ao também constante “Idealismo Clássico”.

A arquitetura etrusca

O Templo não tem grande importância na arquitetura etrusca, que os fazia de madeira e de argila, apesar de ser um povo de construtores. Temos apenas dos templos, uma vaga imagem pelo tratado de Vitrúvio e pelas urnas de terracota em forma de templo.

Templo etrusco: colunas maciças, baixas, mais largo que longo, dividido em 2 partes. As colunas toscanas, não tinham caneluras, o capitel formado por um anel comprimido. Muita decoração de terracota, bem colorida, relevos em forma de figuras, protegendo os frontões de madeira. Teto inclinado, ornamentado com modelos simples, depois com grupos de estátuas.
Muros e portas urbanas (Fig.01) – Perugia e de Volterra - princípio do encaixe e da sustentação dos blocos, sistema de cobertura em arco e abóbada considerada o mais notável da arquitetura etrusca, e que se tornará também o tema base da arquitetura romana.

Principais necrópoles: em Orvieto, Tarquinia, Chiusi e Cerveteri. A maioria das tumbas subterrâneas (hipogeus), formato cônico de terra com anel de base de pedra. Existem também tumbas rupestres, em rochas (Sovana). Muitos vãos, teto plano ou inclinado, paredes com figuras pintadas. Quando necessário, utilizavam pilastras, como na tumba dos relevos pintados, (fig.02) com relevos com pinturas de animais, etc.


Arco etrusco, Volterra (a arquivolta foi reconstruída em época romana) - Fig. 01


Tumba dos relevos, câmara funerária decorada com terracota e estuques - Sécilo IV -III a.C. -Necrópole da Banditaccia, Cerveteri - Fig. 02

11 de jan. de 2009

MIGRARE


www.joaquim.fot.br/galerias/pass/pages/passMenu.htm

sou ave de migração
dentre tantas
ao redor do planeta

por que
me fiz assim?
fome
de calor e de vida
ando em busca
da luz do sol

andorinha do mar
deixo o circulo ártico
à procura
da Antártica branca
e sempre a encontro

beija flor
do pescoço vermelho
ando em busca de flores
que me alimentem

deixo a América fria
miro ao longe
o dourado Yucatan
e sempre chego
guia-me o vento
a luz do dia, estrelas

norteiam-me
verdes paisagens
e magnéticos campos
invisíveis
em pleno alto mar
me oriento

porque? me perguntam
migrare, respondo
não possuo raiz
hormônios me regem
os mesmos
que fazem cantar os machos
e desovar as fêmeas

como? não me perguntem
também não sei
só sei que parto em busca
do longínquo destino
e jamais me perco

volto sempre à origem
no espaço infinito
me direciono
sei o caminho de ida
e o caminho de volta

a precisão de meus vôos
ainda, um imenso mistério

“Hoje como no passado, na primavera e no outono, desde tempos imemoriais, os homens levantam os olhos, atônitos, quando nuvens de aves migratórias escurecem os céus. Fazem isto naturalmente, como sempre o fizeram. Para saber até onde chegam estas aves, nessas jornadas misteriosas, o homem tem utilizado de todos os meios, binóculos, telescópios, radar e outros dispositivos de detecção, que permite hoje a moderna tecnologia. Mas o mistério permanece.
“Importante é saber que as pesquisas dos últimos anos proporcionaram conhecimentos sobre as migrações, sua dinâmica populacional e, sobretudo, sobre a sobrevivência de muitas espécies, motivando assim, melhores leis para protegê-las.”


Fonte: www.tutomania.com/

8 de jan. de 2009

PETRA

Pedra
Sou pedra
Ainda que bruta
Pedra
Se lapidada
Pedra
Imenso bloco
Pedra
Angular
Pedra
Rolada
Pedra
Lascada
Pedra
Pulverizada

Nada
Poeira cósmica
Suspensa no infinito
Ainda assim
Em mim
A essência
Da pedra

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7 de jan. de 2009

ARTE E POESIA ANTIGAS - I

Itália antiga: não possuía unidade étnica nem cultural, era uma mistura de vários povos, com diversos costumes, tradições, línguas, origens.
Ao norte do Rio Pó: Bárbaros, gauleses e germanos
Ao sul: era um pedaço da Grécia
A única cultura do povo de origem, era a etrusca, nas regiões centrais.
Até mesmo a cultura romana, que dominaria toda península, teve suas raízes na grega, que combinada com a tradição etrusca, é renovada, tendo inclusive influencias bárbaras.

A Magna Grécia

Grande Período Clássico: apenas no sul da Itália e na Sicília.
Antigas Cidades das regiões calabresas e sículas, sofrem colonização grega e a arte que ali aflora é grega. Quase não existe influencia do gosto local, ou dos seus cultos e rituais, na cultura da Magna Grécia.

Alguns aspectos distintos: irregularidade nas repetições das proporções originais e mistura de motivos, também pelo fato dos arquitetos e escultores gregos que ali trabalhavam vinham de regiões diversas.

Também havia uma certa exuberância nos aspectos decorativos, quase sempre de terracota colorida; uma certa suavidade na arquitetura e escultura devido ao uso de um calcário tenro, poroso, dourado, como vemos no Trono Ludovisi (fig.01) e no Perseu cortando a cabeça da Medusa (fig. 02).

Trono Ludovisi, arte jônica da Magna Grécia c. 460 a. C. mármore, Museo Nacionale Romano di Palazzo Altemps, Roma

Perseu cortando a cabeça da Medusa, métopa do templo C, em Selinunte, c 550 - 540 a. C., calcário, Museo Archeológico Nazionale, Palermo

Íbico de Régio (em grego, Ἴβυκος - Íbykos, na transliteração) foi um poeta lírico coral grego, nascido na primeira metade do século VI a.C. Inicialmente compôs poemas de temática mitológica, mas é mais conhecido pelos de tema levemente eróticos. De sua obra, temos apenas alguns fragmentos.
Segundo a lenda, foi morto por assaltantes perto da cidade de Corinto, mas umas garças, tendo visto o crime, vingaram-no matando seus assassinos a bicadas.

Íbico - Fr.6D

Eros, de novo, sob pálpebras sombrias,
Lança-me olhares molhados
De manhas mil,
E me enreda nas malhas cerradas
Da deusa da beleza.
À sua aproximação,
Tremo
Como um cavalo atrelado,
Antes pronto a vencer,
Agora hesitante
Ante carros mais rápidos.

Tradução: Décio Pignatari

Íbico - Fr.22b Page

Quando a gloriosa, insone madrugada desperta os rouxinóis...

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira

Íbico - Fr.6d

Alçam-se os marmeleiros na primavera,
E os romanzeiros na vazão dos rios,
Onde o jardim das virgens sensualizam rosas.
Dulçura exorbita em gomos, sob os pâmpanos.
Contudo, a mim, jamais o amor me adoça ou passa.
Tortura-me deus Eros, como o Bóreas trácio,
Quando seus trovões da Cípria assopra
Roucos, indefensáveis, tenebrosos,
E sob as pálpebras de névoa,
Eros, por cima, cálido me espia,
Para lançar-me aos laços de Afrodite,
Aos mansos passos de Eros estremeço
Qual cavalo velho, fatigado das vitórias,
E que em carro alucinado, contrafeito,
Lança em últimas contendas a carcaça.

Tradução: Antonio Medina Rodrigues

OUTRO AZUL


Deborah Cavenaugh

Estou em pleno mar
Menos avanço
Quanto mais remo

Em águas incertas
Já não luto
Ondas me levam

Navegar importa
Chegar
Já não importa

Sobre minha cabeça
Num outro azul
Estrelas cintilam

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5 de jan. de 2009

In_certo Céu

sem asas
sem cantos
silencioso
vermelho
como uma pipa
a flutuar no céu
das incertezas
o amor

o vento favorável
faz voar no azul
dos amores etéreos
o vento forte
contrário e imprevisto
das tempestades
sempre chega

rompe-se a linha
o amor se perde

então
não era amor
posto que o amor
nunca se perde
mesmo sem linha
voa e retorna
faz chorar solidão

não retornou...

o que não era amor desfez-se
assim nas águas
de anunciados temporais
águas vermelhas correm
no rio dos nossos olhos
tingidos do papel
que se desfaz

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3 de jan. de 2009

METAMÓRPHOSIS



Do néctar das flores
De todas as cores
Mais
Digestivas enzimas
Saliva
De um inseto
Pequeno
E traiçoeiro
Se faz
O mel

Cuspe
Em estado
Líquido
Viscoso açucarado

Dourada Delicia
Doçura
Boca
Mel

x

Das folhas verdes
De amoreiras tantas
Mais
Filamentos contínuos
Proteicos
De lagartas
Ninfas que um dia
Mariposas serão
Se faz
A seda

Glândulas que expelem
Líquidos e gomas
Tecidos casulos
Único fio

Brilho Leveza
Toque
Pele
Seda

x

Nós
Libélulas aquáticas
À espera
Do primeiro vôo.

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1 de jan. de 2009

PRECIOSA PEDRA

Cavo fundo no peito
Tento encontrar
A palavra escondida
É preciso ir além
Da epiderme
Dilacerar a carne
Romper nervos e veias
Ver transpassado
O bruto
Coração

Então
Finalmente
Quando ele dói
E sangra
É dado o sinal
Que faz soar
O antigo código:
Foi encontrada a mina
Onde habita a palavra
Bruta

À força
É preciso arrancá-la
Ela teima em ficar
Veios profundos, nichos
Não quer brilhar
É feito diamante
É dura e corta
Ainda que lapidada
Bruta
Jóia rara. Lâmina.

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30 de dez. de 2008

CONSTRUTIVISMO III - Disseminação de idéias

Início do Dadaísmo - Influências

•O construtivismo é condenado na Rússia e Naum e Antoine deixam o país.
•O exílio facilita a disseminação de suas idéias pela Europa, exercendo bastante influência sobre artistas e movimentos importantes do período, como o Bauhaus e o grupo Stijl.


•"O Dadá ", primeira expressão verbal de uma criança, deve expressar um novo começo, representar a simplicidade e o princípio que toda a arte simboliza.
•Em fevereiro de 1916 o poeta e filósofo Hugo Ball (1886-1974) estabelecia as bases do movimento, em uma bar " Cabaret Voltaire ", mistura de boate e galeria de arte, para o qual foram convidados artistas e poetas jovens para recitar seus trabalhos mostrar seus quadros
ou fazer música.


• Herdeiros de uma das mais ricas tradições poéticas, após a revolução que sacudiu toda a sociedade russa, os poetas impulsionaram sua própria revolução, e através de seus radicais experimentalismos com a linguagem, tornaram-se expressão do que existia de mais inovador em termos de poesia no cenário artístico da época.

Pôsteres - Vladimir Maiakovski

Maiakovski - O Poeta da Revolução

•Em sua poesia, Maiakovski raramente recorre à métrica tradicional. Criou seu próprio ritmo, quase sempre áspero e selvagem, que leva a uma grande expressividade a poesia moderna de versos livres. Usa uma técnica de rimar palavras inteiras. A disposição funcional dos poemas no papel em formato de escada, indicam o ritmo e as pausas do texto, mas também formam um padrão estético no papel, outra inovação futurista. No poeta, há traços de gênio, mas sua técnica não era disciplinada, sem muita harmonia. Esse desequilíbrio era uma característica da época e dos conflitos internos refletidos nele e não uma incapacidade pessoal. Havia nele uma vontade sincera de acompanhar a revolução, mas não conseguiu romper completamente com o passado e essa crise se esconde por trás dos gritos imensos, que podemos perceber claramente em cada um de seus versos.

De "V Internacional"

Eu
à poesia
só permito uma forma:concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo"A"
este "a"
é uma trombeta-alarme para a Humanidade.
Se eu falo"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.

tradução: Augusto de Campos

CONSTRUTIVISMO II - Espaço e Tempo

A utilidade social da arte

• O movimento foi fundado por Vladimir Tatlin que junto a Alexander Rodchenko, aplicou os princípios construtivistas à arquitetura.
• Relacionava a arte à sua utilidade social. "Monumento para a Terceira Internacional" é uma de suas obras mais conhecidas.
• Os irmãos Antoine Pevsner e Naum Gabo que publicaram o manifesto citado, divergiam do grupo de Tatlin, e formavam outro importante foco do movimento. Eles acreditavam na arte como um valor absoluto e independente.
• Espaço e tempo deveriam ser as base das artes construtivas.

Inspiração Cubista

• Inspirado no cubismo e na pintura de Kandisky (principalmente através dos irmãos Naum e Antoine), o construtivismo fundia percepção artística a conhecimentos científicos, como potencialidade dos materiais e possibilidades formais.
•Intimamente ligado a outro movimento artístico, o suprematismo, fundado pelo pintor Kasimir Malevich (1878 - 1935).
•Enfatizava a cor como instrumento de criação de realidade na arte. Dá um extremo valor à emoção, desprezando as idéias da "mente consciente".



Sei o pulso das palavras, a sirene das palavras . Não as que se aplaudem do alto dos teatros, mas as que arrancam caixões da treva e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro. (Maiakovski)

28 de dez. de 2008

CONSTRUTIVISMO I - O Manifesto Realista

Por que somos seres em construção.

  • O construtivismo foi um movimento artístico que nasceu na Rússia em 1913.
  • De um movimento inicialmente ligado à escultura e à colagem, passou a envolver outras manifestações artísticas e literárias, inclusive a poesia.
  • Seu nome vem do "Manifesto Realista", publicação de 1920 que prega o ideal de se "construir " a arte. A arte deveria refletir o mundo moderno e sua tecnologia, utilizando-se para isso de materiais da indústria como o plástico.

Aleksandr Rodtschenko: Raumkonstruktion Nr. 12, 1920/21

Aleksandr Rodtschenko: Hängende Raumkonstruktion, 1920/21


Aleksandr Rodtschenko: Feuerleiter am Haus an der Mjasnitzkaja, 1925.

Aleksandr Rodtschenko: Frau mit einer ‹Leica›, Autoretrato da Fotógrafa E. Lemberg, 1934.

Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas. (Maiakovski)

17 de dez. de 2008

A NOITE


William-Adolphe_Bouguereau_La_Nuit

Autor: Sylvio de Almeida - nascido em Minas Gerais em 1863. Bacharel em direito pela Universidade de São Paulo. Como poeta publicou: Efêmeras.

Nos primórdios dos mitos helênicos, era Nyx a venerável deusa da obscuridade. Pintaram-na belamente os artistas: de fronte azul com guirlanda de estrelas, mas não raro velada de sombrias nuvens, e o corpo envolto em majestoso peplo das rainhas do Olimpo. Através do espaço mudo, ia seu carro silencioso, puxado por corcéis de azeviche, no caminho de ouro das constelações. Assim nos evoca Leconte de Lisle, a essa mãe de Hypnos, que nos refrigera com o abano de suas asas, semelhante ao lânguido bafejo de um leque. Fonte de repouso ou de volúpia, ela foi sempre para todos “o esquecimento dos longos dias ansiosos”.

Nyx abre aos homens o carinho material de seus braços, atenua-lhes para os olhos cansados a claridade dos ares, e acalenta-os num burburinho de rede de mansas vozes. Recostados em seu piedoso seio, ouvindo a música de suas árias longínquas, nem sentimos a chegada do sono, que com um dedo intimativo aos lábios, e cingido de papoulas, nos fecha devagarinho a luminosa flor das pálpebras. É então que cada um de nós, na feliz expressão de Boileau:
« Soupire, étendre lês brás, ferme l’oeil et s’endort. »
« Suspira, estende os braços, feche os olhos e adormece »
A delícia deste quase aniquilamento sugeriu aos filósofos da Índia, a beatitude do Nirvana, após a febre ativa da vida que nos devora. Quando o nosso corpo vai despedaçar-se qual um vaso de barro, é a inda a mesma divindade que, como diz um hino védico, nos depõe nos olhos um longo beijo de treva.
Se, para a poesia, a aurora foi sempre a imagem da noiva, que se levanta de um leito de rosas, lembra-nos a noite uma viúva: – a escuridão é o crepe, o orvalho – lágrimas, e o luar – saudade...

Não sei, porém, qual mais belo seja: – um céu de lua solitária, ou apenas com recamos de estrelas. Estas refulgem como adereços em veludo negro, ou polvilhamento de ouro, formando as reticências do eterno mistério. No outro caso, parece que a natureza toda se extasia e as árvores banham as copas numa suave luz opalina, atirando aos pés, como uma veste desprezada, a renda fantástica de suas sombras regulares... A terra cai num enlevo, os corpos se envolvem em uma benta unção prateada, e as águas emaranham os fios brancos de um impalpável novelo de luz, jaspeadas escamas a tremeluzir com as ondas.

– Ave, pois, ó deusa que Hellas adorou na infância! Ó céu noturno, da palidez e meiguice de Abel, e da fecundidade de Abrão, cuja descendência igualou as estrelas! Como Isac desabrochou daquele tronco seco também de ti desabrocha o dia sorridente!
Esquece, pura Nyx, as nefandas ações que se praticaram sob as dobras do teu manto... Infiltra em nossa alma, ó maviosa confidente, a nostalgia do ignoto e o sossego dos afetos!
De tua taça de ébano cravejada de brilhantes, verte sobre nós, ó Noite, o silencio e a doce resignação do aniquilamento...

12 de nov. de 2008

SER PASSARINHO



passarinho pousou na janela
comeu migalhas
colheu gravetos
bebeu água da chuva

passarinho
não tem onde morar
mora no ninho
feito em qualquer lugar

o passarinho
vive ao relento
o passarinho é cinzento.
o passarinho
nem sabe cantar

ah... como eu queria ser
como esse passarinho
só pra poder voar.

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16 de out. de 2008

DOCE DE GENTE


Delicadez_José Royo

A filha que não tive,
se chamaria
Maria.

Ela teria a pele branca
feito a lua,
e os cabelos
cor de terra,
feito os meus.

Seus olhos me olhariam
docemente.
Maria, seria um doce de gente.

Mas Maria não se fez.

Melhor. Assim a imagino sempre.
Sempre,
e outra e outra vez.

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MIMOS


Mimos são belos,
todos.
Vermelhos brancos,
amarelos tantos.

Belos, porque singelos.

Carinho nos olhos,
afagos na alma,
ternura pura,
delicadezas.

Mimos vão além do amar.

Mais do que flores
são doçuras.
Mel derramado
de coração a coração.

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CHORO PITANGAS

preciso rir
chuvas e sóis
preciso rir
primaveras
preciso rir
flores se abrindo
perfume beija-flor

porque ainda
é inverno
não posso

me calo em frio
galho seco noite
choro pitangas
lágrima ácida dor
porém brilhante
vermelha doce
lágrima de esperar

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